Dentro do quadro azul
[10-09-2010] |
O soldado mantém-se quieto, calado. Consegue cheirar o seu suor, o seu sexo, a sua boca seca, o azedo do medo. Tem 19 anos. Apenas 19 anos. O carro andou aos solavancos e o homem ao volante, gritou qualquer coisa em árabe. Havia um padrão preto e branco de um kaffiyeh. Lembrou-se das imagens de Yasser Arafat, cartazes que viu em criança, com a legenda “sempre contigo”, há muito tempo, antes de Ramallah, da velhice, da doença, do hospital em Paris, da morte. Nessa altura ele, o soldado de 19 anos no carro a fugir à vida, tinha beijado e penetrado a sua primeira mulher. Tinha sido num fim de tarde, em casa dos pais dela, no centro de Telavive, um bairro de gente com dinheiro. Ele dissera: Não sabia que a tua família tinha dinheiro. Dizes bem, a minha família. Eles e eu: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Tinha sido um momento erótico, ela a roçar-se nele com os jeans apertados, o soutien preto a despontar da camisa. A erecção doía-lhe. Doía-lhe tanto. Ela disse que não er...
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Às vezes um cheiro
[27-08-2010] |
Para J.M.Mendes Eu até podia ter seguido sem ver, ter ido por outro lado, o corpo a desviar-se, os olhos no chão, o lambril do passeio e o alcatrão incerto da estrada, o ruído dos automóveis a fugir e eu, cuidadoso, a atravessar a rua, a perder a oportunidade. Seguiria sem novidades, uma repetição de gestos que garantiriam o exercício de uma pretensa vida. Calcorrear a rua até ao número 87, subir ao terceiro andar, ocupar a minha secretária, abrir o computador, atender o telefone, tomar nota, registar o correio, responder e anuir. Sobretudo, anuir. Regressaria depois à rua para o almoço, um croquete de berbigão, um brigadeiro pecaminoso coberto de pepitas delicadas de chocolate, trincas pequenas para fazer durar. Por capricho. A voz do médico a dizer Tem de controlar o colesterol. Evite os fritos. O sem abrigo não me olhou, não parou, não falou se...
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A bicicleta
[23-07-2010] |
Estás a ver aquela bicicleta à chuva? É o que me resta de ti. Andas nela de manhã antes do almoço e depois à tardinha quando o sol começa a pregar partidas e a luz parece rarefeita, um acaso de cores. Dizes que vais ver o que se passa no mundo. E o mundo tem três quarteirões, uma praça, um coreto com ferrugem mas ainda assim a dar graça às casas que o espreitam e ouvem a banda no dia da vila. As festas, em Setembro, são dias felizes, cheios de pequenas azáfamas que nos dão sentido e tu sais a correr e voltas com os sacos de pão, legumes e frutas. Fazes compotas e camas. As visitas espalham-se pela casa e tu, devagarinho, como uma gata carente ronronas Não faz mal, pois não? Não te importas, pois não? E eu, nada. Aqui quieto fico a ver a dança das visitas, as gargalhadas, as caixas com bolinhos que são como uma despedida...
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Amo-te Andreia
[13-07-2010] |
Quando estiveres a caminho de casa, quando saíres da boca do metro, apressada e talvez com um saco a tiracolo, uma revista na mão, um cachecol a desfazer-se no pescoço, vais olhar para aqui e ver-me. Não serei eu, claro, será apenas um bocado de mim. Já não te sigo pelas ruas, pelos teus dias; não te mando mensagens, não te telefono. Não sabes nada de mim, da matemática aplicada da minha dor. Tu e eu mais uma conjunto de variáveis sem sentido, igual a uma equação de resultado infinito. Aqui de cima, agora mesmo, vejo as cabeças que passam: pessoas que não conheço, com quem nunca falarei, crianças a saltitar, velhos a mancar, o género humano no seu esplendor de banalidade, apressados para casa, a correr para o emprego, ao telefone, de olhos no chão, a ouvir música, perdidos em pensamentos, futuros rapers, engenheiros, donas de casa, estudantes sem alma. A cidade toda passa aqui por baixo e é aqui que me imortalizarei em palavras que saberás tuas, assim que saíres da boca do metro.Compre...
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A vocação para a felicidade
[10-06-2010] |
Tudo começou com essa ideia de que estava deprimida. E deprimida era estar horas em frente à televisão com um pacote de gelado de formato familiar. A única coisa familiar na sua vida? O pacote de gelado. Triste, mas verdadeiro. Quase de uma banalidade aflitiva, ela que não apreciava clichés. O gato escapou-se pela janela e dizem que o viram no passeio, estatelado, ainda a arfar. A porteira explicou tudo em detalhe e aplicando diminutivos irritantes. Era o meio da tarde; o senhor Jorge, do quiosque da rua de cima, fora beber um café e a porteira até tinha perguntado quem é que ficava a tomar conta do lugarejo. O senhor Jorge, com os dentes a desfazer-se na boca enorme, respondera Deus, Dona Arminda, Deus olha por mim e pelo meu quiosque. Ela, Dona Arminda, a porteira, achou uma ousadia este abandono dos jornais e das revistas, especialmente por causa das ofertas, malas e pulseiras, cd e cofrets de maquilhagem, relógios e meias de rede. E estava nesta interrogação quando o gato apareceu ...
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A vocação para a felicidade
[20-05-2010] |
Tudo começou com essa ideia de que estava deprimida. E deprimida era estar horas em frente à televisão com um pacote de gelado de formato familiar. A única coisa familiar na sua vida? O pacote de gelado. Triste, mas verdadeiro. Quase de uma banalidade aflitiva, ela que não apreciava clichés. O gato escapou-se pela janela e dizem que o viram no passeio, estatelado, ainda a arfar. A porteira explicou tudo em detalhe e aplicando diminutivos irritantes. Era o meio da tarde; o senhor Jorge, do quiosque da rua de cima, fora beber um café e a porteira até tinha perguntado quem é que ficava a tomar conta do lugarejo. O senhor Jorge, com os dentes a desfazer-se na boca enorme, respondera Deus, Dona Arminda, Deus olha por mim e pelo meu quiosque. Ela, Dona Arminda, a porteira, achou uma ousadia este abandono dos jornais e das revistas, especialmente por causa das ofertas, malas e pulseiras, cd e cofrets de maquilhagem, relógios e meias de rede. E estava nesta interrogação quando o gato apareceu ...
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DEUS NA BRASILEIRA
[06-05-2010] |
Deus combinou encontrar-se comigo às três da tarde na Brasileira, junto à estátua do Senhor Pessoa, esse que o Governo não pretende engrandecer com potencialidades nacionais. Quando cheguei já tinha um croissant com doce de ovo pela metade e uma meia de leite salpicada de migalhas. Não soube dizer se estava bem ou mal disposto. Cumprimentou-me com um aceno de cabeça e percebi que deveria sentar-me. Ficámos em silêncio por instantes até que encolheu os ombros a incentivar-me. Deus tinha aberto o expediente para me ouvir, não me fiz por isso rogado e, sem culpa ou pudor, desfiei o rosário das minhas misérias. Apresentei-lhe os factos: o funcionamento do banco, os favores que prestou e a quem ao longo dos anos, os investimentos e a fraca perspectiva de sobrevivência face ao panorama actual, os clientes a retirar contas, outros a telefonar com insistências e perguntas impossíveis de responder. Deus foi comendo e abanando a cabeça em gestos divinos, decerto, mas que não almejei decifrar. Be...
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Um bom ano para casar
[25-04-2010] |
Podes pensar que sou apenas a rapariga esquisita que precisa de te ouvir, talvez tenhas um pouco de razão, mas não sou só isso. Tínhamos combinado que casaríamos com o novo milénio. Não te confessei, claro, a minha busca incansável por pormenores que farão da nossa boda algo de tão memorável que, no futuro, sempre que falarmos dela, as nossas mãos se procurarão e ficarão ali à vista do mundo, para que todos saibam que o nosso amor é uma amarra forte. É a ideia que tenho do amor, que queres? Podia ser mais bonita. Amarra não é uma palavra bonita. Adiante. Não insisti contigo. Quando começou o novo século, no primeiro de Janeiro, fomos passear à praia e deitei flores brancas ao mar como faço sempre. Não que eu acredite que uma senhora de branco irá recolher as minhas ofertas, nada de tão poético...
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