O INVENTOR DA PEDRA
[10-09-2010] |
Caro poeta Drummond: como é sabido, você deu à humanidade essa contribuição, esse favor: nos fez notar que ela estava ali, na vida de cada um de nós. Que a devíamos ver, aceitar, a pedra – que pensávamos, antes, como coisa a ser ignorada por vergonhosa no heroísmo solitário, inglório, de ter de lutar com ela, chutá-la despedaçando o dedão, diariamente. Inutilmente. O poeta só não disse como, exatamente, ela era, essa pedra.Como ele a via, a sua pedra pelo menos. Para nos dar mais conforto. Não – que comodismo, hein? Apenas nos disse: bem, ela está aí, a pedra, não há como negar, a pedra no caminho é parte integrante da condição humana. É a própria condição, da humanidade. Disse, repetiu, “no meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho”, como se fosse apenas pedra à toa, arenosa esfarelenta, areia na ampulheta (do Tempo?) vira prá cá vira pra lá tanto dá tanto faz. E se foi, acender seu cachimbo e ficar lá sentado – empedrado – no banco da orla, de costas para ...
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TARDE EM UM CONDOMÍNIO
[03-09-2010] |
Pois agora se foram todos com seus barulhos de cacatuas ao anoitecer, para a praia. Me deixaram enfim com os meus começos - que brotam de mim calcinados - ao sabor das praias da vida, tábuas ensaboadas onde desliza minha literatura vária - que não passou do desejo. Mas que se abriria em rosa e despertares, em marés tragadas nas manhãs de outrora em que boiam pedaços de anáguas de tias solteironas enfiadas às pressas, retalhos do Tempo, fantasias desconsoladas. No devagar na continuidade (minha duração é precária) desatolo-me e vou bordejando fímbrias do nada - para dele retirar cobertores do sótão, fivelas das gavetas descompassadas, canetas-tinteiro a que faltam partes mas que se conservaram em latas de biscoitos enferrujadas para alguma precisão, com rolos de barbante e peda&cce...
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SANTA CECÍLIA DOS MEUS HORRORES
[27-08-2010] |
Entrei em casa abafada pelo calor que me escorria, em sangue suor e lágrimas, pelo rosto. E os olhos poluídos, ardendo. Joguei longe o sapato, me estendi no sofá. E a desolação veio vindo numa onda, a amargura, o abandono, o voltar a face para a parede, e meu corpo se entortando, a torção para a direita, enquanto os pés se mantinham retos, a lenta torção o lento roer da existência, este suplício de São Paulo 38º, retorcidos meus braços , o direito caindo, abandonado, e então a cabeça, o rosto torcido, virado para baixo – corpo sem rosto, o pavor, eu via a imagem daquela Santa que me haviam dado por modelo e padroeira, martirizada, Santa Cecília, a cabeça virada para baixo, envolta em um véu, sem rosto e pavorosa e o pescoço cortado, o talho aparecendo, o talho que não conseguira separar a cabeça (me contavam) e ela tinha levado três dias para morrer, três dias ali, o corpo jovem amortalhado o supremo desgosto daquele rosto torcido – voltado para a parede.... e assim, se disse a meninin...
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AS PALAVRAS DAS PALAVRAS
[20-08-2010] |
TALVEZ – ela se disse, de repente maravilhada com sua descoberta.A única palavra possível e necessária: TALVEZ. Possível até mesmo antes do café da manhã. Palavra-tudo: armário, cabide, travessão e travessia. Palavra guarda-chuva. Palavra evocativa, mediúnica, trazendo todas as possibilidades, se balançando pra lá e pra cá, bonachona, permissiva - uma palavra que ia buscar os fios perdidos de suas histórias. Minha avó que se balançava na mangueira quando lhe gritaram: “Nhãna, desce já daí que tá na hora do casamento!” TALVEZ- seus grandes braços. Também palavra-árvore, gênese, cheia de portas e janelas e sinos bimbalhando. A única palavra necessária e possível, por onde, talvez, poderia repescar seus medos e hesitações e ir buscar tudo, sua infância, sua vida, seus marcos – enfim. Trazer seus cacarecos de infância, - pedindo desculpas por estar tudo em cacos, seus “fragmentos”, suas “descontinuidades”, diria, se seu nome fosse Walter Benjamin. *TALVEZ—colocando-a, b...
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PROCISSÃO
[13-08-2010] |
O mundo, daquela vez, era lindo – o encantado mundo da infância. Os anjos dourados iam e vinham, principalmente na estação dos anjos: o Natal. Na procissão, vestida de cetim branco, a menina de cabelos lisos e franjinha na testa sentia a lata da coroa encimada por uma estrela ir aos poucos apertando a cabeça numa dor intolerável, latejante, naquele calor de fim de ano. O sapato também, fechado, de pelica branca, novo, ia escamando lento e constante o seu calcanhar esquerdo. Ela levava um buquê de copos de leite colhidos no quintal da tia, devia manter para cima as flores de cabo comprido. Mas as flores, pesadas, desobedeciam às suas mãos – tanta era a dor de cabeça, o lento apertar da coroa de latão, o calcanhar esfolado. Faltava muito para chegar na igreja? Bendito louvado seja O Santíssi-i-mo Sacramento... A procissão de bairro tinha fotógrafos, até mesmo um rapaz que ia filmando. Quando ela olhou para o homem que lhe assentava a objetiva na cara,...
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POESIA, digamos: verso e reverso
[06-08-2010] |
Quanto a mim, sou escriba, apenas.Vou mastigando, nesta idade, memórias de sombras várias- umas, nítidas, imponentes, outras vagas, entrevistas no espelho de um Tempo que, sem ter sido meu, em mim (ossos-cartilagens-anseios e suspiros) - persiste. O Tempo não tem só ossos - tem cartilagens (doridas) também. Poeta é o que extrai o suco: da palavra, das coisas, da vida. E o bom prosador, o ficcionista, também. É preciso escoimar (palavras, coisas, personagens, vida) do seu bagaço, para se poder escrever bem. Não se misturar ao texto. Mas que nos seja permitido preservar rascunhos – prova de nossa imperfeição. Guardá-los como frutas cristalizadas que daremos aos netos bisnetos sobrinhos-tortos que porventura queiram continuar um dia a tradição literária. Para que os desembrulhem encantados em dia de Páscoa, na véspera do Natal, no primeiro ano da faculdade – ou simplesmente em algum domingo de chuva. E se consolem, ou mesmo se delici...
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O PAÍS DOS HOMENS DE GELO
[30-07-2010] |
A idéia de que ele existia, esse país, e que não era longe daqui, já é antiga. Mas a gente sempre o quer remoto, por lonjuras de neve e gelo – não entre nós. Mas esta noite eu estive entre eles, esses homens. Vi os limites do seu país – logo ali, atrás da Rua Joaquim Eugênio de Lima, uma pessoa me mostrava, ali, veja, uma extensão de terra, ribanceira de rio, matogrosso, paraná? ali estavam, as casas, aquilo tão escondido que nunca se soube como as estranhas coisas aconteciam, essas pessoas todas que desaparecem, as famílias chegam a por o retrato no jornal, coisas de gente indo à padaria do bairro, ali, no virar da esquina, e nunca mais aparecendo...– As crianças? As crianças desaparecidas? Não, não sei, talvez não. Em todo caso não posso afirmar, o que vi eram homens feitos, muito altos, absolutamente iguais – só homens, sim – de pele branca como neve, pele de gelo de quem nunca tomou um raio de sol, o cabelo cortado rente feito recruta americano, as frontes estreitas, a testa alta, ...
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FIOS EMARANHADOS
[23-07-2010] |
Hoje quero escrever – sendo sábado, dia de divagações e permissividades - uma coisa assim, de fios . Dos fios detectados, dos que nos sustentam. Fantoches somos na mão invisível de alguém que nos manipula? Ou, simplesmente, falar dos múltiplos fios em que estamos todos enrolados, na imensa rede que não foi inventada pela indústria da comunicação virtual, como se poderia pensar numa simplificação – mas na enorme rede da vida. Pior: do cosmo. E que nós, pobres fiozinhos atormentados e complicados no nosso emaranhamento, temos a pretensão de querer entender, desenrolar. Enfim – ridículas formiguinhas. Anos atrás inventei a pretensão de contar minha vida, para entendê-la um pouco. Se fracassei quanto ao livro pronto, amontoei quilômetros de entulho literário feito de coisas e loisas, e amores e desamores, e desesperos e retemperos, material que está todo por aí, pelas gavetas dos móveis, do micro, do Ser – um dia será amarrado em pacote, espero, e definitivamente selado e ent...
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Confronto: Olho e Serpente (III)
[16-07-2010] |
A RUA – é o lugar-comum , geográfico e literário, da condição humana – a síntese melhor do que é esta Cidade – a megalópole dita desumana. Ou não: é esta absoluta condensação de humanidade, de vida, fluindo incontrolada dentro de uma artéria , com carga explosiva contínua, ferida enorme aberta , rua que ficou louca, tomou o freio nos dentes , rua que nos olha, de baixo para cima, covarde e nua, rua que olha para este ponto que sou, o observador do sétimo andar, e cospe sua repelência em mim.(E no entanto, verifico num espanto – eu a amo).Eu estou aqui, atenta , interessada, e exausta. É o absoluto silêncio estabelecido – são 5 horas da manhã – que me faz estranhar. Vou até a janela, verifico que as duas boates aí em frente foram fechadas, o luminoso apagado – só a perua do cachorro-quente persiste, foco amortecido de luz, sob a barraca vermelha. De olho espichado, alerta, vertical na calçada o homem pontua a madrugada. Ele lá embaixo , eu aqui. Ele prestes a encerrar seu trabal...
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Confronto: Olho e Serpente (II)
[02-07-2010] |
Rua Augusta às várias horas do dia – como os quadros dos impressionistas.Na manhã de inverno enevoada as pessoas que emergem dos prédios, pessoas que vivem sozinhas, de meia-idade, velhos, parecem pacotes de roupas, autômatos deslizando sem ruído nem existência - fantasmas do medo, senhoras com seus casacões antiquados, senhores de boné buscando a padaria ou passeando um amarelecido poodle branco de pelo velhacamente tosado em casa. Tudo tem um ar tão pobre, tão gasto, como se estas sombras de olhar parco e assustado tivessem passado além de toda a imensa, a contínua, a trituradora violência desta rua - passeio de ratos humanos, escasso, tímido, arrastado, fantasmas saídos dos escombros que restaram nesta rua de longes grandezas. Agora de manhã ainda escura, manhã de inverno - um breve intervalo de silêncio, os inferninhos fechados, o neon apagado. Chego à janela, entreabro a persiana. É o momento em que vejo pelas esquinas uma outra cidade me espiando, a dos defuntos sobrados, dos p...
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Confronto: Ôlho e Serpente (I)
[25-06-2010] |
“A cidade é redundante: repete-se para fixar alguma coisa na mente. A memória é redundante : repete os símbolos para que a cidade comece a existir.” - Ítalo Calvino Porque hoje é sábado. É noite de sábado - e meu tempo, outro. A idéia de que somos dois elementos, mais nada. Estamos reduzidos a isto - ela, eu. Uma rua e uma pessoa. Fluência, ela lá embaixo, barulhenta e destruidora. E eu, ponto convergente, um olho, neste vão de janela. Neste momento final - terei o quê? Minutos, horas, alguns anos? É tudo fim - só me resta descobrir o desenho. Se houve algum. A rua insana que corre lá embaixo, estertorante - enorme serpente, vermelha, vermelho rio de lava acesa que escorre dos carros em fila lenta e buzinas escancaradas aos uivos na madrugada impune desta rua do prazer /rua da morte que gargalha todo o seu urbano horror na madrugada. Eu sou um ôlho. Eis o que sou, me digo. Não ...
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VIAGEM AO FIM DO ESQUECIMENTO
[18-06-2010] |
É caminhar decidida em direção ao tempo passado, olhando os despojos, os rostos ansiosos dos personagens que ficaram sentados com cara de pateta me olhando, esperando que eu me decidisse a retirá-los dos sonhos, dar-lhes consistência e abrigo, nome, circunstâncias - eu que os vi. Eles só vivem em mim. Eu sou o seu escoadouro, o seu “cavalo” espiritual, eu sou o meu próprio “cavalo” - pois ir em direção ao passado é ter a coragem de encontrar todas as cecilias que eu fui. E as que eu poderia ter sido. E não fui - por indecisão, por falta de uma vontade imperiosa, por excesso de sonho, por medo, angústia, tensões, indefinição.Estertorosas vozes do passado - o que me diziam? O quê, teimavam em destruir, dentro de mim?Escrever - é só um resgate de vozes. Escrever sobre a infância - é correr de pés descalços e olhar ansiosa atrás das sombras daquelas manhãs paulistanas de meio século atrás. Mergulhar nelas, seu sabor, seu cheiro de árvores podadas, os galhos jogados nas calçadas, o céu azul...
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NUIT D´AMOUR
[11-06-2010] |
Às 16 horas e 42 minutos resolveu que naquela noite sairia com um homem. As possibilidades eram duas: João ou Nelson. João, o da voz quente e arredondada, mais difícil, casadíssimo. Ela dependia de um telefonema seu. Nelson, o da barba alourada tirando a branco, divorciado e sozinho, mais fácil. Ainda dava tempo de alcançá-lo no escritório. Ligou. Ele respondeu. Alô. Alô. Como vai. Como vai. Tudo bem? Tudo bem. Sim, é claro. Ah, não, tinha que ser naquela noite? Ele tinha um compromisso. Para amanhã, então. Tudo bem? Tudo bem. Não, não fazia diferença. Dez minutos mais tarde o telefone tocou. Tinha se enganado. Que dia era, quarta-feira? O seu compromisso era para a quinta. Tudo bem? Tudo bem. Ela passaria lá, para tomarem uns drinques. Então tá. Nove horas? Nove horas. Tudo bem? Tudo bem. Às oito e meia bateu a porta do apartamento. Depois lembrou da garrafa de uísque. Melhor levar. Abriu a porta de novo. Embrulhou a garrafa. Tirou o carro da garage. Deu a volta no quar...
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MULHER E PEIXE*
[04-06-2010] |
A coisa afinal é bastante comum. Que velhas senhoras fiquem afantasmadas pelas casas, conversando com gatos, ou com algum cachorro míope, acontece. Ou acontecia, antes da descoberta da televisão. Mas esta senhora, de quem falarei, andou desenvolvendo nos últimos anos uma estranha mania, a de conversar com um peixe, vivo, enorme, metro e meio, bege com pintas marrom, peixe de boca sempre aberta e olho lateralizado a olhando, maroto e cúmplice . Um peixe que se chama Zé. Manhã cedinho ela acorda se sacudindo, esticando as barbatanas douradas na cama-aquário, essa mulher aquática de manhãs paulistanas de neblina, degustadas por tão raras - agora que as levas e levas de severinos seqüestraram a Cidade primeira, antiga, a Cidade que tinha vagar e espera : o cheiro do café com leite e broinha de fubá, a voz da mãe na cozinha, venha tomar antes que esfrie, e depois seria o colégio, as vozes agudas , gorrinhos vermelhos das meninas no pátio, pequenas deliciosas expectativas, nas ...
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CIRCULATION
[28-05-2010] |
Era uma vez Lúcia Moura. Era uma vez no Colégio de Notre Dame de Sion,no curso primário. O banheiro não se chamava banheiro. Nem toalete. Nem reservado. O banheiro devia ser chamado em francês, circulation. Tinha uma chave grande com uma medalha pesada, que ficava dependurada em um prego. O ritual desenvolvia-se assim: uma menina levantava-se, só uma de cada vez, nunca mais de uma. Jamais duas meninas juntas no banheiro, aliás circulation, não podia, no Colégio Sion ou em outros colégios de freiras. A menina em precisão se levantava, alcançava na ponta dos pés a chave dependurada no alto, atravessava a classe, abria o circulation que ficava no fundo, dava um tempo, voltava, recolocava a chave no prego. Lúcia Moura – a blusa engomada, os pulsos juntos sobre a carteira, a pose de cachorrinho em atenção permanente. Sentada como se devia sentar à mesa, as madres ensinavam os três mots da educação, toujours (sempre as mãos apoiadas no tampo), parfois (às vezes o antebraço), ...
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DIÁRIO DO NÃO-LIVRO
[21-05-2010] |
Que assim se fará, me digo, a mão deslizando no papel antigo reencontrado, diário de liberação do micro, diário de deixar-me ir (vir), ser, não-ser, catar/coçar, mas dizer - da dor da madrugada em que acordo, a mão artrítica, a coluna massacrada.O Diário de um Não-Livro é a liberdade. É pegar as pontas esgarçadas do ser, minhas talagarças, fios soltos, capinzal. Uma personagem de Clarice também dizia: “Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só : meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias” . Assim sou eu, meus escritos, a perplexidade. O que é escrever? - a pergunta eterna, que não se responde, só se desfaz : no rabisco. Mas eu amanheci inventando a liberdade, a descoberta do Não-Livro que se faz sempre, obscuro e destravado em nós, se processa. E de repente num dia, mais uma madrugada chuvosa, e acordando em dor: que é preciso prestar um ouvido a esse Não-Livro em nós, aquele que, por primo pobre e...
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TÊMPERA*
[14-05-2010] |
Ninguém soube ao certo se Martim morreu de desgosto. De envenenamento pelas tintas da paleta. Ou de seu coração ter parado na tarde luminosa daquele 3 de setembro. Mas muitos teceram coisas - que coisa. Dele, de Maria, seus amores, foram buscar a baba escondida e o fio desprendido do trapo da vida, de toda vida, de todos nós. Maria - o quê? Maria era longa, esguia e esquiva, de olho verde escuro de mar muito afastado, que ninguém nunca percebeu em vinte e cinco anos de matrimônio. Se mexia quieta pela casa, pelo ateliê, limpava paletas, jogava fora os trapos encharcados de solventes e restos de tinta, arrumava os pincéis, fazia a escrita de Martim, vendia-lhe os quadros, arrumava camisas e cuecas, dirigia a cozinheira, recebia visitas e anotava recados. E no colchão duro das necessidades acomodadas entregava-se a Martim. Num abandono de adolescente saída de colégio de freiras.O que se passava - o que se passou - o que se passa nas pessoas, alguém sabe? Maria pontuava a carreira do mari...
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O UIVO DA SIRENE
[07-05-2010] |
Escrever memórias é sequinho e num trilho. Ou antes, nos trilhos, trenzinho puxando vagões, corrediço e normal. Minhas memórias são o material apenas, de minha escrita descarrilada. Ou pelo menos, sujeita a descarrilamento – com a graça-de-Deus, porque assim deve ser qualquer escrita literária que se preze. Trem caprichoso, metamórfico, polimórfico, bêbado nos trilhos, se sacolejando garrafa na mão, se carnavalizando, enveredando por caminhos só seus e dando banana ao memorialista. *Um destes dias, ao passar ao meio-dia pela Avenida Paulista, encontrei de repente, numa surpresa, minha xícara de chá da infância, minha madeleine paulistana - a ponta da Memória, o som rouco da recordação: a sirene da GAZETA. Pessoas iam e vinham, esvaziavam-se andares e secretárias corriam para os restaurantes de quilo, atoleimava-se minha Cidade em faminta agitação.Mas eu, parada na calçada, saboreava pedaços esgarçados de um tempo distante. Entrava em mim uma menin...
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NOITES DE ANJOS DOURADOS
[30-04-2010] |
Seu Domênico tinha trancinhas e cheirava mal. Com o cabelo oleoso e comprido dos lados da cabeça ele tecia as trancinhas que amarrava atrás. Ela nunca tinha visto um homem com tranças. Cutucou a mãe e começou a rir. A mãe disse que ele era napolitano e que na terra dele os homens usavam o cabelo assim. Seu Domênico era um dos homens muito importantes que iam cantar a Novena de Natal nos bancos da frente do Santuário. Esses homens todos parecidos com seu pai, meio gordos, meio velhos, se cumprimentavam levantando o chapéu na porta da igreja, alguns falavam italiano como seu Domênico e foi assim que ela aprendeu que Buona sera queria dizer boa-noite e não tinha nada que ver com a cera vermelha marca Parquetina que passavam no assoalho. Importantes, separados das mulheres como se nem as conhecessem, eles avançavam pela ala central da igreja, que naqueles dias de anjos dourados estava toda acesa, e se dirigiam para os bancos da frente. Mas ela, única criança, única menina, ia com...
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A GRANDE CERIMÔNIA DO CINEMA
[23-04-2010] |
Início, filme antigo, daqueles projetados em casa com projetor barulhento, filmes em pedaços, alugados por meu tio Antonio, o maior encantamento. A grande cerimônia do cinema. Em casa. Para as mulheres - minha avó, minha tia Emília, eu, minha mãe, as mulheres reclusas, sepultadas vivas. Meu tio Antonio era o dono da mágica. A gente se acomodava na copa. Eu no meu banquinho, casaquinho de flanela estampada sobre o vestidinho, aguçado prazer. Coisa tão importante, filme de cinema, em casa. Estendiam um lençol na parede. Depois vinha o ranger do projetor, nhen-nhen, e a fita – se dizia assim, fita - que vinha chegando, se anunciando, primeiro marcas de enquadramento, números de rolos, o primeiro quadro, que era sempre o título do filme, custava a chegar, parido entre aqueles estertores cinematográficos. Começava. Filmes mudos, todo mundo andando depressa, era muito engraçado...
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Domingo de Chuva
[09-04-2010] |
De madrugada, acesa,Apascento meus livros. Auspicioso, envolto em brumas literárias, este dia, para realizar coisa nunca – quase nunca – por mim empreendida, em longa carreira literária, não muito exposta mas que me tem ocupado por mais de 50 anos: o desejo de escrever crônicas. Se, aos trancos e barrancos e em intermitências cujas causas não me apetece aprofundar e expor neste momento, tenho sido ficcionista, contista principalmente, e conquistado alguns prêmios e até leitores no Brasil e no exterior, a crônica, a vontade de me entregar a esse gênero breve, conversa descompromissada ao pé do fogo tribal ou de lareira cúmplice... bem, essa ainda anda insatisfeita dentro de mim, agitando mil cabecinhas espevitadas – uma réstea de fervor juvenil no que deveria ser a grisonância uniforme dos dias acumulados? &nb...
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GUIMARÃES ROSA II: um sonâmbulo de Deus
[19-03-2010] |
A profunda religiosidade de Guimarães Rosa impregnava todos os atos de sua vida e está presente em toda a sua obra, na sua correspondência, nas conversas com amigos. Ao escritor moçambicano Joaquim de Montezuma Carvalho dizia, em carta transcrita por sua filha Vilma no livro Relembramentos: “Quanto mais leio e vivo e medito,mais perplexo a vida,a leitura e a meditação me põem. Tudo é mistério. A vida é só mistério. Tudo é e não é.Ou às vezes é,às vezes não é.(Todos os meus livros só dizem isso) [...] Rezo,escrevo,amo, cumpro,suporto,vivo - mas só me interessando pela eternidade. [...] Quando faço arte, é para que se transforme algo em mim, para que o espírito cresça; e desejando ser um sonâmbulo de Deus".A própria Vilma lembra: “Procurava os nexos entre o visível e o invisível, o sensorial e o ultra-sensorial”. E diz que ele a ensinara “em aprendizagem de infinito, a sobrevivência e a vida perfeita à nossa espera.”Uma religiosidade, porém, que não lhe estreitava os horizontes e n...
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GUIMARÃES ROSA : tardes no Itamaraty
[18-03-2010] |
A memória de João Guimarães Rosa permanece como encantamento maior de nossa literatura, 43 anos após sua morte. Sua obra é um legado de riqueza inextinguível em que as gerações sucessivas continuarão a se inspirar. Mas não foi seu único legado.Para todos que tiveram o privilégio de conviver com ele – como eu própria - também nos ficou a memória de um ser humano acima da média, caminhando alto na trilha da espiritualidade, da bondade,do saber. Meu primeiro encontro com o escritor deu-se em 1955, ao tê-lo como examinador na prova oral de Cultura Geral, no vestibular para o Instituto Rio-Branco. Tenho uma vaga lembrança de ter sido argüida sobre literatura grega antiga e moderna arquitetura brasileira. Passei. Nos anos seguintes participei muitas vezes de descompromissadas conversas com ele, na hora do lanche da tarde, no Bife de Zinco – o modesto restaurante do Itamaraty que tinha essse apelido pela sua cobertura de zinco e em oposição ao mais refinado restaurante do Rio na época, o Bi...
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Contos - La Pietà e Sílvia
[03-03-2010] |
O conto LA PIETÀ é meu conto mais famoso, figura no livro “O Caos na Sala de Jantar”,da Editora Moderna-SP-1978, que recebeu quatro prêmios literários, e em várias antologias, no Brasil e no exterior, tendo sido traduzido para o alemão, o italiano e o espanhol. Em 1994, quando o brasil foi país-tema da feira internacional de frankfurt, esse conto foi escolhido pela comissão organizadora do evento para inaugurá-lo, com leitura em todas as rádios alemãs – foi extraído de uma antologia alemã de “escritoras latino-americanas’, com organização e tradução de Kurt Meyer-Clason. Em 1986 o grupo da Escola de Teatro Macunaíma, de São Paulo, adaptou-o e encenou-o, com um elenco de uns dez alunos, no Teatro da Universidade de São Paulo.  ...
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