A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNETliteratura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa.
Luís Carmelo, Coordenador
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Tema: Eustáquio GomesTema: Eustáquio Gomes
Correspondentes

Como deixar de fumar

[05-06-2010] |
Meu amigo anda desesperado. Não consegue deixar de fumar. Entre os colegas de trabalho, ele é o único que fuma. Antes eram vários, mas foram deserdando um por um, até que sobrou somente ele. Isso lhe dá uma ideia de fracasso pessoal, de frouxidão, de incapacidade resolutiva. Incontáveis vezes por dia ele deixa a mesa de trabalho e vai fumar lá fora, batendo a cinza no canteiro de hortênsias, para irritação do chefe e da servente que cuida das flores. Pior: uma radiografia mostrou que seus pulmões estão escuros. E ele ouviu do médico: o direito é todo seu, mas a saúde é sua e de sua família.                Fumei durante cinco anos, mas me libertei há trinta. Meus pulmões já devem ter voltado àquele estado virginal que só é estragado, hoje em dia, pelo dióxido dos escapamentos. Mas é bem verdade que nunca fui um verdadeiro fumante: eu não tragava. Sugava a fumaça, deixava que ela construísse espirais sob o palato e depois soltava-a em penachos pelas narinas, como um herói do filme Casabl...  Ler Tudo >>

Um romance com jeito de clássico

[29-05-2010] |
Não é sempre que aparece um romance maduro, feito para durar, com atributos de clássico. Se as qualidades de um clássico são determinadas, entre outras coisas, pelo uso da linguagem, pela economia de meios e pela capacidade de espelhar a alma humana ou de reproduzir ou imaginar um construto social convincente, então talvez tenhamos em Cidade livre, de João Almino, um clássico no horizonte do possível. João Almino já havia demonstrado essas qualidades em suas obras anteriores, desde Ideias para onde passar o fim do mundo (1987 ) até O livro das emoções (2008), todos ambientados em Brasília, que é também o cenário deste seu quinto romance, em que ele alcança o ápice de sua técnica, nada impedindo que a ultrapasse.Nos romances anteriores, Almino fixou seus personagens – com os conflitos do nômade ou do homem em transição, o que é próprio de Brasília – no contexto da cidade em processo. Em Cidade livre, eles se movimentam em pleno leito embrionário da cidade, o bairro provisório com aspect...  Ler Tudo >>

Minhas copas

[24-05-2010] |
Vem aí mais uma Copa do Mundo. Já vou tratando de criar anticorpos contra a decepção da derrota (ou contra a emoção da vitória?). É muito difícil ganhar uma Copa, mesmo quando já se ganhou cinco. Basta recordar as passadas. Das 18, comemos poeira em 13. Das que minha memória alcança, esta será a décima terceira. Das primeiras as lembranças são mais vivas. Das mais recentes me esqueço até de quem foram os adversários. Mas de cada uma guardo um momento capaz de resumi-las, o que me permite levá-las comigo como se fossem Copas de bolso.  1962. Tenho nove anos. Do interior do boteco contemplo a rua do povoado, poeirenta e inundada de luz, onde passeiam galinhas que nada sabem do que se passa em Santiago do Chile. É o jogo final. Assombrado pela gravidade da hora, observo os homens que entornam copos de cachaça, as orelhas eriçadas contra o rádio de válvulas. Zero a zero. De repente os tchecos fazem 1 a 0. Um dos homens põe a língua para fora e faz um som estrepitoso, de coisa derruída, mas...  Ler Tudo >>

Historinhas vividas

[21-05-2010] |
AS LAGARTAS (1987)          Irineu Ribeiro dos Santos, o bom Irineu, contempla uma palmeira rente à vidraça do escritório e me instrui.         — Elas se agarram ao tronco e vão devorando tudo, folha, fruto, flor. Quando não resta mais nada pra comer, elas mudam de palmeira. Mas estão tão gordas que se soltam da palmeira ressequida e se esborracham no chão. São vítimas da própria voracidade.          Ao me ensinar essa lição da natureza, o bom  Irineu na verdade visa outra coisa: também a administração pública anda cheia de lagartas, ele diz, cada uma mais rotunda que outra. Os jornais traziam mais um monstruoso escândalo financeiro.         — Nenhuma se contenta em comer apenas o que pode: querem devorar tudo. Algumas se mantêm lá em cima por anos seguidos, às vezes décadas, engordando sempre e posando de boas lagartas. Outras, imprudentes e menos espertas, acabam se esborrachando à vista de todo mundo.          De repente, uma lagarta despenca da palmeira bem à nossa frente. Irineu n...  Ler Tudo >>

Os paramentos

[15-05-2010] |
As mulheres vieram para o Reisado, limpas, asseadas, de longe. Uma delas disse que de Estrela, Indaiá abaixo, em oco de canoa. Os homens acharam graça. O Indaiá é acidentado, cheio de pedras, raso aqui, estreito lá. Mesmo assim quiseram saber onde a canoa e o canoeiro. Ao ouvir isso uma delas disparou a rir e apertou a bochecha do negro Tião. Vestiam saias rodadas e cheiravam a leite-de-rosas.         Eram duas. A mais nova ajeitou o cabelo ao entrar no boteco. Os homens tinham acabado de chegar da igreja. Alguns tinham ajudado a lavar a escadaria. A outra entrou em seguida, séria, com uma bolsa branca debaixo do braço. Quando elas entraram a atmosfera carregou-se de eletricidade. Os homens trocaram olhares. Em seguida a porta foi baixada de um golpe e depois presa com um gancho.          — Que é isso, gente? protestou a mais velha.  ...  Ler Tudo >>

Os paramentos

[15-05-2010] |
As mulheres vieram para a Missa do Galo, limpas, asseadas, de longe. Uma delas disse que de Estrela, Indaiá abaixo, em oco de canoa. Os homens acharam graça. O Indaiá é acidentado, cheio de pedras, raso aqui, estreito lá. Mesmo assim quiseram saber onde a canoa e o canoeiro. Ao ouvir isso uma delas disparou a rir e apertou a bochecha do negro Tião. Vestiam saias rodadas e cheiravam a leite-de-rosas.         Eram duas. A mais nova ajeitou o cabelo ao entrar no boteco. Os homens tinham acabado de chegar da igreja. Alguns tinham ajudado a lavar a escadaria. A outra entrou em seguida, séria, com uma bolsa branca debaixo do braço. Quando elas entraram a atmosfera carregou-se de eletricidade. Os homens trocaram olhares. Em seguida a porta foi baixada de um golpe e depois presa com um gancho.          — Que é isso, gente? protestou a mais velha. ...  Ler Tudo >>

A Paris de Fernando Kassab

[09-05-2010] |
O fascínio por Paris é universal. Mas houve uma cidade brasileira que, na hoje dourada década de 1920, desejou mimetizar Paris. Ao menos, assim registrou um cronista anônimo na Gazeta de Campinas, então o principal jornal da cidade. A frase é a seguinte: “Não está longe o dia em que poderemos, artisticamente falando, fazer descansar Campinas na ponta da torre Eiffel”. Para uma cidade de menos de 100 mil habitantes, era um projeto e tanto. Mas refletia a ambição de modernidade que a cidade sempre teve, a de ser uma urbs no mais alto sentido europeu, isto é, capaz de descortinar da ponta de uma torre de cartão postal o centro da cultura dos twenties, ou seja, Paris.Havia conexões interessantes entre Campinas e Paris desde o final do século dezenove. Os barões do café viajavam pelo navio Orénoque e alguns deles, pessoas cultivadas, traziam em sua bagagem o plus ultra das invenções da época. Isso explica por que, apenas dois anos após a apresentação do cinematógrafo pelos irmãos Lumière em...  Ler Tudo >>

A cartilha de Cecilia

[01-05-2010] |
Ah, as cartilhas da nossa infância. Espelhavam a simplicidade de nossas vidas. Por certo nossas vidas não eram tão simples como as imaginamos agora, mas vistas assim à distância são como água de pote diante da barrela de hoje. Quem me fez lembrar das cartilhas foi João Batista d’Almeida, o dos “arquivos incríveis”, ao me dar a conhecer um desses livrinhos encantadores. É de 1945 e se intitula A cartilha de Cecilia.          Diz a folha de rosto que foi escrita e editada por Egidio e Luiz Prada, irmãos com gráfica e editora na rua Aurora, número 29, São Paulo. São algumas dezenas de lições que vão progredindo suavemente ao correr das páginas, agradavelmente ilustradas, sem que o leitor (sim, o leitor criança) perceba o crescimento das dificuldades. A primeira página me repõe diret...  Ler Tudo >>

A cartilha de Cecilia

[01-05-2010] |
Ah, as cartilhas da nossa infância. Espelhavam a simplicidade de nossas vidas. Por certo nossas vidas não eram tão simples como as imaginamos agora, mas vistas assim à distância são como água de pote diante da barrela de hoje. Quem me fez lembrar das cartilhas foi João Batista d’Almeida, o dos “arquivos incríveis”, ao me dar a conhecer um desses livrinhos encantadores. É de 1945 e se intitula A cartilha de Cecilia.          Diz a folha de rosto que foi escrita e editada por Egidio e Luiz Prada, irmãos com gráfica e editora na rua Aurora, número 29, São Paulo. São algumas dezenas de lições que vão progredindo suavemente ao correr das páginas, agradavelmente ilustradas, sem que o leitor (sim, o leitor criança) perceba o crescimento das dificuldades. A primeira página me repõe diretamente no quintal de casa, lá em Minas, nas minhas calças curtas de então. O gato e o pato.O pato vê o gato.O pato bica o gato.O gato pula.                  Mais adiante, a lição é um cromo vivo:  Estão tocando...  Ler Tudo >>

Escrita e vida

[24-04-2010] |
RENARD Jules Renard a Jean Giraudoux: “Todo mundo vai bem por aqui. Minha mulher me ama, meus filhos são encantadores. Meus amigos são dedicados. Minha peça faz sucesso. Meus livros se vendem bem. O cachorro da porteira também me adora. Família, amizade, trabalho, tudo me sai a contento. Mas estou infeliz. Não. Vou bem, obrigado. Gosto de almoçar, de lanchar e de jantar. Gosto da primavera, do verão, do outono e do  inverno. Nenhuma satisfação do mundo me ficou alheia. Nos museus, aprecio ao cêntuplo as obras-primas. Mas sou infeliz. Tenho tudo o que é preciso para remediar a desgraça; deram-me ironia, malícia, estilo. E aparo maravilhosamente cada ataque específico. Desviei a solidão com uma mulher, um filho e uma filha. Mas sou infeliz. Não há remédio”. (1987) PIKTIN Segundo Walter Piktin (A vida começa aos quarenta), é uma grande vantagem ter poucos desejos predominantes, desde que sejam fortes a ponto de se tornarem um traço de caráter. “O homem de poucos desejos fortes tem probabi...  Ler Tudo >>

O fascínio dos livros

[17-04-2010] |
LIMA BARRETO Lima Barreto lembra Kafka na sua predileção por pequenos funcionários. Vou à biblioteca municipal em busca do seu Isaías Caminha, para conjugar a leitura de sua biografia (o clássico de Francisco de Assis Barbosa) a este romance autobiográfico escrito como revide social. Dou com um exemplar da primeira edição, impressa em Portugal, a capa dura de cor vinho já carunchada e amarelecida pelo tempo. Procuro imaginar Lima recebendo pelo correio marítimo um exemplar igualzinho a este, ainda que novo em folha, ano 1909, ele um modesto escriturário do Ministério da Guerra que só encontrava espaço, à época, nas pequenas publicações fluminenses. Ontem, antes de iniciar a releitura, contemplei longamente a sua lombada, a mesma daquele tempo, o tempo em que pelas ruas cariocas ainda rolavam tílburis misturados aos bondes e aos primeiros automóveis, um dos quais pilotado pelo poeta Olavo Bilac. (1977) CORAÇÃO  E TEMPO Compro num sebo um surrado exemplar de Coração, o clássico de Edmond...  Ler Tudo >>

O fascínio dos livros

[17-04-2010] |
Lima Barreto lembra Kafka na sua predileção por pequenos funcionários. Vou à biblioteca municipal em busca do seu Isaías Caminha, para conjugar a leitura de sua biografia (o clássico de Francisco de Assis Barbosa) a este romance autobiográfico escrito como revide social. Dou com um exemplar da primeira edição, impressa em Portugal, a capa dura de cor vinho já carunchada e amarelecida pelo tempo. Procuro imaginar Lima recebendo pelo correio marítimo um exemplar igualzinho a este, ainda que novo em folha, ano 1909, ele um modesto escriturário do Ministério da Guerra que só encontrava espaço, à época, nas pequenas publicações fluminenses. Ontem, antes de iniciar a releitura, contemplei longamente a sua lombada, a mesma daquele tempo, o tempo em que pelas ruas cariocas ainda rolavam tílburis misturados aos bondes e aos primeiros automóveis, um dos quais pilotado pelo poeta Olavo Bilac. (1977) CORAÇÃO  E TEMPO Compro num sebo um surrado exemplar de Coração, o clássico de Edmond d’Amicis. Pe...  Ler Tudo >>

Chá das cinco com o vampiro

[08-04-2010] |
Se os paranaenses – como escreveu um cronista de Curitiba – não podem recusar a “parte de diversão” que representa a intriga local do novo romance de Miguel Sanches Neto (Chá das cinco com o vampiro, Objetiva, 2010), o mesmo não se dá necessariamente com os leitores de outras regiões do país. Estes podem lê-lo pura e simplesmente como um romance, o excelente romance que é, ainda que no centro da quizília estejam o célebre contista Geraldo Trentini e seu ex-discípulo Beto Nunes, isto é, Dalton Trevisan e o próprio Sanches Neto. O livro é muito mais do que um roman à clef, embora, no seu cerne, também seja isso.             A intriga vinha fermentando desde 2004, quando se espalhou o boato – agora materializado – de que Sanches Neto havia escrito uma espécie de biografia do contista arredio, hoje com 84 anos. Depois de uma convivência de sete anos, ambos estavam rompidos. Apesar disso, numa carta aberta dirigida a Dalton, Sanches admitiu a existência do livro e esclareceu que não se trat...  Ler Tudo >>

Chá das cinco com o vampiro

[08-04-2010] |
Se os paranaenses – como escreveu um cronista de Curitiba – não podem recusar a “parte de diversão” que representa a intriga local do novo romance de Miguel Sanches Neto (Chá das cinco com o vampiro, Objetiva, 2010), o mesmo não se dá necessariamente com os leitores de outras regiões do país. Estes podem lê-lo pura e simplesmente como um romance, o excelente romance que é, ainda que no centro da quizília estejam o célebre contista Geraldo Trentini e seu ex-discípulo Beto Nunes, isto é, Dalton Trevisan e o próprio Sanches Neto. O livro é muito mais do que um roman à clef, embora, no seu cerne, também seja isso.             A intriga vinha fermentando desde 2004, quando se espalhou o boato – agora materializado – de que Sanches Neto havia escrito uma espécie de biografia do contista arredio, hoje com 84 anos. Depois de uma convivência de sete anos, ambos estavam rompidos. Apesar disso, numa carta aberta dirigida a Dalton, Sanches admitiu a existência do livro e esclareceu que não se trat...  Ler Tudo >>

Um repórter no Gólgota

[02-04-2010] |
Minha profissão de escriba itinerante a serviço do Império deu-me a oportunidade de ver coisas realmente interessantes pelo mundo, umas engraçadas, outras tristes, e ainda outras verdadeiramente trágicas. Era pouco provável que tais coisas me acontecessem se estivesse preso a uma ocupação qualquer em Roma ou na Trácia.Claro, há experiências que desejaria não ter vivido. Não gosto de ver um escravo ser escorraçado, e vi muitos o serem. Vi prisioneiros serem degolados depois de rendições negociadas. E em Jerusalém assisti pela primeira vez a uma crucifixão, sob os auspícios de um colega de escola que o destino fez governador da Judeia, Pôncio Pilatos.No dia de minha chegada, encontrei Pilatos às voltas com uma turba de sacerdotes e anciãos do sinédrio local. No centro estava um prisioneiro que diziam ter praticado desordens no templo. Não ferira nem matara ninguém, mas tinha virado mesas e se enfurecido com os comerciantes que haviam montado suas bancas ali.O prisioneiro tinha as mãos at...  Ler Tudo >>

O escriba e o tempo

[27-03-2010] |
Na manhã de 5 de outubro de 2066, dia do Centenário da Universidade de Campinas, uma centena de pessoas se juntou no saguão da antiga Biblioteca Central, agora um museu do livro impresso, para assistir à exumação de uma cápsula do tempo enterrada ali em 1991. Ninguém podia imaginar que naquele mesmo dia, antes mesmo que o conteúdo da urna pudesse ser examinado, o artefato de vidro desapareceria misteriosamente, para ser recuperado somente um mês depois, em circunstância dramática.              A urna, uma caixa quadrada com aparência de aquário, jazia a um metro de profundidade rente ao pilar principal do saguão da biblioteca. A cortiça que revestia as paredes da cova havia cumprido bem o seu trabalho de prevenir os movimentos de expansão e retração do vidro. Não havia vestígios de bactérias e o material contido na caixa (848 cartas “endereçadas ao futuro”, duas anacrônicas fitas cassete com imagens de época e alguns papéis institucionais) estava perfeitamente íntegro. O reitor adianto...  Ler Tudo >>

De um diário

[21-03-2010] |
POMAR (1974) Abro a torneira da pia e de repente me ocorre que a água... a água é pura magia. Saio pela porta dos fundos e desço os degraus que levam ao quintal. Redescubro (como se a visse pela primeira vez) uma parreira que ainda ontem não tinha encanto algum para mim, e que hoje está mais viva, intensamente viva e carregada de uvas verdes. Trinco uma uva. No seu gosto cru sou transportado a um pomar fora do tempo. NOSTALGIAS (1978)          Fixar a experiência do instante é esgotar o instante. Os momentos que nos despertam nostalgia são os vividos distraidamente. É que desses fica qualquer coisa irrealizada, da qual restou ainda algo para ser vivido. Noto que de uma experiência deliberadamente exaurida e anotada (por exemplo, a detida contemplação de um parque de diversões três anos atrás) não me restou nenhum sentimento nostálgico. Mas não me arrependo de tê-la vivido daquela maneira intensa. Foi vivida e ultrapassada, eis tudo. No entanto, quantas lembranças agudas da rua João Arr...  Ler Tudo >>

Grande e estranho é o mundo

[16-03-2010] |
A EXUMAÇÃO DO PAI Estávamos todos reunidos em torno da cova, mas quando a última laje foi retirada alguns se afastaram em direção ao velório, onde a mãe passara a noite sob um rijo arranjo de gerânios. A princípio não se percebia nada, pois a tampa do caixão tinha afundado e sua forração roxa parecia colada ao fundo. Mas tão logo o coveiro afastou os pedaços de madeira podre e o pano da forração, juntando-os com método em um saco de plástico preto, o perfil de nosso pai ressurgiu embaixo, esguio, ainda envergando paletó, camisa e calças. A fivela do cinto, oxidada, roubou um tímido brilho à manhã luminosa. Alguém palpitou que eram roupas feitas de tecido sintético e que por isso haviam resistido tanto tempo (23 anos). Uma de minhas irmãs lembrou que fora ela quem dera a camisa de presente ao pai. O crânio, carcomido na frente, ainda exibia alguns tufos de cabelo. Depois o coveiro começou a retirar os ossos todos do pai e a guardá-los num saco de plástico, um após outro, com tal facilid...  Ler Tudo >>

Porcos e javalis

[10-03-2010] |
As barraquinhas formavam um semicírculo que emprestava ao pátio um aspecto de aldeia indígena. Com um pouco de imaginação não era difícil ver naquelas colegiais de saia curta que perambulavam de braços dados entre o bingo e a toca do coelho, entre o jogo de argolas e o estande de tiro, qualquer coisa como deliciosas silvícolas em noite pré-nupcial.         Em torno da fogueira dez ou doze amazonas exibiam coxas monumentais durante o que era, com certeza, a dança do amor em floração. A discreta vigilância das freiras, coisa muito natural numa praça missionária, não atenuava o calor que subia das achas, com suas elevações de fumo branco, nem a quentura intimista do gengibre.         Estenderam a Nico um copázio fumegante e a bebida desceu-lhe, escaldante, goela abaixo. Bebendo, experimentou uma alegre expansão dos sentidos, qualquer coisa estalou dentro dele, uma espécie de claridade com verberações internas, de cuja existência não suspeitava. Então isto é a corrente da vida, pensou.    ...  Ler Tudo >>

O borboletário

[05-03-2010] |
O contador era pequeno, rechonchudo e falava depressa. As palavras se atropelavam em sua boca. Tropeçava nas fricativas. E estava aflito porque nos vinte anos em que fazia a contabilidade do livreiro Quintana, tanto nesta quanto na empresa anterior, a de serviços gráficos, que fechou as portas, nunca ficara sem receber um só centavo. Agora, havia meses que não recebia nada. Por sorte contava com uma boa carteira de clientes. E gostava do livreiro. Dele se podia dizer que era um imprevidente, um homem que cavava fossos a seu redor e que, portanto, trabalhava contra si mesmo, mas nunca que fosse um mau caráter, um pária, um fora-da-lei. Ao contrário, seus problemas eram em geral consequência de sua excessiva generosidade.            O velho ouvia calado.         — Por se fiar demais nos outros, levou muitos tombos. Mas eu digo ao senhor: sempre se levantou com dignidade. E não é homem de guardar rancores.          Nada havia perguntado, mas o contador queria falar.         — Desta vez é ...  Ler Tudo >>

O vaca-tonta

[26-02-2010] |
O aparecimento de um formoso livro com jeito de enciclopédia, Assis de A a Z, do jornalista Marcos Barrero (Editora L2M, São Paulo, 2008, 480 p.), me fez voltar aos idos de 1968 e 1969. Estudei em Assis dos 15 aos 17 anos, aquartelado no antigo Seminário São José, de cujas sacadas podia ver uma cidade clara, luminosa, com a cúpula da catedral pontificando sobre os telhados ocres. Lembro-me que uma vez, por esse tempo, escrevi um poema em louvor à paisagem que se via daqueles minaretes. O poema se perdeu, mas a paisagem ficou como um cromo.         O livro de Barrero me suscitou duas lembranças do rapazinho que eu era, uma amarga e outra feliz. Primeiro a amarga: retirávamos as cadeiras da capela para que fosse lavada, quando, me imobilizando por um momento no centro da nave com duas cadeiras seguras pelo espaldar (de repente me ocorrera ali o fecho de um poema), passei a atrapalhar a passagem dos colegas, retardando o tráfego. Ouço ainda hoje a voz irritada do padre José De Bórtoli às ...  Ler Tudo >>

O vaca-tonta

[25-02-2010] |
O aparecimento, em 2008, de um formoso livro com jeito de enciclopédia, Assis de A a Z, do jornalista Marcos Barrero (Editora L2M, São Paulo, 480 p.), me fez voltar aos idos de 1968 e 1969. Estudei em Assis dos 15 aos 17 anos, aquartelado no antigo Seminário São José, de cujas sacadas podia ver uma cidade clara, luminosa, com a cúpula da catedral pontificando sobre os telhados ocres. Lembro-me que uma vez, por esse tempo, escrevi um poema em louvor à paisagem que se via daqueles minaretes. O poema se perdeu, mas a paisagem ficou como um cromo.         O livro de Barrero me suscitou duas lembranças do rapazinho que eu era, uma amarga e outra feliz. Primeiro a amarga: retirávamos as cadeiras da capela para que fosse lavada, quando, me imobilizando por um momento no centro da nave com duas cadeiras seguras pelo espaldar (de repente me ocorrera ali o fecho de um poema), passei a atrapalhar a passagem dos colegas, retardando o tráfego. Ouço ainda hoje a voz irritada do padre José De Bórtoli...  Ler Tudo >>

A sabedoria dos gatos

[21-02-2010] |
Depois de longa enfermidade, que suportou heroicamente graças a seu temperamento resoluto, despediu-se deste mundo, na provecta idade de 18 anos, mas ainda guardando o charme que lhe dava a pelagem semelhante ao de uma vaca holandesa, aquela que respondia precisamente pelo nome de – Waka. Dois dias antes conversamos, com uma franqueza que só a amizade autoriza, sobre assuntos da vida e da morte. Ela sempre valorizou os seus dias. Um ano atrás tivemos conversa parecida e suas lições foram tão sábias que, ao cabo, descobri que ela estava lendo Montaigne. Desconfio agora que sua última leitura foi Sêneca.                  — Minha boa amiga, a velhice tem pesado para você. Além disso, a doença...         — Engana-se, meu caro. Os frutos de fim de estação são os mais agradáveis. A infância é mais bela quando está por terminar. O último gole de vinho é o mais agradável, é aquele que entorpece, que dá à embriaguez o impulso final.         Ironia ou estoicismo? Mas ela sempre foi assim: uma ob...  Ler Tudo >>

A leveza do chumbo

[16-02-2010] |
Aos vinte e dois anos se é autor de uma belíssima obra inédita e se é capaz de acreditar que todo mundo morrerá por ela. Concluí, portanto, que minha magnífica obra estava pronta para ganhar o mundo. Não achando editor que a publicasse, cuidei eu mesmo dessa providência prática.         Não precisei ir longe: um conhecido de meu irmão mais velho possuía uma grafiqueta na Rua Carolina Florence, em Campinas. Era um cômodo escuro e apertado onde um linotipista improvisado, ele próprio, orbitava em torno de um prelo antediluviano do qual saltavam, vez por outra, pequenas obras-primas da literatura mercantil, isto é, talonários de nota fiscal. Combinou-se o preço, que me pareceu camarada, mas ele exigiu pagamento antecipado de cinquenta por cento. Concordei.         — Deixa aí os originais, disse. Estou mesmo numa crise de encomendas.         Imaginei cada poema como uma joia saltando da prensa. Assisti à confecção do primeiro, letra após letra, fonemas e morfemas sendo pacientemente juntad...  Ler Tudo >>

De jardins e sonhos

[11-02-2010] |
Um colapso no computador me faz perder todos os arquivos que não tinham backup. Isto foi antes do Natal de 2005, mas só em janeiro de 2006 me animei a contabilizar o prejuízo. Senti haver perdido sobretudo os 420 sonhos que anotara laboriosamente nos últimos quatro anos. Esperava fazer deles um livro cativante. Havia até um título: “Sonhos constelados”. Telefono para uma firma especializada em recuperar arquivos perdidos. Faço as contas: cada sonho recuperado me custaria perto de três reais. Desisto por ora e resolvo investir em outro projeto: construir um canteiro de flores no fundo do quintal. * Não por acaso reaparece Sebastião, o jardineiro, fiel zelador dos jardins residenciais da Cidade Universitária. Vive disso e escreve poemas sobre jardins. Singelos e corretos. Dedica-se agora, além dos jardins docentes e dos poemas, a ensinar jardinagem aos alunos de uma escola de periferia. Está empenhado em construir com eles um “jardim de borboletas”. Conta-me que num jardim assim não pode...  Ler Tudo >>

As insígnias

[05-02-2010] |
Ninguém esperava pelo que aconteceu. Nenhum dos seguranças desconfiou quando um furgão contornou a várzea e embicou no portão de entrada. O motorista do furgão disse aos porteiros que trazia “pernas de carneiro” e um “reforço” de garçons para o banquete. O portão se abriu e o furgão estacionou no gramado, a dois passos do toldo onde os convidados, gente da universidade e médicos da clínica Mens Sana, ouviam os trinados de um piano. Reconheci Zózimo quando ele desceu do posto de motorista e correu a porta lateral do furgão. Os demais saltaram. Embora trajassem roupa branca, não eram garçons: aquilo era antes o uniforme de uma equipe de enfermagem. Não era tão difícil concluir (como depois se constatou) que eles haviam assaltado a rouparia da clínica e se apoderado de um de seus veículos. Sob a liderança de Zózimo, que planejara tudo como se fosse uma operação de guerra, eles estavam agora no coração da chamada fazenda experimental onde se dava a festa dos 50 anos do diretor da Mens Sana...  Ler Tudo >>

AS INSÍGNIAS

[05-02-2010] |
Ninguém esperava pelo que aconteceu. Nenhum dos seguranças desconfiou quando um furgão contornou a várzea e embicou no portão de entrada. O motorista do furgão disse aos porteiros que trazia “pernas de carneiro” e um “reforço” de garçons para o banquete. O portão se abriu e o furgão estacionou no gramado, a dois passos do toldo onde os convidados, gente da universidade e médicos da clínica Mens Sana, ouviam os trinados de um piano. Reconheci Zózimo quando ele desceu do posto de motorista e correu a porta lateral do furgão. Os demais saltaram. Embora trajassem roupa branca, não eram garçons: aquilo era antes o uniforme de uma equipe de enfermagem. Não era tão difícil concluir (como depois se constatou) que eles haviam assaltado a rouparia da clínica e se apoderado de um de seus veículos. Sob a liderança de Zózimo, que planejara tudo como se fosse uma operação de guerra, eles estavam agora no coração da chamada fazenda experimental onde se dava a festa dos 50 anos do diretor da Mens Sana...  Ler Tudo >>

A mesquita

[30-01-2010] |
Na manhã de 11 de setembro de 2001, em Nova York, dois aviões de carreira arremeteram contra duas torres comerciais geminadas, de 110 andares cada uma, transformando-as em escombros. Morreram mais de três mil pessoas. Uma organização islâmica assumiu o atentado. Depois se falou que ali começara o século 21. O velho achou que aquilo era mais do que sua paciência podia suportar. Desligou a TV e voltou para a cama. Costumava dizer que para ser capaz de tolerar a tola agitação humana, esta insensata turbulência a que chamam História, precisava de um distanciamento de pelo menos meio século. Sendo assim, retornava de bom grado ao estado de inconsciência.        Em 18 de abril de 1912, uma criança invadiu o gramado de uma legação colonial para apanhar uma bola que lhe escapara das mãos. No gramado havia uma tabuleta que dizia: “Proibida a entrada de cães e árabes”. Mehmet, apesar de seus doze anos, era analfabeto. Ao ver aquilo, um sentinela disse ao outro: “Veja como se caça uma lebre”. E a...  Ler Tudo >>

Fernando & Cecília

[25-01-2010] |
Um encontro que não houve. Assim poderia se intitular esta crônica. E no entanto esse não-encontro cobriu-se de lenda, uma lenda talvez mais densa do que se encontro tivesse havido. O não-encontro entre Cecília Meireles e Fernando pessoa numa noite lisboeta de 1934, mais exatamente na noite chuvosa de 10 de dezembro de 1934.          Cecília, bonita, expansiva, na flor de seus 33 anos, estava em Portugal para proferir conferências. Pessoa estava no penúltimo ano de sua vida e acabara de sair de grave crise de neurastenia. Tinha de idade 46. Pode ser que, semanas antes, tivesse visto no Diário de Lisboa a foto da moça e um artigo de seu confrade José Osório de Oliveira anunciando o desembarque em Lisboa de uma “viajante ilustre”, a “poetisa do Brasil” que escrevia versos assim:                             Eu canto porque o instante existe                            e a minha vida está completa.                            Não sou alegre nem sou triste:                            sou poet...  Ler Tudo >>

2010. Fragmentos de um diário

[21-01-2010] |
JANEIRO, 1. SEXTA-FEIRA Há sempre uma certa solenidade em abrir-se o diário de um ano novo que logo estará velho. Não se sabe ainda que ele vai envelhecer com a velocidade do vento (“o vento é velho mas corre”), então simulamos que sua louçania é para sempre. Daí os fogos todos de ontem, as explosões e aquelas chuvas de faíscas que vinham das janelas do prédio vizinho e caíam com estrépito sobre o nosso telhado. Cheguei a temer um incêndio. Os gatos ficaram inquietos. Já fui mais tolerante com essa efusão coletiva. Estou ficando velho.          Li finalmente na íntegra O segredo da flor de ouro. Grifei-o aqui e ali com vistas a enriquecer a novela, passando por cima de grifos de alguém que o leu antes de mim – já que se trata de livro de segunda mão – e que raramente coincidem co...  Ler Tudo >>

O visível e o invisível

[15-01-2010] |
O velho atribuía a certas confluências (por exemplo, ao poder imanente de mandalas e lemniscatas) os inúmeros fios e caminhos cruzados que tecem o destino humano. Nisso podia estar contida toda uma vida, ou melhor, todas as vidas.                  — Você o que acha?                O livreiro foi franco:                — O senhor me desculpe, mas eu nasci com um defeito grave. Só acredito no que vejo.                No olhar do velho aflorou um traço de ironia.                                                         — Nesse caso, o que vê?                — Vejo o que meus olhos me mostram.                                         O velho varreu com o olhar as estantes em torno:                — Curioso: um oitavo de sua livraria é dedicado ao ocultismo. Outro oitavo às religiões. Se a gente somar aí as estantes de autoajuda, sem contar a psicanálise, que também é uma espécie de ocultismo, isto é quase a metade de sua livraria.                 O livreiro deu de ombros:                — É ...  Ler Tudo >>

A viagem de volta - Final

[11-01-2010] |
Imagens, vestígios, fragmentos da viagem telúrica que eu gostaria de não esquecer: a plataforma da pequena estação de trens em Campos Altos, simétrica, elegante e, para mim, algo remota, cujos vagões de carga vão e voltam entre a cidade e o porto de Vitória (embarquei ali uma vez quando o trem ainda era de passageiros); um urubu domesticado que vimos de cócoras no meio da rua, perto da estação, indiferente aos jovens que promoviam ali uma festa; a capela do Campo Alegre, cuja construção meu pai chamou para si há quase meio século, mas que agora foi aumentada e ganhou uma torre e um novo sino; a tarde em que nos perdemos numa estrada secundária, quase intransitável, e a noite desceu de repente com sua ópera de sapos e gemidos lancinantes de aves invisíveis; o jantar daquela mesma noite, num pequeno restaurante onde um garçom de 14 anos de nome Luís Henrique nos serviu uma comida saborosa espantosamente barata que, a crer em suas palavras, ele mesmo preparou.         E também houve um mo...  Ler Tudo >>

A viagem de volta IV

[07-01-2010] |
A fita de asfalto. Em quinze minutos se está em Santa Rosa da Serra, a sede do município. Quis ver a igreja onde havia ajudado missa. Umas mulheres me indicaram a casa paroquial. Estranhei que elas dispensassem ao pároco o tratamento de “Dom”. Dom José, disseram. Dom José Martins da Silva.          Fui até lá e enfiei a cabeça pela abertura da janela. Dom José terminava de almoçar. Uma copeira retirava a louça da mesa. Apresentei-me dali mesmo, de pé, e disse a que vinha. Contou-me que durante vinte anos foi bispo e depois arcebispo em Porto Velho, capital de Rondônia. Uma doença coronariana o afastou das funções, além do calor amazônico que ele nunca suportou bem. O Vaticano aceitou sua renúncia e lhe deu essa paróquia pequena, tranquila, na lonjura mineira, onde esperava terminar seus dias.         Indaguei de um pároco que servira ali muito tempo antes, um padre jovem chamado Luiz Vaz de Lima, para outros Luizinho, que depois se casou com uma paroquiana. Soube que tinha morrido cedo...  Ler Tudo >>

A viagem de volta III

[03-01-2010] |
O rancho de pau a pique há muito foi derrubado. Mas ainda hoje me aparece em sonhos. Moramos ali antes da compra da primeira casa de alvenaria. Uma vez, eu tinha então seis anos, uma das paredes de barro cedeu com as chuvas e veio abaixo com um ruído de coisa que se rasgava. Da tarimba onde estava deitado vi o dia clarear de repente. Abriu-se à minha frente a vastidão do pasto e vi-me em campo aberto. Aos berros chamei todo mundo para que constatassem a novidade espantosa.         Peço ajuda a Geraldinho Nunes, irmão do professor Tarciso, para precisar o local exato do rancho. Ele avança alguns passos e diz: “Era bem aqui”. Tiãozinho, irmão mais moço dos dois, era novo demais para se lembrar. Agora, como eu, já passou dos cinquenta. Geraldinho acaba de chegar montado num trator na companhia de Tiãozinho e de Dolfe, seu cachorro. Reconheço-o de pronto: a expressão arguta plena de autoridade moral. Pergunto-lhe se se recorda do dia em que mediu minha altura com uma trena, contra a parede...  Ler Tudo >>

A viagem de volta III

[02-01-2010] |
O rancho de pau a pique há muito foi derrubado. Mas ainda hoje me aparece em sonhos. Moramos ali antes da compra da primeira casa de alvenaria. Uma vez, eu tinha então seis anos, uma das paredes de barro cedeu com as chuvas e veio abaixo com um ruído de coisa que se rasgava. Da tarimba onde estava deitado vi o dia clarear de repente. Abriu-se à minha frente a vastidão do pasto e vi-me em campo aberto. Aos berros chamei todo mundo para que constatassem a novidade espantosa.         Peço ajuda a Geraldinho Nunes, irmão do professor Tarciso, para precisar o local exato do rancho. Ele avança alguns passos e diz: “Era bem aqui”. Tiãozinho, irmão mais moço dos dois, era novo demais para se lembrar. Agora, como eu, já passou dos cinquenta. Geraldinho acaba de chegar montado num trator na companhia de Tiãozinho e de Dolfe, seu cachorro. Reconheço...  Ler Tudo >>

A viagem de volta II

[29-12-2009] |
A fita de asfalto serpeia entre colinas suaves. Tenho dificuldade de adivinhar os contornos da paisagem. Tanta coisa mudou ou mudei eu? Percebo que não há força de inércia que resista a quatro décadas. Antes a estrada era de terra. E na entrada do povoado um grande outdoor se apresenta para dizer que “aqui se bebe água tratada pela Copasa”.         E nem bem apontam os primeiros telhados, compreendo que são casas populares, um renque de construções iguais e pequeninas na beira da estrada. Homens, mulheres e crianças tomavam sol do lado de fora. Também isso não havia. Mas depois dessa surpresa inicial avisto o galpão da escola, aliás dois, pois construíram um segundo ao lado do primeiro. E finalmente eis o Campo Alegre: já estamos na artéria que leva ao coração do lugar, que em minha imaginação (e em meus sonhos) sempre foi a Casa Rocha.         Na Casa Rocha (armarinho, tecidos, conveniências em geral) pergunto se a árvore em frente ainda é a mesma. O rapaz que está por trás do balcão,...  Ler Tudo >>

A viagem de volta - I

[25-12-2009] |
O hotel Porto Bello, em Uberaba, é simples e aconchegante. Uma escada em caracol leva ao andar de cima. Fui alojado no quarto 116, contente de encontrar uma escrivaninha e uma cadeira ao lado da cama. Apesar do cansaço e da hora tardia (já passava das duas da manhã), sentei para tomar nota das impressões mais vívidas das últimas oito horas.      Não eram muitas. Uma árvore alta e de galharia soberbamente distribuída (como um cálice) que vi no meio do campo verde, depois de Leme, atraente a ponto de eu manter a cabeça voltada atrás até perdê-la de vista. As tintas sanguíneas do céu sobre a Anhanguera, estrada muito menos opressiva no sentido interior que no trecho Campinas–São Paulo. As luzes de Ribeirão Preto emergindo na distância, como um grande navio iluminado. A entrada por suas ruas centrais tão semelhantes às de Campinas, embora mais sujas. O Pinguim, choperia que é quase uma extensão do Teatro Pedro II, tão animada é, e onde causamos espanto ao desprezar o famoso chope por refri...  Ler Tudo >>

Sobre viver e escrever

[21-12-2009] |
JULES RENARD “Todo mundo vai bem por aqui. Minha mulher me ama, meus filhos são encantadores. Meus amigos são dedicados. Minha peça faz sucesso. Meus livros se vendem bem. O cachorro da porteira também me adora. Família, amizade, trabalho, tudo me sai a contento. Mas estou infeliz. Não. Vou bem, obrigado. Gosto de almoçar, de lanchar e de jantar. Gosto da primavera, do verão, do outono e do inverno. Nenhuma satisfação do mundo me ficou alheia. Nos museus, aprecio ao cêntuplo as obras-primas. Mas sou infeliz. Tenho tudo o que é preciso para remediar a desgraça; deram-me ironia, malícia, estilo. E aparo maravilhosamente cada ataque específico, desviei a solidão com uma mulher, um filho e uma filha. Mas sou infeliz. Não há remédio.”  AMIEL “Saí com uma frota, e é com uma tábua que entro no porto. Que mortandade de esperanças, que morticínio de ilusões! Tudo me estava aberto e era possível: agora me escondo no meu canto, disputando a minha saúde à natureza e a minha tranquilidade aos homen...  Ler Tudo >>

Sobre viver e escrever

[21-12-2009] |
JULES RENARD “Todo mundo vai bem por aqui. Minha mulher me ama, meus filhos são encantadores. Meus amigos são dedicados. Minha peça faz sucesso. Meus livros se vendem bem. O cachorro da porteira também me adora. Família, amizade, trabalho, tudo me sai a contento. Mas estou infeliz. Não. Vou bem, obrigado. Gosto de almoçar, de lanchar e de jantar. Gosto da primavera, do verão, do outono e do inverno. Nenhuma satisfação do mundo me ficou alheia. Nos museus, aprecio ao cêntuplo as obras-primas. Mas sou infeliz. Tenho tudo o que é preciso para remediar a desgraça; deram-me ironia, malícia, estilo. E aparo maravilhosamente cada ataque específico, desviei a solidão com uma mulher, um filho e uma filha. Mas sou infeliz. Não há remédio.”  AMIEL “Saí com uma frota, e é com uma tábua que entro no porto. Que morta...  Ler Tudo >>

Sobre viver e escrever

[21-12-2009] |
“Todo mundo vai bem por aqui. Minha mulher me ama, meus filhos são encantadores. Meus amigos são dedicados. Minha peça faz sucesso. Meus livros se vendem bem. O cachorro da porteira também me adora. Família, amizade, trabalho, tudo me sai a contento. Mas estou infeliz. Não. Vou bem, obrigado. Gosto de almoçar, de lanchar e de jantar. Gosto da primavera, do verão, do outono e do inverno. Nenhuma satisfação do mundo me ficou alheia. Nos museus, aprecio ao cêntuplo as obras-primas. Mas sou infeliz. Tenho tudo o que é preciso para remediar a desgraça; deram-me ironia, malícia, estilo. E aparo maravilhosamente cada ataque específico, desviei a solidão com uma mulher, um filho e uma filha. Mas sou infeliz. Não há remédio.”  AMIEL “Saí com uma frota, e é com uma tábua que entro no porto. Que mortandade de esperan&c...  Ler Tudo >>

Os casulos

[17-12-2009] |
À noite, no seu quartinho, sentou-se diante do espelho para escrever uma carta. Pretendia que fosse uma carta de amor. Tinha a firme intenção de se declarar, mas deu tantas voltas que, ao cabo, a intenção se dissipou em confidências inócuas e na descrição de um sonho. No objeto de sua paixão propriamente não tocava. Esperava que ela soubesse ler nas entrelinhas.         A essência da carta era um sonho. Não explicava quando o tinha sonhado, se antes ou depois do passeio de bicicleta com ela. Na verdade isso importava pouco, pois tudo não passava do produto de sua fantasia e de um estratagema para impressioná-la. Assim, nesse sonho inventado ele estava em companhia de Letícia na cidade de Praga.          Passeavam pela cidade.           Num bosque à margem do Graben estalava o canto das cigarras. Centenas, talvez milhares de cigarras. Caminhavam por entre choupos e cedros velhos, sob intenso zumbido metálico, como se uma velha orquestra medieval afinasse ali o seu naipe de trombetinhas ...  Ler Tudo >>

Acasos

[13-12-2009] |
Há um livrinho de Paul Auster, O caderno vermelho, que relata uma série de histórias supostamente autobiográficas, centradas no poder do acaso em sua vida. Auster, um prestigiado autor americano, coincide com Jung e sua conhecida teoria da sincronicidade, tão famosa quanto tripudiada pelos cartesianos, sobretudo quando ele procurava colocá-la a serviço do prognóstico, ou pior, de diagnósticos. Auster garante que, dos quatro casos de pneus furados que teve desde que aprendeu a dirigir, em todos estava acompanhado de um colega que somente de vez em quando aparecia, com a agravante de que os quatro incidentes se deram em três países diferentes. Auster informa que, por mais que tentasse racionalizar as coincidências, sua amizade com esse colega esfriou a um ponto de não mais se verem.    Sou permeável ao encantamento dos chamados fenômenos sincrônicos e às vezes me vejo obrigado a tomar um antídoto para ser devolvido à razão. Esse santo remédio pode ser encontrado, por exemplo, no filósofo...  Ler Tudo >>

Viagens no tempo e no espaço

[08-12-2009] |
Na última página da História universal da infâmia Borges fala dos cartógrafos de um certo império cujos mapas, de tão desmedidos e minuciosos, tinham o tamanho do próprio império e coincidiam com ele ponto por ponto. Com isso Borges previu o Google Earth, esse imenso mapa-múndi que se pode percorrer na tela do computador, bastando para isso baixar o respectivo programa. Nele se pode viajar folgadamente e ver as mais belas paragens sem nenhum esforço, de uma rua de Paris às mais remotas ilhas dos mares do Sul. Graças à sua capacidade de aproximação e afastamento, pode-se praticamente andar ao rés da terra ou subir vertiginosamente à altura dos satélites que fotografaram, com a minúcia dos cartógrafos de Borges, cada palmo da crosta terrestre.          Sem pagar um centavo, tenho feito grandes viagens por...  Ler Tudo >>

No Mappin

[04-12-2009] |
Nesse dia a mãe veio vê-lo. Nico levou-a ao Mappin para ela comprar uma blusa. Começava a esfriar e ela não estava preparada. Enquanto a mãe percorria a seção de roupa feminina, deslizando em câmera lenta de ilha em ilha, com a firme intenção de percorrer todo o arquipélago, Nico sentou-se numa cadeira e abriu um livro.      Na cadeira vizinha estava sentada uma mulher que também lia um livro. Observou-a de soslaio. Tinha o rosto ovalado, os olhos eram verdes e os cabelos escuros desciam até os ombros. O tecido da blusinha fina colava-se ao tronco frágil e delicado que no entanto descrevia um harmonioso percurso até os quadris fortes e destes para a solidez das coxas sob a saia estampada. Nico levou um pequeno susto quando viu a capa do livro que ela lia: era o mesmo que ele trazia, isto é, o Quincas Borba de Machado de Assis.       A quem ela espera? Logo teve a resposta. Um homem se aproximou, entregou-lhe qualquer coisa em silêncio (um silêncio pesado) e afastou-se outra vez em dire...  Ler Tudo >>

O diário de Susan Sontag

[29-11-2009] |
Ícone da contracultura norteamericana nos anos 60 e 70 do século passado desde seu célebre Contra a interpretação (1966), conjunto de ensaios que a celebrizou, volta a reavivar-se o mito da ensaísta e romancista Susan Sontag com a publicação de seu diário de juventude (Diários, Companhia das Letras, 2009), o primeiro de três volumes previstos.   Diferentemente de Kafka, que mandara destruir a maior parte de sua obra inédita e inclusive seu diário (no que não foi obedecido), Susan Sontag não deixou nenhuma instrução sobre o que fazer com seus papéis e escritos inacabados ou não organizados. Na introdução a este primeiro volume, que cobre o período de 1947 a 1963, dos 14 aos 30 anos da escritora, seu filho David Rieff admite que chegou a pensar em queimar a centena de cadernos que encontrou no armário do quarto dela após sua morte em 2004, aos 71 anos de idade, depois de prolongada luta com uma leucemia mieloide. Havia ali revelações a que talvez ela não quisesse dar publicidade. Mas qua...  Ler Tudo >>

O blazer

[25-11-2009] |
A redação da Gazeta ficava no último andar, o sexto. Quatro janelões se abriam para o prédio do antigo Jockey Club. À tarde, pombos vinham pousar nos parapeitos. Certa vez um pombo pousou bem na minha mesa. Tomei aquilo como um bom presságio, uma espécie de anunciação ou então, vá lá, o emblema da ave com o ramo verde no bico: o edifício do jornal uma arca a caminho de algum Ararat. Ora, eu estava a um passo do meu destino. Embora fosse ainda um estagiário e me pagassem apenas um pouco mais do que na lanchonete, estava ébrio de satisfação.         Minha mente se alargava, distendia-se, crepitava. Eu finalmente podia medir forças com o mundo. Começava a mostrar do que era capaz. No dia de meu primeiro pagamento, desci à tesouraria e apanhei o dinheiro. Trazia no bolso da camisa o recorte de meu primeiro...  Ler Tudo >>

Sonhos constelados

[20-11-2009] |
Respostas a Aline Naoe, que ao ser informada de que sou um grande sonhador me encaminha um questionário para fundamentar seu trabalho de conclusão de curso.  Que motivos o levaram ao hábito de anotar sonhos? O principal motivo foi a descoberta de que os sonhos são narrativas autônomas, nem sempre caudatárias da chamada vida vígil, e que podem ser interpretadas. A leitura de Carl Jung, mais até que a de Freud, me encorajou a anotar e a buscar compreender meus sonhos. Na introdução a meu diário pessoal (Viagem ao centro do dia, A Girafa, 2007), cuja publicação foi muito induzida por sonhos recorrentes, escrevi o seguinte: “Dou importância aos sonhos noturnos enquanto emanações do inconsciente. Não por sua mitologia premonitória, no sentido bíblico, mas porque tornam as noites interessantes e revelam qualquer coisa sobre o eu em estado puro. Essas narrativas podem se tornar uma segunda vida e atenuar a sensação de brevidade da existência”.  O que você tem percebido por meio dessas anotaçõ...  Ler Tudo >>

O tempo e o vento

[16-11-2009] |
Dos 17 aos 18 anos, para pagar a faculdade, trabalhei em bares. Num eu lavava copos e servia sorvetes no balcão. Em outro fui elevado à condição de caixa e tinha uma visão periférica do ambiente, em vez do rés do chão de onde só via a cara dos fregueses e o interior das geladeiras. Este último era um bar-restaurante chamado Embu e ficava no entorno do balão do Castelo. A praça não era o calçadão circular de hoje, havia árvores e umas floreiras selvagens, mas a torre d’água segue sendo a mesma embora se mire lá de cima uma cidade bem diferente.     De manhã chegava o caminhão de gelo e o carregador entrava com a barra no ombro, protegido por um saco de aniagem: provisão para o chope. Os clientes demoravam um pouco a aparecer. Enquanto isso, conversava-se – os balconistas, os dois garçons (um dos quais, o...  Ler Tudo >>

Sufoco

[10-11-2009] |
Altas horas, eu descia a pé a Rua José Paulino, em Campinas, quando alguém me chamou da calçada oposta. Era Wilson, um negro alto e gordote que eu conhecia de frequentar a sorveteria. Vestia um blusão de couro e atravessou a rua quando esperei por ele. Estávamos na altura do antigo Colégio Coração de Jesus. Peneirava um chuvisco fino.       — Tempo miserável esse, hein, disse Wilson.       Começamos a descer a rua juntos. No Centro de Saúde, um mendigo dormia estendido na soleira da porta. Wilson perguntou se era verdade que eu escrevia poemas. Sim, respondi. Ele ouvira dizer que eu também escrevia em latim e grego. Desmenti esse boato: no máximo sabia umas declinações, uns prefixos.       — Seu irmão me disse que você aprendeu latim e grego na escola de padres. E que escreve peças de teatro também.       — Não é bem isso, respondi.       Começou a me dar conselhos. Dizia que um poeta como eu não devia trabalhar num bar. Respondi que era um trabalho temporário e que precisava do dinhei...  Ler Tudo >>

Na corrente da vida

[05-11-2009] |
............................ que se eu tivesse de contar a alguém a minha vida, começaria por esta manhã, pensou Nico. Daria enérgicas pinceladas para trás e para diante, à esquerda e à direita, acima e abaixo, mas começaria por esta manhã.      Vou fazer 18 anos em outubro. Trabalho num bar e pela primeira vez vivo do que ganho. Na luminosidade que entra pela janelinha do quarto – pouco mais que uma clarabóia aberta para o calçamento e para o toldo com as mesinhas embaixo, todas de um vermelho vivo e novo – a manhã é ainda fresca como um feixe de legumes novos, como o coração macio de alguma coisa também nova, um eixo, um epicentro, um ponto de partida.      Hesito se faço a barba antes ou depois do banho. Presumo que o banho serve para amaciar a pele e propiciar um corte mais suave e rente, mas não deixo de pensar que entre duas obrigações é sempre melhor começar pela menos agradável.       Pela barba, então.      Enquanto vou ensaboando a cara, sinto meu corpo vibrar por baixo da to...  Ler Tudo >>

Na corrente da vida

[05-11-2009] |
..................................................................................................................................................................................................................................................................................... que se eu tivesse de contar a alguém a minha vida, começaria por esta manhã, pensou Nico. Daria enérgicas pinceladas para trás e para diante, à esquerda e à direita, acima e abaixo, mas começaria por esta manhã.      Vou fazer 18 anos em outubro. Trabalho num bar e pela primeira vez vivo do que ganho. Na luminosidade que entra pela janelinha do quarto – pouco mais que uma clarabóia aberta para o calçamento e para o toldo com as mesinhas embaixo, todas de um vermelho vivo e novo – a manhã é ainda fresca como um feixe de legumes novos, como o coração macio de alguma coisa também nova, um eixo, um epicentro, um ponto de partida.      Hesito se faço a barba antes ou depois do banho. Presumo que o banho serve para ama...  Ler Tudo >>

Na corrente da vida

[04-11-2009] |
................... que se eu tivesse de contar a alguém a minha vida, começaria por esta manhã, pensou Nico. Daria enérgicas pinceladas para trás e para diante, à esquerda e à direita, acima e abaixo, mas começaria por esta manhã.      Vou fazer 18 anos em outubro. Trabalho num bar e pela primeira vez vivo do que ganho. Na luminosidade que entra pela janelinha do quarto – pouco mais que uma clarabóia aberta para o calçamento e para o toldo com as mesinhas embaixo, todas de um vermelho vivo e novo – a manhã é ainda fresca como um feixe de legumes novos, como o coração macio de alguma coisa também nova, um eixo, um epicentro, um ponto de partida.      Hesito se faço a barba antes ou depois do banho. Presumo que o banho serve para amaciar a pele e propiciar um corte mais suave e rente, mas não deixo de pensar que entre duas obrigações é sempre melhor começar pela menos agradável.       Pela barba, então.      Enquanto vou ensaboando a cara, sinto meu corpo vibrar por baixo da toalha. Par...  Ler Tudo >>

Como terminar um livro

[01-11-2009] |
Para este mês de novembro me impus a tarefa de terminar um livro. Um livro que me persegue há vinte anos. Sempre o adiei em favor de outros. De modo que com o passar do tempo ele se tornou um coágulo a atravancar o fluxo de ideias novas, o jorro da imaginação. Mas desde que há um ano resolvi tomá-lo pelos chifres (a esse touro bravo) avancei bastante no trabalho de desobstrução. Já estou perto do fim, ou penso que estou. O problema agora é outro: como terminá-lo.         Como se termina um livro? Folheio aqui e ali autores de minha predileção. Preciso recordar como eles concluíram suas obras-primas. Um livro, afinal, é antes de tudo uma sucessão de frases. O final é apenas a última frase. De repente, parece simples. Tento esta fórmula: “Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha ução e que me recebessem com gritos de ódio”. Bonito, não?          Mas um tanto triste. Depois, não trato de uções públicas ...  Ler Tudo >>

Escolha o seu mistério

[28-10-2009] |
Quem há de lhe explicar, leitor? Quem há de lhe explicar por que, no justo momento em que você cruza aquela rua, naquele bairro onde nunca antes esteve, numa cidade até então desconhecida para você, uma forte impressão de coisa já vista se apodera de você, como se aquela cidade lhe fosse familiar, como se já houvesse percorrido o mesmo bairro, cruzado a mesma rua e pensado idêntico pensamento?Que estranha sensação, leitor, como quando você, estando numa roda de pessoas conhecidas e outras nem tanto, onde se ri e se fala de futebol ou de um churrasco e se comenta a vida de alguém, subitamente a atmosfera se impregna de um sentimento de atemporalidade e você pensa aquela mulher vai abrir a boca e dizer tal coisa, e você nem se surpreende muito quando isso de acontece, a mulher abre a boca e diz exatamente aquilo que você imaginou que ela diria, parecendo que há milênios você sabia o que estava para ser dito. Você dorme e sonha com seu quarto de infância, mas num cenário tão nítido que a ...  Ler Tudo >>

Por que me ufano

[24-10-2009] |
O patriota incondicional sempre me impressionou. Conheci alguns. Um deles foi sem dúvida o bom e velho Ezequiel, que comandava a extinta casa comercial do mesmo nome, na rua Treze de Maio. Nos dias de festa cívica ele desfilava com um pavilhão desfraldado bem à frente da banda do Exército. Eu era jovem demais para ter familiaridade com ele, mas estava fascinado por sua semelhança espiritual com o conde de Afonso Celso, autor do impagável Por que me ufano do meu país (1900), e para quem o Brasil marchava implacavelmente para a glória universal.Na mesma linhagem se poderia colocar também o escritor Nelson Rodrigues, cuja causticidade para com o gênero humano não se aplicava ao brasileiro, que para ele era capaz de proezas sobrenaturais. Nada detinha o seu otimismo titânico, nem mesmo a prisão de seu filho Nelsinho, torturado pelo regime militar, que ele absurdamente continuou apoiando.Com a miséria batendo nos costados dos condomínios de luxo, Nelson insistia em dizer que “a Europa é uma...  Ler Tudo >>

O observador de nuvens

[19-10-2009] |
Acordo muito cedo (estranho capricho da mente insone) e venho para o escritório no fundo do quintal. Antes, na cama, pensava no livro em preparo como um objeto vivo, que tem alma. Pensava nos capítulos já prontos e impressos, estendidos no tampo da mesa em folhas duplas de jornal, ainda em estado de folhetim. É a crisálida antes de se tornar borboleta. É este o momento mais feliz. AVENTURA          Sinto menos o prazer da edição do livro no momento em que ela se consuma. As alegrias são anteriores. Há o sofrimento da escrita e por vezes a felicidade de um capítulo bem construído. Também é feliz o instante em que chega o contrato do editor, geralmente pelo correio, como um pombo batendo asas. Mas nada se compara ao sopro de alívio (e às vezes de plenitude, embora fugaz) quando o coração sente que está prestes a encerrar a aventura do texto com um ponto final que não é outra coisa senão uma morte consentida, uma morte com doçura. Depois disso há uma separação progressiva da obra, com um ...  Ler Tudo >>

Os hipnotizadores

[14-10-2009] |
Se o mundo da infância é regido pelas leis do fetiche, imagine quando o mundo adulto, que reina absoluto sobre o da infância, é ele próprio dominado por visões aterradoras do Céu e do Inferno, de anjos caídos e santos imolados. Nessa atmosfera onírica os hipnotizadores operavam prodígios. Acrescente-se que esse mundo era um colégio interno encravado nas montanhas de Minas, de uma disciplina absolutista, quatro décadas atrás. No íntimo eu me obstinava em pôr em dúvida tudo aquilo, visando fazer germinar uma benévola sementinha de ceticismo na minha horta espiritual, mas da ação dos hipnotizadores não era possível duvidar. Eles operavam suas maravilhas à luz do dia, bem diante dos nossos narizes.Havia padre Jonas, por exemplo, um homem alto, robusto e inteiramente calvo, de olhos claros e dilatados que pareciam ler o interior de nossas compungidas almas de pré-adolescentes. Sempre que o encontrávamos rezando o seu breviário pelos corredores, o que era raro (ele preferia fazê-lo em seu qu...  Ler Tudo >>

Chuvas tropicais

[10-10-2009] |
Veio a primeira chuva de primavera, como um prenúncio das tempestades do verão brasileiro. Na terça-feira fui apanhado por ela em plena rua. Refugiei-me numa pizzaria, me acomodei numa mesa vazia ao lado da vidraça, pedi um refrigerante e me entreguei a minha diversão preferida: esvaziar a mente, não fazer nada.         Apenas olhar a rua. A água corria aos borbotões pela sarjeta. A enxurrada se formou depressa e já trazia com ela toda sorte de detritos: papéis, gravetos, folhas de árvores. A todo instante uma garçonete saía para a calçada, sob a proteção de um enorme guarda-chuva, e livrava a grade do bueiro para que a água não juntasse na porta do estabelecimento. Lembrei-me que em Minas aquilo era a coivara, isto é, os sedimentos que se detêm na curva dos rios, imobilizados ali pela pressão da água. E me lembrei também de uma outra chuva e de uma outra pizzaria, já desaparecida, a Etna, que ficava no entorno da praça do Castelo. Pertencia a uns italianos e Carmelo, um deles, recitou...  Ler Tudo >>

Chuvas tropicais

[10-10-2009] |
Veio a primeira chuva de primavera, como um prenúncio das tempestades de verão. Na terça-feira fui apanhado por ela em plena rua. Refugiei-me numa pizzaria, me acomodei numa mesa vazia ao lado da vidraça, pedi um refrigerante e me entreguei a minha diversão preferida: esvaziar a mente, não fazer nada.         Apenas olhar a rua. A água corria aos borbotões pela sarjeta. A enxurrada se formou depressa e já trazia com ela toda sorte de detritos: papéis, gravetos, folhas de árvores. A todo instante uma garçonete saía para a calçada, sob a proteção de um enorme guarda-chuva, e livrava a grade do bueiro para que a água não juntasse na porta do estabelecimento. Lembrei-me que em Minas aquilo era a coivara, isto é, os sedimentos que se detêm na curva dos rios, imobilizados ali pela pressão da água. E me...  Ler Tudo >>

Diálogo com Kafka

[05-10-2009] |
Com a ajuda dos senhores agentes ferroviários, cujo amor pela literatura é conhecido e para os quais não existe o tempo, pude dar com os costados na Praga de 1920. Garoava sobre a velha cidade onde, por essa época, ainda vivia Franz Kafka. Era um homem alto e magro, de seus 37 anos, que tinha tido três noivas e continuava solteiro. Viajei para esclarecer de uma vez por todas  este seu dilema irresolvido.          — O que tenho a fazer só posso fazê-lo em solidão, justificou-se ele quando lhe formulei a pergunta: por que não se casava, como queria seu pai.         — Mas o que há de tão importante a fazer?          — Chegar ao conhecimento das coisas derradeiras.         — Puxa! E não dá para fazer isso casando-se?         — Quer mesmo saber? É que a ideia de uma viagem de núpcias me apavora.         Anos antes ele se comportara muito mal com Felice Bauer, sua primeira noiva, quase na véspera da publicação dos proclamas. Ele desfez tudo na última hora.           — Eu me senti amarrado co...  Ler Tudo >>

1880, o ano em que Machado se reinventa

[30-09-2009] |
Que teria acontecido a Machado de Assis no ano da graça de 1880? Entrava no undécimo ano de seu inalterável casamento e levava existência igualmente serena no serviço público, onde era estimado e gozava de alta reputação. Chegara aos 40 anos e, para os padrões intelectuais da época, granjeara já suficiente prestígio com os quatro romances que publicara até então.         A França já havia produzido Balzac e Stendhal, a Inglaterra Sterne e Fielding, a América Poe e Melville, Portugal Herculano e Camilo, mas o romance brasileiro mal acabara de completar 20 anos e parecia lastreado, não no vigor dos melhores realistas, mas na moral romântica do século. Estavam já plantadas as sementes do marxismo, Paris era agitada pelos impressionistas e no ano seguinte nasceria Picasso, mas essas eram vibrações que chegavam amortecidas pelo riso ou silenciavam na atmosfera abafadiça da sociedade escravocrata. As ideias que aqui circulavam eram as que resultariam, um pouco mais tarde, no positivismo mili...  Ler Tudo >>

1880, o ano em que Machado se reinventa

[30-09-2009] |
Que teria acontecido a Machado de Assis no ano da graça de 1880? Entrava no undécimo ano de seu inalterável casamento e levava existência igualmente serena no serviço público, onde era estimado e gozava de alta reputação. Chegara aos 40 anos e, para os padrões intelectuais da época, granjeara já suficiente prestígio com os quatro romances que publicara até então.         A França já havia produzido Balzac e Stendhal, a Inglaterra Sterne e Fielding, a América Poe e Melville, Portugal Herculano e Camilo, mas o romance brasileiro mal acabara de completar 20 anos e parecia lastreado, não no vigor dos melhores realistas, mas na moral romântica do século. Estavam já plantadas as sementes do marxismo, Paris era agitada pelos impressionistas e no ano seguinte nasceria Picasso, mas essas eram vibrações que chegavam amortecidas pelo riso ou silenciavam na atmosfera abafadiça da sociedade escravocrata. As ideias que aqui circulavam eram as que resultariam, um pouco mais tarde, no positivismo mili...  Ler Tudo >>

Cartas a minha filha

[26-09-2009] |
Buscávamos antigos álbuns de fotografias quando de um gavetão emergiu, misterioso, um envelope contendo um maço de folhas dobradas ao meio. Eram umas cartas que aos vinte e um anos escrevi a minha filha, na esperança de que ela um dia as lesse e dali tirasse as lições que minha juventude se julgava em condição de lhe dar.      Mas, sendo as coisas como são, a verdade é que essas cartas nunca foram entregues. E agora que emergiam, sua destinatária as arrebatou de um salto e principiou a lê-las ali mesmo, causando em  mim um natural nervosismo. Começava chamando-a minha camaradinha. “Coisa misteriosa o tempo”, eu lhe escrevia em novembro de 1973, quando ela tinha três meses de vida. “No ponto futuro em que você se encontra, será que já inventaram pequenos carros voadores para cada um de nós? Será que os extraterrestres já se mostraram aberta e definitivamente?”.      Procurava dar uma idéia de como era a nossa vida de então: “Muito simples. Moramos numa casa de três cômodos”. Transpareci...  Ler Tudo >>

O sucesso do fracasso

[21-09-2009] |
Há algum tempo uma conhecida tela de Vincent van Gogh, Rapaz de quepe, foi vendida por 15 milhões de dólares. Nada a estranhar. Um de seus girassóis estava cotado a 35 milhões. O espanto seria do próprio pintor se pudesse presenciar um desses leilões. Van Gogh morreu em 1890 sem ter vendido um só quadro na vida. Não tinha dinheiro nem para comprar tinta. Perto de morrer, presenteou seu médico (esteve internado num sanatório) com uma tela que foi usada durante anos para tapar buraco num galinheiro. Um sujeito esperto passou por lá e comprou-a por uma bagatela. Ficou rico.         Só muito mais tarde, nos anos 30 do século 20, é que fariam de Van Gogh um dos gigantes da pintura moderna. E Inês era morta havia muito. Pode-se dizer que algo parecido aconteceu com o poeta Fernando Pessoa, que vivia de biscates em escritórios contábeis de Lisboa, quase sem nenhum reconhecimento. Só depois de sepulto nos Jerônimos é que foram ver quem era: um dos maiores do século.         E aí me lembro da f...  Ler Tudo >>

O sucesso do fracasso

[21-09-2009] |
Há algum tempo uma conhecida tela de Vincent van Gogh, Rapaz de quepe, foi vendida por 15 milhões de dólares. Nada a estranhar. Um de seus girassóis estava cotado a 35 milhões. O espanto seria do próprio pintor se pudesse presenciar um desses leilões. Van Gogh morreu em 1890 sem ter vendido um só quadro na vida. Não tinha dinheiro nem para comprar tinta. Perto de morrer, presenteou seu médico (esteve internado num sanatório) com uma tela que foi usada durante anos para tapar buraco num galinheiro. Um sujeito esperto passou por lá e comprou-a por uma bagatela. Ficou rico.         Só muito mais tarde, nos anos 30 do século 20, é que fariam de Van Gogh um dos gigantes da pintura moderna. E Inês era morta havia muito. Pode-se dizer que algo parecido aconteceu com o poeta Fernando Pessoa, que vivia de biscates em escritórios contábeis de Lisboa, quase sem nenhum reconhecimento. Só depois de sepulto nos Jerônimos é que foram ver quem era: um dos maiores do século.         E aí me lembro da f...  Ler Tudo >>

Como e por que fui comunista

[17-09-2009] |
De repente, num dia de abril que também era o da mentira, tornei-me comunista. No refeitório, quando eu disse que não tinha mais vontade de rezar por revolução nenhuma, descumprindo uma ordem que vinha do alto, Tarcisinho me indigitou:— Comunista!Aquilo soou esquisito, mas não me desagradou. Eu tinha ouvido dizer que os comunistas, embora fossem ateus e fechassem as igrejas, queriam justiça social. Havia uma certa nobreza naquilo e coragem também. E eu estava cansado de amealhar indulgências para escapar do inferno. Por isso, com raiva, resolvi chutar o balde para ver no que dava:— Comunista, sim senhor! Pois eu sou comunista!Pálido, Tarcisinho prometeu levar o assunto ao padre-reitor. Aquilo me deixou furioso. E quando ele gritou comigo e me chamou de “herege” e “comedor de criancinha”, não suportei a afronta e atirei-lhe uma colherada de feijão quente na cara. Os colegas da mesa me olharam com um misto de assombro e admiração. Comunista! Pois sim, eu seria comunista! E ele, um dedo-d...  Ler Tudo >>

O dia em que eu fui comunista

[17-09-2009] |
De repente, num dia de abril que também era o da mentira, tornei-me comunista. No refeitório, quando eu disse que não tinha mais vontade de rezar por revolução nenhuma, descumprindo uma ordem que vinha do alto, Tarcisinho me indigitou:— Comunista!Aquilo soou esquisito, mas não me desagradou. Eu tinha ouvido dizer que os comunistas, embora fossem ateus e fechassem as igrejas, queriam justiça social. Havia uma certa nobreza naquilo e coragem também. E eu estava cansado de amealhar indulgências para escapar do inferno. Por isso, com raiva, resolvi chutar o balde para ver no que dava:— Comunista, sim senhor! Pois eu sou comunista!Pálido, Tarcisinho prometeu levar o assunto ao padre-reitor. Aquilo me deixou furioso. E quando ele gritou comigo e me chamou de “herege” e “comedor de criancinha”, não suportei a afronta e atirei-lhe uma colherada de feijão quente na cara. Os col...  Ler Tudo >>

Os sapatos

[13-09-2009] |
O bispo de Luz ia fazer 50 anos. Ia haver uma festa, missa campal, sermão, discurso do prefeito. De há muito corriam os preparativos. Foi quando pediram ao menino que escrevesse uma página, uma página de prosa poética para ser lida no dia, alguma coisa simples e bonita que falasse também pelos outros, os demais meninos do seminário, uma centena quase.          O menino levou apenas uma hora para escrever a página, mas depois levou dois dias reescrevendo-a, polindo aqui, cortando ali, cinzelando acolá. Como ainda faltasse uma semana, dormiu com a página debaixo do travesseiro, sonhou com ela, que a tinham roubado, que o dia da festa havia chegado e ele, tomado de misteriosa paralisia, não conseguia escrever outra. Acordou suando frio. Fez duas cópias à mão para o caso de haver algum incidente.         Na sua página de prosa poética, que era uma espécie de saudação ao bispo e um elogio à sua condição de pastor de almas, o menino ressaltava, acima de tudo, o poeta que ele era. O bispo esc...  Ler Tudo >>

O quádruplo

[07-09-2009] |
Fernando Sabino, numa de suas viagens a Paris, suspirou para seu paredro Oto Lara Rezende: “Que bom se o Érico estivesse aqui, hein”. O Érico era o Érico Veríssimo, de O tempo e o vento, outro que conhecia a cidade de frente e do avesso. Na cabeça de Sabino, o Érico se achava em Porto Alegre escrevendo um novo livro. Mas, de repente, para espanto do Sabino, eis que surge o Érico em carne e osso, de braço dado com a sua Mafalda, vindo a passo lento pelo bulevar Saint-Germain.Esse tipo de coincidência tem seu encanto justamente por causa de seu alto grau de improbabilidade. Julio Cortázar, em O jogo da amarelinha, que no meu entender é o melhor romance da segunda metade do século 20, joga com o encantamento dos encontros casuais. A trama de relações nasce da casualidade e nela se ramifica e prospera. Assunto sério não apenas para filósofos, mas também para os mestres da fuzzy logic.Tardezinha de sábado, muitos anos depois, na mesma Paris. Eu deixava os portões do Palais Royal, despedindo...  Ler Tudo >>

A guerra conjugal

[03-09-2009] |
         Deixemos por um momento os livros de lado. Tenho de socorrer um amigo. Ademais é um amigo poeta, talvez o maior poeta de Campinas, o que nos devolve ao mundo das letras. Veio me procurar porque seu casamento está em crise. Tudo começou quando ele a censurou por comprar tantos potes de cosméticos. Ela gasta uma fortuna nisso. Toda noite ela se senta diante do espelho e se besunta inteira com cremes e óleos. Depois, quando se deitam e ele tenta agarrá-la, ela escorrega como uma enguia para fora da cama. Nesse dia ele estava disposto a cobrar a fatura. Ela pretextou dor de cabeça. Disse que as dores de cabeça vêm importunando-a há meses. Ao que ele respondeu, distraído, que nesse caso era melhor chamar o veterinário. Ela lhe atirou um pote na cabeça.          Tenho talento para ouvir histórias desse tipo. São instrutivas e ajudam a formar uma ideia de como nascem e prosperam as querelas domésticas. E de como evoluem os casamentos. A certa altura da vida em comum, que pode variar ...  Ler Tudo >>

A guerra conjugal

[03-09-2009] |
         Deixemos por um momento os livros de lado. Tenho de socorrer um amigo. Ademais é um amigo poeta, talvez o maior poeta de Campinas, o que nos devolve ao mundo das letras. Veio me procurar porque seu casamento está em crise. Tudo começou quando ele a censurou por comprar tantos potes de cosméticos. Ela gasta uma fortuna nisso. Toda noite ela se senta diante do espelho e se besunta inteira com cremes e óleos. Depois, quando se deitam e ele tenta agarrá-la, ela escorrega como uma enguia para fora da cama. Nesse dia ele estava disposto a cobrar a fatura. Ela pretextou dor de cabeça. Disse que as dores de cabeça vêm importunando-a há meses. Ao que ele respondeu, distraído, que nesse caso era melhor chamar o veterinário. Ela lhe atirou um pote na cabeça.          Tenho talento para ouvir histórias desse tipo. ...  Ler Tudo >>

O cavalo e o rinoceronte

[31-08-2009] |
         Era novembro de 1998 e estávamos na casa de Micaela e Antônio Preto de Godoy. Uma festa em homenagem ao professor Julio Morejón, o autor de Unamuno y Portugal e criador do Centro Universitário Ibero-Americano.  Comentava-se uma campanha (que afinal deu em nada) para comprar para Campinas o rinoceronte de bronze de Salvador Dalí. Havia uma exposição de Dalí no MAC. O rinoceronte era a estrela. Alguém a meu lado se declarou totalmente contra.          — Contra por quê?          — Animal por animal, é melhor prestigiar o cavalo de Bernardo Caro. Pelo menos é brasileiro.         — Bernardo ou o cavalo?         — Os dois, embora Bernardo seja filho de espanhol.         A festa era aliás de espanhóis, e Bernardo era um dos presentes. Na beira da piscina cantavam-se enérgicas canções da Andaluzia em coro puxado pelo padre Miguel Llamazares. Salvador Dalí era catalão. Ouço que há uma segunda motivação, além da artística, para a compra do rinoceronte: é, que passando-se a mão em seus c...  Ler Tudo >>

Fogo contra fogo

[28-08-2009] |
Meus irmãos desbastavam um acre de samambaias. Pelo meio-dia cheguei com as marmitas. Foi quando o cachorro deu o alarme. Tanto latiu na boca de um buraco de tatu que algo lá dentro irritou-se. Meus irmãos postaram-se ao redor do buraco, esperando apoiados no cabo da enxada. De repente a coisa emergiu como um foguete do interior do buraco, grudando com raiva no focinho do cachorro. Era um ouriço. O cachorro ganiu e rolou morro abaixo, com o ouriço preso nas fuças. Rolando e solidamente cravado na cara do cachorro, o ouriço não emitia som algum.            — Cuidado com os espinhos!, gritou Zezé.          — Sai daí, Ostaque!, berrou Amador.         Ostaque era eu. Corri para o topo do morro enquanto eles desciam a ladeira atrás do bolo que parecia um bicho só, horrendo, cachorro e ouriço. De longe fiquei vendo tudo, trêmulo, o cachorro ganindo, o ouriço não desgrudando dele, o cavalo assustado, penachos de fumaça na lonjura da Serra da Saudade, meus irmãos entrando e saindo de baixo das...  Ler Tudo >>

Fogo contra fogo

[28-08-2009] |
Meus irmãos desbastavam um acre de samambaias. Pelo meio-dia cheguei com as marmitas. Foi quando o cachorro deu o alarme. Tanto latiu na boca de um buraco de tatu que algo lá dentro irritou-se. Meus irmãos postaram-se ao redor do buraco, esperando apoiados no cabo da enxada. De repente a coisa emergiu como um foguete do interior do buraco, grudando com raiva no focinho do cachorro. Era um ouriço. O cachorro ganiu e rolou morro abaixo, com o ouriço preso nas fuças. Rolando e solidamente cravado na cara do cachorro, o ouriço não emitia som algum.            — Cuidado com os espinhos!, gritou Zezé.          — Sai daí, Ostaque!, berrou Amador.         Ostaque era eu. Corri para o topo do morro enquanto eles desciam a ladeira atrás do bolo que parecia um bicho só, horrendo, cachorro e ouriço. De longe fiquei vendo tudo, trêmulo, o cachorro ganindo, o ouriço não desgrudando dele, o cavalo assustado, penachos de fumaça na lonjura da Serra da Saudade, meus irmãos entrando e saindo de debaixo d...  Ler Tudo >>

Fogo contra fogo

[28-08-2009] |
Meus irmãos desbastavam um acre de samambaias. Pelo meio-dia cheguei com as marmitas. Foi quando o cachorro deu o alarme. Tanto latiu na boca de um buraco de tatu que algo lá dentro irritou-se. Meus irmãos postaram-se ao redor do buraco, esperando apoiados no cabo da enxada. De repente a coisa emergiu como um foguete do interior do buraco, grudando com raiva no focinho do cachorro. Era um ouriço. O cachorro ganiu e rolou morro abaixo, com o ouriço preso nas fuças. Rolando e solidamente cravado na cara do cachorro, o ouriço não emitia som algum.            — Cuidado com os espinhos!, gritou Zezé.          — Sai daí, Ostaque!, berrou Amador.         Ostaque era eu. Corri para o topo do morro enquanto eles desciam a ladeira atrás do bolo que parecia um bicho só, horrendo, cachorro e ouriço. De longe fiquei vendo tudo, trêmulo, o cachorro ganindo, o ouriço não desgrudando dele, o cavalo assustado, penachos de fumaça na lonjura da Serra da Sausdade, meus irmãos entrando e saindo de debaixo ...  Ler Tudo >>

Fogo contra fogo

[28-08-2009] |
MEUS IRMÃOS desbastavam um acre de samambaias. Pelo meio-dia cheguei com as marmitas. Foi quando o cachorro deu o alarme. Tanto latiu na boca de um buraco de tatu que algo lá dentro irritou-se. Meus irmãos postaram-se ao redor do buraco, esperando apoiados no cabo da enxada. De repente a coisa emergiu como um foguete do interior do buraco, grudando com raiva no focinho do cachorro. Era um ouriço. O cachorro ganiu e rolou morro abaixo, com o ouriço preso nas fuças. Rolando e solidamente cravado na cara do cachorro, o ouriço não emitia som algum.            — Cuidado com os espinhos!, gritou Zezé.          — Sai daí, Ostaque!, berrou Amador.         Ostaque era eu. Corri para o topo do morro enquanto eles desciam a ladeira atrás do bolo que parecia um bicho só, horrendo, cachorro e ouriço. De longe fiquei vendo tudo, trêmulo, o cachorro ganindo, o ouriço não desgrudando dele, o cavalo assustado, penachos de fumaça na lonjura das serras, meus irmãos entrando e saindo de debaixo das samamb...  Ler Tudo >>

A lucidez dos bêbados

[24-08-2009] |
Ia o professor André Vilallobos por uma estradinha de Minas, sob chuva intensa, sem saber se chegaria a seu destino. Driblando buracos e atoleiros, parou num vilarejo para certificar-se de que a trilha dava passagem.— O senhor vá tranquilo, disse-lhe um cavalheiro de gravata e suspensórios, dando toda a pinta de ser o figurão do lugar.— Tem certeza? insistiu o Vila preocupado com a aproximação da noite.— Absoluta. Essa estrada eu mesmo mandei construir. Não tem erro.Foi quando se aproximou um sujeito trocando as pernas.   — O senhor não caia nessa. A estrada é um sabão. Depois de um toró desses, ninguém passa.  O par de suspensórios, contrariado: — O senhor não dê ouvidos a esse pau-d’água. A estrada é boa. Boa não: é excelente. — E voltando-se para o ébrio: — Suma daqui, vagabundo! Meia hora mais tarde, já noite fechada, o Vila patinava num lodaçal que se estendia por quilômetros. Foi sorte ele ter conseguido dar marcha-à-ré e retornar ao povoado. Estava dominado pelo sentimento de qu...  Ler Tudo >>

O enigma de JK

[23-08-2009] |
         Naqueles dias remotos, sempre que um avião cruzava o céu, sobrevoando as montanhas cor de ardósia, meu pai encostava o queixo no cabo da enxada e cismava alto:         — Lá vai Nonô de mudança para Brasília.         Nono era o presidente Juscelino Kubitschek. Como formiguinhas coladas à terra, imaginávamos Nonô na barriga do avião, rodeado de gente do governo, às voltas com a aventura estupenda de fundar uma cidade no Planalto Central. Hoje me pergunto por que meu pai se fixava naquela fantasia. Talvez não fosse uma fantasia. Nosso pequenino povoado ficava bem na trilha dos jatos que faziam a rota Rio—Brasília. Além disso a época devia ser abril de 1960. Eu tinha sete anos e a simples menção do nome de JK soava, para mim, como matéria de lenda.         Na boca de meu pai a lenda se amplificava, ganhava alturas ciclópicas:          — É o maior presidente do Brasil. Construiu a Belém—Brasília e a nova Capital. Quem teve peito? Não vai ter outro igual.         Doze anos mais tard...  Ler Tudo >>

O enigma de JK

[20-08-2009] |
         Naqueles dias remotos, sempre que um avião cruzava o céu, sobrevoando as montanhas cor de ardósia, meu pai encostava o queixo no cabo da enxada e cismava alto:         — Lá vai Nonô de mudança para Brasília.         Nono era o presidente Juscelino Kubitschek. Como formiguinhas coladas à terra, imaginávamos Nonô na barriga do avião, rodeado de gente do governo, às voltas com a aventura estupenda de fundar uma cidade no Planalto Central. Hoje me pergunto por que meu pai se fixava naquela fantasia. Talvez não fosse uma fantasia. Nosso pequenino povoado ficava bem na trilha dos jatos que faziam a rota Rio—Brasília. Além disso a época devia ser abril de 1960. Eu tinha sete anos e a simples menção do nome de JK soava, para mim, como matéria de lenda.         Na boca de meu pai a lenda se amplificava, ganhava alturas ciclópicas:          — É o maior presidente do Brasil. Construiu a Belém—Brasília e a nova Capital. Quem teve peito? Não vai ter outro igual.         Doze anos mais tard...  Ler Tudo >>

Diálogo com Pavese

[16-08-2009] |
Para dissipar meu nevoeiro de dúvidas, venho falar com Cesare Pavese (1908-1950). Encontro-o como sempre em Turim, amargurado e ao mesmo tempo apaixonado, ainda pensando na atriz (Constance Dowling) que o deixou. O nosso saudoso J. Toledo tratou dele em seu Dicionário de Suicidas Ilustres (Record, 1999), às páginas 254 e 255, como a um irmão. Quanto a mim, longe de me deixar abater pelo gesto de Pavese, toda vez que estou com ele (faço-o abrindo as páginas de seu diário lindamente intitulado O Ofício de Viver) é para aprender como envelhecer sábia e conspicuamente (uso a palavra conspícuo porque não quer dizer nada).— Foi por amor que você morreu? pergunto.Pavese:— Se eu tivesse morrido ela continuaria a viver, a rir e a perseguir a sorte. Mas ela me abandonou e igualmente continua a viver, a rir etc. Portanto, é como se eu tivesse morrido.E no entanto ele morreu de fato: de uma dose de barbitúricos num quarto de hotel.— Ciúmes?— Aquele que não tem ciúmes, até mesmo das calcinhas da be...  Ler Tudo >>

Corrida de táxi

[12-08-2009] |
Mal se acomodou no banco de trás, meu amigo se pôs a exercitar sua pior virtude: a chalaça. Ao constatar que o chofer era da terrinha, desatou o vozeirão:— O senhor sabe qual a maior piada de português?O luso girou o pescoço taurino e respondeu na lata:— Sei sim senhor. A maior piada de português é o Brasil.Penso que meu amigo se sentia autorizado a contar anedotas de portugueses, coisa que acho de profundo mau-gosto, apenas porque é neto de um. E deu sequência à provocação.— Conhece aquela? Ia o Manuel estrada afora, muito doidão no seu carro, como se fosse aquele pilotozinho que vocês tiveram, como se chamava mesmo? Pedro Lamy. Não demora muito e um policial sai na perseguição dele, emparelha e ordena: “Pare!”. O Manuel sorri, estica três dedos na direção do guarda e responde: “Ímpare!”.O chofer, fremindo um pouco as asas do nariz, deu mostras de topar a queda de braço.— Pois quando eu era chofer em Lisboa, antes de vir pra esta terra de índios, apanhei no aeroporto um brasileiro que...  Ler Tudo >>

O Brasil passado a limpo

[07-08-2009] |
Deus, para provar que é mesmo brasileiro, resolveu dar ao país a chance de voltar atrás, recomeçar do zero e fazer tudo de maneira diferente. Escolheu para isso a noite de 9 para 10 de agosto de 2009. Como na famosa história da máquina do tempo em que um século é condensado em 43 minutos, Deus achou por bem permitir que nessa noite mágica se compactassem os 509 anos transcorridos desde que as caravelas de Cabral fundearam em Porto Seguro para espanto e mais tarde desespero da gente silvícola.Assim, quando dá meia-noite, o relógio da história pátria começa a girar ao contrário, deixando para trás os escândalos no Senado, o governo Lula, o mensalão, os oito anos de FHC e o rumor dos pregões da bolsa de valores. Antes que o povo, quem diria, passe a saudar Fernando Collor com brados de verdadeira comoção, a ministra Zélia volta aos braços de Cabral (Bernardo, não o Pedro), mas tão fugazmente quanto os cruzados voltam aos bolsos de seus donos e desaparecem de novo e se convertem em espirai...  Ler Tudo >>

O Brasil passado a limpo

[07-08-2009] |
Deus, para provar que é mesmo brasileiro, resolveu dar ao nosso querido país a chance de voltar atrás, recomeçar do zero e fazer tudo de maneira diferente. Escolheu para isso a noite de 9 para 10 de agosto de 2009. Como na famosa história da máquina do tempo em que um século é condensado em 43 minutos, Deus achou por bem permitir que nessa noite mágica se compactassem os 509 anos transcorridos desde que as caravelas de Cabral fundearam em Porto Seguro para espanto e mais tarde desespero da gente silvícola.Assim, quando dá meia-noite, o relógio da história pátria começa a girar ao contrário, deixando para trás os escândalos no Senado, o governo Lula, o mensalão, os oito anos de FHC e o rumor dos pregões da bolsa de valores. Antes que o povo, quem diria, passe a saudar Fernando Collor com brados de verdadeira comoção, a ministra Zélia volta aos braços de Cabral (Bernardo, não o Pedro), mas tão fugazmente quanto os cruzados voltam aos bolsos de seus donos e desaparecem de novo e se conver...  Ler Tudo >>

Dentro da vida

[03-08-2009] |
Dado a inexplicáveis surtos de otimismo, fui procurar o célebre Dr. Ernest Becker com o intuito de me curar desse profundo mal. Nenhum problema no fato de que o Dr. Becker faleceu em 1974, em Nova York, apenas um ano depois de haver concluído o seu livro A negação da morte. Esta conversa é portanto um resumo de meu encontro com esse livro excepcional, que recomendo ao leitor.         — O senhor diz que o homem contemporâneo se sente perdido. Perdido por quê?         Becker é um homem sério, mas de uma seriedade divertida:         — O homem moderno já não sabe quem é, por que nasceu, o que está fazendo neste planeta, o que se espera que faça e o que pode esperar de si mesmo. Sua própria existência lhe é incompreensível.         — Apesar disso, o homem continua encontrando forças para existir. De onde ele extrai essas forças?         — De um Deus no qual acredite, de uma lista de conquistas sexuais, de uma bandeira, do proletariado, do fetiche do dinheiro e do tamanho do extrato de sua c...  Ler Tudo >>

A estrada

[29-07-2009] |
Na manhã em que derrubaram as Torres Gêmeas em Nova York, ele de nada sabia pois havia se perdido na mata e demorou a encontrar a estrada. Da distância lhe chegou o choro da acauã. Maldição!, resmungou, como se a dolência da ave atraísse o mau agouro. Depressa repeliu a ideia. Ora bolas. Era capaz de lhe acontecer exatamente o contrário. E lá está: um carro preto descendo a colina sem levantar um grão de pó.O carro se aproximou dele, um homem botou a cabeça para fora.— Se vai para esse lado, suba.Subiu. Não era entendido em carros antigos, mas ali estava um Packard Twin-Six 1926 em excelente estado. O chofer estudou o céu claro, arriou a capota e sorriu de uma orelha à outra. Rosto corado e cheio. Uns quarenta anos, talvez menos. O carro se pôs em marcha. Parecia uma pequena carruagem. Achou que devia elogiar a conservação. Estava mesmo impressionado. Pneus de banda branca, apenas um pouco mais largos que os de uma motocicleta, o vermelho vivo das calotas combinando com o estofamento s...  Ler Tudo >>

Minhas memórias de Hilda

[25-07-2009] |
         Duas alunas da Cásper Líbero planejam escrever uma biografia de Hilda Hilst. Hilda morreu há cinco anos e rapidamente ingressa no reino do mito. Será uma espécie de Virginia Woolf brasileira, mas sem o instinto suicida e o lesbianismo. As alunas descobrem um diário de Hilda no acervo do Cedae da Unicamp. Procuram-me porque sou mencionado em uma das anotações. A nota registra uma reunião de escribas em 6 de março de 1985. No calor da discussão, ela dá um de seus famosos espetáculos. Encontrei um registro do mesmo episódio em meu próprio diário. E depois encontrei outros ao longo dos anos, todos sobre Hilda, e os passei às alunas ávidas de histórias. Hilda ia gostar de saber.          6 de março de 1985. Tragicômica reunião preparatória para um imaginado Congresso Brasileiro de Escritores. O último que se realizou foi há 40 anos. Ansiedade dos muitos velhos cuja oportunidade já passou, impertinência dos muitos jovens cuja ocasião ainda não chegou. Um senhor de barriga proeminent...  Ler Tudo >>

Livros de cabeceira

[21-07-2009] |
Josélia Aguiar, ex-editora da extinta revista Entrelivros, prepara um livro sobre os ‘dez mais’ da predileção de uns quantos autores. Fui instado a fazer minha lista. Ei-la: O estrangeiro, de Albert Camus; o Diário de Franz Kafka; A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói; O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar; Quincas Borba, de Machado de Assis; Memórias, sonhos, reflexões, de Carl Jung; A educação sentimental, de Flaubert; Os diários de Victor Klemperer, de Victor Klemperer; Paris é uma festa, de Ernest Hemingway; Trópico de Câncer, de Henry Miller.Instigado pela provocação da Josélia, deu-me vontade de reler os diários de Klemperer, um dos tais que eu levaria para a ilha deserta. É um tijolo de quase 900 páginas que se lê com prazer e angústia, sentimentos nada incompatíveis, pois para narrar sua tragédia descomunal o autor se serve de uma linguagem mais que bela: despojada. Victor Klemperer (1881-1960), judeu-alemão, mais alemão que judeu, filólogo e homem do mundo, fez das tripas coraç...  Ler Tudo >>

Goiabas

[15-07-2009] |
Valdemar Sibinelli, que ao lado de Liana John edita a revista Terra da Gente, homônima do programa criado por Ciro Porto e que é o melhor produto de televisão brasileira feito fora do eixo Rio-São Paulo e olhe lá, me pede um palmo de prosa a partir da seguinte pergunta: por que se diz que goiaba roubada é mais gostosa? Naturalmente o palmo era para decorar a orla de uma ampla reportagem sobre as qualidades nutritivas e comerciais da goiaba, já que Terra da Gente é uma revista sobre a natureza e os prodígios do mundo rural.                  Vasculhei a Web em busca de uma explicação para o ditado popular que garante que, roubada, a goiaba tem um sabor que não se compara. Em tese isso vale para qualquer fruta, mas a goiaba se impôs como o paradigma do roubo, digamos, que se perdoa mais facilmente porque diz respeito ao estômago – assim como o chamado “beijo roubado” concerne à atração incontrolável entre duas pessoas e, sejamos claros, àquela outra espécie de fome igualmente legítima.   ...  Ler Tudo >>

A vida imita a arte

[11-07-2009] |
         Sei lá se é arte o que faço. Digamos que o seja. O fato é que a vida às vezes é uma imitação do que se escreve. Me refiro a minha própria vida, pois a dos outros segue seu curso próprio, fazendo talvez o roteiro ditado pela imaginação de quem a vive. Na noite de quinta passada, feliz por ter escrito uma página, como se diz, a voo de pássaro, resolvi dar uma pausa para fazer as comprinhas do dia. No trajeto, um carro abalroou o meu. Se pensar que a cada dois anos me envolvo em incidente do tipo, nenhuma novidade haveria nisso. Mas, desta vez, dou minha palavra de que não tive a mínima culpa, salvo a de não ter olhos na nuca.         O sinal estava verde para mim e o outro veio não sei de onde, uma jangada velhíssima e já toda amassada nas laterais, os pneus provavelmente carecas e os faróis se não me engano apagados. Emparelhou comigo e vi quando dançou na pista antes de me atingir a porta direita e depois o parachoque, dois ruídos sinistros, indecentes mesmo. Bailamos juntos a...  Ler Tudo >>

Os dois sonhos de Jung

[07-07-2009] |
         Em 1926 Carl Jung teve um sonho que, segundo disse, foi para ele como uma dessas “portas que se abrem para a noite cósmica original”.         Seja lá o que isto significa, nesse sonho Jung fugia da guerra numa carroça puxada por cavalos. Estava no front italiano e o cocheiro era um camponês. Depois de atravessarem uma ponte e um túnel semidestruído, a paisagem mudou completamente: a carroça entrou num campo ensolarado e deslizou para o pátio de um castelo. Dois portais se fecharam atrás deles. O camponês saltou da carroça e exclamou alarmado: “Agora estamos presos no século 17”. Jung conformou-se: “Que seja! O que é que se pode fazer?”. Mas logo teve um pensamento consolador: algum dia, ao fim de alguns anos, sairia dali e estaria novamente livre.         Livre para quê, esta era a questão que se punha. Dois anos mais tarde, Jung recebeu do sinólogo Richard Wilhelm um manuscrito intitulado O segredo da flor de ouro. Jung encontrou nesse milenar tratado esotérico chinês, que Wi...  Ler Tudo >>

Os feijões da infância

[02-07-2009] |
Meu pai me deu um punhado de feijões. Disse:— Toma. Vai plantar.Plantei-os num lugarzinho que dava como mágico, atrás da choça de taipa em que a gente morava. Plantar não é bem o termo: espalhei a esmo, cobri com terra e fui cuidar dos graves negócios da infância. Eu devia ter quatro ou cinco anos. Vieram as chuvas. Já havia me esquecido dos feijões quando, certa manhã, meu pai me apanhou pela mão.— Vem ver uma coisa.Estalei de alegria: os feijões tinham se transformado numa pequena e viçosa lavoura carregada de grãos já no ponto de serem colhidos. Depois esqueci outra vez esse acontecimento, ou por outra deixei-o dormitando em algum ponto do córtex, até que ontem, tanto tempo passado, os feijões reapareceram com o brilho de pequenas esmeraldas. Deu-me então vontade de esmiuçar essa lembrança, situando a hortazinha no plano da choça, a choça no plano do sítio, o sítio no plano das montanhas. E isso me abriu, uma após outra, as comportas da memória, as lembranças vindo aos borbortões, c...  Ler Tudo >>

Bernardo Caro

[28-06-2009] |
Agora que há uma nova retrospectiva de Bernardo Caro em Campinas, boa hora para dar vazão as umas lembranças que não me abandonam. Por exemplo, o dia em que subi a escadinha de madeira de seu ateliê, na rua Coronel Rodovalho, em junho de 1994, para fazer uma longa entrevista com ele. Destinava-se a um livro-catálogo que depois se intitulou Um andaluz nos trópicos. Ele me esperava embaixo, na calçada. Subiu a porta de aço corrugado. Abriu uma segunda porta, chaveada. Na mão direita ele trazia uma sacola. Perguntei o que tinha ali.            — Vinho. Um Tio Pepe. Espero que goste.— O diabo é que não bebo.— Nunca vi jornalista que não beba.— Há jornalistas que não bebem.— Não são jornalistas verdadeiros.Depois esta outra lembrança, de quatro anos mais tarde, quando ele me chamou ao vice-consulado da Espanha em Campinas (ele fora nomeado vice-cônsul honorário pelo rei Juan Carlos) para me mostrar um grande painel que acabara de pintar e eu acabei batizando a obra: “Elegia a Lorca”. — Você...  Ler Tudo >>

Em busca de Pérola

[24-06-2009] |
            Trabalhei certa vez num jornal que ia de mal a pior. Os salários estavam atrasados e vivíamos de vales. Mas usávamos de todo expediente para impedir que a empresa naufragasse. Em nome da sobrevivência estávamos dispostos a abrir mão até mesmo de nossos mais caros princípios, o que significava que nossos princípios estavam se tornando cada vez mais baratos. Prova é esta sequência de manchetes com a qual pretendíamos desmoralizar o rei do cimento, o conhecido empresário José Liberato: Liberato manda espancar trabalhadores em greveLiberato acusado de envolvimento em escândalo financeiroLiberato vem para tentar convencer promotoria públicaLiberato expõe seus motivos a sindicalista da regiãoBrilhante conferência de Liberato          Brilhante, certamente, deve ter sido a prata em boa hora recolhida ao cofre da empresa; cujo fundo vazio, no entanto, perdia-se de vista. Um dia o diretor-financeiro reuniu os editores, o chefe da oficina e o pessoal da publicidade para anunciar, lúg...  Ler Tudo >>

Rancores

[20-06-2009] |
Quis o acaso que naquela tarde, ao passar na livraria para apanhar o livro que encomendara, o velho entrasse quase emparelhado com um oficial de justiça. O oficial ia alguns passos à frente dele, de modo que tinha precedência para ser atendido e o velho se pôs de lado. Quando, após um rápido cumprimento, o oficial abriu sua pasta e apresentou uma intimação ao livreiro, o velho pensou em dar meia volta e sair. Que hora escolhi para vir aqui, pensou. Mas o livreiro, de fisionomia inalterada, acenou-lhe com a mão levantada e pediu que esperasse. Assinou a intimação e o oficial se retirou.— É curioso, disse o livreiro. Ontem mesmo o senhor disse uma coisa que me ficou na cabeça: que na vida a gente tem de passar por muitas coisas antes de chegar a ser a pessoa que é.— Ou que estaria destinada a ser, corrigiu o velho, se levasse até o limite suas qualidades, sua formação, seus traços de congênitos.— Pois então, meu amigo, eu estou na contramão de tudo isso. Positivamente eu não caminho para...  Ler Tudo >>

A lemniscata

[16-06-2009] |
Sentado à mesa da cozinha (uma mesa oval, de madeira crua), sem obrigações pela frente, sem vontade de ler, escrever, ouvir música ou ver televisão, me ponho a rabiscar repetidamente numa folha de caderno o mesmo desenho, um laço de fita, na verdade o número 8 deitado.Não ponho consciência nem propósito no que faço, mas vagamente me lembro de que aquele traço tem um nome (lemniscata) e uma definição que se pode ler no dicionário: “Lugar geométrico dos pontos de um plano cujas distâncias a dois pontos fixos desse plano são constantes”. Recordo: Guimarães Rosa fechou o Grande sertão: veredas com o coleio gráfico de uma lemniscata. E Vladimir Nabokov menciona-a de passagem num dos verbetes de Fogo pálido. Por que tal obsessão por um simples grafismo? Por causa do fascínio de sua órbita interminável. Não tendo fim, figura o infinito.Não penso nisso neste momento, apenas reconheço no movimento de minha mão um daqueles momentos em que, sem causa aparente, cai o vazio sobre nós. É a nausée de...  Ler Tudo >>

A lemniscata

[16-06-2009] |
Sentado à mesa da cozinha (uma mesa oval, de madeira crua), sem obrigações pela frente, sem vontade de ler, escrever, ouvir música ou ver televisão, me ponho a rabiscar repetidamente numa folha de caderno o mesmo desenho, um laço de fita, na verdade o número 8 deitado.Não ponho consciência nem propósito no que faço, mas vagamente me lembro de que aquele traço tem um nome (lemniscata) e uma definição que se pode ler no dicionário: “Lugar geométrico dos pontos de um plano cujas distâncias a dois pontos fixos desse plano são constantes”. Recordo: Guimarães Rosa fechou o Grande sertão: veredas com o coleio gráfico de uma lemniscata. E Vladimir Nabokov menciona-a de passagem num dos verbetes de Fogo pálido. Por que tal obsessão por um simples grafismo? Por causa do fascínio de sua órbita interminável. Não tendo fim, figura o infinito.Não penso nisso neste momento, apenas reconheço no movimento de minha mão um daqueles momentos em que, sem causa aparente, cai o vazio sobre nós. É a nausée de...  Ler Tudo >>

Diário de um rato de livraria

[12-06-2009] |
3 DE MAIO DE 2006 — Felicidade dos livros antigos. Ontem comprei dois num sebo chamado Galpão: O diário de Paul Léautaud correspondente ao período 1907-1909 e a seleta escolar de Jost e Cahen, Lectures Courantes, uma edição de 1918. A seleta, na sua candidez ilustrada, destina-se a fazer acordar meu projeto de uma antologia de autores imaginários, de um país também imaginário. Digamos que eu chegue a essa terra ignota e descubra, no porão da casa que alugo por uns tempos, uma vasta biblioteca com os clássicos de todas as línguas cultas. Numa estante à parte, os autores da ilha. É desses que me ocupo. Mas é borgiano demais. 7 DE MAIO — Leio para Vera páginas da autobiografia de Jung – Sonhos, memórias, reflexões, livro que considero numinoso (de numen, divindade) e que me prende por horas a fio sempre que o abro. Ela adormece durante a leitura, mas antes de cair no sono comenta comigo as passagens que mais a atraem, situação encantadora que eu não perderia por nada.  10 DE MAIO — O diár...  Ler Tudo >>

A vida é um filme

[09-06-2009] |
STALKER Stalker, de Tarkovski. Três lentas horas escorrendo como gotas de estalactite. À cena da chuva branca na embocadura da rua, só posso chamá-la encantatória. O túnel com seu reflexo verde e ocre. E uma lentidão obsessiva que se fixa no objeto e não o abandona. Para quem são produzidos filmes assim? Que espécie de certeza íntima sustenta atores, fotógrafos, cenógrafos, produtor, diretor durante meses ou mesmo anos? Não apenas a obra espanta, mas sobretudo o fato de alguém tê-la feito. Extraio disso alguma lição, pois posso calcular que em cada centena de pessoas cinco suportem Tarkovski. Nada é capaz de detê-lo. Uma convicção além de qualquer medida. (8 de maio de 1989) DANTON O Danton de Wadja. Filme pesado e impressionante. A crer na cena da guilhotina, a degola é um processo simples, rápido e higiênico. Para o degolado — isso diz quem a inventou: Guillotine — a sensação é apenas de “um suave frescor”. A queda do cutelo imita a de um machado de lâmina muito fina. O mecanismo que...  Ler Tudo >>

Histórias do rei Dadá

[06-06-2009] |
Das entrevistas que fiz na vida, no tempo em que era repórter de jornal, esta é a que gosto de reler. Não pelas perguntas, mas pelas respostas. Em 1997, aos 51 anos [hoje está com 63], o ex-jogador de futebol dizia que Dadá Maravilha nunca perdia a felicidade, mas admitia que Dario José dos Santos andava triste.Em sua casa no bairro do Bonfim, em Campinas, ele passava horas revendo velhas imagens suas correndo em diagonal pelo campo, saltando com os zagueiros na área, fazendo um gol depois de outro. Pelas suas contas, foram 926 em 22 anos de carreira [o ranking da Fifa lhe dá 545 gols oficiais, o que já o colocaria entre os 12 maiores goleadores do mundo]. Está no Guinness por manter até o hoje o recorde mundial de dez gols numa só partida. Personagem de si mesmo, reivindica a patente de inventor das coreografias no futebol e ninguém como ele cunhou frases capazes de perdurar tanto tempo na mem&o...  Ler Tudo >>

O chacareiro

[03-06-2009] |
A bomba é de segunda mão mas está em muito bom estado; o borrifador está avariado mas é de fácil conserto. Foi o que disse o chacareiro ao lhe vender o equipamento. Agora, como um desgraçado, ele luta ferozmente com a ponteira e o anel de vedação, leva já duas horas nisto, exaspera-se, blasfema, geme. É como um mau capítulo de livro, pensa, um capítulo encrencado e estragado por um erro de construção. Não é especialista no assunto (a saber, em sistemas de irrigação), mas acaba por descobrir que o problema está no came. A peça tem a forma de um coração e vem presa ao braço do aspersor. Faz a troca. Se tem a forma de um coração devia se compadecer de mim, eu que há muito não sinto mão feminina. Manda o ajudante abrir a água. Pedro abre a água. A água é feminina, pensa. Milagrosamente a água jorra pelo braço do borrifador e o came começa a funcionar, louco para mostrar suas jovens forças empurrando o borrifador de um lado para outro. Ri alto quando a primeira nuvem de borrifos, escapando ...  Ler Tudo >>

O chacareiro

[03-06-2009] |
O chacareiro 1 A bomba é de segunda mão mas está em muito bom estado; o borrifador está avariado mas é de fácil conserto. Foi o que disse o chacareiro ao lhe vender o equipamento. Agora, como um desgraçado, ele luta ferozmente com a ponteira e o anel de vedação, leva já duas horas nisto, exaspera-se, blasfema, geme. É como um mau capítulo de livro, pensa, um capítulo encrencado e estragado por um erro de construção. Não é especialista no assunto (a saber, em sistemas de irrigação), mas acaba por descobrir que o problema está no came. A peça tem a forma de um coração e vem presa ao braço do aspersor. Faz a troca. Se tem a forma de um coração devia se compadecer de mim, eu que há muito não sinto mão feminina. Manda o ajudante abrir a água. Pedro abre a água. A água é feminina, pensa. Milagrosamente a água jorra pelo braço do borrifador e o came começa a funcionar, louco para mostrar suas jovens forças empurrando o borrifador de um lado para outro. Ri alto quando a primeira nuvem de borri...  Ler Tudo >>

O evasor

[31-05-2009] |
1 Será a acauã? Porque estava perdido, Diógenes Livreiro achou o lamento da ave mais alongado e mais triste, descaindo do meio para o fim. A estrada desaparecia e ressurgia lá adiante na dobra do terreno. Uma luz difusa tombava sobre os salgueiros. Depois dos salgueiros era o campo aberto, mangueiras altas e esparsas, moitas de estrelítzias, coroas de pau-ferro ao longe, mais longe ainda uma árvore solitária em forma de taça. Lembrou-se da infância, do dia em que se perdeu na mata fechada. De um modo parecido com este. Também daquela vez desembocou numa estrada assim, a estrada de uma fazenda onde depois se abrigou da tempestade. A diferença é que aqui o ar está limpo e o sol parece uma moeda de cobre cravada num céu de cartolina. De novo o choro da acauã.  2  Para alguém se encontrar é preciso estar perdido. Foi o velho Zwinglio Ventura quem disse isto. Quando? Há uma semana ou menos. Onde? Na livraria, seção de psicologia e psicanálise, folheando uma biografia de Carl Jung. Só não se...  Ler Tudo >>

O ghostwriter

[28-05-2009] |
— Vou lhe dar uma tarefa nova, disse com um brilho nos olhos o Dr. Alvarenga. Depois de classificar a nova tarefa de prioridade zero, colocou diante de Sidraque Matias uma pesada pasta de documentos: separatas, transcrições de seminários, planificações de projetos, material farto o bastante para compor um livro – “um livro que amplifique as idéias que venho expressando em artigos”, completou o Dr. Alvarenga.Um livro, um livro a ser produzido a galope, não um livro longo, derramado, fastidioso, mas um livro que vá direto ao ponto, legível, sem rodeios, convincente. Um livro que possa ser lido como um programa de governo. Para fazê-lo era conveniente que ao menos por uns tempos Sidraque trocasse a sua sala de trabalho no instituto pela edícula que vizinhava com as cavalariças. Ali ele estaria imune às solicitações do dia-a-dia. Teria paz, silêncio. O ideal seria que não se afastasse muito da fazenda, que dormisse lá, naquele aposento amplo que Alvarenga chamava de edícula mas que era mai...  Ler Tudo >>

Diário da desancoragem

[24-05-2009] |
7 DE MAIO DE 2009. Desancorei, enfim. Três dias atrás, limpando a última gaveta de minha sala de trabalho – já agora deserta e sem mim­ –, fiquei feliz de reencontrar esta pedrinha que julgava perdida, um pedrisco ovalado e liso que catei da terra batida do Fórum Romano em 4 de maio de 2001, portanto há oito anos, segundo minha caderneta de viagem. Eu acabara de passar sob o arco de Augusto Severo, vindo do Coliseu, e caminhava em direção ao Campidoglio. “Nada me assegura que esta pedrinha pertence à época das ruínas do Fórum”, eu anotara então, “mas já me basta que durante muitos anos, talvez séculos, ela esteve em contato físico e anímico com as coisas daquele tempo”. O gesto de metê-la no bolso antes de subir as escadas que dão na estátua de Marco Aurélio. O significado disso. Quase uma década depois, tenho sobre minha escrivaninha, em casa, esta formação calcária de um tempo remoto, mas de modo nenhum morto, à qual acrescento agora um halo, um círculo fantástico em torno de sua con...  Ler Tudo >>

Diário da desancoragem

[24-05-2009] |
7 DE MAIO DE 2009. Desancorei, enfim. Três dias atrás, limpando a última gaveta de minha sala de trabalho – já agora deserta e sem mim­ –, fiquei feliz de reencontrar esta pedrinha que julgava perdida, um pedrisco ovalado e liso que catei da terra batida do Fórum Romano em 4 de maio de 2001, portanto há oito anos, segundo minha caderneta de viagem. Eu acabara de passar sob o arco de Augusto Severo, vindo do Coliseu, e caminhava em direção ao Campidoglio. “Nada me assegura que esta pedrinha pertence à época das ruínas do Fórum”, eu anotara então, “mas já me basta que durante muitos anos, talvez séculos, ela esteve em contato físico e anímico com as coisas daquele tempo”. O gesto de metê-la no bolso antes de subir as escadas que dão na estátua de Marco Aurélio. O significado disso. Quase uma década depois, tenho sobre minha escrivaninha, em casa, esta formação calcária de um tempo remoto, mas de modo nenhum morto, à qual acrescento agora um halo, um círculo fantástico em torno de sua con...  Ler Tudo >>

A poesia completa de Moacir Amâncio

[21-05-2009] |
A reunião da poesia completa de Moacir Amâncio (Ata, Record), além de ser um acontecimento importante em si mesmo, reforça a idéia de projeto programático que vem caracterizando sua obra poética desde o livro inicial, Do objeto útil, de 1992, até Óbvio, de 2004, sexto título do conjunto. O programa em nada se altera com o acréscimo, no final da obra, de dois segmentos inéditos. De fato, a unidade de linguagem e a existência de um universo semântico autônomo conferem à poesia de Amâncio a tessitura de uma narrativa sem costuras, aproximando-o de poetas inconsúteis como Augusto dos Anjos e Mário de Sá-Carneiro – cuja poesia é a mesma do primeiro ao último verso –, em contraposição a poetas heteróclitos como Drummond e Bandeira, por exemplo.Estamos diante de uma poesia metafísica que paradoxalmente se apega ao mundo concreto dos objetos e dos ambientes (o jardim, a casa, a sala-de-estar, os quadros, o pátio, o deserto), mas transfigurados e vistos sob uma perspectiva nova e timbrada de es...  Ler Tudo >>

Moacir Amâncio faz a poesia da era midiática

[21-05-2009] |
Se cada época produz seus poetas, também é verdade que, a seu modo, os poetas produzem a época em que vivem. De muitas maneiras a poesia de Moacir Amâncio tem a ver com a época que a vê nascer e florescer, ou seja, a nossa. Abstrata, coincide com um tempo em que os objetos se desmaterializam e se transformam em luz; plástica, reproduz um mundo midiático capaz de alterar profundamente os contornos da realidade objetiva; volátil, subverte a todo instante a relação espaço/tempo.A poesia de Contar a Romã (Globo, 96 p., R$ 15) vem consolidar a trajetória de um poeta que começou a publicar no início da década de 1990 e desde então vem sendo incuído entre os melhores nomes da nova poesia paulistana e brasileira. É uma poesia que nasce da tensão entre os objetos, o espaço que ocupam e a aguda consciência do poeta de existir entre eles.Desde seu primeiro conjunto de poemas (este é o quinto em menos de dez anos), Moacir Amâncio busca escapar da linguagem exaurida pelo uso ao longo de todo um séc...  Ler Tudo >>

A antilírica de Carlos Vogt

[18-05-2009] |
Ainda hoje, como sempre, mesmo os poetas que fazem profissão de fé não-poética se deixam carregar às vezes de um lirismo explícito e da pretensão de fazer poesia em estado puro. Claro, pode-se produzir alta poesia com a palavra dita poética, em geral abstrata, como provam poetas de todas as épocas. Mas há também uma grande poesia plantada no chão da realidade física, construída com os materiais da vida pedestre e que, tal como a outra, aspira a elevar-se acima de si mesma. A esta última linhagem pertence Carlos Vogt, cujas seis coletâneas publicadas até aqui, acrescidas de uma sétima, inédita, aparecem agora num só volume (Poesia reunida, Landy Editora, 512 p., 2008).Carlos Vogt se insere na geração de poetas paulistanos que surgiu ou firmou-se na década de 1980, embora já viessem escrevendo antes disso, como Orides Fontela, Rubens Rodrigues Torres Filho e Antonio Fernando De Franceschi. São artífices inovadores que, entretanto, mantêm um diálogo intenso com êmulos do passado e retomar...  Ler Tudo >>

Miguel Sanches Neto confirma seu talento

[15-05-2009] |
“Gosto de escrever livros em que a linguagem seja um assoalho liso, sem o menor obstáculo para o leitor”. A frase de Miguel Sanches Neto, dita em entrevista recente, lembra uma das normas estilísticas de Hemingway. O velho Hem perseguia uma linguagem de frases declarativas simples para obter uma prosa de ossatura forte, sem rodeios, capaz de evocar “um lugar limpo e bem iluminado”. Não há dúvida de que Sanches Neto conseguiu isso em seu novo romance, A primeira mulher (Record, 2008), como já o havia conseguido no anterior, Um amor anarquista. Para obter esse efeito, Sanches Neto admite buscar “formas reconhecíveis pelos leitores”, que façam da leitura um prazer e não um exercício de  “autoflagelação”. Haveria o risco de, ao escrever pelo padrão das formas reconhecíveis, o autor vir a ser escrito pela tradição liter&aac...  Ler Tudo >>

Espaço de homens estilhaçados

[12-05-2009] |
Programado como trilogia, o ciclo de romances que João Almino vem construindo desde 1987, com Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo, passando por Samba-Enredo (1994) e As Cinco Estações do Amor (2001) chega ao estado de quarteto com O Livro das Emoções (2008), encerrando (?) com apuro de linguagem e densidade narrativa o primeiro grande painel romanesco fixado no cenário da capital federal.O cenário brasiliense não é aliás tão relevante em Almino como foi, por exemplo, a paisagem humana do Rio de Janeiro para Marques Rebelo. Será um erro grave de caracterização se a obra de Almino vier a ser tomada no futuro, como já vem ocorrendo, por este aspecto empobrecedor que não faz justiça à universalidade de seus temas. Equivaleria a dizer que O Livro das Emoções é um romance futurista apenas porque o narrador – um ex-fotógrafo setentão cego – escreve suas memórias (intercaladas com o cotidiano factual) no ano 2022.Assim como a Curitiba de Dalton Trevisan traduz, mais que uma metrópole do Sul...  Ler Tudo >>

Espaço dos homens estilhaçados

[12-05-2009] |
Programado como trilogia, o ciclo de romances que João Almino vem construindo desde 1987, com Idéias para Onde Passar o Fim do Mundo, passando por Samba-Enredo (1994) e As Cinco Estações do Amor (2001) chega ao estado de quarteto com O Livro das Emoções (2008), encerrando (?) com apuro de linguagem e densidade narrativa o primeiro grande painel romanesco fixado no cenário da capital federal.O cenário brasiliense não é aliás tão relevante em Almino como foi, por exemplo, a paisagem humana do Rio de Janeiro para Marques Rebelo. Será um erro grave de caracterização se a obra de Almino vier a ser tomada no futuro, como já vem ocorrendo, por este aspecto empobrecedor que não faz justiça à universalidade de seus temas. Equivaleria a dizer que O Livro das Emoções é um romance futurista apenas porque o narrador – um ex-fotógrafo setentão cego – escreve suas memórias (intercaladas com o cotidiano factual) no ano 2022.Assim como a Curitiba de Dalton Trevisan traduz, mais que uma metrópole do Sul...  Ler Tudo >>

A marcha dos inocentes

[08-05-2009] |
No mundo físico houve consternação e, aqui e ali, o farfalhar das pilhérias; mas, nas esferas invisíveis, houve como que um gemido surdo vindo das profundezas do nadir quando o Papa Bento XVI, depois de ouvir os trinta sábios da Comissão Teológica Internacional, decidiu abolir a milenar instituição do limbo. O documento, de 41 páginas, no qual se assegura que Deus é piedoso e “quer que todos os seres humanos sejam salvos", veio a lume em meados de abril de 2007. Desde então o limbo não mais existe, passando a geografia do Além de quaternária a ternária, já que o céu, o inferno e o purgatório continuam, sem prejuízo, a existir.Que a Divina Comédia de Dante tenha sofrido um revés teológico, isso é irrelevante: seus versos permanecem incólumes. Mas as centenas de milhões de pequenos seres não-batizados que tinham ali guarida certa, até que o fim dos tempos viesse resgatá-los, viram-se de repente desprotegidos e despaisados. Era de temer que abandonassem seus nichos, onde uns dormiam ...  Ler Tudo >>

O Proust de Itatiba

[05-05-2009] |
Não conheci pessoalmente José Crispim de Carvalho Noronha, mas acompanhei o relato de sua via crúcis. Ninguém esperava que batesse asas tão cedo. Penso que nem ele mesmo acreditava nisso, do contrário teria deixado alguma orientação sobre o que fazer com o tesouro que deixou escondido na chácara onde vivia, em Itatiba. Uma chácara com biblioteca, imagine. No meio do mato, e cercado por cinco mil livros!Era voz comum que Crispim – Zé Crispim para uns, Dr. Crispim para outros – estava muito bem para os seus 69 anos. Alto, magro, forte, nem de óculos precisava. No dia da internação, na Santa Casa de Itatiba, tratou de tranqüilizar todo mundo: “Não é nada, gente. A convalescença vai ser chata, mas a cirurgia é de gravidade média”. Clinicamente estava certo, enganava-se quanto à sorte. Logo depois da cirurgia ele teve um enfarte. Ia se recuperando do enfarte e da cirurgia quando uma pneumonia o levou.No enterro, além dos parentes e conhecidos, pois era pessoa querida e respeitada (quase me ...  Ler Tudo >>

O ardil

[01-05-2009] |
Meu pai era alto, magro, tinha o rosto alongado, os olhos tristes e o humor saturnino. Era mandão, alegre, suave, rude, violento, humilde, carola e blásfemo. Devoto, indiferente, sonhador, cético, generoso e avaro. À noite, depois de chegar da lavoura e se banhar numa bacia esmaltada, mostrando as omoplatas brancas como cera, jantava e ouvia rádio até tarde. De pé contra a janela, imóvel, ele podia ser visto por quem passava rumo à capela ou à loja de armarinhos pisando macio a rua de areia. Não fossem as emanações da Rádio Tupi que escapavam pelo quadrado da janela e ganhavam o campo, dir-se-ia que estava ali parado sem fazer nada, transformado em estátua de sal. Raramente se voltava para cumprimentar quem quer que fosse. A não ser que o saudassem da rua. Então se via obrigado a responder, com a devida secura, desconcentrando-se a contragosto do programa de serestas (musicões dolentes pontuados por violões e acordeons) conduzido por um locutor de voz cheia e glamurosa cujo nome há mui...  Ler Tudo >>

Diário da alma

[26-04-2009] |
20 DE JANEIRO DE 2008. Entre as gôndolas do supermercado, pergunto ao químico Aécio Pereira Chagas, que é da grei espiritualista mas também da Academia Brasileira de Ciências, se posso contar com a certeza de continuar escrevendo no Além. Ele sorri e diz que provavelmente sim, o que em outros termos quer dizer: depende. Tudo depende. Monteiro Lobato, desencarnado, admitiu que se tornara inapetente para a escrita. Eça de Queirós, antes de voltar a escrever, teve de se dedicar à recuperação moral e espiritual de ninguém menos que Getúlio Vargas. Durma-se com uma revelação dessas. Contudo o livro não-acadêmico de Aécio, uma introdução à doutrina espírita, é de linguagem escorreita e honesta, eu diria mesmo científica. Não conheço seus trabalhos acadêmicos sobre a termoquímica da troca iônica e a termodinâmica de adsorção, mas sei que são numerosos e bem citados. Na orelha do livro ele não inclui nenhum de seus títulos, nem mesmo o de membro da Royal Chemical Society, de Londres. Aécio não...  Ler Tudo >>

Desaforismos

[22-04-2009] |
         Sempre que me encontro com o Roberto Goto, e isso acontece há quase quarenta anos, uma atmosfera insólita se instala no ambiente. No caso, o encontro se deu entre as gôndolas de um supermercado onde às vezes cruzamos.O Goto fala pouco, pensando antes de falar, falando só o necessário. Faço este registro porque, nesse dia, creio que terça ou quarta-feira, o Goto estava de língua mais solta. E sendo ele um filósofo, resolvi inquiri-lo ali mesmo entre melancias e laranjas, mediante a livre associação de idéias. Aproveitei que um jovem imberbe tinha acabado de entrar pilotando perigosamente a si mesmo num par de patins, quase atropelando uma senhora que escolhia pepinos.— Você que é educador. Como lidar com adolescentes afoitos?— O caminho mais curto para se tentar convencer um adolescente de algo é procurar convencê-lo do contrário.Um cão corria atrás do adolescente, talvez acreditando que também usava patins.— Por que os cães ladram?— Porque os ladrões são uns cachorros.— Isso é...  Ler Tudo >>

Teatrinho de nudez

[18-04-2009] |
         Que espécie de bicho é uma mulher nua? Como é, de fato e à vera, uma fêmea sem plumas? De repente aquilo passou a ser muito importante para nós. Havia um grave déficit em nosso conhecimento do mundo. As informações eram desencontradas, as descrições, suspeitas. Doca tinha visto uma prima lavar-se no córrego, mas era incapaz de dar detalhes: o posto de observação um abacateiro longínquo. A mãe de Lúcio despira a blusa bem na sua frente, sem que fosse visto, mas aquilo era pouco e, na opinião de Pedro, abominável.          — Mãe não vale.          — Nem irmã, disse Lucas, que tinha várias.          Uma delas, Telma, tinha-se deixado bolinar atrás...  Ler Tudo >>

Teatrinho de nudez

[18-04-2009] |
         Que espécie de bicho é uma mulher nua? Como é, de fato e à vera, uma fêmea sem plumas? De repente aquilo passou a ser muito importante para nós. Havia um grave déficit em nosso conhecimento do mundo. As informações eram desencontradas, as descrições, suspeitas. Doca tinha visto uma prima lavar-se no córrego, mas era incapaz de dar detalhes: o posto de observação um abacateiro longínquo. A mãe de Lúcio despira a blusa bem na sua frente, sem que fosse visto, mas aquilo era pouco e, na opinião de Pedro, abominável.          — Mãe não vale.          — Nem irmã, disse Lucas, que tinha várias.          Uma delas, Telma, tinha-se deixado bolinar atrás...  Ler Tudo >>

Teatrinho de nudez

[18-04-2009] |
Que espécie de bicho é uma mulher nua? Como é, de fato e à vera, uma fêmea sem plumas? De repente aquilo passou a ser muito importante para nós. Havia um grave déficit em nosso conhecimento do mundo. As informações eram desencontradas, as descrições, suspeitas. Doca tinha visto uma prima lavar-se no córrego, mas era incapaz de dar detalhes: o posto de observação um abacateiro longínquo. A mãe de Lúcio despira a blusa bem na sua frente, sem que fosse visto, mas aquilo era pouco e, na opinião de Pedro, abominável.          — Mãe não vale.          — Nem irmã, disse Lucas, que tinha várias.          Uma delas, Telma, tinha-se deixado bolinar atrás da capela, numa noite escura em que estavam l&aa...  Ler Tudo >>

Lembrando meu pai

[14-04-2009] |
Chovia muito no dia em que nosso pai morreu. Para vê-lo morto descemos, meu irmão e eu, ao subsolo do hospital. Era um aposento baixo, quase tão baixo como um porão, as paredes úmidas por causa da chuva incessante. Nosso pai jazia sobre uma maca, coberto só com um lençol branco, e parecia dormir um sono profundo. O nariz tinha ficado mais pontudo, a boca mais compungida. — Coitado do velho, disse meu irmão. — E nem era tão velho assim. Tinha 64 anos quando morreu. Tinha 46 no dia em que, com uma chuva assim, ele me levou para o colégio de padres. Sempre o associei aos ciclos da chuva e do sol, pois nos grotões onde então morávamos era isso que importava. O pai gostava de olhar o céu e calcular o volume d’água que ia cair. Naquele dia caiu água aos jarros, com breves intervalos de estio, mas o céu permaneceu sempre baixo, esfumado e branco. Nossa viagem se dividiu em duas partes: primeiro, um estirão de jardineira até o lugar chamado Estalagem, pouso de tropeiros e mascates, onde agora ...  Ler Tudo >>

O negro escandinavo

[10-04-2009] |
Atribui-se ao marinheiro escandinavo Knut Amundsen, capitão do barco pesqueiro Oseborg, o fato singular de correr pelo menos uma gota de sangue negro brasileiro nas veias da população alvacenta da ilha de Bornholm, banhada, em suas saliências e reentrâncias, pelas águas geladas do Báltico.          A história apareceu com todas as letras nas páginas da Danmark Review, em 1962, e foi recentemente reproduzida numa coluna humorística do The Guardian, com aquele típico humor inglês que apenas faz pender o cachimbo ou o cigarrinho de cannabis. Consta que Conrad mencinou-a num de seus cadernos de apontamentos para Nostromo, mas por alguma razão acabou desprezando o rico filão, que por si só daria um romance do mar.               Com efeito, não se sabe se em outubro de 1889 ou em novembro de 1890 (os historiadores divergem), o famigerado Amundsen recrutou nas ruas da Bahia o ex-escravo Balbino de Oliveira para cozinheiro de seu barco, pelo simples fato de haver provado de seu tabuleiro umas ...  Ler Tudo >>

Camus em Iguape

[07-04-2009] |
Entre 5 e 7 de agosto de 1949, em viagem pelo Brasil, o escritor Albert Camus foi comboiado por Oswald de Andrade até Iguape, cidadezinha plantada de frente para uma das extremidades da assim chamada Ilha Comprida. Camus gostou do ar de “estampa colonial” de Iguape. Mas seu espírito estava inquieto e ele achou o país desmedido e monótono, verdadeiro continente onde a “alma” parecia ter perdido seus limites. Nessas condições, claro, não deviam lhe fazer bem as idéias antropofágicas de Oswald, ao qual, apesar de tudo, ele qualificou como “um homem interessante”. Estas e outras impressões foram reunidas após sua morte (prematura, de um acidente de carro em 1960) num diário de viagem que inclui também suas notas sobre os Estados Unidos. A viagem ao Brasil parece tê-lo impressionado mais, uma vez que ocupa dois terços do livro. Além disso, os apontamentos tomados em Iguape foram aproveitados em 1952 na composição de um conto magnífico, “A pedra que cresce”, o último da coletânea de O exílio...  Ler Tudo >>

Camus em Iguape

[06-04-2009] |
Entre 5 e 7 de agosto de 1949, em viagem pelo Brasil, o escritor Albert Camus foi comboiado por Oswald de Andrade até Iguape, cidadezinha plantada de frente para uma das extremidades da assim chamada Ilha Comprida. Camus gostou do ar de “estampa colonial” de Iguape. Mas seu espírito estava inquieto e ele achou o país desmedido e monótono, verdadeiro continente onde a “alma” parecia ter perdido seus limites. Nessas condições, claro, não deviam lhe fazer bem as idéias antropofágicas de Oswald, ao qual, apesar de tudo, ele qualificou como “um homem interessante”. Estas e outras impressões foram reunidas após sua morte (prematura, de um acidente de carro em 1960) num diário de viagem que inclui também suas notas sobre os Estados Unidos. A viagem ao Brasil parece tê-lo impressionado mais, uma vez que ocupam dois terços do livro. Além disso, os apontamentos tomados em Iguape foram aproveitados em 1952 na composição de um conto magnífico, “A pedra que cresce”, o último da coletânea de O exíli...  Ler Tudo >>

Camus em Iguape

[06-04-2009] |
Entre 5 e 7 de agosto de 1949, em viagem pelo Brasil, o escritor Albert Camus foi comboiado por Oswald de Andrade até Iguape, cidadezinha plantada de frente para uma das extremidades da assim chamada Ilha Comprida. Camus gostou do ar de “estampa colonial” de Iguape. Mas seu espírito estava inquieto e ele achou o país desmedido e monótono, verdadeiro continente onde a “alma” parecia ter perdido seus limites. Nessas condições, claro, não deviam lhe fazer bem as idéias antropofágicas de Oswald, o qual, apesar de tudo, ele qualificou como “um homem interessante”. Estas e outras impressões foram reunidas após sua morte (prematura, de um acidente de carro em 1960) num diário de viagem que inclui também suas notas sobre os Estados Unidos. A viagem ao Brasil parece tê-lo impressionado mais, uma vez que ocupam dois terços do livro. Além disso, os apontamentos tomados em Iguape foram aproveitados em 1952 na composição de um conto magnífico, “A pedra que cresce”, o último da coletânea de O exílio...  Ler Tudo >>

Luz e sombra

[02-04-2009] |
         Desde que se deu o colapso do computador e perdi quatro centenas de sonhos anotados laboriosamente ao longo de quatro anos, saí do campo imantado da influência onírica. Dei as costas a essa segunda vida e sinto que empobreci. Voltei, por assim dizer, ao estado unidimensional. É preciso fazer a recolha dos sonhos dispersos pelos diários e voltar a registrar os novos. Agora só me restam 65 sonhos, de resto muito espaçados entre si. As enormes lacunas mostram o quanto embruteci. Eu devia ser mais grato aos sonhos, pois eles me devolveram a confiança perdida e sem eles eu não teria ousado reunir e publicar o meu diário. (20/2/2007) MEU IRMÃO          Segundo cirurgia periodôntica, desta vez na gengiva superior, dentes da direita. Hoje estou de molho, embora me sinta perfeitamente bem e sem qualquer dor. Incidentes como este, que antes me infundiam medo, agora enfrento-os com indiferença. Nada são quando comparados com dramas realmente sérios, como o de meu irmão que vai morrer. Da...  Ler Tudo >>

O demônio interior

[29-03-2009] |
Na adolescência, quando as primeiras crises se manifestaram, Ranulfo Lemos suportou-as passavelmente até o dia em que observou em si mesmo uma discrepância entre o que queria fazer e a ação que realizava. Isto se repetiu em outras ocasiões, sempre com o mesmo efeito devastador. Por exemplo, em vez de vestir o casaco para ir ao encontro de uma garota numa noite friorenta, viu-se despindo as calças que acabara de vestir. O médico a quem confiou essa desordem concluiu apressadamente que o sentido daquilo era que Ranulfo não queria ir de modo algum àquele encontro, mas isso estava longe de ser verdade. Ao contrário, ele estava louco para se encontrar com a garota. Apenas não estava tendo controle sobre suas ações. Se é assim, pensou, posso chegar ao ponto de matar alguém. Antes matar a mim mesmo, disse.          Imaginou então que havia um demônio dentro dele e que precisava libertá-lo. Para o médico isso podia ser traduzido por neurose ou mesmo psicose, mas Ranulfo deparou com a palavra g...  Ler Tudo >>

Murilo e Maria

[26-03-2009] |
Muitos anos atrás, eu costumava passar temporadas numa fazenda. Toda manhã um avestruz vinha bicar o vidro da janela, esticando para dentro do quarto seus olhos dilatados e gigantes. Simpatizei com aquela ave estranha e altíssima. Dei-lhe um nome, Murilo, em homenagem ao poeta Murilo Mendes, que tinha quase dois metros de altura e estava seguramente entre os mais altos poetas da América, tanto física quanto espiritualmente.Murilo nos últimos dias andara ocupado cortejando uma dama com um sapateado que Ambrósio, o tratador, me explicou ser a dança de sedução dos avestruzes. Finalmente ela havia correspondido. Dei-lhe por simetria o apelido de Maria, que era o primeiro  nome da escritora portuguesa Maria da Saudade Cortesão, mulher do poeta. São criaturas dóceis os avestruzes, disse Ambrósio, mas seu futuro aqui é incerto. O plano do patrão de fazer uma criação de avestruzes não é ruim, continuou ele, pois se reproduzem em abundância e podem ser abatidos já no fim do primeiro ano de vida...  Ler Tudo >>

Murilo & Maria

[26-03-2009] |
Muitos anos atrás, eu costumava passar temporadas numa fazenda. Toda manhã um avestruz vinha bicar o vidro da janela, esticando para dentro do quarto seus olhos dilatados e gigantes. Simpatizei com aquela ave estranha e altíssima. Dei-lhe um nome, Murilo, em homenagem ao poeta Murilo Mendes, que tinha quase dois metros de altura e estava seguramente entre os mais altos poetas da América, tanto física quanto espiritualmente.Murilo nos últimos dias andara ocupado cortejando uma dama com um sapateado que Ambrósio, o tratador, me explicou ser a dança de sedução dos avestruzes. Finalmente ela havia correspondido. Dei-lhe por simetria o apelido de Maria, que era o primeiro  nome da escritora portuguesa Maria da Saudade Cortesão, mulher do poeta. São criaturas dóceis os avestruzes, disse Ambrósio, mas seu futuro aqui é incerto. O plano do patrão de fazer uma criação de avestruzes não é ruim, continuou ele, pois se reproduzem em abundância e podem ser abatidos já no fim do primeiro ano de vida...  Ler Tudo >>

Murilo @ Maria

[26-03-2009] |
         Muitos anos atrás, eu costumava passar temporadas numa fazenda. Toda manhã um avestruz vinha bicar o vidro da janela, esticando para dentro do quarto seus olhos dilatados e gigantes. Simpatizei com aquela ave estranha e altíssima. Dei-lhe um nome, Murilo, em homenagem ao poeta Murilo Mendes, que tinha quase dois metros de altura e estava seguramente entre os mais altos poetas da América, tanto física quanto espiritualmente.Murilo nos últimos dias andara ocupado cortejando uma dama com um sapateado que Ambrósio, o tratador, me explicou ser a dança de sedução dos avestruzes. Finalmente ela havia correspondido. Dei-lhe por simetria o apelido de Maria, que era o primeiro  nome da escritora portuguesa Maria da Saudade Cortesão, mulher do poeta. São criaturas dóceis os avestruzes, disse Ambrósio, mas seu futuro aqui é incerto. O plano do patrão de fazer uma criação de avestruzes não é ruim, continuou ele, pois se reproduzem em abundância e podem ser abatidos já no fim do primeiro an...  Ler Tudo >>

A Festa

[24-03-2009] |
Lembro-me de uma festa a que fui há muitos anos. Que festa! A soprano e o tenor esgrimiam um trecho do Tristão e Isolda quando Luísa Bravo, a poetisa, no auge da embriaguez resolveu dar seu espetáculo particular. No ponto em que a soprano, langorosa, gemia Ti posso abracciare? e um Tristão retumbante indagava Posso credere a me stesso?, Luísa enfrentava uma roda inteira de acadêmicos numa fera discussão situada já alguns decibéis acima de Wagner. Ela fazia restrições a um escritor das relações de Paternostro, que Paternostro tinha por notável. “Não é”, berrava ela. “Não vai ao osso. Foge da vida”.         Em seguida a discussão descambou para qualquer coisa sobre a sexualidade feminina e Luísa exaltou-se ainda mais: “Vocês intelectuais podem ser muito inteligentes e cultivados, mas para a cama é melhor mesmo um carregador do Ceasa”. Seus gritos de valquíria chamavam a atenção geral e muitos (até os garçons) se aproximaram curiosos, trocando a ópera pelos palavrões que voavam em catadup...  Ler Tudo >>

A Festa

[24-03-2009] |
Lembro-me de uma festa a que fui há muitos anos. Que festa! A soprano e o tenor esgrimiam um trecho do Tristão e Isolda quando Luísa Bravo, a poetisa, no auge da embriaguez resolveu dar seu espetáculo particular. No ponto em que a soprano, langorosa, gemia Ti posso abracciare? e um Tristão retumbante indagava Posso credere a me stesso?, Luísa enfrentava uma roda inteira de acadêmicos numa fera discussão situada já alguns decibéis acima de Wagner. Ela fazia restrições a um escritor das relações de Paternostro, que Paternostro tinha por notável. “Não é”, berrava ela. “Não vai ao osso. Foge da vida”.         Em seguida a discussão descambou para qualquer coisa sobre a sexualidade feminina e Luísa exaltou-se ainda mais: “Vocês intelectuais podem ser muito inteligentes e cultivados, mas para a cama é melhor mesmo um carregador do Ceasa”. Seus gritos de valquíria chamavam a atenção geral e muitos (até os garçons) se aproximaram curiosos, trocando a ópera pelos palavrões que voavam em catadup...  Ler Tudo >>

A FESTA

[24-03-2009] |
Lembro-me de uma festa a que fui há muitos anos. Que festa! A soprano e o tenor esgrimiam um trecho do Tristão e Isolda quando Luísa Bravo, a poetisa, no auge da embriaguez resolveu dar seu espetáculo particular. No ponto em que a soprano, langorosa, gemia Ti posso abracciare? e um Tristão retumbante indagava Posso credere a me stesso?, Luísa enfrentava uma roda inteira de acadêmicos numa fera discussão situada já alguns decibéis acima de Wagner. Ela fazia restrições a um escritor das relações de Paternostro, que Paternostro tinha por notável. “Não é”, berrava ela. “Não vai ao osso. Foge da vida”.         Em seguida a discussão descambou para qualquer coisa sobre a sexualidade feminina e Luísa exaltou-se ainda mais: “Vocês intelectuais podem ser muito inteligentes e cultivados, mas para a cama é melhor mesmo um carregador do Ceasa”. Seus gritos de valquíria chamavam a atenção geral e muitos (até os garçons) se aproximaram curiosos, trocando a ópera pelos palavrões que voavam em catadup...  Ler Tudo >>

O memorial

[20-03-2009] |
 Naquela época o Memorial do Dr. Alvarenga entrava em sua sexta versão, e embora os volumes de capa cartonada formassem já uma coluna da altura de uma mesinha-de-cabeceira, não parecia próximo do fim.      Os que trabalhavam nele há mais tempo diziam que o Memorial existia desde sempre. Queriam dizer com isso que existia desde que se lembravam de si mesmos ou de outros que estiveram a serviço do Memorial, isto é, desde a lembrança mais remota de todos os que viram algum dia o Memorial e passaram adiante a memória daquela grande peça de inventário humano.      O Memorial era como a segunda pele de Alvarenga e seria impensável imaginar o homem sem o registro sistemático de seus feitos, que eram cada vez mais numerosos e jamais cessavam de jorrar e de se reproduzir, por cissiparidade ou pela reação osmótica de seus sa...  Ler Tudo >>

O afinador de pianos

[12-03-2009] |
 “No Brasil os pianos são mortos pelas correntes de ar e pela exposição ao sol”, disse o velho afinador de pianos. Morava no ponto mais baixo do desfiladeiro, no fundo do vale, onde não era fácil chegar. Era um alemão troncudo, baixo e completamente calvo. Não parecia muito sóbrio. Sua voz aguda se erguia acima do rumor do alambique, que era um modesto maquinário com jeito de artesanal e coberto por um telheiro. Um negro alto em pé junto à caldeira verificava o indicador de nível. Outras colunas se elevavam ao lado da caldeira, uma das quais com um arabesco de serpentinas à mostra.                                Herr Arnold há muito tinha trocado os pianos pelo alambique e pelo desenvolvimento de novas variedades de cach...  Ler Tudo >>

A recepção

[09-03-2009] |
Surpreendeu a presença de um rabino no funeral do professor Lemos. A capela estava cheia de gente e o ofício era dividido com um padre. Poucos parentes, alguns de gorro judeu na cabeça. Uma aluna leu um panegírico em nome dos colegas. Aparentemente Lemos era estimado entre os estudantes. Compareceram em bom número. O Dr. Alvarenga disse umas palavras, elogiou o morto e lembrou o dia em que desembarcou em Paris para buscá-lo, para convencê-lo a “ajudar a construir” a nova Universidade. A viúva, uma senhora chilena de olhos amendoados, não levantou o rosto uma única vez; e quando o reitor se adiantou para abraçá-la, simplesmente se deixou enlaçar, rija. Achei esquisito.     Quando o cortejo se deslocou pelo caminho em declive, fiquei para trás e emparelhei com Paternostro. De longe se podia ouvir a litania do rabino, em hebraico, ao lado do caixão. ...  Ler Tudo >>

Quirina

[01-03-2009] |
Eis a história que me contou um velho exilado político. “Em 10 de agosto de 1968 uma ação do grupo de Carlos Marighela assaltou o trem-pagador Santos-Jundiaí arrecadando 108 milhões de cruzeiros novos para a guerrilha urbana. Fiquei pasmo quando li meu nome na lista de suspeitos. Mesmo depois que se esclareceu tratar-se de um homônimo, em mais de uma ocasião fui citado como um perigoso terrorista especializado em assalto a trens. Exilei-me voluntariamente.   Que me lembre, em toda a minha vida só admito a autoria de um único ato de terror, praticado conscientemente contra o organista do seminário, um jesuíta chileno que não gostava de mim. Perseguia-me de todas as formas. Aprendi a odiá-lo e jurei vinganca. Num dia em que recebi ordens de limpar o órgão da capela, aproveitei para mexer nos tubos e trocar a posição das gaitas. No domingo ...  Ler Tudo >>

A guerrilha dos poetas imolados

[26-02-2009] |
Se a Bolívia fosse uma flor, seria um hibisco. O viço de seus governos dura menos que um dia. Nove meses depois de seu primeiro vagido, o governo de Ovando Candia já entrava em processo de decomposição e o general Torres podou-o com sua tesourinha de unha, como antes Candia havia podado Salinas, assim como Torres, flor efemeríssima, não resistiria à poda de Hugo Banzer menos de um ano depois.                 Em julho de 1970, ainda ouvindo ecos do tricampeonato mundial de futebol, eu entrava pelo portão principal da Universidade Mayor de San Andrés, no topo andino de La Paz. Fazia-o no mesmo instante em que uma caravana de 67 alfabetizadores liderados pelo estudante de medicina Néstor Paz Zamora (cujas mochilas, além de cartilhas escolares, levavam armas e munições) deixava o campus para ganhar as montanhas e perder...  Ler Tudo >>

A caneta de Getúlio

[21-02-2009] |
Para a idade que tinha, 75 anos, Tancredo Neves movia-se com surpreendente agilidade no solar colonial onde nasceu, em São João Del Rei. Mesmo agora que estava prestes a ser eleito presidente da República, ainda passava alguns fins de semana lá. Não podia nem de longe imaginar que em menos de quatro meses estaria morto.      Ele veio nos receber à porta da rua, guiando-nos com segurança por entre os móveis antigos e as imagens sacras que atulhavam a sala e os outros cômodos do sobrado. Ele era um homem consistente e de zigomas rijos, apesar do nariz deformado pelo septo e do crânio achatado e quase inteiramente calvo, que nos últimos anos ganhara aquela conformação amolecida da velhice que tanto se assemelha à da infância. Mas, como se sabe, ele não morreria da ossatura nem do colapso das artérias, mas do divertículo de Meckel.  &...  Ler Tudo >>

O guardião do discurso

[14-02-2009] |
“Seja o guardião do meu discurso”, disse-me o Professor Alvarenga. “Só distribua quando eu chegar à última página”. Era uma instrução a sério, embora dita com uma pitada de humor. Estava escrito que eu falharia miseravelmente nessa minha primeira missão naquele emprego.      Vinte minutos antes da cerimônia plantei-me na porta do teatro com meus sapatos novos e o blazer de veludo negro, comprados para a ocasião, sobraçando a pasta de cartolina com o discurso dentro, enquanto os convidados iam entrando sob a luz difusa dos lustres, para ocupar o grande salão inclinado.      Descontado que Alvarenga chegou com uma hora de atraso, a cerimônia teria sido curta não fosse o incidente com os estudantes. A orquestra e xecutou o hino nacional, os músicos se retiraram, o maestro resvalou para uma das cadeiras de ho...  Ler Tudo >>

A conferência

[10-02-2009] |
Já não foi um bom presságio que pela manhã um maltrapilho invadisse o auditório onde transcorria o seminário. Pelo que apurei, o pobre-diabo, que ironicamente declarou se chamar Rico, apesar dos trapos que vestia, entrou no campus contornando as quadras de esportes. Na altura do centro de conferências sentiu cheiro de comida. Atraído pelo odor de carne frita que vinha do restaurante universitário, enganou-se de prédio e penetrou no salão cheio de gente, passando incólume pelos seguranças que tomavam cafezinho no saguão.      Nesse momento falava Paternostro.     Puxando o microfone para mais perto do peito, Paternostro acabava de dizer com uma expressão irônica: Ou bem discutimos a fome no país ou bem cuidamos das angústias epistemológicas do Professor Schultz. Schultz, muito gordo, a expressão contrafeita de quem estava sendo acusado de provocar a fome no mundo, levantou-se e caminhou penosamente até o microfone de pedestal, colocado no meio do salão para acolher os arrufos da platéia...  Ler Tudo >>

O sarau

[05-02-2009] |
 Mais bela que a idéia, certamente falsa, de que atravessamos o tempo é a imagem, igualmente falsa mas em todo o caso menos trivial, de que o tempo é que nos atravessa e esculpe, por dentro e por fora, até encontrar nossa última forma, a morte.      Ontem à noite, o reitor ofereceu uma recepção aos conferencistas trazidos para o seminário do Jubileu. Convidados da casa, escolhidos a dedo, faziam-se de anfitriões. Luísa Bravo, a poetisa de Júbilos, notou a disposição florentina das cadeiras de cabreuva em torno do piano, um Steinway mandado vir dos Estados Unidos. Agora você pode nos dizer se o poder é mesmo afrodisíaco, hein, Alva, gritou Luísa com espalhafato, agitando as franjas de seu vestido vaporoso.     Resende Prates foi ao piano e atacou furiosamente um concerto de Mozart, creio que o número 9....  Ler Tudo >>

A urna

[30-01-2009] |
Hoje enterramos a urna com as cartas ao futuro.O reitor à frente, marchamos por entre as árvores do campus, contornamos o teatro de arena e entramos no saguão da Biblioteca Central com um ar de soldados da história. Lá já esperavam por nós a bibliotecária-chefe, dois pedreiros e o vidreiro que laboriosamente construiu a caixa de vidro. Também estavam dois fotógrafos e uma equipe da TV local. Depois entraram alguns estudantes e, mais atrás, um grupo de professores. A urna, em forma de caixa ou aquário quadrado, repousava na beira de um buraco de um metro de largura por outro de fundura, cavado no piso do saguão. As paredes da cova tinham sido cimentadas e revestidas com cortiça de alto a baixo para prevenir os movimentos de expansão e retração do vidro. Dentro, a cápsula dormirá (isto é, viajará sob o solo, conforme a bela expressão do...  Ler Tudo >>

O baú de gnomos

[27-01-2009] |
O rapaz de barba ruiva por trás da caixa eletrônica, sempre que eu entrava no banco e me postava na fila, perguntava-me de que distância fosse:       Sobre o que vai escrever esta semana?      Eu, que sempre deixo os assuntos para a hora da morte, respondia que não sabia ainda. Isso foi há dez anos, talvez mais. Sempre lamentava desapontá-lo. Mas houve o dia em que eu tinha o meu assunto na ponta da língua: falaria de um leitor que me escrevera confessando-se um compulsivo. Esse leitor tinha compulsão por juntar papel. Sim, era sobre esse interessante espécime que eu ia escrever.       Vou ler, disse o bancário com um sorrisinho matreiro.      Colecionava todo tipo de papel impresso, aquele leitor, e quanto mais velho melhor: livros, folhetos, cartazes, anúncios do tempo do onça, calendário...  Ler Tudo >>

A orelha de Van Gogh

[25-01-2009] |
A propósito de uma crônica que estampei alhures sobre Vincent van Gogh, um leitor me pediu que aclarasse a história de como o célebre pintor perdeu sua orelha direita. Ele queria saber qual a parcela de culpa que Gauguin teve nisso. Para não incorrer em erro e, Deus me livre, cometer injustiça, fui ouvir do próprio Gauguin a sua versão do fato.             O senhor veio à cidadezinha francesa de Arles para fundar com Van Gogh uma comunidade de pintores. Confere?       Sim, cheguei a Arles num fim de noite e esperei o dia clarear num café. Nem cedo demais nem muito tarde fui acordar Vincent. O dia foi consagrado à minha instalação, a conversas, passeios para estar em condições de admirar as belezas de Arles e das arlesianas, pelas quais, entre parênteses, não fiquei muito entusiasmado. Ainda não ...  Ler Tudo >>

A maldição de Langsdorff

[22-01-2009] |
 Folheio os três grandes volumes de capa dura que enfeixam os diários do barão Georg Heinrich von Langsdorff, coligidos e publicados há alguns anos pelo historiador Danúzio Bernardino, com belíssimas ilustrações recolhidas do espólio das célebres expedições do infeliz explorador russo-alemão.             Infortúnios não faltaram ao barão Langsdorff. O que ele buscava nas florestas brasileiras? Provavelmente a felicidade. De 1822 a 1829, o barão percorreu o chamado Brasil profundo à frente de uma expedição científica financiada pelos czares Nicolau e Alexandre. Ninguém se lembrava mais dele até que, um século mais tarde, foram encontrados nos porões da Academia de Ciências de São Petersburgo os 26 cadernos de notas em que minuciosamente registrou sua aventura.     Filólogos alemães levaram mais trinta anos para decifrá-los. Em 1991, Mikhail Gorbachev (lembram-se dele?) quis fazer um agrado aos brasileiros e mandou preparar uma “Exposição Langsdorff” no Rio de Janeiro. Planejava inaugurá...  Ler Tudo >>

Diários

[18-01-2009] |
Já se disse que as viagens são uma vida em si, no interior de outra, com um nascimento, um crescimento e uma morte. Do mesmo modo se pode dizer que cada dia de nossas vidas é uma viagem em si, com embarques e desembarques, avanços, recuos e paradas. Em todas as épocas, inclusive a atual (a da blogosfera), todos os diários são escritos em estalagens românticas.                              Ao longo da vida li muitos diários. Por alguns fui influenciado. Durante algum tempo tentei viver à maneira deles. Quis penetrar sua atmosfera, apreender seu ofício. Descobri que manter um diário pode ser um esforço de emulação. Até mesmo quando já nos cansamos dessa ilusão juvenil (que às vezes se prolonga maturidade adentr...  Ler Tudo >>

Lendo um autor esquecido

[14-01-2009] |
  “O governo está rodeado de uma camorra de negocistas e aproveitadores. É o mal de todos os governos. Também a ladroeira e a comedeira progridem. A impopularidade do governo é incontestável neste momento”. Palavras de alguém insatisfeito com o governo Lula? Não exatamente. Trata-se de um mineiro cinqüentão destilando a sua bile em 1945, ano da queda de Getúlio Vargas. Eduardo Frieiro era getulista, mas não era cego para a realidade que acusava a esclerose do Estado Novo. E, se estivesse vivo hoje (morreu em 1982), pode-se presumir que não diria coisa muito diferente.     Buscando velharias num sebo, encontro o diário de Eduardo Frieiro. Cobre os anos de 1942 a 1949, isto é, vai dos 50 aos 57 de idade do autor. Tenho gosto por confissões antigas, empoeiradas e obscuras. Em Minas, no meu tempo de seminário, o nome de Frieiro era vez...  Ler Tudo >>

O cronópio e sua alma

[10-01-2009] |
Pelo telefone, apresenta-se como bombeiro, um bombeiro aposentado que deseja tirar uma dúvida sobre certa palavra obscura usada por mim numa crônica já velha. Não tinha podido atinar com o seu significado. Não constava do dicionário. Havia pedido a seu neto que perguntasse às professoras da escola. Depois indagara ele próprio “a pessoas mais instruídas”. Nada. Ninguém sabia. Justificou-se:     — No quartel, se tinha alguma dúvida, ia ao comandante. Aqui, como se trata de crônica, vim ao senhor.     Ora pois.      — Se eu souber, respondi receoso de meu poder de mando sobre as palavras que uso.     Ele se refere a uma crônica em que eu falava do futebol e de seus ritos, publicada meses antes. Diz:     — A crônica vai fácil, vai bem, at...  Ler Tudo >>

Como começar um livro

[07-01-2009] |
 Tarefa complicada, essa de escrever livros. Os mestres ensinam que o mais difícil é a primeira frase. Dela depende tudo o que vem depois, o tom, o timbre, o andamento, o estilo. Hemingway costumava dar um conselho para vencer o bloqueio da página (ou da tela) em branco: escreva uma frase declarativa simples, a mais verdadeira possível. Exemplo: “O velho chamava-se Santiago”. Em seguida, escreva uma segunda frase igualmente verdadeira, qualquer coisa como: “Dia após dia, tripulando a sua pequena canoa, ia pescar na corrente do Golfo”. Quem pode contestar uma verdade elementar dessas, a do velho pescador que sai para ganhar a vida no mar? Depois, pode-se continuar assim: “Mas nos últimos 84 dias ele não apanhara um só peixe”, uma terceira frase simples e convincente. E foi desse modo, de frase em frase, que Hemingway escreveu O velho e o mar.     Explico isso a Gofre...  Ler Tudo >>

Bícaro de pato

[01-01-2009] |
Duas coisas irrefutavelmente lindas Portugal legou ao Brasil: primeiro, o milagre da língua única; segundo, a língua propriamente dita, sonante, harmoniosa, rica, bem encaixada e fresca como água de pote. Fica bem em todos os quadrantes e calões, inclusive o minderico, de que só agora tomo ciência através do portal do mesmo nome, e no português brasílico de Piracicaba e adjacências, de que nos dá notícia a edição revista e aumentada do Dicionário do Dialeto Caipiracicabano de Cecílio Elias Netto, edição revista e aumentada do anterior (agora subtítulo) Arco, Tarco, Verva, palavras que podem ser traduzidas pelas incorretas e pedantes álcool, talco e Acqua Velva.          O livro, em sua nova encarnação, é apropriadamente dedicado a ninguém menos que ao ex-presidente Fernand...  Ler Tudo >>

Um poema sonhado

[01-01-2009] |
Nunca se sabe quanto tempo dura um sonho. O sonho que parece ter levado horas pode não ter durado mais que o lampejo de um segundo. Certa madrugada acordei com a sensação de ter arduamente lutado, durante um tempo interminável, com um carrossel de coisas em que entravam astronaves, instrumentos náuticos e delicadas cintilações eletrônicas. Ressonâncias de leitura, está visto. Acontece que eu sonhava não com as coisas em si, mas com as palavras que as denominavam. Lembro de uma voz que me disse:       - Com palavras como essas você devia escrever um poema.      Como há muito tempo abandonei veleidades desse tipo, recusei:       - Nada de poemas, amigão.       - Mas você escreveu tantos quando jovem, a voz continuou. Pode escrever outros se quiser.    &nbs...  Ler Tudo >>

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Traduzindo...
Coordenação: Maria do Carmo Figueira

Traduzindo

Não é apenas a tradução de um poema; é ser tocado por um texto, partir à sua descoberta, à forma como foi construído, inspirado... pintado. É uma simbiose perfeita não só entre um original e a sua tradução mas, mais fundo ainda, entre o tradutor e a alma do poeta, cujo poema é já em si a “tradução” ...  Ler Tudo >>
[29-06-2010]  |  Maria do Carmo Figueira
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THE DISQUIETING MUSES, de Sylvia Plath, tradução de Ana Maria Chaves

Partindo do quadro de Chirico com o mesmo título, depois da denúncia do papel da mulher-esposa, Sylvia Plath sufoca-nos com o seu retrato da mulher-filha, sobre a qual recai o peso insuportável de tudo o que a mãe (e a sociedade) dela espera e a que jamais ela poder&aacut...  Ler Tudo >>
[29-06-2010]  |  Ana Maria Chaves
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Literanário
Contribuições Literárias
(reservado o direito de selecção)
Maceió-Alagoas – Brasil Massachusetts, USA

                                      António Manuel Pacheco

A Alavanca

Quando, no lusco-fusco do meio da noite, em pijama e chinelas de quarto, vamos à cozinha e activamos...   Ler Tudo >>
[04-09-2010]  |  António Manuel Pacheco
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  De Maceió-Alagoas – Brasil              Carlito Lima

FLIMAR

“A 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro – 1ª FLIMAR é um projeto ousado e revolucionário, tendo a ...   Ler Tudo >>
[04-09-2010]  |  Carlito Lima
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Menos do Muito

De repente não é mais para fora.Não é mais sucesso para exportaç&...   Ler Tudo >>
[15-04-2010]  |  Diana Menasché
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História de duas irmãs e de uma sereia que morreu afogada

À CatarinaO rio existe e talvez por isso a cidade tenha sido sempre tão doce. Não como riso contínuo...  Ler tudo >>
[07-10-2009]  |  Joana Câmara
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Jogo das Damas

Jogo das DamasHá livros não escritos.           Jarras não. Partidas.Folhas esguias. Sós mas soltas....  Ler tudo >>
[22-02-2010]  |  Maria João Brinquete
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Carnaval em Angra dos Reis

 Há cinco anos que eu fujo, literalmente, de muvuca, zoeira, badalação e f...  Ler tudo >>
[04-03-2009]  |  Valdeck A. de Jesus
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Fernando Pessoa político

                &nbs...  Ler tudo >>
[04-09-2010]  |  Adelto Gonçalves
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Correspondências

Aniversário

Quando o Carmelo convidou-me a participar do PNETLiteratura, especificamente no Folhetim, não sabia que me oferecia um presente de aniversário, festejado em 6 de setembro. Ao completar 61 anos de idade, completo 2 de participação contínua e prazerosa no espaço oferecido. Ter meus textos em terras de...  Ler Tudo >>
[06-09-2010]  |  Carlos Pessoa Rosa
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Notas sobre "Livro Usado", Jacinto Lucas Pires

Não tem princípio, nem fim. Como a vida. É um caderno de notas de viagem numa viagem ao Japão, cujas principais cidades visitadas são Tóquio, Matsuxima, Matsué, Hiroxima, Cagoxima, Nagasáqui, Tocoxima, Himeji, Osaka, Quioto, Nico.               Um livro anónimo, de um narrador viajante anónimo, que ...  Ler Tudo >>
[04-09-2010]  |  Susana Leita
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As Rotas do Sonho - Tiago Salazar

O autor andarilho publicou em Junho passado sonhos em forma de caminhos percorridos. As rotas escolhidas trilham a continuidade do universo deste autor: exotismo, luxo, hedonismo. A cada vez que fecho o livro para o admirar - a sua capa é uma absoluta marca de bom gosto - esta escrita  d...  Ler Tudo >>
[26-08-2010]  |  Susana Leite
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Férias para sempre

No verão quem não deseja viajar? E se essa sensação de liberdade e de encontro com o novo nunca desaparecesse? É disso que trata este livrinho pequenino em que o conceito de férias se vê imortalizado para sempre em forma de aventura a dois - dois bons amigos que viajam pelo mundo. Um mundo escolhido...  Ler Tudo >>
[20-08-2010]  |  Susana Leite
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Epílogo - A Flip dos Ensaístas

Um arlequim passa de bar em bar recitando poemas de memória e pondo-se à prova ao oferecer declamar versos de poetas escolhidos pela sua plateia. Entremeia a poesia de observações quase políticas sobre a situação dos artistas de rua no Brasil. Na primeira edição da Flip a homenagear um escritor de n...  Ler Tudo >>
[10-08-2010]  |  Mauro Finatti
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Capitulo 3 - Flip - quase acabando...

Com pouco mais de uma dúzia de ruas, seis ao longo da ponta que dá para o oceano e outras tantas cruzando as primeiras, o centro histórico de Paraty é uma pequena Manhattan, que no início de uma visita independente da duração parece tão control...  Ler Tudo >>
[09-08-2010]  |  Mauro Finatti
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Capitulo 2 - Flip - A elegância do robalo

Nesta minha terceira Flip, encontro um evento muito mais institucionalizado do que a versão de 2006, quando ainda era fácil conseguir ingressos para as tendas dos autores durante a própria festa, e comer em restaurantes como o Banana da Terra sem ter que fazer a reserva "de São Paulo". Des...  Ler Tudo >>
[08-08-2010]  |  Mauro Finatti
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Capitulo 1 - A Flip da Casa Grande, a Flip da Senzala

Esta é a oitava edição da festa que virou a principal atração turística de Paraty, e muita coisa mudou nesses anos. Neste encontro em que o principal homenageado é um dos autores considerados entre os maiores intérpretes do Brasil (formando jun...  Ler Tudo >>
[08-08-2010]  |  Mauro Finatti
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Manual de instruções para Portugal

Foi em cafés e restaurantes e encontros com portugueses de vária espécie que o livro se viu nascer. Um livro escrito para agradar às massas, à hipérbole de turistas alemães que desertam o país ao longo do ano inteiro – e não s&oacu...  Ler Tudo >>
[30-06-2010]  |  Susana Leite
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Porquê Portugal? Exemplos de uma existência inspiradora

Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado &ndash...  Ler Tudo >>
[18-02-2010]  |  Susana Leite, em Leipzig
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Cuentame un cuento

Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square.  Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma se...  Ler Tudo >>
[11-02-2010]  |  Kátia Gerlach
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Adeus migrante

A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado.  Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por nat...  Ler Tudo >>
[09-02-2010]  |  Kátia Gerlach
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LITERATURA JURÍDICA
Parceria

Espaço-parceria para Literatura Jurídica

Espaço disponível... 
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[11-06-2010]  |  Vítor Coelho da Silva
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Espaço editorial

Espaço reservado a eventual Parceria.... 
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[28-10-2008]  |  Vítor Coelho da Silva
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Literatura Popular
Literatura Infanto Juvenil

Quando as coisas mudaram de lugar...

Quadras ao gosto popular escritas por Pedro Melo, técnico de cinema, «pai de quatro filhos e poeta de improviso», a propósito da inauguração da barragem do Alqueva, cuja construção implicou o desapare... 
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[04-09-2010]  | 
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Escrita de viagem e/ou Os vigieiros do Corpo

Continuação do Circo da i margin’ar-te  por Maria LavaA Escrita de Viagem (ou os Vigieiros do Corpo) insere-se no já enunciado e anunciado Projecto do Circo da i margin... 
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[21-07-2010]  |  Editor
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Duas histórias de amor e desamor em verso

Quando, no falar comum e quotidiano, nos referimos a “literatura de cordel”, usamos a expressão num sentido depreciativo, desvalorizando uma determinada obra como sendo de inferior ... 
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[18-05-2010]  | 
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Livros divertidos

Terceiro volume das Crónicas do Vampiro Valentim. O primeiro livro desta colecção tem por título Vampiros ou Nem por Isso, mas, se o leitor começar pelo livro 3, ficará a compreender tudo na mesma. O ... 
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[08-09-2010]  |  Letra Pequena                                                  Ver Mais >>
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Se Eu Fosse...Nacionalidades

Estreia do premiado autor, Francisco José Viegas, no género infantil. Se Eu Fosse... Nacionalidades faz-nos descobrir a vida que o Lio teria se fosse japonês, brasileiro, norueguês ou italiano. Ilustrado a quatro cores, oferece às crianças, a partir dos 5 anos, a oportunidade de conhecer a realidade gastronómica, linguística e patrimonial de diferentes países. Humorada, lúdica e didáctica, é uma obra para ser lida com os pais e descobrir, em cada país, aquele pormenor, contribuindo para a construção da memória referencial das crianças relativamente às diferentes nacionalidades do mundo

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