FLIMAR
[04-09-2010] |
“A 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro – 1ª FLIMAR é um projeto ousado e revolucionário, tendo a política de incentivo à leitura e a preservação de nossa cultura, como objetivos. Haverá uma série de palestras e mesas de debates com escritores cuidadosamente convidados, dirigidas à comunidade, aos alunos e visitantes. Entretanto, todos os segmentos da cultura nordestina estarão contemplados durante a Festa. A FLIMAR terá momentos de alegria, descobrimento, diversão e encantamento. Com certeza ela deixará o saber e esperança no coração e na mente dos participantes, abrindo novos horizontes na vida de cada um. O objetivo fundamental da Festa Literária é contribuir para um futuro mais justo e uma melhor qualidade de vida. Portanto, divirtam-se e aprendam”. Tomando por base as palavras acima do prefeito Cristiano Matheus, é bom que se diga, foram meses de planejamento, trabalho e preparação por uma equipe que sempre acreditou no projeto de governo do Cristiano. Fomos buscar inspiraçã...
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Memorial à Rapariga Desconhecida
[17-08-2010] |
No final do século XIX deu-se início ao bairro de Jaraguá. Os grandes comerciantes, os burgueses, os governantes construíram casarões avarandados em frente à praia. Residências modernas, dois andares avarandados, moradias chiques da época, orgulho da capital das Alagoas. Quando iniciaram a construção dos trapiches para dar suporte à exportação do açúcar no cais do porto ainda nas primeiras décadas do século XX, os proprietários dos casarões de Jaraguá sentiram-se incomodados com a proliferação de bares, foram debandando para outros bairros em expansão na cidade. Região portuária é chamariz de biroscas e raparigas, logo as casas avarandadas de dois andares foram transformadas em boates, lupanares ocupados pelas mariposas do amor atraídas pela região do cais do porto. O bairro do Jaraguá tornou-se zona de prostituição. Os cabarés refinados de Jaraguá importavam produtos do Recife, Bahia e até da França, além das brejeiras sertanejas nordestinas. Ambiente fino, visitado por coronéis...
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Zeca Gasolina
[08-08-2010] |
Nada tenho com a vida alheia, não estou aqui para julgar, nem quero ser fiscal das almas humanas transviadas. Sou um simples contador de história, narro os fatos como me aparecem, como me contam, sem julgamento. O leitor amigo certamente está bem mais qualificado a julgar as histórias aqui narradas. Deixando a vã e inútil filosofia de lado, sigo meu destino de narrador, conto o caso como o caso foi, um homem é um homem, um boi é um boi. Julguem os senhores a verdadeira história de Zeca Gasolina. Ele nasceu com nome de José Maria no dia 19 de março, pegou o apelido de Zeca desde menino. Nasceu e criou-se numa bucólica cidade esparramada de coqueiros e de lagoas exuberantes. Foi menino problemático, colegas tinham medo de suas maledicências. Não podia ver os companheiros em traquinagens, fuxicava logo ao professor. O maior “dedo duro” na juventude. Não fazia a intriga, a entrega, para prejudicar o colega, fazia pelo prazer de puxar o saco dos poderosos. Os amigos botavam Zeca no gelo...
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O Gordinho
[30-07-2010] |
Jorge foi um menino gordinho, tinha ódio da gozação dos amigos, inventavam apelidos: barril de chope, bolinha, barriga de merda, balofo, baleia, banhudo, cevado, entre outros. Ele bufava de raiva. Em casa sua mãe dizia ser inveja, não importasse, e enchia-lhe de comida. No futebol quase não corria, pança avantajada, pernas gorduchas, ninguém o queria no seu time. Era uma criança infeliz, achincalhada, humilhada por todos os amigos. Como em toda turma, havia um jovem metido, o mais esperto, o mais forte, Zé Dalmo era ídolo da moçada, era o cara. Com 14 anos tinha corpo de adulto, brigão, metia medo nos menores. Acontece que despertou ainda cedo em Zé Dalmo uma atração sexual por meninos, quem bobeasse, ele traçava. Certa vez chamou o gordo Jorginho para dar um passeio pela praia. Quando anda...
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Ordener Cerqueira
[21-07-2010] |
Ordener foi meu ídolo na infância e juventude. Eu me divertia, dava gargalhada ouvindo suas histórias. Amigo da família, dentista, consultório na Rua Boa Vista, ele costumava contar, quando eu era menino, meu pai, Coronel Mário Lima, trazia um batalhão de soldados para me segurar e abrir minha boca. Assim ele conseguiu tratar meus dentes. Ordener foi o inventor do pastoril dos estudantes. Nas vésperas de Natal, vários estudantes dançavam o pastoril fantasiados de pastoras. Ele era a vedete, a contramestra, a primeira pastora do cordão azul. CAPIBAO poeta, ator, compositor, Aldemar Paiva, certa vez trouxe à Maceió, Capiba, o maior compositor nordestino do século XX, dentre suas grandes músicas, “Serenata Suburbana”, era o sucesso daquela época, e uma das músicas prediletas de Ordener. Aldemar levou Capiba numa tarde sábado à casa de Ordener, praia de Riacho Doce. Ao ser apresentado ao compositor, Ordener perguntou que música Capiba compôs, e...
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Festa Literária de Marechal Deodoro
[08-07-2010] |
A ERA DOS FESTIVAIS Há mais de 30 anos na belíssima cidade do Penedo às margens do Rio São Francisco houve algumas edições do Festival de Cinema, um dos mais importantes eventos cinematográfico do país, repercussão internacional. Pela mesma época existiu na tão bela cidade histórica de Marechal Deodoro o “Festival de Verão”, onde a cultura e arte popular eram apresentadas de forma espontânea e divertida. Foram dos maiores eventos culturais do Brasil. Quem tem mais de 45 anos lembra com saudade detalhes das apresentações da arte e cultura na histórica cidade de Marechal Deodoro nos anos 70. O POVO NÃO ESQUECE Esses dois festivais fizeram a auto-estima do povo, eram eventos esperados durante o ano, uma vitrine da mostra da nossa cultura, nossas raízes, ficou no inconsciente da população em forma saudosista, a lembrança dos festivais. Durante a campanha eleitoral para prefeito em 2008, uma das reivindicações populares ao candidato Cristiano Matheus foi a volta do Fest...
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Freguesia
[28-06-2010] |
Estou na minha freguesia. Posso dizer-me um forasteiro por estas bandas de um interior meio perdido. O tempo, gasto-o em casa. A pasmaceira é a perder de vista, e ser descrente por aqui é pecado. Leio um certo autor que diz que aos vinte anos queria ser escritor, só não sabia o que era preciso para sê-lo. Estou como ele. É domingo de tarde, uma ideia matuta-me a cabeça. Só há uma coisa a fazer: combino a boa companhia de um amigo destas andanças e deitamos mãos à obra. A missão é clara: pretendemos derrubar o edifício da igreja pela força da escrita. É muito fácil. Ele foi acólito, eu fui organista. Sentamo-nos longamente a uma mesa de café e servimo-nos desta nossa experiência intra-uterina para arranjar material. Aponto tudo. Encho folhas e mais folhas com descrições detalhadíssimas de cerimónias, personagens, podres. Saltam ideias para piadas. Ao fim da tarde passo à parte prática dos trabalhos. É bom de se fazer: assisto à procissão do são Miguel padroeiro, no...
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HISTORINHAS DA COPA
[25-06-2010] |
HINO DA ESPANHA NÃO TEM LETRAA Marcha Real é o Hino Nacional da Espanha. É um dos raros hinos nacionais que não tem letra. A música é bastante antiga e data de 1761. Foi adotado e abandonado diversas vezes, sendo promulgado pela última vez em 1997. Por isso os jogadores não cantam no início do jogo. Claro!A BRIGA FRANCESA"Va te faire enculer, sale fils de pute!!!". Disse o atacante francês Anelka ao treinador Domenech depois de um bate boca no intervalo do jogo contra o México. Os dirigentes franceses expulsaram Anelka da delegação. O atacante negou o teor, mas aceitou a exclusão. Entretanto, os jogadores franceses fizeram boicote, não treinaram, pediram para a FFF revogar a expulsão de Anelka. A FFF declarou inaceitável o movimento dos jogadores. Criou-se o impasse. Os BLUES foram derrotados no último jogo pela África do Sul e desclassificado prematuramente. Em Paris os torcedores estão xingando os jogadores de: FILS DE PUTE! Coisa feia!!!O MELHOR TEXTO SOBRE A COPA"No ...
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AS COPAS QUE ASSISTI (Final)
[16-06-2010] |
1970 – No México O Brasil formou uma das maiores equipes da história do futebol mundial. Capitão do Exército, 30 anos, recém casado, eu comprei uma pequena televisão para assistir a Copa, primeira vez transmitida pela TV em preto e branco. Final Brasil 4 x Itália 1. Maior carnaval na Avenida da Paz em Maceió.1974- Na Alemanha Ocidental O Muro da Vergonha ainda dividia a Alemanha. Prefeito de Barra de São Miguel, 34 anos, assisti aos jogos na televisão colorida em frente à praia, Brasil sem Pelé ganhou pela primeira vez da Argentina em Copa do Mundo. Pela primeira vez também um filho, Ademir da Guia era titular da seleção como seu pai, Domingos da Guia, foi em 1938. Mas havia uma pedra no caminho do Brasil, o carrossel holandês, A Holanda era comparada à Hungria de 1954. Final, mais uma vez a Alemanha ganhou do bicho papão da Copa.197...
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As Copas que assisti
[11-06-2010] |
Sou um curtidor de Copa do Mundo, amo essa época de expectativas, de especulações, enfim, dos jogos do Brasil. Não perco um jogo desde criança, seja ouvindo rádio ou vendo televisão. Jamais compareci a uma Copa ao vivo, no estádio. Tenho lembranças de todas. Aqui registro o que vem à memória, sem muito esforço, rápidas histórias das Copas que assisti.COPA 1950 – No Brasil Menino, 10 anos, eu morava na Avenida da Paz em Maceió. Fiquei fascinado com as tabelas dos jogos que me chegavam às mãos. Acompanhei pelo rádio os jogos do Brasil. Foram quatro times para o quadrangular final. O Brasil bateu de 7 x 1 na Suécia; 6 x 1 na Espanha ouvindo o Maracanã em peso cantar: “Eu fui às touradas em Madri... E quase não volto mais aqui... Pra ver Peri beijar Ceci...&rdq...
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O Bombeiro Hidráulico
[04-06-2010] |
A CORNA Ivete quase não dormiu quando o marido saiu de casa. Chorou desde as cinco da tarde ao ler o pequeno bilhete: “Desculpe amor, não quero mais lhe enganar, estou apaixonado por outra mulher, a vida não é justa, você merece toda felicidade do mundo, mas o destino me fez encontrar nova vida. Serei sempre seu amigo. Amarante”. Há mais de dois anos Ivete sabia do namoro do marido com uma colega de jornal, 30 anos mais nova. A situação ficou insuportável, muita pressão da amante, colega jornalista, promovida agora à concubina de cama e mesa. Ivete estava aceitando ser corneada, dizia ser próprio da mulher, conformada, palavras de consolo querendo enganar a si mesma. Nunca imaginou sentir tanta a falta do marido, 29 anos de convivência. SOLIDÃO Sentiu pavor à solidão, mesmo com apoio da família, palavras confortantes, suas amigas foram formidáveis naquela hora de sofrimento, entretanto, a se ver sozinha ela caiu em depressão, chorava se sentindo a mais mis...
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Correspondência recebida
[31-05-2010] |
Maceió, 21 de maio de 2010. Querido Capita. Sou sua escrava, cativa de seus escritos, de seus livros, domingo pela manhã eu lhe devoro em seu texto na Gazeta. Sou uma mulher à frente de meu tempo, quatro maridos, os dois últimos morreram em meus braços. Desculpe entrar na sua privacidade, é que nessa época de Copa do Mundo, lembro do acontecido com meu primo Aloísio, quase padre, hoje coronel reformado. Quem sabe se você aproveita a história em sua crônica? Aloísio era um menino, 15 anos, quando o fato aconteceu. Eu havia retornado do Rio de Janeiro, me separei do primeiro marido, 30 aninhos, fiquei hospedada na casa de u...
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Sertão de Beiradeiro
[19-05-2010] |
A VIAGEM No último fim de semana viajei com o amigo Abynadá e nossas respectivas ao Recife para o lançamento do livro “Sertão de Beiradeiro” do irreverente e querido paraibano Zelito Nunes. Ônibus confortável, de primeira linha, moderno, nem na Europa viajei num igual. A Real Alagoas de parabéns, os novos utivos são luxuosos, ar condicionado, banheiro; sentei-me numa poltrona reclinável estratégica, em frente à telinha de cinema, fui obrigado a assistir dois filmes, Rock VIII e Avatar, tudo bem, nada é perfeito.A FESTA Num bem organizado salão da AABB nos Aflitos, Zelito alegre, feliz, recebia os amigos. Gente vinda da Paraíba, Ceará, das Alagoas. Encheram o enorme salão. A fila de autógrafos durou 4 horas e 37 minutos, arrodeou o quarteirão. Segundo o Papa Berto I, em certo momento ele mandou um sacerdote xeleléu contar as pessoas na fila, tinham 897. A festa rolou, muita poesia, música de primeira qualidade, uma mostra viva da forte cultura nordestina, brasileira. Foram bons momento...
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Cavalcanti, o aposentado
[13-05-2010] |
DIAS DE ÓCIO “O ócio é o pai de todos os vícios”, já dizia o doutor Sunda. O Cavalcanti está provando essa tese, boa aposentadoria, Banco do Brasil, não é feito esses miseráveis celetistas que passaram a vida trabalhando e do salário de aposentado sobram trocados após a compra de remédios; sem incluir o viagra.Cavalcanti, com dinheiro no bolso, sem filho para criar, sessentão em forma, entregou-se ao melhor ócio num velho calção de banho, o dia para vadiar, um mar que não tem tamanho e um mergulho no bar. Senta-se com amigos numa barraca de praia até o sol ir lá pro fim do mundo pra noite chegar. Vez em quando vai à praia do Francês apenas para ver um belo pôr-do-sol, o ócio o fez mais romântico. Muitas vezes chega bêbado em seu belo apartamento na Pajuçara. Helena, sua digna consorte, como di...
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A Enfermeira
[07-05-2010] |
DESCASAMENTO Jacinto, arquiteto de belas obras e também da vida, é um tremendo bom caráter, de bem com o mundo. Aos 45 anos era casado há 20 com Dulce, mulher amarga, complicada, vivia brigando, gostava de uma turra, sempre tinha razão, ganhava as discussões no grito, enquanto Jacinto é que nem Lulinha, de paz e amor. Muito relutou, entretanto, não agüentou, mesmo amando demais seus dois filhos, acabou o desgastante casamento. Sentiu-se aliviado, foi como tivesse tirado o peso de uma jamanta de seu coração. Ficou à toa, à deriva, livre, solteiro, dedicou-se ao trabalho, à leitura e à boemia. Poeta, escritor, fértil de imaginação, para celebrar a nova vida organizou uma festa íntima, distribuiu aos amigos um convite da “Festa de Descasamento”. Alugou uma escuna, encheu de convidados, durante um fim de semana singrou q...
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O Bem Amado
[30-04-2010] |
RECIFE“Amar mulheres, várias... Amar cidades, só uma - Recife.” Uma declaração de amor ao Recife em versos do meu querido amigo, poeta maior, Ledo Ivo. Até que concordo sobre as mulheres, entretanto, sobre as cidades, além do Recife colocaria outras de meus muitos amores, Maceió, Nova York, Marechal, Lisboa, Barra, Rio, para ficar em seis e não me acusarem de volúvel citadino. Nessa segunda-feira fui ao Recife, me sinto em casa passando sobre suas pontes e os seus rios que cantam, e seus jardins leves como sonâmbulos e suas esquinas que desdobram os sonhos de Nassau, como escreveu meu poeta predileto. Na verdade fui trabalhar. Com o projeto da 1ª Festa Literária de Marechal Deodoro na mão, visitei órgãos parceiros da Festa a ser realizada entre 1° e 5 de setembro. Certeza do sucesso. A quatro - centenár...
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Dedicação Exclusiva
[21-04-2010] |
MENINO SAPECARodolfo sempre foi um menino sapeca, para usar um termo de sua idade. Ainda neném, secou o leite de sua mãe, arranjaram um ama leiteira. Morena, forte, 21 anos, seios duros, firmes, ele se deliciava mamando leite puro. Ficou viciado. Mesmo sem fome, chorava, só dormia abocanhando o peito duro da bela negra. Tentaram chupeta, mamadeira, nada. Tornou-se viciado até aos sete anos. Só acabou o vício do seio porque a ama de leite arranjou uma amigação com um conhecido jornalista da época. Rodolfo chorou muito sentindo falta da ama, teve que se acostumar na marra. Adorava brincar, nadar e jogar futebol na praia da Pajuçara, onde morava, entretanto, quando chegavam as três primas, filhas de um tio – padrinho, Rodolfo deixava tudo para brincar de médico com as priminhas, aos 11 anos já conhecia detalhadamente toda anatomia feminina. Quando a ponte do Riacho Salgadinho desabou, construíram uma improvisada, estreita, de madeira, para pedestre. Dolfo descobriu um local estratégico em...
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Pacto Silencioso
[16-04-2010] |
O CASAMENTO Orlando casou-se cedo com Gilda, filha de um próspero fazendeiro lá para as bandas da Palmeira dos Índios. Dona Solange, a mãe, incentivou o casamento da filha aos 17 anos. Vivia um drama, o marido, Fernando, ainda moço, com câncer, tinha pouco tempo de vida. De fato, dois anos depois do casamento, Gilda perdeu o pai. Orlando tomou conta da fazenda, mostrou-se bom administrador. Embora e...
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Francesca
[08-04-2010] |
Primeiro amorQuando Quitéria, doente, foi a Juazeiro, rezou ao padre Cícero, o santo nordestino. Ela jurou, se ficasse boa, colocava o nome da criança que estava em seu ventre de Cícero, homenagem ao santo. Assim que Cícera nasceu, o pai batizou a linda criança morena na Igreja de São Benedito, perto do Vergel do Lago, onde moram. Cicinha cresceu livre à beira da lagoa Mundaú. Quando pegou corpo, tornou-se a cobiça dos homens; seu gingado deixa qualquer vivente, mortal, comovido, sangue fervendo. Caminha em ondas. Aos 15 anos conheceu Zezão, boêmio, tocador de violão, lábia de mulher se apaixonar na hora. Certa noite o cabra safado levou-a de moto à praia do Sobral, lua cheia, sexta-feira 13. Cícera derram...
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1º DE ABRIL DE 1964
[03-04-2010] |
Acordei-me com o som cadenciado e harmonioso da alvorada tocada pelo corneteiro do quartel. Eu era tenente do Exército Brasileiro servia na 2ª Companhia de Guardas, força de elite do IV Exército sediada no centro da cidade. Tropa altamente treinada contra distúrbios e guerrilha urbana. Uma luminosa manhã acordava a bela histórica cidade do Recife. A Companhia estava de prontidão há mais de uma semana, sem algum militar sair do quartel devido aos acontecimentos políticos da época. O presidente João Goulart acendia uma vela a Deus outra ao Diabo. Um processo de desgaste político se espalhou sobre a Nação. O que sustentava Jango era um suposto esquema militar, inclusive o General Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército, jurou de pés juntos que defenderia a legalidade, quando a conjuntura mudou, ele também mudou. A situação ficou mais nebulosa de...
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Carnaval em Angra dos Reis
[04-03-2009] |
Há cinco anos que eu fujo, literalmente, de muvuca, zoeira, badalação e festa do carnaval de Salvador. Desta vez eu fui para o litoral do Rio de Janeiro, curtir a paz e o sossego da Praia do Machado, em Angra dos Reis.Saí de Salvador às pressas. Trabalhei a manhã inteira e saí do trabalho às 2 horas da tarde. Do trampo para casa eu gasto cinco minutos caminhando. Moleza. As sacolas já estavam arrumadas há uma semana. Faltava colocar um par de sapatos, um par de meia, fechar tudo e correr para o aeroporto, distante de minha casa cerca de 40 quilômetros. Um amigo me acompanhou na viagem, Léo Dragone, poeta e romancista.De casa para o aeroporto gastei quase todo o tempo disponível. O voo sairia às 15:40h e eu cheguei ao balcão de check-in às 15:20hs. Ufa, por pouco meus planos de paz e descanso iriam por água abaixo. Impressas as passagens, embarquei as bagagens: dua...
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De mulheres e canoas
[25-12-2008] |
Hoje vou pedir licença para comemorar um singelo aniversário. Faz 30 anos que saí do anonimato para entrar na obscuridade. E cair numa espécie de maldição. Explico: foi em dezembro de 1978 que uma editora paulistana, igualmente obscura e já desaparecida, a L. Oren, decidiu publicar meu primeiro livro de contos, que leva o extravagante título Mulher que virou canoa. Podem imaginar que espécie de canoa era. Antes disso eu só havia publicado um livrinho de poemas, com dinheirinho próprio, ingênua plaquete que nem mesmo parava em pé. Agora não: um editor de verdade resolvera apostar em mim. Michel Oren era baixo, pesado, já entrado em anos e mascava um charuto quando penetrei no seu escritório. Atrás dele, monstruosas colunas de pacotes de livros recém-impressos. Fui direto ao ponto: &...
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Robert Walser
[21-12-2008] |
Há um ano, buscando na Web imagens de Robert Walser (somente porque o Jornal do Brasil, numa resenha, comparou minhas esquisitices com as dele), dou com uma foto de seu cadáver tombado na neve, nas proximidades do sanatório onde viveu por quase três décadas. Não sabia da existência dessa fotografia impressionante. Era o Natal de 1956 e Walser estava com 78 anos. Deitado de costas, tem a cabeça afundada na neve. Em primeiro plano aparecem seus sapatos, raiados nas solas, rijos e feitos para andar na neve. No lado oposto está o chapéu, que rolou no momento da queda, talvez tocado pelo vento, parando a dois ou três metros do corpo, com o forro para cima. Dois homens de preto e chapéu na cabeça observam por trás de uma cerca ou corrimão de madeira trançada. Possivelmente aguardam a chegada da polícia técnica. Eu ignorava a foto, mas sabia de Robert Walser. Em 5 de março de 1989, escrevera em meu diário: “Um novo paredro de que s...
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Kafka e a menina
[19-12-2008] |
Um relato de Dora Diamant sobre o último ano de vida de Franz Kafka contradiz, se não desmente, a fama de homem arredio e soturno do autor de A metamorfose. Dora, sua jovem companheira nos dias finais, quando não tinham dinheiro nem para a conta de luz, quanto mais para as visitas do médico, levava-o a passear no Stegliz, um parque próximo da pensão onde então moravam, em Berlim. Nesse parque, certa vez, encontraram uma garotinha em prantos. Indagada, ela explicou que havia perdido sua boneca. Deixara-a por um momento descansando na relva, sob uma árvore, e quando voltou não mais a viu. Para consolar a menina, Kafka sentou-a num banco do parque e inventou para a ela uma história bastante verossímil. A boneca não havia desaparec...
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O falso poema de Borges
[15-12-2008] |
Vá lá que você não goste de ler poemas. Pouca gente gosta. Não é um defeito irreparável. Mas daquele poema póstumo de Borges, ah, desse você ia gostar. Intitula-se “Instantes” e começa assim:Se eu pudesse viver novamente a minha vida,na próxima trataria de cometer mais erros.Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.Nunca tive o impulso de levar um poema no bolso, como se faz com os documentos e retratinhos de família, mas esse eu levaria sim. Arrependi-me de não tê-lo recortado do jornal onde o li, encantado e distraído, como se poemas assim houvesse por aí aos quilos. Tinha me agradado sobretudo aquele trecho em que Borges dizia: Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, sem uma bolsa d’água quente, um guar...
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A caravela do tempo
[13-12-2008] |
A pergunta veio do garotinho de rosto especulativo e maçãs vermelhas:Por que é que não existe trabalho para todo mundo? Seu argumento era que, se havia tanta coisa para ser feita em toda parte, não devia faltar emprego para ninguém. Achei tocante a preocupação dele. Como explicar a desordem existente? Então pensei na caravela portuguesa do século dezesseis, não aquela que descobriu o Brasil, mas outra que anos depois fez mais de uma viagem em mar proceloso, às vezes para trazer uma mensagem do rei ao governador-geral. A mensagem tinha de ser trazida e não havia outro jeito de fazê-lo senão cruzando o Atlântico. Levava quarenta dias para chegar. Imagine se alguém do nosso tempo, digamos um desses pequenos e hábeis navegadores (não do oceano, mas dos mares da internet) recuasse cinco séculos e revelasse ao capitão daquela caravela uma ...
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Escrever
[11-12-2008] |
Há vinte anos li que Marguerite Duras, então com setenta e quatro, ainda era capaz de “provocar paixões e desejos eróticos incontroláveis”. A própria autora de O Amante relata, numa entrevista, que durante uma festa na Maison de l’Amérique Latine, em Paris, um jovem sentou-se a seu lado e encostou-se nela. “Tentei sair, mas ele era muito pesado, era como se tivesse desmaiado. Logo compreendi o que estava fazendo. Não me mexi mais, deixei que o fizesse. Ele tinha esse direito, por que não?”.Duras morreu em 1996 e desde então a lenda em torno de seu nome não pára de crescer. Fez muitos filmes, mas sobretudo escreveu muitos livros. São livros curtos, por vezes estranhos, nem sempre agradáveis, por isso mesmo instigantes. Minha curiosidade nunca arrefeceu a seu respeito. Imagino uma entrevista com ela. — O que é ser escritor?— É se ...
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A idade do brasileiro
[08-12-2008] |
No tempo em que eu era poeta, ou julgava que o era, escrevi um pequeno poema que terminava com este verso: “Mas sei que sou antigo”. Enviei-o a um poeta mais velho, este sim um verdadeiro poeta, que achou por bem me chamar às falas. Disse que a palavra “antigo” tinha ali uma conotação peremptória demais, um ar de presunção que não ficava bem na boca de um rapaz de vinte anos. Escrevi-lhe sem mágoa: Sei o que o senhor quer dizer: que não sou experiente o bastante para merecer essa palavra. É exatamente isso, escreveu de volta, sem panos quentes. Acatei a reprimenda e passei a achar realmente o tal poeminha bastante besta. Só não o destruí porque já o tinha mandado imprimir. Ei-lo: No côncavo da noite esta cidade a...
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Campinas lisboeta
[06-12-2008] |
Em 1922, um jovem escritor português do Grupo Orpheu, de nome António Ferro, andou por terras brasílicas fazendo pregação (imagine só) do movimento futurista. O Orpheu, que orbitava em torno da revista do mesmo nome, e que só tirou dois números, era chefiado por Fernando Pessoa, cuja fama futura era, na época, menos que uma promessa no ar.Pessoa talvez desaprovasse o que Ferro veio dizer aos brasileiros, mas, em todo caso, o Clube Semanal de Cultura Artística de Campinas, naquele dia, esteve lotado para ouvi-lo cantar as “ruas barbáricas das grandes cidades, ruas doidas com olhos inconstantes nos placares luminosos e fugidios, ruas elétricas, ruas possessas de automóveis e de carros, ruas onde os cinemas maquiados de cartazes têm atitudes felinas de mudanças”.No começo do século 21 um outro Fernando (este, brasileiro) podia ser visto ocasionalmente nas ruas d...
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Kafka e Pessoa
[04-12-2008] |
“Era pálido e magro. Fisicamente parecia ser pouco desenvolvido. O peito era estreito e contraído, e tinha tendência para corcovar. Dava-me a impressäo de ser inclinado à morbidez. Era delicado, inofensivo e evitava os colegas. Não tomava parte nos esportes nem em outra atividade escolar fora da classe, e assim quase não era visto. Pelo que é de meu conhecimento, não tinha nenhum caso amoroso e também ignoro se praticava excessos sexuais. Devo dizer, contudo, que tinha em seu poder algumas revistas em quadrinhos indecentes, francesas e portuguesas”. [Carta de Clifford Geerdts, antigo colega de Fernando Pessoa na Universidade do Cabo, ao médico deste em Lisboa.] “Kafka cresceu odiando seu corpo. Tinha horror à intimidade física. O sexo era para ele a quintessência da imundície, a antítese do amor. O in&i...
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Conselhos para 2009
[02-12-2008] |
Salta à vista, nestes tempos confusos, que as pessoas estão ávidas por orientação moral. Não posso deixar de atendê-las, sobretudo agora que um novo ano desponta em suas vidas. Comecemos pela questão sexual. Nunca vá para a cama com um perfeito desconhecido, a não ser que seja um desconhecido perfeito. Isso vale para todos os sexos. Em alguns casos a abstinência pode ser uma boa coisa, desde que praticada com moderação. Sobretudo não tente abdicar do sexo, porque ele não vai abdicar de você. Resista a tudo, menos às tentações. Seja como o pão: quanto mais quente, mais fresco. E se você tem o hábito da masturbação, não se preocupe: está fazendo amor com a pessoa que mais ama. Em política, jamais acredite em fórmulas de longo pra...
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O secretário de Mário
[28-11-2008] |
Houve também aquele dia, no início de 1988, em que fui entrevistar José Bento Faria Ferraz, o antigo secretário de Mário de Andrade. Mário estava morto havia 43 anos e já era o mito em que se transformou. O velhinho que me abriu a porta naquela manhã paulistana também resplandecia de uma mitologia própria, ainda que de empréstimo, por ter servido durante anos ao chefe famoso e pelas menções que este lhe fez em suas cartas a Manuel Bandeira, Drummond, Pedro Nava, Fernando Sabino e outros. Por exemplo, numa carta de Mário a Murilo Miranda, encontro esta referência: “Tenha paciência com o meu secretário, este mui ilustre zebentinho cabeça de água”.A primeira coisa que Zé Bento me mostrou foi uma carta inédita de Mário dirigida a ele, Zé Bento. Estava datada de 26 de novembro de 1943. Mário derramava-se em confid&e...
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O porão
[23-11-2008] |
Agora penso que este porão se parece com aquele outro, remoto, do palácio episcopal de Luz, onde quiseram me fazer padre. Não é tão amplo, mas é mais alto e entra uma luz coada que lá não havia. Recordo: tão logo morreu o velho bispo, nonagenário, o bispo novo, quadragenário, autorizou que saqueássemos o misterioso aposento onde o falecido, quando vivo, guardava suas tralhas. Como um bando de hunos entramos e rompemos todos os ferrolhos. Alguns já estavam abertos e apodrecidos pelo trabalho da oxidação. Cenário de campo de batalha: baús e caixotes escancarados e repletos de voluminhos devocionais, mas também de empoeiradas coleções de revistas já extintas, como a picante Careta ou a plácida Flama, editada em Lisboa. Aquelas velharias, levadas para nossos armários, passaram a iluminar nossas noites. Havia também...
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A biblioteca no porão
[19-11-2008] |
Tomado de repentina animação, consagro o sábado à arrumação das prateleiras. Descubro que o porão é mais espaçoso que o pequeno aposento que ocupava antes, e que agora é habitado por Vovô. Antes os livros ameaçavam sair porta afora, a tal ponto de ser preciso arranjá-los em fila dupla. Não havia estantes para todos. O resultado é que os livros colocados atrás há muito não viam a luz do dia; e os da frente se ressentiam dos companheiros resfolegando em sua nuca. Retirar aqueles de onde estavam significava remover a fila da frente, operação não muito diferente de um ato de demolição. Para não ter de fazê-lo eu passava meses sem ver a turma da retaguarda; e os da vanguarda já iam me cansando.Agora, com um pouco mais de espaço, reencontrar a turma dos sem-prateleira e devolver a eles a alegria da berlinda ...
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