A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNETliteratura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa. Luís Carmelo, Coordenador
“O sono inquieto de Jack Stapleton transformou-se instantaneamente num pleno despertar. Ele estava num carro em fuga e descia uma rua íngreme da cidade, aproximando-se rapidamente de um grupo de miúdos de um infantário que atravessavam a rua aos pares de mãos dadas, alheios à desgraça iminente. Jack pisava a fundo o pedal do travão do veículo mas sem êxito. Na verdade, o carro acelerava. Ele gritou para que as crianças saíssem do caminho mas calou-se quando se apercebeu de que estava a olhar para o tecto salpicado de luz que entrava pela janela do quarto de sua casa em West 106th Street, em Nova Iorque. Não havia um carro, uma descida íngreme nem crianças. Era mais um pesadelo.Sem saber ao certo se gritara ou não, Jack voltou-se para a sua mulher Laurie. À meia-luz da janela sem cortinas, reparou que ela estava ferrada no sono, o que levava a crer que ele reprimira o seu grito de horror. Quando olhou novamente para o tecto, Jack estremeceu ao pensar no seu sonho, um pesadelo recorrente...
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“Vim aqui para morrer. Cheguei hoje. A Figueira da Foz surgiu -me sem rasto de fim de mar, abismo de antigos pescadores e outras almas de fortuna e fé. É um décor, tinhas dito a rir, um dia num pequeno restaurante, a depenicar peixinhos da horta, os dentes brancos numa aparição quase obscena. Pareceu -me, então. Nada do que aqui se passa é real. A terra que não existe. Os tempos dos espanhóis em férias, os que fugiam da guerra, as famílias importantes, os passeios a Tavarede e todas as outras. Nada disso existe realmente. Percorrer a marginal no deslumbramento marítimo até Buarcos. O que é que tudo isto interessa? E quando é que deixou de interessar? Saberás dizer com exactidão, por seres esse tipo de criatura, a pessoa das datas, aniversários, horas certas para tudo. Timetable. Most important. Sim. Terás razão, o tempo sempre desaf...
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“«Thomas Alan Waits nasceu a 7 de Dezembro de 1949, em Ponoma, pequena cidade na Califórnia do Sul. De ascendência escocesa, irlandesa e norueguesa, os pais, professores, eram admiradores de Gershwin, Cole Porter, Sinatra e Louis Armstrong e fervorosos leitores de boas histórias. Na adolescência ouvia os acordes de Bob Dylan na rádio e aprendeu a tocar piano e guitarra. Waits descobre e aventura-se pelas obras de Jack Kerouac, Gregory Corso, Allen Ginsberg e outros cronistas da Geração Beat, com os quais se identifica muito e que constituíram as suas referências literárias. Através de Herb Cohen entra no mundo da música e edita o seu primeiro álbum, Closing Time (1972), e o segundo, The Heart of Saturday Night, desde logo muito bem recebidos pela crítica, pelos seus originais jogos linguísticos, sons de swing e de jazz. As suas canções ilustram os sonhos...
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“— Da última vez que fiz escalada em bloco com os meus pitons, caí — disse Conrad.Jochen teve vontade de aplaudir mas sabia que, se reagisse à mensagem em código, poderia alertar um grupo rival que estivesse sintonizado na sua frequência; ou, pior ainda, permitir que um jornalista que estivesse à escuta se apercebesse de que eles tinham encontrado um corpo. Ele deixou o rádio ligado, na esperança de receber uma pista que revelasse qual das duas vítimas tinha sido encontrada pelo grupo de buscas, mas não foi proferida mais nenhuma palavra. Apenas o som da estática confirmava que havia alguém do outro lado, mas que não estava disposto a falar.Jochen seguiu as instruções à letra, e ao fim de sessenta segundos de silêncio, desligou o rádio. Desejou ter sido seleccionado para integrar o grupo de alpinistas que tinha ido à procura dos dois corpos, mas tinham tirado à sorte, e calhara-lhe a ele não ir. Alguém tinha de ficar no campo base para trabalhar com o rádio. Ele olhou para o exterior d...
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Sobre o livro: No dia seguinte ao da morte da sua mãe, a 25 de Outubro de 1977, Roland Barthes começa um «Diário de Luto». Escreve a tinta, e por vezes a lápis, em fichas que ele próprio prepara a partir de folhas de papel A4 cortadas em quatro, e das quais mantém sempre uma reserva em cima da sua mesa de trabalho. Enquanto redige este Diário, Roland Barthes prepara o seu curso para o Collège de France sobre «O Neutro» (Fevereiro-Junho de 1978), escreve o texto da conferência intitulada «Longtemps je me suis couché de bonne heure» (Dezembro de 1978), publica um grande número de artigos em diferentes jornais e revistas, escreve A Câmara Clara entre Abril e Junho de 1979, redige algumas páginas do seu projecto «Vita Nova» durante o Verão de 1979, prepara o seu duplo curso para o Collège de France sobre «La Préparation du roman» (Dezembro de 1978 - Fevereiro de 1980). No princípio de cada uma destas obras maiores, todas elas explicitamente postas sob o signo da morte da mãe, encontram-se ...
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“Upphaf(O Início) IDe antanho a eraem que o vazio existia,nem areia ou marnem ondas revoltas;por forjar a Terra,por cobrir o Céu:um abismo aberto,sem folha de relva. 2 Os Grandes Deuses entãoderam início à labuta,o maravilhoso mundomui bem construíram.Vindo do Sul, o Soldos mares saídoreluzia sobre a relvaverdejante nas manhãs. 3 Os seus salões e santosno cimo se erguiamcom coruscantes empenas,colunas douradas,baluartes em rocha talhados,erigidos em esplendor,forja e fortalezade armação imortal. 4Brotou o seu júbiloem muitas cortes,onde os homens engendraramda astúcia das suas mentes:sob colinas de Céubem alto erguidasviviam por entre risoshá muito tempo. 5 Terríveis formas se ergueramde tenebrosas fendassobre montanhas inteirasjunto ao Mar sem Margem,da escuridão amigos,inimigos imortais,antigos, não engendrados,emergidos do vazio ancestral. 6Ao mundo chegou a guerra:as muralhas dos Deusesos gigantes sitiaram;a alegria cessou.Moveram-se as montanhas...
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“1Aquilo não podia ser real.Fechei o livro com a sensação de que algo sinistro estava acontecendo. Sei que é comum casos da vida imitando a arte e vice-versa, mas não de forma tão escabrosa. EU era o personagem central daquele conto, um eu esquisito, disfarçado, com outro nome, mas ainda assim eu, euzinho da silva, me reconheci com a maior facilidade naquelas páginas, perscrutando diariamente minhas fezes, intrigado com o possível significado das estranhas e múltiplas formas fecais boiando no vaso sanitário. Quem mais no mundo, além de mim, possuía um caderno de excrementos?Reli três vezes o conto para ter certeza de que não estava dando meus próprios voos. Admito que sou um leitor obsessivo e que, com freqüência, reescrevo diletantemente as histórias de meus escritores preferidos. Não que eu seja crítico ou plagiador, ou, pior que tudo isso, fraco de imaginação. Reescrevo-as por uma questão de justiça. Alguns personagens merecem destinos melhores. Raskolnikof, por exemplo, jamais deve...
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“Manuel António Rebelo era um produto desta paixão. Crescera entre as histórias do pai, um homem para quem havia duas coisas sagradas na vida: Deus e o bacalhau – e nem sempre por esta ordem. As palavras do pai pintavam quadros vívidos de corajosospescadores de cabelos grisalhos e caçadores de baleias, que deixavam as famílias durante meses a fio para ir pescar nas vastas águas da Terra Nova. Visões de mães amortalhadas em negro, de esposas desorientadas – as grávidas a sentirem-se abandonadas, as outras satisfeitas pela trégua nas gravidezes – revoluteavam-lhe na cabeça. E depois havia ainda as crianças, de ponto em branco, a acenarem nas suas melhores roupas de domingo. Os rapazinhos vestidos em casacos puídos, impecavelmente engomados, e calções vincados. As meninas salpicavam a paisagem como pipocas, envergando os vestidos da comunhão que j&...
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“A noite está um pouco fria. Desde o final da tarde que, como é habitual acontecer nesta estação do ano, a chuva caía, miudinha, constante e densa. Já não era sequer possível ver o lago, que contudo ficava ali bem perto, um pouco mais abaixo. Estávamos no Outono. Imóveis, as árvores encharcadas cintilavam por entre a luminosidade que se escapava das janelas da sala.Dentro de casa, o ambiente era agradável. O casal estava bem aninhado no seu sofá, envolto no meloso calor da chama que balançava na lareira. Cathy deixou escapar um suspiro triste e aconchegou-se ainda mais ao marido. Perdidos nos seus pensamentos, Marc mantinha os olhos presos às chamas. Já estavam assim há umas longas horas, silenciosos, levantando-se só para colocar mais troncos na lareira. Hoje não tinham mais nada para fazer – algo que nunca acontecera.Marc espreguiçava-se paulatinamente; ela olhou para ele. Os seus olhares cruzaram-se. Ele beijou docemente a testa dela, ainda com mais ternura do que era habitual. Beij...
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“Era o fogo. Andava à solta nos montes, embora visto dali, a uns cinquenta quilómetros de distância, parecesse apenas uma lâmpada enorme, de luz avermelhada, para iluminar as terras em redor. Ou um sinal. Talvez pudesse parecer isso também, um sinal para os barcos que andassem do outro lado, perto da costa. Eu imaginava estas coisas para o clarão do fogo, até que fosse um aviso para os aviões que sobrevoassem de noite aqueles montes. Não se desse o caso de irem eles lá bater, no sítio que passava dos novecentos metros, no que por pouco não atingia os oitocentos ou até noutro qualquer com menos ilusões de chegar às nuvens. A minha imaginação com os montes, as nuvens e os aviões, depois dos barcos perto da costa. Eu estava na berma da estrada, fora do carro, no primeiro sítio de onde tinha conseguido avistar o clarão. Era pouco mais de meia-noite...
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“O quarto onde ele acorda tem o fedor tenso de uma cabina telefónica, que apesar de tudo evoca anúncios de acompanhantes e uma sensação de perda, não pelo sexo mas pela ternura. A última mulher era uma prostituta morena e jovem em Barcelona a quem ele pagara mais para uma hora pós-coito, o seu nariz na nuca macia dela. Só para ficar aqui deitada? Sim, tudo bem. Ela ficara visivelmente incomodada, como se a afeição fosse uma perversão esquisita, mas o que lhe poderia dizer? Ele próprio estava espantado.Com a boca seca, ele levanta a cabeça do peito e percebe uma sensação áspera no pescoço. Não sabe há quanto tempo está inconsciente. As algemas parecem novinhas em folha, fascinantes em contraste com a sua pele escura. Os homens siques usam aquelas braceletes de aço e até pestanas postiças como as dançarinas e, no entanto, parecem admiravelmente masculinos. Ele não se teria importado de ser um sique. Selina, há anos atrás, tinha afirmado que o turbante possui um profundo fascínio fálico —...
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“Não chore, Bárbara. Assim choramos as duas. A única verdade da minha vida foi o amor de Bartolomeu. A única verdade é o amor. Nem a verdade é necessária, excepto no amor. Bem sei, parecem versos de uma das minhas canções, e talvez sejam. Tome um lenço, seque as lágrimas. Não lhe posso pedir para ser minha amiga. Seja então minha inimiga, mas não me ignore. Nós, os cantores, os actores, as pessoas ligadas ao negócio do espectáculo, todos nós, os saltimbancos, ganhamos o vício dos palcos. Precisamos das luzes, faz‑nos falta, inclusive, o pequeno pânico. Fazem‑nos falta a ansiedade, o suor frio, a vertigem nos primeiros minutos. Precisamos dos aplausos. Uma droga? Ri‑se? Prefiro vê‑la a rir, mesmo quando troça de mim. Já lhe devem ter dito que fica muito bonita quando ri. Voltando às drogas, são até várias, você sabe, senhora doutora, estou a ensinar o padre‑nosso ao vigário, são um coquetel de drogas, em particular adrenalina e endorfina. A adrenalina acele...
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“Nota IntrodutóriaArnaldo Saraiva Sedução, novela ou romance de José Marmelo e Silva que durante décadas foi suposto o seu livro de estreia por muitos que ignoravam o juvenil e logo renegado O Homem que Abjurou a Sociedade (1932), teve em 1937 uma recepção muito favorável, merecendo palavras calorosas de João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro e Irene Lisboa, entre outros.No entanto, não se pode dizer que a crítica estaria depois sempre atenta à produção de Marmelo e Silva. Compreende-se: ele não se fixou, nem andou muito por Lisboa, onde aliás erminou a licenciatura iniciada em Coimbra: tropa em Aveiro e a Madeira, percurso de várias escolas do país, fixação definitiva em Espinho (em 1947).O lançamento em 2002 da sua Obra Completa, sob a direcção e Maria de Fátima Marinho, e a constituição de um Centro de studos com o seu nome, já associado à edição de Leituras de José Marmelo e Silva (2006), organizado por Ernesto Rodrigues, ieram dar testemunho da “permanência” de um escritor fal...
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“O telefonema veio alterar radicalmente a minha vida, força-me a expor-me publicamente, acabando com os dias serenos entre as aulas, as leituras e os serões solitários, recebi o telefonema dois dias antes do Natal, numa manhã de compras, uma embalagem de leite magro na mão, uma vaquinha dizia-me adeus de um prado verde cantante, senti-me incomodada, nervosa, depus a embalagem na prateleira, perfilei-me para atender o telefonema, anunciado pela secretária, teria de dar a resposta no final do dia de Natal, amanhã até às 20 horas, a voz do interlocutor foi peremptória, até às 20 horas.A solidão desta noite de Natal sabe-me bem, permite-me reflectir em silêncio, sem a incomodidade das travessas de bacalhau ou o cheiro agoniativo do peru tostado no forno, posso ponderar calmamente as duas alternativas, o sim ou o não, sem a angústia das opiniões alheias, o meu ex-marido a dizer-me uma coisa, os filhos outra, eu a fingir-me dividida, angustiada, sabedora porém da minha decisão, tomada no seg...
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Visita na Prisão ou O Último sermão de António Vieira foi Menção Honrosa na 2ª edição do Prémio Luso-Brasileiro de Dramaturgia António José da Silva, tendo sido distinguida com o Prémio Albufeira de Literatura 2008 (instituído pelo Município de Albufeira em colaboração com a Associação Portuguesa de Escritores).ou O Último Sermão de AntónioVieira efabula emteatro as derradeiras horas de vida de António José da Silva; o dramaturgo judeu luso-brasileiro, morto em auto-de-fé a 19 de Outubro de 1739, frente aoTejo.Grande parte da acção da peça decorre numa cela da prisão dos Estaus, ao Rossio, lugar físico onde hoje se ergue oTeatro Nacional D.Maria II. António José recebe no cárcere amais surpreendente das visitas: o fantasma do Padre António Vieira, ...
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“Agnetta é a única filha de Anders, o merceeiro. É alta, pensa no mar todos os dias, pensa na ventania parda e húmida que barra como manteiga as fragas recheadas de pássaros brancos de enormes asas brancas, de poderosas asas brancas, que arredondam ao voar a curvatura da Terra já de si arredondada. É alta e também branca e loura, tem o cabelo liso que vai descaindo pelos ombros até à sua cintura; na face, ao falar e ao rir, formam-se-lhe dois buraquinhos, um de cada lado, que lhe tornam a expressão muito mais engraçada do que todas as raparigas lá da aldeia, todas juntas. Nem todas podem ser tão graciosas como Agnetta e por isso mesmo casou-se cedo com Elvis, um rapaz vindo duma cidade ainda mais longe e mais fria e mais branca e com mais renas e mais castores e mais lobos e mais bagas roxas e com as luzes do céu mais coloridas nas noites brancas bordadas de estrelas, nessas noites que dão que pensar, nessas noites-dias, nessas noites em que apetece ir até ao lago e verificar mais uma ...
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“Foi numa tarde de Outono que me perdi quando ia a caminho de Coruche, em busca da terra onde vivera Antónia Margarida de Castelo Branco. Em pequenas estradas, no interior do país, basta uma distracção para que se perca o horizonte, e os passos nos levem para onde não se esperava ir. Eu, no entanto, gosto de me perder. É isso que introduz um elemento de dissonância no mundo; e, a partir daí, me leva para descobertas de onde, por fim, acaba sempre por nascer qualquer coisa. Também é verdade que eu não sabia bem o que me obrigava a ir até Coruche, quando apenas procurava descobrir onde ficava a Lamarosa. O que sabia, isso sim, é que numa tarde de Outono, quando o céu se começa a cobrir de cinzento, é agradável entrar no campo, e perceber através das diferenças de cores, e dos contrastes entre a terra que ainda recebe a luz do céu, revelando um brilho que sabemos ir perder-se com o Inverno próximo, e as partes sombrias, em pedaços de floresta, que a vida nasce de confrontos que são sempre...
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“Já alguma vez notaram como a linguagem favorece as pessoas que vêem? (Claro que não, porque podem ver). Não tenho apenas um problema de visão, tenho um problema de fala, uma certa dificuldade em encontrar palavras e expressões adequadas à minha experiência. Ora ouçam o que as pessoas dizem: Oh, bem vejo… Olhe lá… Já viu isto? Depende do seu ponto de vista…Estão a ver?Eu, claro, não vejo. As pessoas perguntam-me muitas vezes por que razão vou à ópera se não posso ver os actores a representar, não posso ver o cenário nem o guarda-roupa e não posso ver os efeitos das luzes. Porque não fico em casa e ouço um CD? Não é a mesma coisa? Pergunto-lhes se acham que é a mesma coisa ver uma reprodução de Noite Estrelada de Van Gogh ou o quadro original. (Eu nunca vi o quadro mas ouvi dizer que muitas pessoas que contemplaram esse quadro choraram.) Digo aos cépticos e incrédulos que vou à ópera porque transmite uma visão de um mundo mais ampla aos meus ouvidos do que qualquer outra forma de arte a...
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“- Esse não inútil, o de vante – criticou mais uma vez, o outro.- Qual? Aquele que está mais folgado? – perguntou o jovem, indicando com a cabeça uma corda que se apresentava mais solta que as outras.- Maldito sejas miserável, mantém-te atento – gritou de novo o velho, tentando disfarçar o afecto que tinha por este seu discípulo.Mamoun largou então o entrançado de fibras que puxava com ambas as mãos e correu para o outro lado do mastro. Aí, agarrou e esticou o outro cabo, enquanto olhava para a coluna de madeira procurando ver nela e na vela já inchada, os efeitos da sua actuação. Da observação e pensamento, o rapaz passara num ápice à acção. Antes de ser interrompido por Fadil, o velho marinheiro, Mamoun observava as ondas que a embarcação ia deixando na calma superfície deste mar interior. Olhav...
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ME ENTERREM COM MINHA AR-15, Marcelo ArielNa revista Babel, Marcelo Ariel abre seu poema Beckett para as crianças explicando o que é poesia:Aqui havia um espaço em branco e uma vontade estranha resolveu.../,,, escrever nele um poema inexplicável chamado tudo...Citação de Décio Pignatari, revista Época, 21 de abril, 2003. Falar do livro Me enterrem com minha AR-15, edição Dulcinéia Catadora, 2007, obriga-nos a conhecer um pouco da história de Vila Socó, habitat de Marcelo Ariel, autor do livro.A favela de Vila Socó surgiu nos anos sessenta, sobre o oleoduto da Petrobrás, um aglomerado de pescadores afastados das praias e de pessoas vindas de outras regiões do país à procura de uma saída para a pobreza, e que ali fixam residência, sem terem a ideia dos riscos, já que debaixo deles passavam os tubos da Petrobrás, levando &oacut...
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Maynard desfaz mitos com o mesmo escrúpulo com que dispara.MATT WESTEste Matt West nunca existiu. É apenas mais uma das invenções de Dinis Machado para ajudar a vender o cámone, e seu irmão gémeo,Dennis McShade. Contudo, e apesar desta credibilidade acrescida de um suposto crítico estrangeiro, a censura estranhou o assunto e a linguagem deste Mulher e Arma Com Guitarra Espanhola. E foi preciso convencer, com um fabuloso passe de peito, o senhor Major da Censura Prévia que este era o último livro que tinham traduzido de um incomum autor americano de policiais de bolso. Aquele, parecendo levar à letra o culto sistemático do absurdo de que fala Dinis Machado na nota de editor introdutória, acreditou nesta improvisada patranha e o livro lá saiu sem rasuras nem cortes.Passava-se isto em 1968 e Dinis Machado, então director da colecção Rififi, não se coibiu de te...
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“Sem que alguém o conseguisse explicar, a dada altura, apreensivo, o nosso minúsculo mundo, com a sua superfície retalhada em países tal puzzle, fruto da actividade mesquinha do ser humano, apercebia-se de um certo desconforto originado pela «moléstia» matreira que se revelava e evidenciava num estranho comportamento social que proliferava no interior de cada país. Não se limitando, porém, às fronteiras, a «moléstia» ia criando, a cada instante, sofisticadas interdependências com os países vizinhos, como cancro em corpo indefeso; gerando um global e informe território, baptizado com o nome sugestivo de Hibernolândia. No princípio, os mais despertos haviam concordado com este nome, dada a característica principal da «moléstia» que acometia a maioria dos seus habitantes, e que muito semelhava a natureza hibernante dos simpát...
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*anos 80a minha janela, aos 19 anos Para o José Luís PeixotoEu espreitava o limoeiro, a sua copa larga ocupando o quintal que a minhaavó fechava à chave quando saía (por causa das galinhas). Para lá do muro,telhados de zinco, portões ferrugentos,andaimes, traseiras de prédios com roupaestendida, armazéns, carros ao abandonoe gritos à tardinha, de mães em chineloschamando os filhos para jantar. Eu viatudo aquilo – sentado à mesa com umafolha de papel excessivamente branco.Os versos, teimosos, murchavam logo.E eu voltava ao princípio.Outra vez.Na janela, as nuvens perfeitas, o ventoem turbilhão através do quintal e aquelelimoeiro todo iluminado por dentro, osseus frutos acesos na tarde como sóis.literaturaEsperávamos porela na esplanada,sábados à tarde,como quem esperaaquele amigo mais velho,tão ingrato, que um diadeixou de nos falar.*geografia humanafast forwardPor muitoque aceleres– duas vezes,quatro vezes –nunca deixasde ter pressa.bilhete de identidadeObservo a...
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O METROCalderon soube que ia morrer no momento em que enfiou a moeda na ranhura antes de passar, a cambalear, pelo torniquete, e descer as escadas para a plataforma do metro. O barulho do comboio, embora fosse abafado pelo sangue a coagular nos seus ouvidos, arremessou uma lança de dor atroz através do seu cérebro.Calderon segurou a cabeça com as duas mãos até o comboio finalmente parar e as portas se abrirem com um silvo. Ele não tinha a certeza de quanto tempo as suas pernas o sustentariam. A febre de quarenta e um graus parecia estar a derreter‑lhe os ossos, transformando‑os numa mistura semilíquida de tutano derretido. Ele inspirou um pouco de ar, e este uivou através da sua traqueia como o vento numa chaminé.Sobe para o metro. Mexe‑te. Sobe para o metro.Deslocando‑se com esforço, Calderon deixou‑se ser apanhado pelo fluxo de passageiros que ia a entrar no metro, e os corpos d...
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Na véspera da sua morte, Rita chegara a casa destroçada. Naquele dia tivera a coragem de telefonar a Margarida Volpi, arriscando tudo numa conversa destinada ao abismo, num gesto insensato que ela cometera em nome do amor, mas que lhe deixava agora um irresistível sabor a tragédia. No primeiro sábado de Agosto de 2005, Rita transformara-se numa consequência das suas emoções, tornando-se a heroína de um romance pouco original, vivido por muitas outras antes dela.Nos primeiros tempos nunca fora assim: havia pelo menos a certeza de uma alma que crescia e se alimentava de um fogo irracional, disposta a persistir num erro como se nele visse uma verdade capaz de mudar a ordem natural do mundo. Agora, todavia, já não valia a pena disfarçar, já não lutava contra coisa alguma – só lhe apetecia fugir, fugir de tudo para sempre, mesmo pressentindo que isso talvez lhe fizesse perder a pr&o...
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Ao fim do primeiro mês de trabalho de Maria Belo naquela casa, o pai começou a ter dificuldade em dormir. A imagem dela acompanhava -o todas as noites. Andava confuso, nervoso, com uma ansiedade que por vezes lhe dificultava a respiração. Se no início pensava nela só durante a noite, depois passou a pensar nela o tempo todo, mesmo quando estava a trabalhar. Um dia, não aguentando mais tanta ansiedade, propôs a Maria Belo que se amigasse com ele. Ela aceitou de bom grado, com um grande sorriso, como se já estivesse à espera daquela proposta. Nessa mesma noite passou a dormir lá em casa.Joaquim Praxedes tomou contacto pela primeira vez com o doce fruto da terra angolana. Conheceu o cheiro da terra, o cheiro do mato, o cheiro da anhara. «Oh misericórdia!», a palanca negra, com um ritmo selvagem, durante toda a noite, não parou de subir montes, atravessar matas, cruzar rios, subir cascatas....
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6.2. O sistema de criação de valor e a rede de valor no sector da edição de livros: Cinzia Parolini e Paola DubiniÉ neste momento que teremos de voltar a Dubini e de esclarecer a metodologia que seguiremos a partir de agora. Tínhamos detectado algumas dificuldades em analisar a evolução no sector da edição de livros a partir do modelo tradicional da cadeia de valor e o recurso, por parte de Dubini, a ferramentas de outros modelos para tentar abarcar o aparecimento de áreas emergentes e inovadoras. Sintomaticamente, em 1999, Dubini irá publicar, em conjunto com Parolini, um artigo na revista Economia & Management, «Cambia l’Editoria Libraria: Confini e ruoli da ridefinire nella rete del valore» (Dubini e Parolini, 1999). Aí assistimos, de algum modo, à confluência de dois percursos, pois, enquanto Parolini tinha publicado, em 1996, a edição original da sua obra Rete del Valore e Strategie Aziendali, na qual não analisava o caso da edição de livros, mas onde tinha desenvolvido um rigoro...
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“ (…) Trabalhei muito durante toda a minha vida. Para poder cuidar da minha mulher e dos meus filhos. Cumpri a minha missão. Os meus filhos já construíram as suas próprias famílias. Sou avô de sete netos. Agora apetece-me aproveitar o tempo que me resta a dedicar-me a mim próprio. Sempre desejei viajar. Conhecer o mundo. Fui adiando as viagens por diversos motivos: falta de tempo, falta de dinheiro, filhos pequenos. Enfim, é chegada a hora de partir. Viver a minha vida à minha maneira. Conhecer outras paisagens, outras culturas. Enquanto ainda tenho saúde e força de vontade para correr atrás de um sonho. Sinto que tenho esse direito depois de uma vida dura de trabalho em prol da família. Agora quero virar-me para mim. Hoje enfrentei o espelho da casa de banho e perguntei ao meu reflexo: o que te faz feliz? E ele respondeu-me sem hesitar: apanha o primeiro avião. O destino &eacu...
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Há muito tempo que escrevia este livro. Alguns anos. Mas escrevia-o apenas na minha mente, com o que pensava, com tudo aquilo que ia recordando. Se tivesse conseguido reunir as palavras necessárias para contar a história, se as tivesse encontrado, escolhido, até se tivesse inventado algumas para na volta fazer boa figura, tudo haveria de ser, digamos assim, mais normal. Era uma vez… Eu, de noite, uma noite muito quente, abafada, próximo do que julgava insuportável, uma noite com o fogo. Como se vivesse sempre essa noite. Como se ela tivesse passado a existir de uma forma definitiva. Um filme a voltar inevitavelmente ao princípio. A ideia de haver um tipo de cinema circular, ou aos círculos, marcado por um momento um bocadinho forçado, mas apenas um momento, fugaz, aquele em que de repente se passava do fim para o princípio e tudo voltava a acontecer. Tudo, desde o princípio. Eu ainda em casa, depois de ...
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O bailado começou às oito. Em Paris, o dia tinha sido quente e húmido e a noite mantinha -se desconfortavelmente sufocante. O interior do teatro estava abafadiço. Quando as luzes começaram a diminuir, os espectadores, ligeiramente embriagados pelas bebidas que tinham tomado antes do espectáculo, pousaram os programas e pararam de murmurar. Os homens tiraram os chapéus altos e enxugaram a testa.As senhoras desdobraram as boas. A cortina subiu lentamente. Igor Stravinsky, a transpirar dentro do fraque na quarta fila, estava a ficar nervoso. A sua sinfonia, A Sagração da Primavera, ia ser apresentada pela primeira vez ao público. Stravinsky, um jovem compositor cheio de ambição, estava ansioso por divulgar o seu génio à multidão cosmopolita. Queria que a sua nova obra musical lhe trouxesse fama, que fosse tão chocantemente moderna que não pudesse ser esquecida. Os tempos ...
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Comecei por dispor a cama do quarto de hóspedes sobre um eixo norte-sul. Assim, a pessoa que nela dormisse ficava em sintonia com o fluxo de energia positiva do planeta, ou lá o que era. Ela havia de achar que sim. Fiz a cama com um lençol acabado de passar, um lençol cor-de-rosa clarinho, porque toda a gente sabia que ela tinha uma especial sensibilidade para as cores, e o cor-de-rosa fica bem a qualquer pele; mesmo que a pessoa esteja a ficar amarelada.Ela preferiria uma almofada rasa ou uma almofada alta? Seria alérgica às penas? Seria contra as almofadas de penas por ser vegetariana? Optei por lhe dar a escolher. Juntei todas as almofadas que tinha em casa, meti-as dentro de fronhas muito bem engomadas, e coloquei-as em fila à cabeceira da cama.Subi a persiana de ripas de madeira e abri a janela. O quarto foi invadido por um ar suave, a cheirar a folhas, embora as folhas não se vissem, a não ser que a pessoa abrisse a j...
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“Era negra, bela, subjugava pelo espírito. Guerreira, impôs a paz, nove séculos antes da nossa era, sobre o fabuloso reino de Sabá, país do ouro e do incenso. Contudo, a sua mais bela batalha foi a do amor e da inteligência. Desafiou o rei Salomão pelo jogo dos enigmas. Vencida, entregou-se a ele durante três noites deslumbrantes. Três noites que o Cântico dos Cânticos inscreveu para a eternidade na memória do Ocidente. A História diz-nos que Makêda, rainha de Sabá, e Salomão, rei de Judá e Israel, tiveram um filho, Mênêlik, o primeiro de uma longa linhagem de reis africanos. Através dos relatos do Alcorão, do Antigo e do Novo Testamento, a rainha de Sabá fez sonhar gerações de pintores, de poetas e de escritores. Agora, apoiando-se nas últimas descobertas arqueológicas, Marek Halter, por seu turno, revela-nos...
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1.Marcos históricosPara quem viaja pela primeira vez por um país que desconhece, há algumas coisas que são decididamente importantes. Não deve perder nenhuma das paisagens ou belezas únicas: certamente que as pessoas que regressam de Verona sem terem apreciado os frescos de Pisanello, que não podem ser vistos em mais nenhum outro sítio na Terra, serão recebidas com gritos de reprovação dos mais afortunados ou mais conhecedores; e também não podem passar ao lado de coisas que, não sendo únicas, têm, apesar de tudo, uma enorme importância. (É provável que esta situação não aconteça, uma vez que até mesmo os porteiros de hotel conseguem orientar os turistas em Roma para a Igreja de São Pedro ou para o Coliseu.) Contudo, nos dias agitados das viagens modernas (tão distantes das deambulações sem rumo...
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1. OS COLONOSQuando caiu o crepúsculo, parou finalmente de chover.A pouco e pouco, o rumor das conversas cessou, os olhos ergueram-se instintivamente para o céu e apareceram sorrisos hesitantes nos rostos do grupinho de mulheres e crianças ali amontoadas há dias. Em seguida, todos os olhares se viraram para o Irmão Edern, como se o brusco silêncio, que acabava de suceder à batida incessante da chuva no tecto da cabana, fosse uma espécie de milagre frágil, que só ele pudesse tornar real. O velho monge sorriu, pousou a escudela e, apoiando-se no noviço que o ajudava, levantou-se com um longo suspiro. No instante em que afastou a manta de lã que fazia as vezes de porta àquele refúgio, as nuvens negras que assolavam a terra dissiparam-se, e um raio de claridade veio iluminar a floresta cintilante. Por um vislumbre do céu azul, Edern sentiu o calor do Sol no rosto enrugado, e agradeceu a ...
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«Os textos seleccionados atravessam um período de duas décadas. Possuem dimensões muito diferentes e respondem a estímulos distintos: surgem associados a exposições individuais de artistas consagrados, acompanham primeiras exposições, contextualizam apresentações colectivas no âmbito de uma colecção de arte, decorrem de contextos muito específicos. Apesar dessa heterogeneidade, entendeu-se apresentá-los sem recorrer a divisões temáticas e por ordem cronológica, reforçando a ideia de uma forte unidade que, pensamos, resulta da sua leitura. Esta reside, sobretudo, numa atitude de procura sempre do lado do trabalho sobre o qual se reflecte, perto da génese das obras e das questões particulares e gerais da produção artística.Neste sentido, os textos constituem um esforço de clarificação. C...
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"À medida que o dia desperta numa pequena ilha no Mediterrâneo, no Verão de 1975, um milionário, Marco Timoleon, acorda para vigiar os últimos preparativos para a festa dos 25 anos da sua filha Sofia. Entre os convidados está o ambicioso biógrafo do velho milionário, a mulher de quem está afastado e o seu médico particular, e velho amigo, preparado para cumprir os seus desejos. Sabendo que a filha está grávida de um namorado que não merece a sua aprovação, tenta persuadi-la, usando a festa, a pôr fim à gravidez. Esta não será para Sofia uma vulgar festa de anos. À medida que o dia se desenrola a determinação de Marco é posta à prova pelos planos da filha, igualmente determinada, que aprendeu com o mestre. A história desenrola-se entre os emocionantes acontecimentos do dia e a evocação da vida do milionário desde a infância na Ásia Menor, passando por lugares tão distintos como Nova Iorque, Londres e Paris."Ficha TécnicaTítulo: A Festa de AnosAutor: Panos KarnezisEditor: Edito...
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Aqui estou eu com quatro, cinco anos, num espaço lamacento a arrastar um pedaço de madeira imenso. Não há árvores nem casas à volta, apenas o suor pelo esforço de arrastar este corpo duro e o ardor agudo das palmas das mãos feridas pela madeira. Afundo-me na lama até aos tornozelos, mas tenho de puxar, não sei porquê, mas tenho de o fazer. Deixemos esta minha primeira lembrança assim como está: não me apetece fazer suposições ou inventar. Quero contar-vos aquilo que se passou sem mudar nada.Ora bem, estava eu a arrastar aquele pedaço de madeira e, depois de o ter escondido ou abandonado, entrei pelo buraco grande da parede, fechado apenas por um véu negro cheio de moscas. Encontro-me agora na escuridão do quarto onde se dormia, se comia pão com azeitonas, pão com cebola. Só se cozinhava ao domingo. A minha mãe, com os olho...
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Ficha TécnicaTítulo: CorvoAutor: Rui LageEditor: Quasi EdiçõesISBN: 978-989-552-397-9CORVOPoderás ralhar nevermorenos umbrais da poesiacobiçar a capoeiraao galo a cantar pelo menosdesde as cantigas de amigo:de ti os vindouros sem penasfarão arroz de cabidelaou quem sabe torpe gralha,de corvo corruptela.De ruínas farás sempreuma torre habitada,viela, balcão, taberna assombrada,inútil protestode utilíssimo nada.EDGAR POE E TIM BURTON NO PÈRE-LACHAISE(com o fantasma de Soares de Passos ao fundo) para o Alexandre BahiaAranhas descem por finos fios tecidossobre ruínas de jazigosonde brancas lápides rachadastêm verdes heras desenhadasque trepamsaindo por vitrais partidospara telhados onde corvossacodem as asas.Ciprestes de tintas espessase tumultuosas,frescos túmulos com floresencostadas,regatos escavando galeriasno subsolo da noite,de pedra em pedra penitentea música das águas.Em meninos,crescemos por cima de toupeirase peixes de profundidade,fazemos de ...
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Devido à natureza época, rareiam motivos para pré-publicar. Deixamos, para suprir essa falta, dois livros de cariz histórico como sugestão de Natal. Uma boa leitura, portanto!Por vezes sabe bem sair das páginas da literatura para a elas voltar com renovado aceno!- Alberto Franco e Paulo Barriga, O Homem Que Matou Sidónio Pães, Guerra e Paz, Lisboa, 2008."LISBOA, 14 DE DEZEMBRO DE 1918: pela primeira vez, o leitor pode viajar no tempo e seguir os últimos passos do Presidente-Rei através do homem que mudou, para sempre, o rumo da história do século XX português: José Júlio da Costa, o homem que matou Sidónio Paes. Escrito numa linguagem simples e acessível, apoiado numa investigação de fundo de Alberto Franco e Paulo Barriga, este é um relato único e inédito, que o fará reviver a empolgante história do assassino do Pre...
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Ficha Técnica:Título: O CondenadoAutor: Jeffrey ArcherEditor: Publicações Europa-AméricaColecção: Obras de Jeffrey ArcherFormato: 14 cm x 21 cmISBN: 978-972-1-05964-1P.V.P.: 24.90€Data de edição: Dezembro 2008“— Sim — disse Beth.Ela tentou parecer surpreendida, mas não foi muito convincente, pois eles ainda andavam na escola secundária quando ela decidiu que se haveriam de casar um dia. No entanto, ela ficou espantada quando Danny se ajoelhou sobre um joelho no meio do restaurante cheio.– Sim — repetiu Beth, fazendo votos para que ele se pusesse de pé antes que todos os clientes do restaurante parassem de comer e se virassem para olhar para eles. Mas ele não se mexeu. Danny permaneceu ajoelhado sobre um joelho e, como um ilusionista, fez surgir do nada uma caixa pequenina. Depois abriu-a e mostrou uma aliança de ouro lisa, com um único diamante, mu...
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1.O MOMENTO PRESENTEHá onze anos que não ia a Nova Iorque. Exceptuando uma operação em Boston para tirar a próstata cancerosa, nesses onze anos não tinha praticamente saído da minha estrada rural de montanha nos Berkshires e, o que é mais, raramente tinha olhado para um jornal ou ouvido as notícias desde o 11 de Setembro, três anos antes; sem qualquer sensação de perda – apenas, a princípio, uma espécie de secura interior – tinha deixado de habitar não só o grande mundo mas também o momento presente. Há muito que eu tinha matado o impulso de estar nele e fazer parte dele.Mas agora tinha percorrido ao volante os quase duzentos e dez quilómetros para sul até Manhattan para consultar um urologista do Hospital Mount Sinai que se tinha especializado num tratamento destinado a ajudar milhares de homens como eu a quem a cirurgia da próst...
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“NA NOITE DE 17 PARA 18 DE JUlho de 1697, d. Contumácia Garcia escutara o crocitar de corvos sobre o telhado de trapeira do galpão das traseiras, temos peste ruim, exclamara, d. Patrocínio Barrica estranhara o encardido colorido da lua, circundando uma mancha escura inconstante, central, batera os ossos dos dedos por três vezes nas portadas de sapobema da janela de tabuinhas, queira Deus que me engane, dissera, os olhos mexerosos, a mão na boca, a outra no peito; nessa noite, mãe Sefina, velha de mil anos, por três vezes deitara sangue do nariz, secara-o com um lencinho de fio de sisal, enxergara a fenda da porta, sob o céu de Mata Escura chovia sangue, sangue no céu, sangue no rosto, sangue nas mãos, prenúncio de morte grande, sussurrara, temerosa de que forças invisíveis no ar a ouvissem, preparou a beberagem final, a mortal, morres comigo, Chica, disse a mãe-de-santo Sefina para a m...
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"Um campeão turco de boxe da categoria de pesos pesados a passear calmamente por uma rua de Hamburgo de braço dado com a mãe dificilmente poderá ser censurado por não reparar que está a ser seguido por um rapaz escanzelado de casaco preto. Big Melik, como era conhecido na vizinhança que o admirava, era um tipo gigante, peludo, desengonçado e simpático, com um grande sorriso natural, cabelos pretos presos num rabo-de-cavalo e um andar gingado e descontraído que, mesmo sem a mãe, ocupava metade do passeio. Aos vinte anos, era uma celebridade no seu pequeno mundo, e não apenas pelas proezas no ringue de boxe: eleito representante dos jovens do seu clube desportivo islâmico, segundo classificado por três vezes no Campeonato de Natação do Norte da Alemanha na categoria de cem metros mariposa e, como se tudo isso não bastasse, guarda-redes fabuloso da equipa de futebol de...
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“Mrs. Watts e Mrs. Carson encontravam‑se ambas na estação de correios de Victory quando chegou a carta do Instituto Ellisville para os Pobres de Espírito do Mississipi. Aimee Slocum, ainda com as mãos cheias de correspondência, deu uma corrida até à porta, entregou‑a directamente a Mrs. Watts, e leram‑na as três juntas. Mrs. Watts mantinha o papel bem esticado entre as suas mãos cor‑de‑rosa, enquanto Mrs. Carson, ainda de dedal posto, sublinhava lentamente linha a linha. As restantes pessoas ali presentes perguntavam a si mesmas o que se passaria agora.– Qual será a reacção da Lily – disse Mrs. Carson por fim, radiante –, quando lhe dissermos que a vamos mandar para Ellisville?!– Vai morrer de riso – afirmou Mrs. Watts, e acrescentou numa voz gutural, dirigindo‑se a uma senhora surda –, aceitaram a Lily Daw em Ellisville!– Não se atrevam a ir contar à Lily Daw sem mim! – exclamou Aimee Slocum, voltando a entrar, numa corridinha, para arrumar o resto ...
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“Sam estava sentado na praia. Os seus pés mergulhavam na areia fria. Moscas gordas e cinzentas esvoaçavam em volta dos seus tornozelos. Atrás de si elevava-se um monte de terra solta. A erva seca murmurava e as corolas das grandes margaridas poeirentas acenavam numa monótona aprovação.Um grosso cobertor castanho envolvia os ombros curvados de Sam e uma toalha de banho cor-de-laranja estava enrolada à cintura. A toalha estava presa com um alfinete-de-ama e fazia de saia improvisada. Há seis meses a sua pele era dourada, tinha um belo tom herdado da sua mãe oriental e do seu pai galês. Tal como o dos pais, o seu cabelo era preto e lustroso.Agora era diferente. Embora tivesse ainda uma forma humana, o seu corpo sofrera algumas alterações alarmantes. O seu cabelo era áspero e grosso em madeixas irregulares. A sua pele empolara, pelara e endurecera até estar coberta de nós, calos e protuberâncias escamosas. Os seus maxilares tornaram-se salientes e os seus dentes eram tão aguçados como agul...
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AMOS OZO fanatismo terá cura?Numa longa entrevista concedida em 1995 ao jornal Le Monde,o grande romancista israelita Amos Oz, já então há longosanos empenhado no diálogo com os palestinianos, defendia semrodeios a necessidade da existência de dois Estados no territórioocupado pelos seus compatriotas. Referindo-se à barbárie nazi,argumentava: «Deixei de utilizar expressões como Shoah ou Holocausto.Considero que a palavra ‘Shoah’ [em hebraico, ‘catástrofe’]se aplica sobretudo a acontecimentos como o tremor de terra deKobé. O que se perpetrou no continente europeu há cerca de meioséculo não foi de forma alguma uma ‘catástrofe’, mas um crime,um homicídio, e é necessário chamar os assassinos pelo seu nome.Sou contra qualquer tentativa de fazer disso um tema metafísico,como os judeus ortodoxos e, mesmo, como algu...
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Bestas de Lugar Nenhum é o romance de estreia do escritor de origem nigeriana Uzodinma Iweala e conta a história, na primeira pessoa, de uma das muitas crianças obrigadas a combater em nome de nada, ou de interesses dos governantes, crianças-soldados que são como bestas ferozes à solta nas mãos de caudilhos sanguinários. Com uma linguagem única e arrebatadora, ao mesmo tempo brutal e comovente, o livro tem recebido inúmeros prémios e foi já adaptado ao palco, num espectáculo que passou por Lisboa no âmbito do Alkantara Festival 2008.[Fonte: Antígona]“Com a luz volta o fôlego, entra ar com força no meu peito, eu tusso e enchem olhos com água. À minha frente é mundo inteiro que abre e olho para cima, para o céu cinzento que vai mexendo assim devagarinho devagarinho no topo das folhas dos irocos todos muito muito altos. E por baixo, mu...
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Autor: Nassim Assefi,Título: ÁriaEditora: Saída de EmergênciaTradutor: Susana SerrãoPáginas: 208Tiragem: 2000PVP: 17,75 €Data de Lançamento: 27 de Outubro “4 Tir 1369 25 de Junho de 1990" Yasaman Azizam, “A tua carta é de cortar o coração. O baba já não consegue dormir. Na verdade, eu também não. Anda pela casa de noite como sonâmbulo em busca de qualquer coisa que se perdeu. Digo‑lhe que já és crescida. Tens trinta e cinco anos! Agora tens a tua vida, mas no meu coração isso não muda nada. Digo isto só para ele se sentir melhor. Tu não compreendes que, por mais anos que tenhas ou por mais que tenhas alcançado, ainda és a nossa única filha, a nossa joon bebé. Nada pode mudar isso. És o nosso amor e a nossa vida mesmo que estejamos longe. Não sei se poderás realmente compreender a força do nosso amor, até que um dia, inch’Alá, também tenhas uma filha. O amor entre mãe e filha é inigualável. Nunca se pode amar os pais mais do que eles nos amam a nós.Podes ter nascido na Améric...
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“Uma noite de Agosto, daquelas agitadas por um vento tépido e tempestuoso, caminhávamos pelo passeio demoradamente, trocando raras palavras. O vento, que fazia carícias inesperadas, imprimiu-me nas faces e nos lábios uma olorosa vaga e depois continuou o seu rodopio por entre as folhas já secas da avenida. Ora não sei se aquele torpor sabia a mulher ou a folhas de Estio, mas o meu coração precipitou-se inesperadamente, tanto que parei.Clara esperava, semivoltada, que recomeçássemos a caminhar. Quando ao volver investi contra outra rajada, Clara, sem levantar os olhos, parou outra vez à espera. Diante do portão perguntei a mim mesmo se queria acender a luz ou passear ainda. Fiquei um pouco parado no passeio — escutava o cicio de uma folha seca arrastada pelo asfalto — e disse a Clara que subisse, que logo a seguiria.Quando um quarto de hora depois nos reunimos lá em cima sentei-me à janela a fumar, farejando o vento, e Clara perguntou-me, através da porta da sala, se me tinha acalmado. ...
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Pré-Publicação/Sinopse:"Ike Aronowicz tem apenas vinte e três anos quando se torna comandante do Exodus. Sessenta anos depois, conta a longa e dramática travessia do Mediterrâneo, em Julho de 1947, com 4545 judeus a bordo, refugiados dos campos nazis e candidatos à emigração clandestina para a Terra Prometida. A odisseia termina com uma batalha feroz que marca a memória internacional. Alguns meses depois, no dia 29 de Novembro de 1947, a ONU decide a criação do Estado de Israel. O testemunho chave de uma das epopeias mais extarordinárias da história contemporânea".Luís CarmeloFicha Técnica:Ike AronowiczEu Fui O Capitão do ExodusEditora Sextante, Lisboasaída a público: semana 22 a 26/9/08228 páginas e caderno fotográfico...
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"Durante a Idade Média, a Europa foi abalada por grandes movimentos inspirados pela crença de que a história ia acabar e nasceria um novo mundo. Esses cristãos medievais acreditavam que só Deus podia conduzir ao novo mundo, mas a fé no Tempo Final não se desvaneceu quando começou o declínio do cristianismo. Pelo contrário, enquanto o cristianismo vacilava, a esperança de um Tempo Final iminente tornou-se mais forte e mais militante. Revolucionários modernos como os jacobinos franceses e os bolcheviques russos detestavam a religião tradicional, mas a sua convicção de que os crimes e as loucuras do passado podiam ser ultrapassados numa transformação omniabrangente da vida humana foi uma reencarnação secular das crenças cristãs primitivas. Esses revolucionários modernos eram expoentes radicais do pensamento iluminista, que visava su...
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"O Outono na Aldeia Flor de Ameixoeira é uma estação de suor e riso. Hectares e hectares de campos dourados. Colheitas e debulha. Caules nus e espigas carnudas de arroz. Crianças descalças correm ao ar livre, perseguindo cães que as perseguem. Mães preparam refeições para os pais que trabalham nos campos.Gritos escondem‑se nos arbustos; o seu ruído ecoa no céu. Crisântemos amarelos sorriem. Cobras estão emboscadas nos mangues, esperando pacientemente por rãs e sapos que esperam pacientemente por mosquitos e moscas.À noite, assim que os últimos raios de luz se dissipam, as chaminés deixam de fumegar, as portas são trancadas. Sob os telhados de colmo, crianças contentes vagueiam por países de sonho, com sorrisos nos lábios, saliva nos cantos das bocas. As mães passajam sapatos e camisas para os pais, que gozam a última ...
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"Burton é um exemplo de refutação, então, para aqueles que acreditam que o preconceito advém apenas da ignorância, que a intimidade gera amizade. Podemos estar verdadeiramente envolvidos com os costumes de outra sociedade sem aprová-los, quanto mais adoptá-los. E apesar da sua kadisah promover o tipo de espiritualismo que era comum entre as eruditas classes altas da Inglaterra Vitoriana tardia, a sua imagem do espelho estilhaçado – cada estilhaço reflectindo uma parte da verdade complexa pelo seu ângulo particular – parece expressar exactamente a conclusão da longa exposição de Burton às filosofias e costumes de muitos povos e locais: encontrará parcelas da verdade (assim como muitos erros) em todo o lado e toda a verdade em lado nenhum. O erro mais grave, acreditava ele, era pensar que o seu pequeno pedaço de espelho reflectia o todo. Para al&eacut...
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Ainda as Correntes, como entes queridos a delirem-se devagar no ferro dos dias, na estranheza da ausência. Eis o belo texto aí lido pelo escritor uruguaio Milton Fornaro.CADA PALABRA ES UN PEDAZO DE NOSOTROS MISMOS “Dijo Dios: ‘Haya luz’, y hubo luz. Vio Dio...
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Regressa-se da Póvoa e sentimo-nos mais pobres. Em casa, voltamos a ligar a televisão à hora dos telejornais, o mundo, como um aluvião de desgraças, invade-nos a sala e os ouvidos. Regressam, pela manhã, as filas de trânsito, as filas congestionadas de...
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A bonita lembrança de Rosa Lobato FariaO vento destas CorrentesO capacete mineiro de Manuel da Silva RamosA Barbie com defeito de produçãoAurelino a tocar e a dizer poesiaA incrível história de Malangatana descendo de um hotel pela janela na horizontalPorque foi t&...
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Quatro da manhã. Lá em baixo ainda anda gente... (cantaria o Sérgio Godinho) São os resistentes das Correntes. É a última noite, a já famosa noite de sábado. Aurelino vai a casa buscar a guitarra. Falta-lhe um espanhol para o quadro ficar compl...
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Os lançamentos de livros são um outro must das edições das Correntes. O ano presente não escapou à regra e muitos têm sido os livros aqui apresentados em primeira mão. Eis alguns deles: Manuel da Silva Ramos lançou «Três Vidas...
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O título deste post parece coisa de antanho, que de «correntes» em escolas já lá vai o tempo. Isto, descontado o aparte de hoje em dia muitos professores se sentirem acorrentados às escolas, mas isso por via de outros quinhentos para aqui não chamados. ...
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Leitura do texto desenvolvido a partir do mote:«Pedra a pedra, o poeta constrói o poema» algumas aproximações entre pedras, poemas e poetas: O poeta monumenta as emoções; por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais.O poet...
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Dia de trabalhos forçados para este escriba aqui na Póvoa. Presença numa mesa de debate pela manhã, ao meio-dia e picos lançamento de um livro, à tarde encontro numa escola preparatória (ébês, como lhes chamam hoje…) de Rates. Agor...
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Não está fácil, confesso que não está fácil. A edição das Correntes deste ano parece-me com dificuldades em impor o seu ritmo habitual. Talvez seja do mau tempo que por aqui se tem abatido, talvez seja das muitas caras novas ainda pouco à...
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Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado &ndash...
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Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square. Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma se...
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A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado. Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por nat...
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Entre Osnabrűck e Porto, que paralelo biográfico melhor para se ler Ilse Losa na direcção contrária àquela que ela geograficamente deu à sua vida. Uma vida que na tragédia da História da Alemanha encontrou porto de abrigo no Porto de onde eu provenho e que nessas trocas interculturais perdeu ou...
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Artistas plásticos, músicos, poetas e escritores encontram no Brooklyn refúgio e cenário e dali partem para expedições ultramarinas na Califórnia, na Índia, na França, na América Latina, na África, a book tour perhaps. Discussões literárias, conversas boêmias, propostas, idéias para livros em ebuli...
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Tem-se assistido a uma vitalidade do livro, apesar de tantas vezes ter sido profetizado o seu fim. Em vez de desaparecer, ele tem encontrado novos formatos e beneficiado com esse grande canal de divulgação e de distribuição que é a Internet. O mesmo seria inevit&aa...
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Alexandre Herculano nasceu há duzentos anos, a 28 de Março de 1810. Assinalamos a efeméride, recordando a obra de António José Saraiva, “Herculano e o Liberali... Ler Tudo >>
Quadras de Felícia Festas Hortinhas (natural de Évora): É um bem essencialCai do céu nasce do chãoDá-se a todos por igualNão fazendo distinç... Ler Tudo >>
[17-02-2010] | Fala de dois poetas populares alentejanos
Acreditar em mitos e lendas na era da técnica, da tecnologia e da suspensão do maravilhoso: dois textos de quem não perdeu a capacidade de se espantar… o poeta brasileiro Carlos Alberto Pessoa Rosa[1... Ler Tudo >>
Poesia Popular à maneira tradicional: Uma décima[i] do poeta popular alentejano Domingos José Pinto[ii], onde se narram os esforços hercúleos de um hortelão para defender o seu território de uma prese... Ler Tudo >>
[26-10-2009] | Maria João Brinquete e Paula Sande, Maria João Brinquete e Paula Sande
Recomeça hoje, na RTP1 (às 21h18), o programa Cuidado com a Língua! Uma ideia de José Mário Costa (responsável pelo Ciberdúvidas). Uma bela maneira de pôr os miúdos (e os outros) a pensar na língua po... Ler Tudo >>
4 & 1 QUARTO conta a história de um casal que, num momento de desejo ou tédio, esquece as convenções para atrair à intimidade um homem e uma mulher. São quatro numa cama, como se fosse natural.
Mas não será sempre natural, o sexo? E mesmo que fosse: brutalizará ele o amor? Aqui, as duas mulheres revivem um segredo da puberdade, os dois homens descobrem-se e atrevem-se, e, embora extraviando-se da identidade e da pertença, jamais se perdem do Amor.