A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNETliteratura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa. Luís Carmelo, Coordenador
O poeta Al berto foi um poeta singular. Morreu muito cedo, mas mesmo em vida a sua singularidade nunca esteve em causa. Não é muito comum ser-se de um tempo e adoptar o que esse tempo lega, no dia-a-dia, reciclando o que é matéria de código, moda, linhas reconhecíveis ou marcas – como hoje se diz em cada vez mais e imprevistos “mainstreams”. À correcção da época, ou seja, à incorporação destes aspectos que se tornam apelativos pelo espesso denominador comum que suscitam, Al berto preferiu fascinar pela incontenção rítmica do momento, pela captação rude e crua da vaga, pela inscrição – em jeito de levada – dos elementos puros, embora sem queda alguma para encenar o poético, de modo forçado, na arena estética. Releio sete poemas de Mar-de-Leva de Al berto, publicados pela primeira vez, em 1980, em edição de autor. Como que se torna audível na errância a que os poemas convidam – sete que são um único – um rumor de águas que convoca a inquietação dos ventos. Como se desta poesia se visse o...
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O imaginário de Poe está muito ligado à conquista de um espaço interior, psicológico e, portanto, aberto às “perversidades” – como referiu o autor – que são próprias do espírito humano. Mas esta rede de inquietações, tão próprias do rasgar inicial da modernidade, não é apanágio de um culto do intocável. Ao invés, nos textos de Poe, os fantasmas e os monstros, a par dos que à época surgem através da imaterialidade da “photogenie” fotográfica (ou dos espectros dos futuros pioneiros do cinema como Méliès ou a chamada escola de Brighton), tornam-se personagens e imagens de um mesmo jogo. Curiosamente, uma idêntica desocultação atravessa as narrativas dos viajantes e exploradores europeus do limiar de oitocentos[1]. Provavelmente, é esta uma das novidades do gótico específico que é cultivado por Poe: o visível e o invisível passam a andar de mãos dadas e geram, por contraste, uma trama que se desdobra em dramas terríveis, em passagens às vezes hilariantes entre a morte e a vida, entre a res...
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O espaço representado nas ficcionalidades de Poe tem algo do vislumbre da infância fotográfica. Ora leia-se: “A cidade estava em grande parte despovoada e, nos bairros horríveis vizinhos ao Tamisa, no meio de um desses becos negros, estreitos e imundos, onde o demónio da peste tinha fixado a sua residência, passeavam à vontade o espanto, o terror e a superstição…” (RP: 11). A passagem surge como que a revelar um quotidiano sem contexto, imerso em si mesmo e à procura de uma regra que permitisse entender, pelo menos, um horizonte. Por vezes, o detalhe, o microcosmos e o fascínio pelas texturas mais imediatas contracenam com o irremediável: “O ar estava frio e enevoado. As pedras arrancadas da calçada jaziam numa desordem medonha por entre a relva alta e vigorosa…” (RP:12). Mas é a percepção – da fatalidade – que acaba sempre por comandar o relato e emprestar-lhe sentido: “E toda aquela turba ia com uma actividade ruidosa e desordenada cujas discordâncias mortificavam o ouvido e produzi...
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Nas narrativas de Poe, está em curso uma imaginação livre, moderna e poderosa. Há sempre um sujeito muito claro que enuncia o relato e está sempre em cena uma linguagem que aparece como diria Foucault. Esta marca de vincada subjectividade torna-se visível, por exemplo, no conto Silêncio, que dá corpo a um curioso diálogo entre o demónio e o narrador, junto ao túmulo deste último, sob o pano de fundo de uma paisagem que se vai alterando. Metamorfose que por si se explica, como se fosse um acto que não carece de criador ou explicativo: é este mesmo o cerne do emergir literário. O modelo de diálogo onde o demónio intervém surge noutras narrativas como, por exemplo, em O Gato preto. O trânsito entre a vida e a morte torna-se aí realmente chão, directo e sobretudo dissociado da parábola ou do carácter de alegoria ou exempla, o que jamais aconteceria nas literaturas pré-modernas que sempre separaram a esfera do divino e a esfera dos homens. Os personagens de Poe são sempre sujeitos activos q...
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Quando se fala de gótico, está-se a falar de um tipo ficcional obscuro, preso à matriz romântica, impregnado de simulacros medievalistas e mergulhado por uma dominante de mistério e terror. O gótico propõe um locus selvagem e ameaçador – castelos, mosteiros, abadias, passagens subterrâneas, labirintos ermos, edificações recônditas, etc. – que se identifica com a natureza sombria dos seus enredos onde abundam atmosferas tempestuosas, fantasmáticas e mórbidas, que convidam ao ultraje, à superstição, à vingança e, amiúde, ao arrebatamento mais primário. Iniciadas pela pena de Horace Walpole, com Castelo de Otranto (1765), e por Ann Radcliffe, com Os mistérios de Udolpho (1794), o gótico cedo viria a ser depurado do seu excesso de extravagâncias e simplismo, acabando alguma da sua morfologia por ser reatada, amalgamada e modalizada por escritores como Edgar Allan Poe, Nataniel Hawthorne ou ainda como as irmãs Bronte. O dealbar da chamada ficção científica (retenhamos, por exemplo, o caso d...
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Num dos mais recentes editoriais, reflecti sobre a gestão dos “saberes” nos policiais. Foi a propósito do último romance de Patrícia Melo, Ladrão de Cadáveres. A questão é antiga e clássica: o leitor só pode – ou, pelo menos, só deve – saber o que há a saber no final de uma dada narrativa. Mas nem sempre assim foi. Nas narrativas pré-modernas, as ferramentas literárias que todos interiorizámos há muito (complicação, clímax, desenlace, etc.) não passavam de coisas de extra-terrestre. A maior parte das narrativas do mundo antigo e medieval eram crípticas por natureza, ambíguas, construídas de propósito para que algo de insondável se pudesse vir a revelar. Como se um segredo governasse o mundo e fosse missão do homem interpretá-lo. O romance moderno – pós-seculo XVIII – passou a democratizar o segredo: passaram-se a dar ingredientes ao leitor para que, ao longo do enredo, ele pudesse conjecturar e imaginar esse segredo que, no final, e após situações mais ou menos extremadas, lhe era dado...
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A chamada literatura de campus tem, em Inglaterra, expressão, história e tradição. O género como que abriu alas com uma obra de Cuthbert Bede, The Adventures of Mr. Verdant Green (1853-57) e fixou o seu patamar de reconhecimento, no início do século passado, através de escritores como Max Beerbohm ou Compton Mackenzie, autores, respectivamente, de Zuleika Dobson (1911) e Sinister Street (1914). De teor fantástico e com razoável afectação de estilo, estes romances centram-se da descrição de pequenas cidades universitárias tão imobilizadas no tempo quanto geradoras de futura nostalgia. A expansão desta visão bastante fixada e melancólica reapareceria, em 1945, no romance de Evelyn Waugh, Brideshead Revisited (1945), todo ele passado nos anos vinte e muito marcado pela abordagem de Oxford do par Mackenzie – Beerbohm. No início dos anos 80, Margaret Doody reata a temática, no seu romance The Alchemists. Mas seria David Lodge, por cá muito e bem traduzido, quem modalizaria o género, adicio...
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Os policiais são relatos em que a gestão dos saberes é fundamental. É fundamental, no género, separar o que uma personagem sabe daquilo que as outras saberão, separar o que o leitor sabe – ou pode saber – daquilo que os protagonistas sabem, separar ainda o que parece saber-se do que efectivamente está em causa. Por outras palavras: num relato deste tipo, espera-se sempre que apenas o mistério progrida. Até à derradeira página. O resto poderá eclodir como um desmedido fogo de artifício que se devora a si próprio e que outra coisa não faz do que prender o leitor, página a página. Ora o romance de Patrícia Melo, Ladrão de Cadáveres, (Ed. Rocco Lda., 2010) cumpre estas oscilações do género, mas a elas não se limita. Longe disso. O modo como os personagens e os seus núcleos crescem, o modo como as figurações poderosas escavam cada situação como metáforas de um corte e ainda o modo como a linguagem crua e aparentemente chã gera um realismo poético singular… fazem do romance de Patrícia Melo ...
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Todas as abordagens reivindicam para si próprias, como é natural, uma especificidade no tratamento das matérias a analisar. Quando a matéria se chama literatura, a anatomia parece sempre diluir-se, a especificidade parece sempre volúvel, o tratamento parece sempre ser o anunciado ou outro possível por este suscitado. Ou seja: a literatura adia sempre o que propõe, quer quando ela própria é oficina, criação iminente, palavra que excede a letra; quer quando ela é metatexto, teoria ou análise estrita da matéria dita literária. Esse adiamento prende-se com a volatilidade da literatura, embora a volatilidade não signifique dificuldade de reconhecimento. Muito antes pelo contrário A tradição literária – esse vaivém silencioso que agencia escrita e leitura – corresponde a uma verdadeira máquina do tempo que permite exorcizar o curso vital e instável da existência. Desde a épica oral ao folhetim de Gazeta, desde a Sibilia Tiburtina à devoração de Brás Cubas que assim é. Pelo menos, é essa uma ...
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Gertrude Stein terá, um dia, aconselhado Picasso, de modo particularmente directo, a não se envolver no mundo da escrita e a limitar-se, portanto, a pintar. Segundo o testemunho de Herma Briffault, este conselho chegou a ter o cariz de uma insistência. Felizmente, Picasso não levou muito a sério a advertência. Para além de autor de poemas e de epigramas (alguns deles publicados na revista Verve), o autor da Guernica escreveu várias peças de teatro. Colocando de lado Les Quatre Petites Filles e de L'Enterrement du Comte D'Orgaz, a primeira incursão literária e dramatúrgica do pintor foi Le Désir Attrapé Par La Queue, escrita em 1941. Percorri, há dias, esse breve texto a partir de uma tradução em Inglês, publicada na revista New Worl Writing (1952, Nova Iorque). O texto coloca em cena personagens como o Grande Pé, a Cebola, a Tarte, o Silêncio ou As Cortinas. A falha de sentido percorre todo o texto, no seu timbre beckettiano e surrealizante, mas acaba, em última instância, por reflect...
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Saramago iniciou a sua verdadeira carreira de escritor, em 1982, com o romance Memorial do Convento. O que antes havia escrito – sem prejuízo para livros de grande qualidade como Manual de Pintura e Caligrafia (1977) ou Viagem a Portugal (1981) – não se inclui no patamar do que viria a ser o seu programa literário (Levantado do Chão terá indícios dessa futura geometria, mais pela poética do que pela poeira ideológica, aliás datada). A partir de 1982, Saramago transforma os seus livros em alegorias cirurgicamente dirigidas, articuladas com um fôlego narrativo e um recorte operático (com arquitectura íntima à do Padre António Vieira) que, no seu conjunto, se revelam como um verdadeiro programa literário. Não há, por isso mesmo, uma obra que sobressaia, em Saramago, como metáfora de tudo o que nos legou, sendo a assunção entre vários limiares – o histórico-mitológico do Memorial, a radiografia identitária de Ricardo Reis, o repto nacional e europeu de A Jangada… ou a disputa religiosa do ...
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A euforia da comunicação – que conduziu, entre outras coisas, à criação de uma epistemologia e de uma área de estudos autónoma há pouco mais de vinte anos (e onde se integraram as RP, a publicidade, a filosofia comunicacional, o jornalismo e a tecnologia) – reflectiu, desde os anos oitenta do século passado, a ideia de uma espantosa redenção. Repare-se, por exemplo, o que, em 1992, André Breton, escrevia nas conclusões do seu livro, A Utopia da Comunicação: “A única imagem do futuro de que ainda dispomos é justamente a de uma sociedade de comunicação hipertecnológica”. Três anos depois, o aluno e discípulo de McLuhan, Derrick de Kerckhove, escrevia no final de A Pele da Cultura: “Eu sou a Terra a olhar para si própria”. Não admira que, de Itália, há meia dúzia e anos, surgisse pela mão endiabrada de Mario Perniola um livro sintomaticamente intitulado Contra a Comunicação, onde o autor referia: “A comunicação é o oposto do conhecimento. É inimiga das ideias porque lhe interessa dissolve...
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No sétimo dia do ano de 1955 – há pouco mais de 55 anos –, o escritor Ruben A. chegava a Coimbra. O mito sebástico tornou-se então numa espécie de personagem dupla, meio viajante, meio anfitrião. Ora leiam-se as palavras de Páginas V (como as demais que preenchem este ‘Ponto de Mira’*): “O grande Torga está à minha espera na Estação Nova. Parecia o verdadeiro Desejado rompendo uma noite escassa de nevoeiro. Não se via um palmo à frente dos olhos, por um momento senti-me em Londres.” (p.115)Nesse Janeiro de 1955, Rubén A. viria ainda outra vez a Coimbra. O falecimento do poeta Rocha Brito ditou a façanha e os ares londrinos pareciam agora adiados pela própria pequenez da vida mundana: “Deslocado inesperadamente a Coimbra sinto a tragédia da vida nas pequenas cidades. (...) Nas outras cidades não se repara nos transeuntes, são todos os dias caras diferentes. Nos burgos menores a tragédia vive no diário patente a todas as horas e minutos, à mostra acompanhamos a vida dos que vão à nossa f...
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O sorriso enigmático do javali de António Manuel Venda é um livro sobre a intimidade. Escola de pequenos gestos, a narrativa coloca em cena um protagonista fascinante, baptizado por “pequeno Tukie”. É ele o elo fundamental do argumento e também o núcleo aventuroso a partir de onde a narrativa constantemente se reinicia. O que acontece por uma dúzia de vezes, desde o primeiro dos ‘incipits’ que cruza, de modo meteórico, o movimento de duas perdizes, a memória de uma garça, o olhar atento do protagonista e a terra da “Herdade do Convento” que se anuncia como geografia nevrálgica de todo o relato. O pequeno Tukie testemunha, ao longo das doze estações deste ciclo ficcional, um conjunto de factos que resvalam, de modo súbito, de uma esfera normal e verosímil para uma outra, cuja identidade nunca se fecha ou declara. Aliás, é esse estado de metamorfose sempre em suspenso que liga intimamente as doze histórias que compõem O sorriso enigmático do javali. O registo utilizado segue mais o traj...
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A literatura sempre nos brindou com uma espécie de devir: encaminhar o leitor através do incomum, espreitando e auscultando o sentido dos limites, para que o regresso ao comum acabasse por ser uma experiência singular e, de certo modo, refeita, nova e purificada. Reciclar as expectativas do presente, através do convite à mais abismada das “travessias” (como diria Guimarães Rosa) ou à partilha de uma visão desmedida (como diriam os personagens dessas subidas magistrais aos sete céus que a literatura baptizou por Apocalipses). Como se a nossa própria existência se confundisse com a liturgia da repetição e a arte se confundisse com a teologia de um momento único e exemplar. Acresce a este devir que cruza a arte e a literatura modernas (e tudo aquilo que refrescou os caminhos para além do moderno) um outro – e não menos importante – facto. É que o nosso tempo se contenta sobretudo em revisitar o que lhe é próprio. Por outras palavras: adoramos o presente, o que é actual, o que não exija es...
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Em conversa com Carl Friedrich Kielmayer, no ano de 1797, Goethe sublinhou uma ideia aparentemente simples: “A compreensão não pode, como um todo, pressupor aquilo que os sentidos lhe atribuem”. Esta separação quase taxativa conduziria, logo a seguir, a uma conclusão: “Daí que acabemos inevitavelmente por ser atraídos por uma esfera de poesia onde poderemos esperar encontrar alguma satisfação”. A declaração foi feita sete anos depois da publicação de Metamorfose das Plantas (1790) e treze anos antes de História da Teoria da Cores (1810), livros de teor científico, de que Goethe foi autor. Na primeira obra, Goethe (1749–1832) defendeu a existência de uma matriz única (a chamada “Urpflanze”) de onde toda o mundo vegetal – e não só – seria originário. Em carta a Herder, em Maio de 1787, o autor escrevia: “Estou mais perto do que nunca de vir a descobrir o segredo da criação e organização das plantas”. Apesar da origem única – uma espécie de ideia platónica –, toda a natureza viva teria, ...
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Acaba de sair a público o segundo volume do diário de Marcello Duarte Mathias com o título Os Dias e os Anos – Diário 1970-1993 (edição da D. Quixote). Num prólogo breve (“A modos de prefácio”), o autor reflecte em itálico sobre a temporalidade do género, enfatizando um modo de fixação cuidado: “Em depoimentos desta índole, é-se livre de expurgar esta ou aquela passagem, ou eventualmente de a corrigir. Porque corrigir um texto é simplificá-lo sem o empobrecer. Não se pode, contudo – pormenor curioso –, acrescentar seja o que for de substância ao que já está escrito, pela simples razão de que tais intromissões constituem um corpo estranho, soam logo a falso, como se o texto na sua temporalidade, com as características que lhe são próprias, rejeitasse naturalmente o enxerto tardio&...
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Corria o passado dia 20 de Abril, uma segunda-feira excepcionalmente solar, e quis o acaso que, ao revolver uma estante mais alta do meu escritório, acabasse por cair na minha mão direita o pequeno volume da revista New World Writing, publicada em Novembro de 1956 pela New American Library (New York). O número da edição é o 56 e uma marca já antiga fez-me saltar os dedos para a página 86. Comecei a ler o texto e a adrenalina colou-se de imediato ao espaço mágico da retina: o texto era de Gore Vidal e tinha como título…”Notes On Television”. O autor citava Flaubert logo no início, como sintoma de toda a abordagem que se seguiria: “O teatro não é uma arte mas sim um segredo…”. E a natureza desse segredo – escrevia Vidal – é “…elementar: o diálogo não é, de facto, o mesmo que prosa”. O que significa que “um talento para o teatro não implica, de modo nenhum, um talento para o romance”. Contudo, para Gore Vidal, o romance é considerado a “forma de arte mais privada e mais realizadora (sati...
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No momento em que o poema Manucure de Mário de Sá-Carneiro acaba de ser publicado na Rússia, com tradução de Maria Mazniak (e quando se espera pela saída já próxima da Antologia Poética da D. Quixote), fui como que reecaminhado, passe a linguagem ‘techno’, para o livro de contos do autor, Céu em Fogo (1915). Nesta leitura de domingo de uma obra considerada fútil e menor por alguns críticos, recorri à ‘velha’ edição da Ática, sublinhada e vincada aqui e ali, embora um dos contos se mantivesse imaculado, isto é, sem qualquer traço ou comentário. A narrativa tem um título aliciante, convenhamos: O Homem dos sonhos. Há uma temática que cruza todo o relato: o desejo de perfectibilidade. A trama é colocada em cena de um modo simples: um encontro fortuito entre o narrador, que nunca abandona a sua primeira pessoa, e um russo: “… um expírito original e interessantíssimo”. O encontro dá-se em “Paris, num Chartier gorduroso de Boul-Mich” – diz-nos o protagonista – nos seus “tempos de estudante f...
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Faz este ano três décadas que saiu a público um romance com um título singular: Lusitânia de Almeida Faria. O nome tem fortes raízes na literatura portuguesa, desde logo – para não aprofundar a ciclópica travessia do lexema ao longo dos tempos – em Gil Vicente que, no seu Auto da Lusitânia (1532), abordou o dia-a-dia dos judeus de Lisboa e celebrou, já na segunda parte da obra, a origem mitológica de Portugal. Cem anos depois, em 1632, na redacção da terceira e quarta partes da Monarquia Lusitana, Frei António Brandão reatou os vários textos antes produzidos sobre o milagre de Ourique e legitimou como verdadeiro e irrefutável o diálogo entre Jesus Cristo e D. Afonso, na véspera da batalha. Assim se projectaria, pelo menos até ao início do século XIX, a mitificação da origem de Portugal. Lusitânia é, pois, um título carregado. No entanto, quando li o texto de Almeida Faria em 1980, tive a sensação que ainda hoje mantenho: o romance de Almeida Faria foi o primeiro a dar literariamente co...
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Chega-se às últimas páginas de A Rainha no Palácio das Correntes de Ar de Stieg Larsson e sente-se o peso da realidade. Lisbeth já livre, fica a saber, através de uma porta entreaberta, das muitas mortes pressentidas (incluindo a de amigos) e deixa finalmente entrar em casa Mikael que ela conhecia de várias vias, entre elas, claro, a net. A confiança subitamente aumenta e acaba por ceder às sombras que haviam nascido, como Larsson definiu, “no dia em que a própria Lisbeth nascera”. Entendamos por “peso da realidade” este sucessivo aceno dos actos – dos actos mais puros – que a mais não aspiram do que a uma radiografia do vivido e na qual a respiração e o fôlego das expectativas se cruzam com o assentimento e o destino amiúde improvável ou inesperado. No seu recente livro Reality Hunger, David Shields apela à “confissã...
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A escrita terá brotado, um dia, como a água mais pura brota das fontes: como um milagre. É por isso que a memória dos tempos mais antigos, sempre associada aos vultos mitológicos que Vico designou pelas “gentes heróicas” que “não colhiam outros frutos que não os naturais”, está cheia de genealogias que fazem da tradição uma sucessão acautelada de escritas. Um bom incipit sempre viveu desse apetite mineral: garantir ao leitor que havia outro mundo para além da escrita, sempre que a escrita falava diante dos seus olhos (ou tão-só se fazia ouvir oralmente). Esta transcendência generosa dá-nos a perceber mais facilmente, como escreveu A. Manguel, por que é que datam do século IX as primeiras ordenações a requererem “o silêncio dos escribas no scriptorium monástico”*. Até aí...
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No dia em que Maria Helena da Rocha Pereira foi anunciada como a – aliás justíssima – vencedora do Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, a jurada Teresa Martins Marques enalteceu a carreira da ensaísta, sublinhando a importância e a pertinência do prémio, devido, entre outros factores, ao facto de vivermos “…num tempo em que somos marcados pela literatura light”. O argumento seria secundado, nesse mesmo dia, curiosamente um chuvoso 8 de Março, na rádio, pela voz do próprio presidente da APE, o escritor José Manuel Mendes. Em Julho do ano passado, Pedro Mexia* escreveu uma interessante crónica no Público acerca de um livro de Fátima Lopes e, na circunstância, referiu o grande impacto da literatura light – e das suas derivadas – através de um curioso contraste: “Fátima Lopes, uma apresentadora de televisão, vendeu quase cem mil exemplares; já as obras do mais recente Prémio Camões nem se encontram nas livrarias”. “O mercado editorial é o que é: uma grande bibliote...
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Recebi de Nuno Júdice o seu último livro, Guia de conceitos básicos (D. Quixote, Março, 2010). Li-o, no primeiro domingo solar de Março, como se lê qualquer livro de poemas: percorrendo a paisagem que é sempre feita de nós invisíveis, de labirintos (“falta sempre/ alguma coisa que ficou no princípio”), de epifanias (“E o rosto divino apaga-se contra o vidro/ da memória”), de analogias (“a luz do sol escorrer por entre/ as folhas, como se fosse água”), de estações variadas (“para montar armadilhas aos pássaros”) e sobretudo das manhãs que obrigam à “precisão de traço/ que os dedos inscrevem em cada sílaba”. A leitura desta paisagem acabou por revelar-se chã e cativante: uma linguagem do dia-a-dia que não perde nunca o resplendor do luar. Uma leitura criada pelo ritmo escorreito que procura a sua matéria própria. Uma leitura que se deixa povoar por figuras luminosas: Júpiter, Vénus, várias infantas, Orestes e até o “rosto escondido pela trepadeira/ que (…) ocupa a imaginação”. Uma leitu...
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No seu livro Le livre à venir (1959), Blanchot colocou em cena a morte do último escritor sobre a Terra e perguntou, alarmado: o que resultaria de um tal facto? A resposta, umas linhas à frente, não se fazia esperar: “Apparemment un grand silence”. É uma daquelas frases que sempre me perseguiu. A reflexão de Blanchot seria depois invadida por um tom algo dramático: com a morte do último escritor, apareceria “um novo ruído” e com ele anunciar-se-ia a era da não palavra (“l´ère sans parole”). Este novo ruído ouvir-se-ia para sempre. Mais, ele havia de escapar a todo o tipo de distracção e transformar-se-ia num verdadeiro vazio que fala (“un vide qui parle”): insistente, indiferente, sem segredos, capaz de isolar e separar os homens, capaz de separá-los de si mesmos conduzindo-os a labirintos ínvios e sem fim. Este tremendo "ruído" consistiria – segundo o autor – num novo figurino de palavra, mas uma palavra exilada e bizarra: a sua estranha natureza (“l´etrangeté de cette paro...
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O ambiente estava quente na Póvoa. Um calor de Inverno, temperado pela ameaça iminente de temporal. Já se sabe que existem escritores que se reencontram nesta maresia de afectos há onze anos, outros há menos tempo. Pelos corredores, passos perdidos e salas de luz ténue passeiam-se autores conhecidos, outros a lançar primeira ou segunda obra. Jornalistas, editores, farejadores, olheiros da coisa literária. Diz que disse, ambiente cordial, conhecimentos estimulantes. Um tempo fora do tempo. Bastante público, boas sessões, muitos lançamentos, alardes sigilosos. As mesas herdam o prazer da palavra e a névoa do que se não diz invade outras constelações. Por isso, há sempre muito bar, muita confissão e muita noite. E houve ainda algum tempo para apresentação de novos projectos. Foi neste novo recanto do Corrente d´Escritas a velejar ainda perto da costa que, na última quinta-feira de Fevereiro, o PNETliteratura – embora não seja “propriamente novo”, como escreveram os nossos amigos Blogtail...
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Mesmo em tempos imemoriais, a memória foi sendo assegurada por narrativas estáveis, embora de natureza muito diversa. Os mitos, por exemplo, nunca se confundiram com os chamados textos “sagrados”. Estes últimos não podiam – e não podem – ser alterados e a sua razão de ser poucas vezes deixou de se confundir com um literalismo congénito. Ao invés, os mitos viviam – e vivem – de uma noção elástica de matriz, ou de ponto de partida, de tal forma – como escreveu H. Blumenberg em Trabalho sobre o Mito (1979[1]) – que é na relação entre “tema” e “variações” que o auditório e a emissão acabam por encontrar um sentido (um sentido fluido, mas que permanece como se propagasse uma evidência muito mais importante do que qualquer geometria canonizada pela memória). Os mitos aprenderam há muito a viver num mundo sem escrita que concedia à memória maior flexibilidade e mais margem de manobra, de inventividade e de recriação. A amnésia colectiva nos tempos míticos coincidia com aquele espaço difuso d...
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Foi moda, a meados desta primeira década do século, falar de Sebald. A onda parece agora ter arrefecido. Seria interessante entender por que razão a narrativa e as inquietações específicas de Sebald foram tão bem acolhidas num período claramente pós-09/11. O repto será retomado. Convirá, no entanto, salientar que Austerlitz, Os Emigrantes e sobretudo a História Natural da Destruição1 são obras de W. G. Sebald que nos permitem penetrar nos labirintos de uma amnésia colectiva. Não se trata, naturalmente, da amnésia colectiva que resulta do processamento dos dispositivos globais de carácter hipertecnológico, mas antes de um tabu histórico e, portanto, de uma amnésia forçada. O caso da deliberada omissão histórica do que foi a radical destruição da Alemanha no final da II Grande Guerra Mundial tem sido, nas obras de Sebald, abordada de um modo descomprometido, desideologizado, memorial, frio e literariamente possante. Com efeito, o processo de contínua e implacável razia que conduziu à der...
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A marca na parede é um daqueles contos que parte do nada – realmente, de um verdadeiro nada – para chegar ao universo, ao turbilhão do mundo interior, ao coração do vivido. Apesar de Orlando, de As Vagas e de outros romances, sempre encontrei nas dez páginas deste conto o legado mais autêntico de Virgínia Woolf. Partindo de um olhar acidental para a “pequena mancha redonda, negra contra a parede branca, a cerca de seis ou sete polegadas do rebordo da chaminé”, a autora dá a volta ao mundo, encarando-o como se estivesse também “a olhar para um espelho” onde as imagens da consciência apareceriam como marcas ou reflexos semelhantes aos que explodem na ficção. A certa altura, esta ascese do microreal conduz a escritora a uma proclamação tão fascinante quanto plena de sortilégio: “… os romancistas do futuro darão importância crescente a estes reflexos, porque não há apenas um reflexo, mas um número quase infinito deste género de refracções; aí estão as profundidades que os romancistas do fu...
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Cada década acaba sempre por corresponder a uma escala musical que se esgota, ao insuflar de um balão que depois se esvazia, ou a um soufflé que se expande no forno até abrir brecha. Isso mesmo: uma brecha que não nos chega a preparar, como deve ser, para a década seguinte. O que se passa na escala de uma década passa-se também na escala de um simples ano. Ora, soletremos o número “2010” e perguntemo-nos, depois, se ele não tem o seu quê de corpo estranho? É como se nele revíssemos a casa ainda desconhecida onde iremos habitar durante mais uma (pequena mas significativa) parte da vida. O algarismo “Vinte” ao décimo se antepondo (2010): eis o nome do novo ano em que embarcámos há pouco mais de um mês. Misterioso então, hoje já mais prosaico, elementar, quase habitual. Cada número tem evidentemente o seu nome mais ou menos secreto, mas, quando o número coincide com o ano que respiramos ou prefiguramos, esse nome parece assustar-nos. É por isso que obras literárias como L' An 2040 de Mer...
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À pergunta de Maria Augusta Silva, publicada em entrevista na edição do DN de 6 de Setembro de 2001, – “– Gostaria que Eduardo Prado Coelho ficasse na história?”, o ensaísta, entretanto desaparecido do nosso convívio, respondeu de modo porventura inesperado: “– Não me considero um criador no sentido de querer ficar nesse plano. É-me mais importante ver uma pessoa a quem disse leia este poema, ficar com lágrimas nos olhos ao lê-lo do que eu querer ficar na história”. A iluminação como desígnio. Pranto, emoções e afectos. Três palavras do mesmo caudal – diria Damásio – “sematossensorial”. De facto, jamais a literatura foi ilesa a este portentoso caudal. Não há substantivos e imagens que faltem para designar ou conotar esta tendência do ‘pathos’ a inscrever-se no processo literário: vitalismo, romantismo, lirismo, ou as infindas transpirações do choro camiliano envoltas pelo derrame da carne, como Durrel escreveu num breve texto sobre Lawrence: “O poema é o sonho feito carne, num duplo se...
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Julie Lambert, “a maior actriz inglesa” do pós-guerra, é uma feliz criação de Somerset Maugham que percorre todo o seu romance A Outra Comédia*. O enredo descreve o itinerário de uma diva que, a partir do Teatro Siddons, vai suscitando paixões cruzadas, num relato dominado por uma voz algo ambígua (ao mesmo tempo distante e íntima) que vai sempre, no entanto, dando conta, com frenético realismo, dos acontecimentos e intrigas que atravessam a atmosfera do teatro londrino de meados do século passado. Na saga de múltiplas seduções participam quer o aristocrata Charles Tamerley, dividido entre o desejo mortificado e o mistério, e sobretudo Tom Fennel, o jovem contabilista e arrivista que acaba por dominar o coração de Julie durante quase toda a trama. Não esqueçamos, claro está, no rosário deste vaivém entre ensaios, cena e vida social intensa, o próprio marido de Julie, o empresário e também actor Michael Gosselyn (tão casto quanto gentleman) e, já agora, a inesperada aventura entre Juli...
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Um homem vê uma mulher na igreja. Esse olhar excede a intensidade da neve de Clermont-Ferrand. Passará uma noite em casa dessa mulher, que se chama Maud, e o universo por ambos tacteado bastar-se-á ao peso da palavra. Um corpo chamado palavra. Antes, no mesmo filme, o protagonista – um católico que desafia a matemática e a revelação possível do ateísmo – discute com um marxista num café. Falam de Pascal, de probabilidades, de si próprios: rostos a preto e branco, poses deíficas, brilhos discretos. E fazem-no, com elegância, a bordo de uma imagem que existe, apenas porque o aparecer da palavra a vai gerando. É neste milagre que reside o génio de Rohmer, desaparecido há precisamente uma semana: desfiar o novelo de perguntas em torno da tentação imobilizadora da imagem que não é capaz de parar, apenas porque gira, porque é, ela mesma, uma imagem. No cinema de Rohmer, a literatura aparece quase em estado puro. Como um glaciar sem nome. Se é que isso existe. Aparecerá, de certeza, fora de ...
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por Luís Carmelo Numa carta de Lawrence Durrel a Henry Miller, escrita em Belgrado, no mês de Janeiro de 1950 – faz agora precisamente sessenta anos –, Stendhal surgia como o prenúncio maior de uma desejada depuração narrativa: “Nos últimos dias tenho lido bastante Stendhal, cada vez mais convencido de que nas sua grandes novelas ele lançou os fundamentos lineares da ficção para os cinquenta anos que se lhe seguiram. O poder de criar uma personagem de três dimensões numa única frase e de deixar depois a acção revelar a personagem sem mais intervenções do autor”*. A citação parece ter sido feita de propósito para um curtíssimo conto de Truman Capote que, aliás, dá nome a um conhecido volume de contos – A Árvore da noite. O conto de apenas treze páginas – a edição portuguesa** é, de facto, pitagoricamente metafórica – coloca na carruagem de um comboio (que tinha “assentos de pelúcia encarnada, coçada em parte, e madeiras cor de tinta de iodo”) uma jovem rapariga univesitária que regressa...
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Nunca entendi bem por que razão deu Hemingway o título “O Jardim do Éden” ao romance em que o escritor David Bourne contracena com a sua mulher Catherine e, a partir dos dois últimos terços do livro, com Mirita – a morena baixinha que “tinha o rosto brilhante e com boas cores”. O “Livro Um” de O Jardim do Éden é passado num pequeno hotel de Le Grau du Roi, junto à respiração de Aigues Mortes na Camarga. O episódio que quase serve de ‘incipit’ alegórico à obra coloca em cena o jovem David a pescar um peixe quase maior que ele para gáudio de toda a terra de marinheiros e peixeiras. O “Livro Dois” conduz o aventuroso enredo para o Atlântico húmido de Hendaia e daí para uma breve incursão a Madrid. Todo a restante intriga – e os seus abismos finais – irradiam a partir da casa cor-de-ro...
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Tenho passado os dias a dialogar com o senhor Godard. Não deixa de ser verdade que as História(s) do cinema, editadas em Portugal há precisamente dois anos, são intensas e sobrepõem fragmentos de uma arte maior. Desde que emergiu do pasmo fotográfico até se tornar na reinvenção da mente, invadida por sonhos de carne e por vozes de sombra. Uma fantasmagoria apetecível, de massas. Como Godard afirmou, a certa altura, nada no cinema se funda numa realidade histórica. Tal como o cristianismo, o cinema cria uma narrativa, concede-a ao público e diz: acredita. Crê! E assim que os deuses se colocaram em fuga, entre as proezas variadas de Muybridge, Nietzsche, Freud ou Proust, eis que um novíssimo deus singrou na alma das multidões, das revoluções e sobretudo das solidões. O cinema: uma arte maior – e muito cúmplice da literatura – que terá perdido a inocência por causa de duas guerras brutais. E que, já agora, não sucumbiu diante da roda viva das variedades de estúdio. Uma arte maior e, por...
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A espessura do tempo. Um bloco entre o olhar e tudo aquilo que se imaginou mais alto. Asas de anjos ou a simples noite a avisar que não é ainda tempo de roseiras. E, no entanto, o ar frio a escalar pelas fachadas, a subir pelas varandas vazias, a penetrar nos terraços intensos e brancos. No fundo, é a levezaa a sobrevoar as suas próprias nuvens. Dir-se-á: ‘Ceci n´est pas le temps’. Bom Natal. Lembrava-se de ir de bicicleta à procura de musgo. Olhos presos no horizonte, luvas, colinas e sombras de animais; plátanos aventurosos, ribeiras esguias e ramos despidos ao fim da tarde. Um vulto a atravessar duas a três galáxias para povoar o cheiro da terra. Ainda lá está de corpo inteiro. Nesse deambular. Deslumbrado. Bom Natal. Os campos alagados, o canavial aflito e os sobreiros ao fundo quase já esquecidos da promessa do sol. Há ainda um acorde, coisa breve que segreda a idade dos muros. Chove sem parar, embora o pranto não passe de uma murmúrio de felicidade da terra. Bom Natal. Avistar de...
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A circular no interior das páginas. A desmembrar a liquidez de uma palavra que não chegou a vir ao ser. A esquecer o rumo. A adivinhar o som. A calcorrear o ritmo. Vira mais uma página e o fantasma descobre o movimento, a teia, o tear, a sombra e o limo preso ao andamento que faz da leitura uma translação sem horizonte. Apenas breu e alguns holofotes a definirem o langor com que as nuvens cobrem este silêncio que faz do livro uma verdadeira trégua solar. A circular no interior das páginas. Uma voz que vem de longe. De muito longe. E a ventoinha parada, enquanto não é Verão outra vez. Sorri e volta ao livro. Aos Escritos Íntimos de Baudelaire. Põe-se entretanto o sol. No limiar do horizonte a vista transforma-se em magma aceso. Depois escurece e a noite anuncia-se através da uma nova densidade. No vidro da janela reaparece a humidade, essa linguagem filigrânica que diz o coração da água em silêncio. É nestas alturas que a espera se torna presença. E o que é agora actual passa a ocupar ...
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O rosto da Europa é a figuração feliz de um perfil que representa a imagem da Eurásia a despedir-se do mundo, ou seja: do mar e das lendas que ele prolonga. Este olhar inebriado sobre o grande gravitas é o território preferido pelos maiores poetas portugueses, Camões e Pessoa. Aliás, a expressão "rosto da europa", na língua portuguesa, pertence a este último. Neste meio diagrama meio metáfora, utilizado por Pessoa na Mensagem, a Europa surge como jazendo sobre "os cotovelos", o mais recuado sendo a Itália e o mais avançado a Inglaterra, de onde a mão sustenta o grande rosto (que fita com olhar esfíngico e fatal o oceano, o mundo, o infinito). Para o poeta, "Este rosto que fita é Portugal". É também na Mensagem que Pessoa identifica o mito como esse “nada que é tudo”, com se fosse “o corpo morto de Deus/vivo e desnudo” que “aportou” em Portugal; e conclui, seguidamente: “As Nações todas são mistério/ Cada uma é todo o mundo a sós”. Deste modo, o rosto de ...
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Quando se fala em literatura de língua árabe, não rara é a tendência de se citar ‘Umar al-Khayyâm a propósito dos feitiços do vinho. Trata-se de um autor bastante conhecido, devido ao facto de estar vastamente traduzido no planeta, a partir de uma primeira versão inglesa do século XIX da autoria de Edward Fitzgerald.Mas o vinho, que neste pós-S. Martinho produz ecos milagrosos, também teve entre nós quem o poetasse em língua árabe. Refiro-me, entre outros, a Ibn ‘Abdún de Évora (1050-1135). O poeta nasceu e morreu na urbe que viria a ser a de Giraldo e por aí viveu durante muitos anos, em períodos diversos, tendo a sua vida ficado associada ao Reino Taifa de Badajoz que incluía, no actual território português, parte importante do Alentejo, Ribatejo e Estremadura. As traduções que cito a mero título d...
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No romance contemporâneo, sobretudo após a Primeira Grande Guerra Mundial, as imagens passaram a disputar o cálculo, o plano e a estratégia da enunciação. A pouco e pouco, a tensão expressiva desenhada entre o mundo das imagens e a engenharia do plot (quando o plot assumia relevância) passou a criar novos modos de projectar o sentido e a significação (a efabulação de Gregor Samsa em Kafka, a microscopia de Hans Castorp em Thomas Mann e o duplo Orlando que Virginia Woolf fez caminhar como um cervo são disso exemplo). Na segunda metade do século passado, este modo de afirmação tornou-se tanto mais permeável quanto a desfragmentação do romance, enquanto corpo fixo, substancial e sólido, se foi tornando realidade. No entanto, se as escritas experimentais, sobretudo entre os finais dos anos cinquenta e os anos setenta do século XX, se traduziram em textualidade, paródia, impressionismo fonético e condensação discursiva, a voz do romance acabaria por persistir, para além desse contrapeso ao...
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A imagem medieval vivia em iluminura, vitral, texto ou em pintura, mas, independentemente da eficácia a que se propunha, reproduzia quase sempre uma mesma narrativa e, portanto, subordinava-se inevitavelmente a um alinhamento de raiz conceptual. Não era autónoma, por outras palavras. No mundo moderno, as imagens libertaram-se das armaduras conceptuais que as resguardavam e submetiam e iniciaram uma nova história. Um balanço da utilização de imagens nos últimos três séculos, dentro e fora da literatura, evidenciaria a longa história de uma tensão ao mesmo tempo significativa e expressiva. Os românticos foram os primeiros modernos. Neles encontramos, ao mesmo tempo, a desconfiança face ao progresso técnico e a tentação mais implacável de levar a cabo uma verdadeira revolução expressiva. Este paradoxo fez dos românticos verdadeiros cultores da imagem sensorial. Para além da profundidade e pioneirismo dos romantismos alemão e inglês, outros romantismos – como o português – foram tardios e...
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Há obras não literárias que podem ser determinantes para entender o modo como a literatura se entretece no mais fundo das nossas práticas culturais. O ensaio de António Damásio, O Sentimento de Si (1), cujo original foi publicado há precisamente uma década, é um desses livros. Sobre a obra, escrevi eu próprio um ensaio (Músicas da Consciência (2)), numa perspectiva não literária, até porque as inferências que são suscitadas pela reflexão neurobiológica do autor são abundantes e têm consequências em várias direcções. Passemos, pois, ao caso literário. Para António Damásio, o cérebro é um exemplar contador de histórias. Nas várias antecâmaras em que o vaivém de imagens se organiza (descritas como “proto-si”, “consciência nuclear” e “alargada”), uma imensa teia de relatos coloca a mente no cenário de um ininterrupto intertexto aberto ao permanente prodígio conotativo. É tendo em conta este interface de intrigas e truncagens ficcionais que o autor refere que o acto de “contar histórias pre...
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No dia 21 de Dezembro de 1940, F. Scott Fitzgerald morreu abruptamente de ataque cardíaco em Hollywood e, no dia seguinte, Nathanael West teve o mesmo destino na sequência de um acidente de viação na Ventura Boulevard. Coincidências que unem dois autores que partilharam a mesma geografia do Oeste, anos e anos na aura de estúdios cinematográficos e ainda mais: um e outro, Fitzgerald e West trataram literariamente o tema de Hollywood de modo, ainda hoje, considerado ímpar. Nathanael West tinha acabado de publicar, em 1939 – faz agora mesmo setenta anos –, o romance The Day of the Locust (em Português: O dia dos gafanhotos, Dom Quixote, 1985, trad. de Maria Teresa Alves Lisboa/ Record – trad. B. Pinheiro de Lemos). Para muitos críticos, o livro – adaptado ao cinema por John Schelessinger – é uma das obras que melhor espelha o cenário de Hollywood da época. O romance e...
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Edward J.O'Brien (1890-1941), para além de poeta, foi editor e organizador de variadas antologias de contos (short stories) na segunda década do século passado. Foi ele que disse, já em fim de vida, que a revista Story era a “mais distinta publicação de contos do mundo”. Não sei se se enganou, sinceramente. Mas vejamos: a Story nasceu no início dos anos trinta nos Estados Unidos, atravessou os difíceis forties e, só no final dessa década, devido a inesperada falta de apoios, é que viu, pela primeira vez, a sua meteórica publicação interrompida. Foi por essa altura, mais concretamente, em 1949, na América, e, dez anos depois, em Inglaterra, que os editores da Story, Hallie Burnett e Whit Burnett, organizaram em livro uma antologia de contos – cerca de três dezenas (uma preciosidade) – seleccionados entre as seis centenas editadas na revista ...
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Comprei no início deste ano em Paris dois livros que apenas o Outono português me ajudou, há muito pouco tempo, a devorar. Não foi tarefa difícil, até porque, num e noutro caso, a desgraça negra teve tendência em tornar-se em risível – e podia mesmo ter-se revelado como paródica – não fosse a boa construção formal das escritas e o sol que ainda ponteava em torno (e por dentro) da leitura. A literatura é afinal o que se inventar para a fazer ser, lendo. E rememorando. Acto solitário de que escapam estigmas menores, de que não nos apercebemos amiúde, e de que se conservam traços muito vivos (a maior parte como puro mistério, cuja persistência é, quase por natureza, inexplicável). Passemos a descrever muito sumariamente ambos os livros Dans ma maison sous terre (Le Seuil) de Chloé Delaume coloca em cena a vingança da protagonista contra a avó, pelo facto de esta a ter feito acreditar que o seu pai não era efectivamente o seu pai real. A procura de sentido e de identidade, um tanto mórbida...
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No ano de 1950, Albert Maltz publicou uma breve recolha de ensaios sobre o significado “social” do escritor (The Citizen Writer, International Publishers, New York). O primeiro dos ensaios – que dá título ao livro – tenta situar o que torna o escritor num cidadão diferente de todos os outros. Essa caracterização surge logo no início e enfatiza um privilégio: “O escritor, mesmo o mau escritor ou o corrupto, distingue-se de todo os outros cidadãos devido ao seu privilégio comunicativo”. Esta singularidade comunicacional própria de um mundo em que emissores e receptores se separavam verticalmente (tão longe da actual febre interactiva) proporcionava, segundo Albert Maltz, um facto extraordinário: os valores tidos como semelhantes tornavam-se imediatamente outros se e quando enunciados pela figura do escritor: “O pensamento e os valores morais do escritor podem não diferir dos valores dos demais cidadãos, mas tornam-se instantaneamente diferentes na medida em que ele pode transmitir o seu...
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Uma das características que torna hoje a literatura singularmente apetecível é o facto de o tempo literário não se coadunar com o chamado tempo real. O conceito de tempo real é um exorbitar dessa excelência televisiva dos anos sessenta que se designava por “directo”. Era um milagre ver o Benfica a jogar com o Milan em directo, como ainda é, de algum modo, um fetiche fantasmático – com aura de inexplicável – rever Armstrong a passear na lua. Era isso o directo: uma magia que entornava o tempo numa verdadeira suspensão ficcional. O tempo real pressupõe o fim dessa magia, o que significa o fim do desdobramento entre a consciência do presente e a intensidade do que ia aparecendo – revelando-se – em directo. O tempo real é só já e sempre intensidade, compulsão e estesia: poder estar para além do vivido como se este fosse apenas um mero pretexto ao serviço do aparecer virtual. Respirar sempre o clímax como se a história do dia-a-dia tivesse passado a servir como simples parapeito para estar ...
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A Justine criada por Marquês de Sade, que se dá a conhecer através de Sophie ao longo da sua própria história – não sei se inocentemente (em Sade nada é inocente) –, é uma metáfora preciosa. Tudo o que narra à irmã, a Srª. de Lorsange, e ao Sr. de Corville é da ordem do terrível. No mínimo. Por mais princípios, pudor e cumprimento de preceitos que demonstrasse, tanto maiores eram – e foram – sempre os desastres em que se veria – e se viu – envolvida. O desmedido paradoxo como evidência da mãe natureza. A tese de que a santa Providência pactua com tudo menos com a virtude é levada em Sade até aos limites. Mesmo até ao momento do desenlace em que, passada a quarentena de orgias forçadas, assaltos e raptos, Justine, já aparentemente ilesa e imune à infelicidade, acaba por ser apanhada por um raio. Que a mata, claro está. Maldita trovoada. O que acontece a poucas linhas do fim. O facto conduzirá a irmã a uma súbita conversão e, porventura, à concretização do lema complementar: ‘Tanto sofre...
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Nas leituras de Verão – estação que acaba amanhã –, prefiro sempre redescobrir clássicos. Especifico: adoro ler obras porventura ‘menores’, mas da lavra de autores que abraçaram a literatura como quem fez do mar a sua palavra. E prefiro aqueles autores que viveram num tempo em que a literatura era ainda a casa do mundo, isto é: um dos seus centros, ou mesmo o seu altar mais referencial. Associo neste editorial duas pequenas obras da autoria de dois autores muito diferentes: Henry James, o cosmopolita americano que adoptou a perdição europeia (1843 – 1916) e Miguel de Unamuno, o aventuroso e trágico escritor hispânico (1864 – 1936). A obra deste último, Um homem, foi escrita no ano da morte de James, enquanto a famosa Daisy Miller apareceu a público quando Unamuno tinha apenas catorze anos de idade. O que liga ambas as histórias é simples: duas heroínas e duas mortes como desenlace. Em ambos os casos, existe ainda uma singularidade distintiva: ou a beleza sem par, ou a tentação de quebr...
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No último editorial de Agosto, uma brevíssima alusão a Le Clézio e um conto de D. H. Lawrence constituíram o tónico ideal para uma reflexão sobre a ‘correcção’ vs. ‘incorrecção’ na literatura (e na sua relação com as modas de época). Há cinquenta e dois anos, em 1957, um livro de Cardoso Pires, O Anjo ancorado, discorria no final, muito curiosamente, sobre a mesmíssima ideia de ‘correcção’. E fazia-o de modo quase ensaístico, entre a trama que colocava uma aldeia junto ao mar como leitmotiv de um encontro entre mundos opostos: um homem e uma mulher com dinheiro – e alguma ostentação – e o silêncio miserável de “São Romão” (uma terra ficcional de onde se avistavam as luzes do farol de Peniche). O texto é de uma riqueza literária imensa e, embora entrecortado aqui e ali pela ‘correcção’ ideológica da época, constitui bem mais do que um testemunho temporal. A tese de Cardoso Pires tem uma esquadria histórica bastante funcional. Tudo começa no início do século passado, quando, em caso de “...
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O site PNETliteratura conclui depois de amanhã um ano de vida. A data é tão auspiciosa quanto pitagórica: 09/09/09. Não se trata de muito tempo, mas, por outro lado, nos tempos que correm, pode dizer-se que foi uma animadíssima maratona. Todas as iniciativas que tendem a criar novos horizontes, dentro das práticas e tradições relativamente instituídas, sentem a necessidade apurada de balanço. Pelo nosso lado, foi claro, desde o início, que desejámos conceder ao espaço da literatura o silêncio que faz parte da sua natureza de arte que fala a sós e com um tempo que é o tempo da leitura e da congeminação activa. Por isso, não estimulámos o fluxo de imagens – que hoje constitui a respiração da rede como um fim em si mesmo –, nem fizemos da informação uma espécie de ‘dever’, porque a rede pôs a claro, nos últimos anos, que nem toda a comunicação se ‘deve’ cingir ao redutor programa do jornalismo. O que não significa que o nosso site não tenha tido, todos os dias, informação particularmente ...
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A “correcção” é um termo interessante. É uma daquelas palavras que, a dada altura, foi ‘convocada’ para passar a significar algo de novo (o que os semióticos designam por ratio difficilis). É “correcto” aquilo que se adequa a uma expectativa generalizada, sem criar grandes falhas de expectativa ou estranheza. Na literatura, é muito interessante perceber o modo como certos relatos podem ser (ou tornar-se) “correctos” ou “incorrectos”. Quando as vanguardas comandavam o fôlego das artes e da literatura, a “incorrecção” era uma matriz desejada e esperada. Hoje não é tanto assim. Dou um exemplo que liga, através de detalhes interessantes, um alusão sobre Le Clézio e um livro (uma “short story”) de D. H. Lawrence. Alexandra Lucas Coelho escreveu sobre Le Clézio, o Nobel do ano passado: “Pelo menos desde que foi viver com os índios do Panamá, no começo dos anos 70, vale a pena ler tudo o que escreve Jean-Marie Gustave Le Clézio”. O comentário, publicado na Pública do passado dia 16 de Agosto,...
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O que há de mais desconcertante e edificante na literatura – os pólos esbatem-se – é a capacidade de a palavra tratar por tu a dimensão do minúsculo. Aquele discorrer entre alusões, ilações, memórias e pequenos actos que se sucedem e sobrepõem. Enquanto fechamos e abrimos os olhos. Ou enquanto os dedos se fecham para tocar na ponta do colarinho. O insignificante é uma matéria fugaz, mas é, ao mesmo tempo, a encorpada atmosfera do nosso silêncio e a delonga ininterrupta da nossa vida interior. Dois exemplos: um de David Lodge e outro de Patricia Highsmith. O primeiro coloca em cena um diálogo exíguo que faz da palavra uma silhueta espirituosa; o segundo sugere a ideia de um vaticínio que concede à palavra o valor de tinta impressiva. Discutir a posição do ganso ou do macaco à luz do Kama Sutra é uma coisa. Pode dar para rir ou para chorar. Mas com canecas de cerveja e um hálito levemente amargo pelo meio, os efeitos, a abordagem, os gestos e as poeiras que se intrometem no olhar ganham ...
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É normal encontrar-se, aqui e ali, alguma ansiedade em torno da sobrevivência da poética no tempo da rede, pelo menos no modo como (culturalmente) a entendemos desde finais do século XVIII. O problema voltou a ser aflorado numa das recentes feiras do livro onde estive presente, a de Viana do Castelo. Para expiar angústias, passo a apresentar uma possível e breve cartilha em sete pontos sobre o futuro específico da ciberpoética. E por saber que o “miedo no es sonso”, como escreveu Borges em El Libro de Arena (1975), daqui a cem anos… vamos ver se não acertei em cheio: 1 – A vida da ciberpoética será cada vez baseada no provisório e num verdadeiro vaivém em oposição a uma vasta tradição que sempre encarou a poesia como inscrição definitiva (uma espécie de magistral ‘sinal dos tempos’). O destino da ciberpoética vai, pois, ser o movimento: fluir e navegar através de permanentes subtracções e adições. 2 – A autoria da ciberpoética tenderá cada vez mais a descolar de marcas individuais fixa...
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A época é de livros que se recomendam. Sempre foi assim. Livros que inspirem a alma solar e a ilusão de que uma pessoa descansa, porque se declara a si própria em férias. Digamos que as férias correspondem à época em que o alívio tenta inundar – uma inundação sem riscos – o pasmo da rotina. Mas até esse desejo não passa de um fetiche, ao fim e ao cabo bastante parecido com aquelas simulações que tornam certos policiais verosímeis, previsíveis e malfadados. Seja como for, até pelo nome, a colectânea Férias de Agosto de Pavese recomenda-se (há uma recente edição da Quasi com tradução de Ana Hatherly que sucede a uma outra de 1965 da Arcádia). O ambiente faz lembrar certas histórias de Eric Rohmer, mais na linha, naturalmente, de “Conte d'été” (1996), e menos &n...
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No último dia de Agosto de 2001, Agustina Bessa Luís caracterizava a literatura e a actividade crítica como snobs: “Há no crítico um certo snobismo, conforme à sua educação, mas tal não se pode levar a mal. A literatura é snobismo, porque é uma tentativa de se sobrepor à sua realidade. Não é um retrato da sociedade em que se vive, mas a procura da superação”. As palavras de Agustina, que tinham como referência Eduardo Prado Coelho – visado numa polémica literária que teve lugar no verão de 2001 –, desdobraram-se, depois, a um exemplo no mínimo curioso: “Toda a crítica é snob. Até Jesus Cristo foi snob, quando criticou o seu próprio livro” (…) “Critica-se sempre a nossa própria cultura. O snob quer dizer isso mesmo, sem nobreza, sem autoridade total que ninguém tem”. A ideia de “procura de superação” (como alma identitária da literatura) não é menos desafiante do que a ideia de crítica, entendida por Agustina num prisma de dúvida “snob” que se vai exercendo, de modo ininterrupto, sobre...
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O tempo da banalização é o tempo em que os modelos clássicos perderam as suas fronteiras. Tudo se mistura. Os museus tendem a tornar o mundo inteiro como anfitrião, do mesmo modo que a literatura tende a inscrever, no seu seio, para escândalo de muitos, todo o tipo de registos (incluindo os chamados “subprodutos” – i.e., romances sobretudo provenientes da mediaesfera). Contudo, uma arte dita “pobre” (materiais elementares, fusão com o quotidiano, instalação, inscrição na paisagem, etc.) pode ser uma arte muito implantada na vida do dia-a-dia e, portanto, indispensável, nutritiva e autêntica. Mas tornar-se-á facilmente incompatível com os discursos tradicionais da crítica, com o discurso kantiano sobre o “génio” ou com as posturas que sacralizem a arte, a crítica, os escritores e os artistas em geral. A polémica literária de Agosto e Setembro de 2001 teve como pano de fundo a necessidade de avaliar a força (então emergente) dos subprodutos. Como lembrámos na semana passada, Fernando V...
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Até ao próximo dia 31 de Julho – já falta muito pouco para acabar! –, a Hemeroteca Municipal de Lisboa dedica uma interessantíssima exposição a um leque de revistas portuguesas que herdaram muitos dos atributos da Revista de Portugal que, entre 1889 e 1892, foi dirigida por Eça de Queirós. Como se refere na apresentação da iniciativa, a Revista de Portugal “foi fundadora de um novo tipo de revistas, pelo que acabou por funcionar como modelo para várias publicações periódicas que surgiram ao longo do século XX”. A Revista de Portugal começou a ser publicada no dia 1 de Julho de 1889 e anunciava-se “acima dos partidos, das escolas, dos currículos, de tudo quanto é limitado e transitório”. Uma ambição quase intemporal que fazia da actividade crítica uma certa forma de ‘poiesis’. Perfumes da época. Nos quatro volumes que compõe, a Revista de Portugal constitui um acervo relevante para o conhecimento da época em que foi editada e, naturalmente, também, para a “própria história literária de ...
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A 8 de Dezembro de 2008, o meu habitual editorial, “O papel da empatia na crítica literária”, evocou uma polémica que teve lugar no Verão de 2002. Porém, no Verão imediatamente anterior, algumas declarações de Fernando Venâncio tinham dado origem a outra polémica ainda mais estriada. Terá sido o último ajuste de contas sobre a natureza e a história recente da crítica literária e, também, o último separar de águas quanto às tipologias literárias e seus “subprodutos” que têm cruzado o país neste século. O rastilho da polémica de 2001, que – diga-se como pura coincidência – precedeu o 11 de Setembro (o texto de João Carreira Bom, “A Glória”, fechou o debate no dia 7), teve na sua origem uma resposta de Fernando Venâncio a uma pergunta de Francisco Mangas, em entrevista publicada pelo DN a 28 de Agosto: “A Maria Velho da Costa, o Rui Nunes, a Gabriela Llansol... São promovidos continuamente, cada livro que publicam é uma "obra-prima", e isso tem um efeito perverso, perigoso: des...
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A edição do Verão de 1959 da revista Evergreen (Vol. 3, Número 3) – faz agora mesmo meio século – tinha uma capa oriental (fotografia de Sunil Janah do Templo do Sol de Konarak, na Índia). De facto, a efígie salientava a presença, com bastante destaque (na “Evergreen Galery”), do romancista indiano Mulk Raj Anand, director, à época, da revista “Marg” que se publicava em Bombaim. O seu texto, A Grande Maravilha (The Great Delight - pp. 172-200), parodiava a reacção que os clérigos ocidentais tiveram quando encararam, pela primeira vez, o Templo do Sol de Konarak. O erotismo das figuras modeladas em pedra era – e é – de tal modo óbvio e contagiante que dificilmente podia ter sido enquadrado pelos missionários numa religiosidade que, citando Raj Anand, privilegia “o todo da criação” como “resultado da união de princípios femininos e masculinos”. A metáfora que Raj Anand encontrou, umas linhas depois, para retrospectivar a sua crítica mais geral ao Ocidente (a Índia era independente há mui...
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A literatura procura, muitas vezes, o que as férias procuram: contingência, deambulação e sobretudo um tipo de proporção que não se coaduna com o vivido no dia-a-dia. Não é realmente difícil testar esta estranha coincidência que se baseia na exploração de um tempo que aspira a não ser o tempo comum. Passemos a palavra a Ian McEwan e deixemo-nos ir nesse “desvio para oeste” que é próprio de certa errância estival: “Enquanto ia a atravessar a ponte, recordou-se de novo de como Amesterdão era uma cidade calma e civilizada. Fez um grande desvio para oeste a fim de passar ao longo do Brouwersgracht” (…) “Que lugar tolerante, aberto, adulto: os belos armazéns de tijolo e de madeira trabalhada convertidos em apartamentos de bom gosto, as modestas pontes de Van Gogh, o discreto mobiliário de rua, os holandeses de ar i...
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Tenho escrito com algum empenho sobre o facto de a literatura estar a viver num mundo que deixou de a significar do modo como sempre nos habituámos. A matriz desta compreensão recua, como se sabe, até finais do século XVIII. Como escreveu o saudoso Eduardo Prado Coelho, há quase trinta anos – cito para sintetizar – “A literatura é o produto da idade crítica. A idade crítica é a literatura como auto-crítica e a crítica como literatura”(...)“O romantismo inventa a literatura que está sempre além de qualquer literatura”. Esta invenção da ‘poiesis’, ou seja, da linguagem que inventa a linguagem e que se torna numa escrita (ficcional) autónoma face a todas as ‘Escrituras’, correspondeu a uma revolução que atravessou oitocentos e novecentos. A literatura continua hoje a ser uma oficina única e uma luminosa invenção, mas não ocupa mais – perdoe-se-me a expressão – o ‘altar da alma’ nas nossas sociedades. Os “zappings”, o tempo real, os media, as aragens pixelizadas e as imagens que geram imag...
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Foi publicada no Jornal do Commercio de Lisboa, a 30 de Agosto de 1900, e foi escrita dez dias antes. Trata-se de uma carta emocionada de Ramalho Ortigão que teve como destinatário Eduardo Burnay. No fim da carta, o autor afirma que “as letras são bem pouca coisa na vida”. O tom diz tudo sobre o facto que o texto evoca: a morte de Eça. Mas não só. A carta é particularmente importante, porque dá a conhecer o último itinerário do autor de Os Maias. As últimas paisagens, glosas e comentários. Os últimos horizontes, mas também os últimos cigarros, romances e até proezas gastronómicas. Numa palavra: a última viagem que teve lugar entre o décimo nono e o terceiro último dia da vida de Eça (mais concretamente, entre 28 de Julho e 13 de Agosto de 1900). A palavra a Ramalho Ortigão: “Partimos de Paris no dia 28 de Julho, em lugares contíguos no expresso da noite para Genebra. Ele, muito enfraquecido, é certo, vinha alegre e dormiu bem”. A conversa e o humor não terão cedido ao ambiente. E a pre...
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A sétima pergunta colocada ao senhor Breton, no recente livro quase homónimo* de Gonçalo M. Tavares, fez-me pensar num romance de Roth que li há três anos**. Eis a questão: “A minha questão prende-se com o facto de as tábuas, no geral, se soltarem e desgastarem com muita frequência. E o chão do mundo não é outra coisa, senão isto: um chão que se pode soltar. A violência imprevista que surge dos dias vem, aliás, destas tábuas repentinamente ameaçadoras que fazem um homem cair e uma mulher apaixonar-se”. No final deste perturbador parágrafo, lê-se em jeito de conclusão: “…e o acidente é isto: um movimento geométrico mau”. O romance de Philip Roth, A conspiração contra a América (2004), relata a ficcionada vitória eleitoral do aviador Charles Lindbergh sobre Roosevelt, em...
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Perto do final do romance Na Praia de Chesil, McEwan coloca na boca da mãe (Violet) da protagonista (Florence) uma interpelação a um terceiro personagem (Edward): não seremos (nós) “sempre levados pela história e pelas nossas naturezas dominadas pela culpa, a sonhar com o aniquilamento?”. A questão é premente e terá as suas origens nos textos proféticos mais antigos. Vem isto a propósito de uma leitura recente. Trata-se dum romance caracterizado como "precoce" que foi rescrito pelo seu autor, Truman Capote, durante anos e anos, mas jamais publicado. O texto, iniciado em 1943, foi descoberto (no passeio!) pelo porteiro do prédio de Brooklyn que o escritor viria a abandonar já nos anos sessenta. Travessia de Verão é o nome dessa narrativa póstuma de Capote que a Dom Quixote publicou, em Portugal, na Primavera de 2007 (e que a Objetiva publicou no Brasil). O enredo é simples e cativante e prende-se sobretudo com os impactos do imponderável. Uma menina da alta novaiorquina e um ...
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Continuando a percorrer uma errática rota de quase Verão, decidi hoje harmonizar a poética do lúpulo com a matéria portuária. Dois autores – que dificilmente se teriam entendido, Malcolm Lowry e Vitorino Nemésio – e dois livros que têm em comum a alma do oceano e a cerveja como ritual de passagem. Ou de travessia. O primeiro livro é de Malcolm Lowry e por ele me apaixonei há muitos anos. Reúne duas narrativas e tem um título que se propaga como eco inebriado: Hear Us O Lord From Heaven Thy Dwelling Place & Lunar Caustic. Das 347 páginas da edição que tenho em casa (Penguen Books, 1979), há uma tradução parcial portuguesa – fabulosa – da autoria de Anna Hatherly (pp. 26 a 99 do original) que correspondente ao capítulo Through The Panama (Através do Panamá*), recortado da primeira das narrativas. Trata-se de uma viagem iniciática, alcoólica e absolutamente visionária. A certa altura, já com vinte e três dias de viagem, o “Diderot” – nome do navio que parte de Vancouver no início do enred...
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A Primavera é um rio febril. Alergias e menos inclinação para a leitura são compensadas, nesta altura, com a excelência da nespereira e sobretudo com o fio secreto da cerveja, logo que a noite desce e a enseada das minhas trepadeiras floresce. Um fadário cíclico, desejado e sem juízo que caiba em verso. Mas que se aproxima da felicidade. Deixo duas histórias que rimam sigilosamente com esta aragem do tempo. Estive em Cantuária há dez anos. Na memória, ficou-me a imensa catedral e a espessura da cerveja. Acrescentei a Chaucer o prazer das vistas e as bagas do lúpulo, essas, ficaram cá. Quer dizer, lá. E a verdade é que, ao ler, pela primeira vez, nessa altura, o romance – de nome sintomático – Cakes and Ale or The Skeleton in the Cupboard (1930 – tradução portuguesa: Destino de um homem*) de Somerset Maugham, vi reapareceram diante de mim, como um sortilégio, as paisagens de Kent: as suas sebes, olmos e tabernas:"Quando uma taberna tinha um ar simpático, geralmente propunha que par...
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Sempre me intrigou o exílio de M. Teixeira-Gomes no final da sua vida. Grande escritor, presidente da república por dois breves anos (1923-25) e antes embaixador em Inglaterra durante sete (1911-1918), M. Teixeira-Gomes havia de partir para o Norte de África, em 1925, acabando por morrer em Bougie, na então Argélia francesa, já em 1941. Li muitas explicações, falei com especialistas sobre o tema (lembro-me de conversar com Urbano Tavares Rodrigues mais do que uma vez) e ouvi boatos. Rumores de simples predador. Mas nada melhor me terá explicado o que se passou, para além do circunstancialismo histórico e político da época, do que um brevíssimo filme biográfico – bem mais ficcional do que rigorosamente biográfico – que tive a oportunidade de visionar no Pavilhão da Argélia da Expo-98, em Lisboa. No fundo, este filmezinho dizia pouco. P...
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Folheio na longa tarde – este ano acinzentada – do dia 25 de Abril os velhos “Cadernos de Poesia” da D. Quixote. Na mão tenho a primeira colectânea de poemas (ou, se se preferir, a primeira “selecção da obra lírica”) de David Mourão-Ferreira, Lira de Bolso, saída a público há precisamente quarenta anos (1969). De qualquer modo, refira-se que A Arte de Amar, não tendo sido uma antologia, já tinha reunido, em 1967, os primeiros cinco livros do autor. A colecção da D. Quixote – a par dos congéneres “Cadernos do Cinema” – fez história e, antes desse oitavo volume do então novo conceito de ‘livros de bolso’, já tinha publicado nomes como Carlos de Oliveira (Sobre o Lado Esquerdo e Micropaisagem, segunda e terceira edições, respectivamente), Neruda, O´Neill (a segunda edição de De Ombro da Ombeira), Vinicius, Éluard e ainda Armando Silva Carvalho (com Os Ovos d´Oiro). Preciosidades, claro. O curto prefácio de Lira de Bolso é da autoria do poeta João Rui de Sousa e apenas surge assinado, curi...
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Há duas semanas que estamos a dialogar com o tema da melancolia. Passámos revista a uma tradição que, desde a alta Idade Média, considerava a melancolia como um dom fisiologicamnete localizado. A bílis como anfitriã da melancolia, pois então. Motivo de comentário irónico de Montaigne ainda tão longe, no entanto, do tipo de asserção moderna que, bem mais tarde, aparecerá em Vítor Hugo: le bonheur d´être triste (a felicidade de estar triste). José Ricardo Nunes escreveu, há uns anos, que, nos poetas de hoje, existe “muita melancolia e muito hiper-realismo”, embora os “melhores” sejam aqueles que fogem “um bocado a esses escolhos". É bem possível, embora nem sempre a melancolia atraia os críticos e ensaístas. Talvez um óptimo exemplo dessa “fuga” seja Luís Quinta...
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Li de um só jorro, já lá vão dois anos, o romance Ravel de Jean Echenoz. Nove breves capítulos escritos no osso – enfim, um requintado osso francês – com as viagens, as divagações interiores e a assunção de um destino solitário a flutuarem até ao limiar da tragédia (o final concorda em género e número, dir-se-á, com o Everyman de Roth). Interessante combinação do dado biográfico – de facto, o romance cobre os últimos dez anos da vida do autor de La Valse – com uma arquitectura simples que não deixa habilmente de ceder, aqui e ali, ao efabulátório. Se há livros ‘recentes’ que permanecem e que ainda hoje se ficcionalizam na minha memória, este é um deles. Como um eco que, de forma involuntária, continua a sinalizar o brilho da sua presença. É um au...
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Escreveu Montaigne nos seus fabulosos Ensaios: “Demócrito e Heráclito foram dois filósofos, dos quais o primeiro, por achar vã e ridícula a condição humana, não saía a público senão com um rosto que troçava e ria; Heráclito, tendo piedade e compaixão dessa mesma condição, trazia consigo um rosto permanentemente triste e os olhos carregados de lágrimas (…). Eu prefiro o primeiro humor, não porque seja mais agradável rir do que chorar, mas porque é mais desdenhoso e porque não condena mais do que o outro; parece-me que não podemos nunca ser demasiado desprezados segundo o nosso mérito”. A fonte deste excurso de Montaigne é a famosa Carta de Hipócrates a Damagetus, falsamente atribuída a Hipócrates, claro, e também chamada Carta do Pseudo-Hipócrates. Data da segunda...
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Pego no segundo número da revista Noonday publicado há meio século. Precisamente em 1959. A edição é de Cecil Hemley e Dwight W. Webb (N. Iorque). Não, não, caro leitor, desta vez não irei percorrer as páginas de uma revista como quem atira para a curvatura da esfera celeste uma súmula de versos, ilações, excertos, figuras e outros sopros mais ou menos entusiásticos. Não, nada disso. O que me fez parar neste volume da Noonday foi o início de um ensaio sobre Gide que, aliás, abre o corpo (já um tanto macerado) da publicação. O texto é assinado por Donald Windham e confesso que vale a pena citar (enfim, com inevitáveis cortes pelo meio) o que nele se diz e interroga. Garanto que se trata de um involuntário ponto de partida para um conto, ou para uma deriva ficcional que, no mínimo, seria de grande subtileza e suspense. Mas não levantemos demasiado a fasquia. Leiamos, pois, o texto. Vertê-lo em Português é já interpretá-lo, reinventá-lo, ou seja, por outras palavras: entrar numa das invis...
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Na brevíssima introdução ao seu Journal – edição de 1934 da Grasset – escreveu François Mauriac:“Não se deverá procurar neste título um jogo de palavras. De facto, trata-se de uma recolha de artigos; mas eu concebo o jornalismo como uma espécie de diário meio íntimo; – como uma transposição, para o uso do grande público, das emoções e dos pensamentos quotidianos suscitados em nós pela “actualidade”. Neste plano, uma doença ou até uma simples leitura têm quase tanto valor como uma revolução; é a sua incorporação na nossa vida interior que acaba por definir a importância dos acontecimentos”. Tão longe que estávamos ainda de uma concepção de espaço público mediatizado! Esta doce concepção de M...
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Há dias em que sou dominado por um secreto apelo pitagórico. Nessas alturas, percorro a escada em caracol do tempo para perceber o modo como as datas se tornam em personagens e não apenas em números, registos opacos ou sinais obscuros. E a verdade é que visitei, na passada semana, a revista EverGreen de 1959 e, há duas semanas, as páginas de Março de 1909 do Diário Íntimo de Manuel Laranjeira. No primeiro caso, há cinquenta anos certos, o experimentalismo optimista vigorava em pleno; no segundo caso, há precisamente um século, uma sombria disposição atravessava os relatos. Hoje, com a mesma sina de espeleólogo que procura traços raros mas concordantes, eis que a estante de livros me concedeu a graça do Diário de Julien Green. O ‘dia’ que passo a ler – o 15 de Março de 1939 – reflecte um ar bem mais espesso e grave do qu...
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Adoro folhear, perscrutar e deixar-me cair em tentação ao longo das estantes. Mas dando sempre ao gesto a liberdade de se perder entre livros, revistas, pó, gravuras sem reino e algum manuscrito perdido. Nada melhor do que a errância ou do que o encontro imprevisto no meio de uma multidão desarrumada de livros. No passado fim-de-semana foi assim que um dos exemplares da revista norte-americana Evergreen Review veio ter comigo. Era bem mais espessa do que as outras que a acompanhavam e, acaso dos acasos, este ‘Número 8/Volume 2’ – com uma vaca branca e uma lua amarela na capa – tinha sido editada, imagine-se, na Primavera de 1959. Um número especial, pois então, para celebrar o exacto meio século de distância face a nós. Face ao meu casual gesto. Face a este ‘Ponto de Mira’, o último do Inverno. Um facto destes não se perde. Nem surge, na curvatura do univers...
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Escreveu Unamuno sobre Manuel Laranjeira que é sobretudo no epistolário que se revela “toda a grandeza da sua alma, pois havia que ouvi-lo falar e nas cartas fala”. No entanto, quando este juízo foi enunciado, o diário de Laranjeira ainda não era conhecido. Apenas em 1935 é que Alberto de Serpa informou de viva voz Don Miguel da existência desses escritos. A sua publicação foi então considerada “importantíssima”, mas só em 1957 – catorze anos após a publicação das “Cartas” – é que viria a ser realizada. O curioso é que esta escrita verdadeiramente blogosférica, capaz de fundir o saber clássico com a voz corrente do dia-a-dia, foi fixada pelo seu autor há precisamente um século. Iniciou-se a 1 de Maio de 1908 e prolongou-se até 24 de Março de 1909 (tendo sido interrompida entre...
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Recentemente as edições Seuil deram a conhecer uma nova face de Barthes relacionada com o diário íntimo que escreveu após a morte da mãe, com quem viveu durante seis décadas. Os três Barthes que se conhecem (o ‘mitológico’, o estrutural e o semioclasta) excluem-se de certo modo, mas também se completam. Em todos eles existe um doce furor e um encantado prazer em atravessar o que parece óbvio, sem nunca o explicar completamente. Essa inclinação anatómica foi mais genuína e até inocente em Mythologies (1957), ordenada (ou previsível) na fase estrutural e quase mística (ou iluminada) no final. Mas a relação com as coisas e os seres analisados foi sempre vivida de um mesmo modo: com intimidade. Essa inteligência íntima é um dado que reaparece neste novo Barthes, enquanto ‘menino de sua mãe’. Seja c...
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Saiu em 2002 em Inglaterra, mas foi já em Janeiro deste ano que a tradução de Ana Maria Chaves foi publicada em Portugal (Asa). O livro é de David Lodge e tem como título A Consciência e o romance. Passei um fim-de-semana inteiro a namorar este livro, entre o temor do desperdício e o sol que finalmente havia dado à costa, após as prédicas de chuva e vento que têm feito a nossa vida dos últimos meses. Nem sempre sou grande adepto das ficções de Lodge. O romance biográfico de Autor, Autor, por exemplo, cansou-me por causa da aridez da linguagem e do tom pesaroso 'estilo Família Bellamy'. Mas este ensaio, apesar dos receios (as coisas da academia enfastiam-me cada vez mais…), acabou por consolar. E, de certo modo, vi partir para longe o anátema de interrupção de mais um (desejado) acto de amor. Curiosamente, A Consciência e o romance te...
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Conheci José Rentes de Carvalho durante os anos em que vivi na Holanda. Homem enérgico, dotado de humor cáustico e de uma parábola pouco redonda, fez da 'incorrecção' palavra corrente e obra-prima muito antes de a "correctness" se ter tornado – como hoje acontece – em tema de agenda. Fora e dentro da literatura. É por isso que o veneno agridoce da sua sátira embaraçava – e embaraça – profundamente, sobretudo numa sociedade como a holandesa que, ao mesmo tempo, se vê a si própria como devidamente arrumada, mas também como 'caso limite' de abertura crítica. Lembro-me das famosas entrevistas de Adriaan van Dis – escritor traduzido entre nós pela D. Quixote* – na VPRO (canal da televisão holandesa). Nos anos oitenta, as noites de domingo eram sagradas por causa dessas emissões e sobretudo devido às singulares entrevi...
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Há cerca de uma década, trabalhei com Jose Mohedano(Barcelona) e Teresa Garulo (Madrid) num projecto de tradução dos poetas Ibn Sâra de Santarém (m. 1123) e Ibn ´Abdún de Évora(1050-1135). O projecto acabou por não gerar uma publicação integral destas traduções entre nós. Aproveito o “Ponto de Mira” para divulgar agora algumas destas traduções.É particularmente interessante ler os poetas que habitaram o actual território português antes de Portugal existir, embora esta poesia seja retoricamente bastante codificada e não dê, nesse sentido, grande espaço à descrição local. O que pode ser uma virtude, já agora. Aqui vos deixo, para começar, um poema do escalabitano Ibn Sâra (m. 1123):Tarde no rio Contempla este local, onde estamos !O ar põe a nu a sua face serenaao cair da ta...
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Há dias peguei num gratuito parisiense (que parecia um suplemento enfatuado dos nossos semanários) e dei com uma citação perspicaz: "Uma lista é algo que me parece muito interessante, pois acaba sempre por ser incompleta e não suscita, por si mesma, nenhum tipo de razão". Esta frase de Charles Dantzig - que não apimentei em excesso na tradução - abre a sua 'Encyclopédie capricieuse du tout e du rien', saída a público, em França, há alguns dias, com a chancela da Grasset.Em mais de 800 páginas, Charles Dantzig dá arbitrariamente corpo a uma lista onde tudo parece caber. Desde os caminhos mais emblemáticos do planeta, aos "filhos infelizes", às "raparigas energéticas" e aos chamados "comportamentos cómicos". Tudo colocado ao mesmo nível e tudo de acordo com uma lei que vive bem mais do lazer ...
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No conceito deste nosso PNETliteratura, inserimos, desde o início, uma rubrica de mini-entrevista que se definia – e define – como um breve inquérito assente num guião muito estável. O modelo caracteriza-se por um conjunto de perguntas sucintas, claras e, portanto, adequadas à rede (são cinco, mais exactamente, variando entre a abordagem cirúrgica e a interpelação reflexiva). Muito curiosamente, ao consultar o Magazine Bertrand – de Novembro de 1933 –, dei com uma rubrica análoga, embora ainda mais económica do que a nossa. Bastava-lhe, à época, uma única e delongada pergunta ("Como e quando se sentiu escritor?"), mas, diga-se, de passagem, que o modo cultista e adjectivado das respostas não tem qualquer correspondência com os modos hoje praticados. Vale a pena seguir a finura barroca da escrita da altura e verificar como a "Lit...
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Ao cabo do primeiro quarto da longa viagem que é Montanha Mágica de Mann, mais concretamente na secção "Inquietação Nascente dos dos Avós e Do Passeio de Barca ao Crepúscolo", há um diálogo muito interessante entre o protagonista, Hans Castorp, e Lodovico Settembrini. Settembrini já vivia no sanatório Berghof quando Castorp aí deu entrada. Amante da iniciativa, da razão e da crença na espécie, o interlocutor de Hans Castorp explica, a certa altura, o significado que tem para ele a literatura. As suas palavras, condensadas e algo florais, condensam todo um programa. Começa por referir que nele se combinam as tendências dos seus ascendentes mais próximos – "a tendência combativa do cidadão, que fora seu avô, e a tendência humanística do pai, e que por este facto se tornara um literato, um escrito...
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O último romance de Roth coloca em cena, apesar dos múltiplos labirintos da história, o contraste entre a sequência urbana ininterrupta e a placidez campestre isolada do mundo (no caso, o ambiente rural dos Berkshires). De tal modo o contraste é traçado que o protagonista, reentrado na 'Grande Maçã' em 2004, após dez anos de ausência, fica suspenso de si ao ver que toda a gente anda na rua agarrada ao telemóvel, facto completamente novo na sua ponderação e observação do mundo. E a certa altura, Zuckerman chega mesmo a perguntar onde estaria esta necessidade que conduz ao uso compulsivo do telemóvel, quando o aparelho ainda não existia. Não há resposta, a não ser a da cada vez mais aparente separação entre a omniurbe global e a imaginação quase romântica dos bosques idílicos.Essa imaginação &eacut...
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Fez ontem, dia 4 de Janeiro, três anos que António Gancho morreu. Poeta muito pouco conhecido ou, pelo menos, bem menos conhecido do que Luís Pacheco que faz amanhã, dia 6 de Janeiro, precisamente um ano que também partiu. Interessantes necrologias do início de ano. Mas se Pacheco foi sempre parte da ementa para várias gerações (nem que fosse por via de um detalhe de sobremesa tão lascivo e selvagem quanto iluminado e parodicamente bracarense), já Gancho fez sobretudo do recolhimento e do silêncio atributos que fizeram dele uma espécie de Lonoff do último Roth (ou seja, de O Fantasma sai de cena). Um enigma puro. Um mapa de palavras por reinventar.António Gancho era um óptimo poeta. Vi-o por uma só vez no local onde morou durante quase trinta e nove anos: no Telhal. Nasceu em Évora, como José de Carvalho, Palolo, Bravo ou Lapa. Uma voz lenta, murmurante, ir...
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Fim de ano e nada de balanços. Nada melhor do que pensar um site de literatura em elementar media res. Como uma viagem que se iniciou e que continuará por muito e bom tempo. Um tempo que se deixa cativar pelo leme do instante e pelo prazer. Mas com um ritmo próprio. E com alguma disciplina. Não há céu azul que não ordene o fio do momento: uma ordem que não é dizível ou pronunciável, mas que tem um sabor, um ceptro e um reino. Por isso dita itinerários, guia caminhos e ultima desejos.O PNETliteratura iniciou a sua vida há pouco mais do um trimestre e tem apostado, com a dupla serenidade de Janus, nos observatórios (de poesia, romance e tradução) e nos inéditos literários. Sem esquecer aquilo que é predominante euforia nos outros mares da Terra: a feérica luta pela informação. Mas o nosso mar é mais calmo. Não tão e...
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Era uma casa em que os móveis estavam todos cobertos com panos brancos. Uma montanha de neve sob tectos recortados pela humidade e pela memória muito antiga dos passos ao longe (estrados que rangiam, degraus soltos, o soalho ao vento). Um torrão de açúcar a ocupar a respiração e o respigar com que o coração do menino se agitava. Até o relógio de parede (um papagaio de cobre em forma de tic-tac), a ventoinha presa ao tecto e o bengaleiro de marfim pareciam mumificados. A luz entrava pelo vão da janela por onde ia espreitando a brisa do fim da tarde. E não havia um único volume – sofá, cómoda ou piano – que não tivesse adormecido com alguma moleza sob a brancura dos lençóis. Há tantos anos. O tempo tinha cristalizado como salgema na gruta e apenas parecia dar de si quando a brisa empurrava, aqui e ali, as portadas pesadas das janelas. Um ...
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Em 2009, o romance Aparição de Vergílio Ferreira faz cinquenta anos de vida. Entre a imensa variedade de efemérides que o meio literário adora colher e recolher, esta será – ou poderá vir a ser – particularmente significativa. Os motivos são vários, mas existe um que destacaria nesta antecipação meio sibilina. É que, ao analisar-se a natureza do impacto que Aparição teve em 1959, seremos levados a constatar, de modo claro, como o nosso mundo mudou tão radicalmente em pouco tempo.Para me explicar, nada melhor do que dar a palavra ao autor. Mais concretamente, recorrendo-me ao pósfácio escrito em Outubro de 1967 para a quinta edição de Aparição que viria a sair a público há precisamente quatro décadas, aliás numa lindíssima edição da Editorial Inova ilustrada por Júlio Resende...
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Lido de uma ponta à outra numa única noite, pode dizer-se que se trata de um romance que respira fundo, que levanta voo e que promete estar, quase sempre, para além daquilo que o leitor consegue deter. O tema é fascinante: uma biografia de Almada Negreiros. Claro que o protagonista é profundamente reinventado, facto que conduz ao reverso do género, ou seja, ao campo das biografias inventadas. Coisa muita rara entre nós.Focalizado de modo intimista e um tanto asfixiado na primeira pessoa que se vai rescrevendo em várias frentes, o relato aborda quatro momentos nodais da vida de Almada. Em todos eles, a memória e a prospecção colidem e hão-de levar o leitor, de mão dada e de mansinho, à mais cáustica das surpresas.O primeiro desses quatro momentos remete para o último ano do século XIX (1900), quando o jovem Almada está ainda internado no colégio interno do...
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A primeira polémica deste século entre críticos literários teve lugar no Verão de 2002. Ablogosfera mal existia ainda, facto que hoje deverá ser relevado como importante para entender o que então se passou. De facto, foi nas páginas dos jornais que tudo acabou por revelar-se e eu creio mesmo que deve ter sido a última polémica que não se estendeu à caudalosa, múltipla e rica paisagem da rede. Regressemos à história dessa trica lusitana. O elemento central de discórdia foi a ideia de "empatia". Para uns, a empatia era apresentada como um modo de bloquear o pensamento. Para outros, a empatia era apresentada como uma espécie de mais-valia essencial para percorrer, descobrir e analisar um texto literário. De um lado, os que pressentiam uma cristalina distinção entre a figuração do sujeito, neste caso do sujeito crítico, e...
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Existe um interessante texto de Luc Sante, As Ruínas de Nova Iorque, que descreve uma erupção vulcânica em Upeer New York Bay nos finais do ano de 1985. O leitmotiv ficcional conduz o leitor a uma cena ao jeito do mito de Pompeia: todo o movimento é subitamente suspenso e imobilizado pelos efeitos da lava. A vida no tempo como que perece e a imaginaçao cristalizada, própria do momento congelado, acaba por tomar conta do próprio fio narrativo. Este impacto plástico não é insólito e, ao fim e ao cado, corresponde ao ‘lugar mais comum’ da oficina de qualquer escritor. Ou não é a literatura um corte na 'montagem' do real mais imediato, tendo em vista uma forma de reaparecimento noutra escala e noutro nível de questionamento?A cegueira metaforizada por Saramago, as travessias imaginadas por Malcolm...
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“Por mim, não conheço objecto mais lindo em toda a natureza, mais feiticeiro, mais capaz de arrebatar o espírito e inflamar o coração do que é uma jovem donzela quando a modéstia lhe faz subir o rubor às faces, e o pejo lhe carrega brandamente nas pálpebras... Pouco lume que tenha nos olhos, pouco regular que seja o semblante, menos airosa que seja a figura, parecer-vos-á nesse momento um anjo”. Lê-se esta prosa de Garrett – IV capítulo de Viagens na Minha Terra - e capitulamos. Ainda hoje. Existe uma doce ventania neste prazer da digressão, neste desejo de errar e preencher um espaço que parece sem fim. Nestas alturas, a escrita torna-se no bordado que viu as agulhas passarem pelas nuvens, sempre que o minúsculo ponto de renda era laçado. Esta vontade de nadar com cada um dos braços numa das margens do oceano é um desígnio romântic...
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Se fosse vivo, teria este ano feito sessenta anos. Talvez já tivesse acabado a biografia inventada que tantas vezes referiu, talvez tivesse acabado um livro sobre Portugal (que creio também andava a meio), talvez nos tivesse surpreendido com o mais inesperado dos abismos. Al berto confundia a escrita com a vida e era tão depurado na sua capacidade de tratar o fôlego poético ‘por tu’ que preferia, sinceramente, a construção à correcção permanente. Ao contrário de escritores que transformam a ‘correcção de provas’ numa barragem da própria vida onde tudo se suspende, Al berto escrevia na tona da água e tinha pelo ‘aberto’ em que se revia uma paixão que não parecia caber no corpo. Além disso – e sem querer agora aqui repor a turbulenta cronologia da sua obra –, houve na escrita de Al berto alguma senha p...
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A literatura, tal como a entendemos ainda hoje, é algo recente. Tal como toda a arte, a literatura surgiu, desde finais do século XVIII, como uma espécie de nova divindade à procura da sua, também, nova galáxia.Para Shelley, o poeta participava “do eterno, do infinito e do uno”; não se poderia, pois, pressupor “tempo, lugar e número” que determinassem “as suas concepções”[1].Kerckhove chegou a dizer que “os gregos inventaram o teatro para recuperar a identidade que tinha sido estilhaçada pelo alfabeto”[2]. E, a partir do mais inocente dos Romantismos, poderia, nesta mesma linha de ideias, afirmar-se que os modernos inventaram a arte e a literatura – para além da história e de outras ficções – com o intuito de recuperar a identidade que estava (bruscamente) a ser estilhaçada por causa da morte de um Deus mais an...
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Há cerca de dois anos, escrevi um texto sobre os dez livros que não me teriam “mudado a vida”. Um desafio complicado, já se vê. Comecei por referir que “às vezes, há livros maus que podem mudar a vida. O que nem sempre acontece com um livro (literariamente) bom”. Seguiu-se, depois, o breve inventário baseado na memória de leituras marcantes, sobretudo ao nível da contingência e do momento, mas que acabaram por não afectar o curso posterior das minhas decisões e iniciativas. Por outras palavras: a lista incorporou obras que me prenderam enquanto as li, mas que depois se esfumaram ou diluíram nos enigmas do alheamento e do esquecimento. O que significa que acabaram por não entrar na cristaleira dos cânones individuais (nessa categoria cabem todos os livros que, para o bem ou para o mal, ainda hoje me continuam a bater à porta mundana do ser e do fazer).Nos ...
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A memória é um tema fundamental do princípio da modernidade. Entenda-se: a memória como objecto de domesticação. Urgia então domar o passado através das novas ciências (que colocaram o homem no centro de todas as coisas – história, antropologia, etnografia, sociologia, etc.), através da invenção dos museus e através dessa imensa aventura de ‘reconstituição’ – sobretudo da Idade Média - que foi o Romantismo. A própria ideia de fotografia, enquanto perpetuação do já ido, se insere nesta domesticação do passado. Os géneros literários trabalharam a memória de modos diferenciados. Ora cingindo-a ao laboratório do código – o que aconteceu em todos os realismos –, ora deixando-a diluir-se na teia do discurso como um fio-de-prumo sem fim – o que passou a a...
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Faz parte do homem desdobrar-se em imagens. Desde a Pré-história que assim é. A literatura sempre fez eco de imagens como “Deus”, o “paraíso”, a “salvação” ou os “monstros” que teriam habitado os antípodas distantes do planeta. Estas imagens ficcionalizaram um universo distante do vivido. A distância entre realidade e ficção só se estreitou na modernidade industrial. Nessa época, o homem passou a projectar-se na novíssima mecânica criada e começou a delinear pistas imaginárias que o conduziriam à chamada “ficção científica” (o fabuloso “Metropolis” de Lang ou as interessantes viagens ao centro da terra de Verne integraram essa ficcionalidade ainda projectiva). O que se alterou nas últimas décadas foi o facto de esta fractura entre ficção e real se ter ...
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A apoteose do nosso tempo tem um nome próprio: a imagem. Mas a imagem pela imagem: excesso de terminais e omnipresença generalizada de pixels. A contemporaneidade já quase não permite a verosimilhança tradicional e analógica da imagem. Hoje em dia, fotografar é quase só já suspender o fluxo ininterrupto de imagens que atravessa a globalizada rede das redes. Como se travássemos um rio inteiro com a palma da mão. Milagre digital, afinal. É a partir deste novo universo, desta força motriz pós-eléctrica, desta singularíssima matéria-prima (de teor aparentemente imaterial) que muitos autores da expressão plástica contemporânea trabalham. E fazem-no exorbitando e mimetizando o excesso que nos rodeia, tal como Schlegel, no seu tempo, poetava a partir do excesso da sua matéria-prima preferida – a natureza: “Estamos contentes e gratos...
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A Escritura e a escrita – duas palavras aparentemente vizinhas – sempre viveram em mundos inteiramente diferentes. A primeira herda o sabor de uma fonte espiritual, visionária, quase profética. A segunda herda o sabor de um fontanário mais plebeu, mas que muitas vezes deu a beber água de superior qualidade. Até nos aproximarmos dos nossos dias – convém sintetizar o peso da “História” –, não deixa de ser verdade que houve muitas escritas que se impuseram como se fossem Escrituras e que houve verdadeiras Escrituras que se foram reduzindo a simples escritas. Contudo, independentemente das turbulências das épocas e do afinco das revoluções, é um facto que a separação sempre se soube manter. A própria ideia de “escritor” – a deambular como um génio nas praças e botequins de oitocentos e novecentos – não deixou de herdar o peso destas nascentes mitológicos que surgiam como referências para todo o tipo de urbanização mental e ideológica, tal como nos idos de setenta se dizia. Durante o sécul...
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A Interact - Revista Online de Arte, Cultura e Tecnologia (Interact) não é uma revista de literatura. Trata-se, sim, de uma publicação – apoiada pela FCT – que se situa na transversabilidade da rede: entre disciplinas e disputando os fascinantes limbos do nosso tempo. A literatura ‘terá que se habituar’ às sadias correntes de ar que nos envolvem e, talvez seja por isso mesmo, a nova edição da Interact a aborde de um modo singular. Com efeito, ao lado de textos particularmente estimulantes de Jacinto Godinho (Second Life: mestre de marionetas), Jorge Leandro Rosa (A questão do traço), Bruno Baldaia (Memória, comprometimento, desejo), José Bártolo (Cultura das Redes e Experiência Artística), Rodrigo Silva (O pensamento da deslocalização), Miguel von Haffe Perez (Aqui e Agora), Ivan Franco/ Kathy Hinde (Piano Migration) e Miguel Leal...
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Paul Auster sempre explorou com mestria as semelhanças entre os acontecimentos mais diversos e mais diferenciados entre si. Este ponto de partida, baseado na equivalência do improvável, parece às vezes sobrepor-se a tudo. Veja-se, no romance Música do Acaso, os paralelismos entre as infâncias de Pozzi e de Nashe e entre os destinos de Flower e Willie.Veja-se o paralelismo formal que se desenha entre os desaparecimentos de Sachs e de Dimaggio, em Leviathan, e, por outro lado, o tipo de simulação praticado por Quinn/Auster na Trilogia de Nova Iorque e por Maria/Lilian em Leviathan. Vejam-se ainda as semelhanças que são propostas entre o ponto de partida da própria vida de Nashe (em Música do Acaso) e o que acontece na vida de Walter, no final da segunda parte de Mr Vertigo. Vale a pena seguir as pistas. E pensar.As sucessivas e delirantes similitudes (que atravessam a superfície lisa ou enrugada dos acontecimentos) narradas por Paul Auster não andam muito longe da interpretação que os me...
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Mais do que representar acontecimentos de modo linear, a literatura constitui um canal ideal para os reinventar, metaforizar e sobretudo para os reconduzir ao nível da pulsação da intimidade. A propósito da recente evocação do 11 de Setembro, lembrei-me do romance de José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão, no fundo um esteio dir-se-ia quase único entre nós desse trabalho de incorporação íntima do que se pode designar como facto trágico global. O romance foi escrito depois da saída a público de Nenhum Olhar (2000) e viria a ser publicado treze meses após o 11 de Setembro de 2001. A figurada cirurgia ao quotidiano, levada a cabo em Uma Casa na Escuridão, acaba por resultar numa expiação espantosa e brutal que envolve personagens fantasmagóricas (que se amputam e que se amam), guerras violentíssimas (por exemplo no capítulo “Invasões”), a proliferação de doenças sem cura (a “peste”) e um determinismo sem retaguarda. Terribilis est locus iste! [1] – é o que se poderia dizer deste lo...
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A literatura não era propriamente uma ‘questão’ para o homem da Idade Média. Bastava-lhe a “Escritura”, isto é, o verbo que o aproximava da salvação. É o homem moderno, depois do fim do século XVIII, que colocou, entre muitas outras, a ‘questão’ da literatura. Por vezes, uma nova religião investida num altar social e estético. Pode dizer-se que o mundo moderno e ocidental foi atravessado por três grandes vagas de escrita literária: a romântica (uma interrogação livre, generalizada e por vezes mística sobre o homem), a realista (uma focagem da vida protagonizada pelo homem à luz das suas novas codificações com destaque para a, às vezes ilusória, noção do "progresso") e a monumental (a reacção em cascata à própria linearidade do...
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Não é apenas a tradução de um poema; é ser tocado por um texto, partir à sua descoberta, à forma como foi construído, inspirado... pintado. É uma simbiose perfeita não só entre um original e a sua tradução mas, mais fundo ainda, entre o tradutor e a alma do poeta, cujo poema é já em si a “tradução” ...
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Partindo do quadro de Chirico com o mesmo título, depois da denúncia do papel da mulher-esposa, Sylvia Plath sufoca-nos com o seu retrato da mulher-filha, sobre a qual recai o peso insuportável de tudo o que a mãe (e a sociedade) dela espera e a que jamais ela poder&aacut...
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O autor andarilho publicou em Junho passado sonhos em forma de caminhos percorridos. As rotas escolhidas trilham a continuidade do universo deste autor: exotismo, luxo, hedonismo. A cada vez que fecho o livro para o admirar - a sua capa é uma absoluta marca de bom gosto - esta escrita d...
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No verão quem não deseja viajar? E se essa sensação de liberdade e de encontro com o novo nunca desaparecesse? É disso que trata este livrinho pequenino em que o conceito de férias se vê imortalizado para sempre em forma de aventura a dois - dois bons amigos que viajam pelo mundo. Um mundo escolhido...
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Um arlequim passa de bar em bar recitando poemas de memória e pondo-se à prova ao oferecer declamar versos de poetas escolhidos pela sua plateia. Entremeia a poesia de observações quase políticas sobre a situação dos artistas de rua no Brasil. Na primeira edição da Flip a homenagear um escritor de n...
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Com pouco mais de uma dúzia de ruas, seis ao longo da ponta que dá para o oceano e outras tantas cruzando as primeiras, o centro histórico de Paraty é uma pequena Manhattan, que no início de uma visita independente da duração parece tão control...
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Nesta minha terceira Flip, encontro um evento muito mais institucionalizado do que a versão de 2006, quando ainda era fácil conseguir ingressos para as tendas dos autores durante a própria festa, e comer em restaurantes como o Banana da Terra sem ter que fazer a reserva "de São Paulo". Des...
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Esta é a oitava edição da festa que virou a principal atração turística de Paraty, e muita coisa mudou nesses anos. Neste encontro em que o principal homenageado é um dos autores considerados entre os maiores intérpretes do Brasil (formando jun...
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Foi em cafés e restaurantes e encontros com portugueses de vária espécie que o livro se viu nascer. Um livro escrito para agradar às massas, à hipérbole de turistas alemães que desertam o país ao longo do ano inteiro – e não s&oacu...
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Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado &ndash...
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Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square. Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma se...
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A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado. Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por nat...
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Entre Osnabrűck e Porto, que paralelo biográfico melhor para se ler Ilse Losa na direcção contrária àquela que ela geograficamente deu à sua vida. Uma vida que na tragédia da História da Alemanha encontrou porto de abrigo no Porto de onde eu provenho e que nessas trocas interculturais perdeu ou...
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Artistas plásticos, músicos, poetas e escritores encontram no Brooklyn refúgio e cenário e dali partem para expedições ultramarinas na Califórnia, na Índia, na França, na América Latina, na África, a book tour perhaps. Discussões literárias, conversas boêmias, propostas, idéias para livros em ebuli...
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Continuação do Circo da i margin’ar-te por Maria LavaA Escrita de Viagem (ou os Vigieiros do Corpo) insere-se no já enunciado e anunciado Projecto do Circo da i margin... Ler Tudo >>
Quando, no falar comum e quotidiano, nos referimos a “literatura de cordel”, usamos a expressão num sentido depreciativo, desvalorizando uma determinada obra como sendo de inferior ... Ler Tudo >>
um Projecto do Circo da i margin’ar-te, uma (des)pretensão de trimaginar a arte; do deslado marginal d’ella.I ida prima estaçãoII ida decoração da primaIII ida prima estaçãoIV ida frolV idos fr... Ler Tudo >>
Um Dia Na Praia, de Bernardo Carvalho, Planeta Tangerina. Obrigada à equipa do Planeta por ter disponibilizado as imagens e por ter escolhido a banda sonora. Pensando bem, Letra pequena não fez quase... Ler Tudo >>
Estreia do premiado autor, Francisco José Viegas, no género infantil. Se Eu Fosse... Nacionalidades faz-nos descobrir a vida que o Lio teria se fosse japonês, brasileiro, norueguês ou italiano.
Ilustrado a quatro cores, oferece às crianças, a partir dos 5 anos, a oportunidade de conhecer a realidade gastronómica, linguística e patrimonial de diferentes países.
Humorada, lúdica e didáctica, é uma obra para ser lida com os pais e descobrir, em cada país, aquele pormenor, contribuindo para a construção da memória referencial das crianças relativamente às diferentes nacionalidades do mundo