A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNETliteratura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa. Luís Carmelo, Coordenador
À CatarinaO rio existe e talvez por isso a cidade tenha sido sempre tão doce. Não como riso contínuo ou braço rompendo terra, mas ventre de água espalhando-se em forma de mulher. Dizem que do fundo do rio vem uma gargalhada e quem de noite percorrer as suas margens poderá escutarUma história. Vou contar uma história dentro de mim para que ninguém me escute. O rio nem sempre existiu:Duas raparigas a conversarem com os pés dentro de água, mas não são irmãs. Não muito longe, um carro estacionado. Um homem dentro mergulha a cabeça sobre os braços. Tem as mãos sobre a cabeça, mas não chora. As duas raparigas riem alto como árvores, buscando lugares sem tempo. Rir é breve lugar sem tempo. O homem escuta inerte o riso que o rasga continuamente como ferida. Sente-se como se ele próprio chovesse dentro de uma caixa parada. Era uma vez uma mulher que vivia em cima de uma televisão. Era preciso regá-la todos os dias. Uma sereia seria porque tinha cauda em lugar de pernas, ou talvez saia verde, ci...
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Esta cidade de beleza maravilhosa se encolhe com a chuva, as pessoas penduram-se nos armários e apenas as que possuem um verdadeiro capote trench inglês se permitem atravessar a porta de casa e pisar com galochas de cano altíssimo nas poças alastradas sobre o pavimento. Os algozes também fazem encolher a cidade e as pessoas se ajeitam nos armários embora nem lá encontrem-se em segurança porque os mísseis anti-aéreos de curta distância irrompem parede. Os malandros de rua não gostam de calçadas molhadas porque temem escorregar e nos dias tão chuvosos, estiram-se sobre as camas colchão e estrado de madeira, depositam as sandálias de borracha logo abaixo, sobre o piso de cimento batido, atirado à colheradas. Os baldes cuidam de cuidar das goteiras, gota, gota, gota e o malandro dorme com taquicardia, é tudo no sobressalto. Todas as lajes têm goteira, ninguém repara.Esta chuva cinza cinzenta acinzentada nasce bem no desencanto porque o sol, apenas o sol, doura a pele dos passantes e f...
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Vergílio FerreiraO conto PUREZA, do escritor português Vergílio Ferreira, publicado no jornal “Tentativa” em dezembro de 1950, na cidade de Atibaia, SP, Brasil, não constava de seu espólio. Há lá um agradecimento pelo envio do conto por este colunista. É conto que merece ser lido. PUREZA A porta da prisão rangeu. Os dedos trêmulos da luz tatearam o chão esponjoso, o visco negro das paredes e do teto. Um homem fardado entrou, cerrou a porta nas costas. — É a hora, amigo? — perguntaram do escuro. — É a hora. — responderam para o escuro. O homem fardado bateu os bolsos, raspou um fósforo na escuridão compacta. — Trouxe uma vela, — disse. Gostei de te ver. E acendeu um toco de estearina que destacou do negrume igual uma face larga e pálida, uns olhos calmos, cansados de amar e de odiar. Os dois homens fitaram-se até se não estranharem. Gotas de água caíam, solitárias, do alto do teto, empoçando na lama do chão. — Não vais demorar-te? — perguntou o preso. — Posso demorar-me um pouco. Até nu...
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Aceita o convite. Há muito que se esqueceu de que fala noutra língua, mas reconhece o seu lugar e senta-se à mesa connosco. Sou quatro ou cinco dele, talvez. Dissolvida na espera, por vezes, como nos sonhos, acontece uma de mim derreter e colar-se-me ao sapato de outra. (O sapato é vermelho e o pé, espécie de lua que me obriga a flutuar e a ser sempre mais em nós suspensa.) Ele senta-se à minha frente e ainda antes de pedir, acrescenta-me na frase: I want to sleep in your life. Outras palavras vão surgindo.Como o não compreendo, imagino que me pergunte pelo futuro dos meus sonhos, os sonhos que me perseguem na realidade, coisas assim, imensamente assustadoras e divinas como a estrada e o tempo. Subitamente, um gracioso suspeitar de que sonhos são palavras (“recordações futuras”, “saudade” ou “fome de destino”) leva-me a chávena à boca, assim. Enquanto fala, sigo os seus movimentos como se contemplasse um aquário. Talvez o faça por imitação. Deveria então dizer: eu nasci para imitar os ...
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“Quando tomava banho numa praia ocorreu à Sr.ª Isotta Barbarino um desagradável contratempo. Nadava ela ao largo, quando, parecendo-lhe altura de regressar, e já se dirigia para a margem, se apercebeu de que um facto irremediável acontecera. Perdera o fato de banho.” Olhou em redor para ver se o vislumbrava mas não conseguiu ver nada que se lhe parecesse. Nadou de um lado para outro até a pele ficar tão encarquilhada, que mais parecia uma galinha de molho, do que uma respeitável senhora. Que fazer? A praia ainda estava cheia de frequentadores e era óbvio que não podia sair dali como Deus a tinha posto no mundo, mas não podia ficar mais tempo ali na molheira. Tentou erguer os braços para chamar a atenção do marido, mas quase se afogou. Mais uma vez olhou em redor, desesperada e viu aproximar-se de si um objecto deveras estranho. Quase parecia flutuar. Olhando-o de mais perto, apercebeu-se que era uma miudinha com braçadeiras e uma bóia em redor da cintura.Não pensou em mais nada. Arranc...
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Seja na mão de um realismo esbanjador à Mel Gibson (ouso imaginar), seja através da beleza harmoniosa dos clássicos, a imagem de São Sebastião/Oxossi continua a se reproduzir pródiga em resistência e em serenidade diante da provação: tudo parece desdenhar os limites da suportabilidade (do humano?), nada capaz de conter a pulsão hemofílica do santo, levemente escorado numa árvore, à espera de uma leitura, de uma devoção.Os canteiros religiosos estão prenhes dessa didática martiriológica, em que um signo ou um artefato, convocado para uma tarefa de perene convencimento, extrapola, exangue, os limites da realidade con/figurada. Resultado: a eficácia moral da imagem-ícone parece frustrada por seu próprio esforço extravagante de fidelidade: ambigüidade da morte mais imitada que vivida.Como no prodígio de lanças atravessando um paisano no filme “La Notte di San Lorenzo”(Itália, 1982), os traços da realidade e da convenção são mutuamente dissolvidos: aqui, na estampa sacra, o desperdício da a...
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conto I (coma profundo): o renascer da escritura – abril/06, coisa nenhuma cinza denso cansaço infinito sísmico estreiteza tamanha! agonia aniquilamento luto nenhum vazio vazio vazio vazio... só!? , sóis sobrenadantes de que fluxos? esse sem mim a tocar palavras ideias que dizem por mim vaporosos sujeitos territórios adiante cartografias inexploradas mônadas seguir de onde ? pensamento pra onde ? pergunta deliberação sentença? pulsante ir vir talvez ilusão de ir e vir repetição talvez vir ir pulsante talvez aflições moventes talvez ausências talvez impulsionem ilusão vacante em vácuo temperado vento rastros vestígios sinais sopro ilusão rouba invisível talvez repetições... marca nenhuma cinza ao redor da coisa nenhuma marca pisada a resgatar conceber impossível não há coisa vestígio rumo rota destino ma...
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Algo de importância a preocupava. A cabecinha rodopiava ao arear as panelas e guardá-las nos armários ao alto. Esforçava-se para alcançar. Separava os talheres na bandeija de plástico recém comprada naquelas lojas Tudo Por Um Real. Tudo Por Um Real! Parecia até nome de reality show. O avental de plástico também recém adquirido a alegrava com as margaridas brancas e amarelas, o laço amarelo nas costas irritava-a porque se desfazia com facilidade. Por sobre a cidade escorria um leite aguado, minguante. Chovia de leve. Qualquer vento fino que ousasse atravessar a orla seria abafado pela respiração das pessoas, dos blocos de foliões escorregando no asfalto gasto. Do outro lado dos túneis, na baixada, Dona Edineuza não reparava no tempo abstrato, e o tempo tão difuso a ignorava de propósito porque ambos não tinham tempo para estas coisas. Ela se guiava pelo relógio de pulso que a prendia às horas, aos minutos, aos segundos, cada número correspondendo a uma etapa da rotina domésti...
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Até que enfim consigo te escrever, meu amigo. Demorou porque optei pelo recurso da tradicional e antiqüíssima carta. Não estava disposto a enfrentar a censura dos corretores ortográficos dos e-mails. Queria sentir mais uma vez o gostinho de me expressar em bom português. Pois aqui estou. E creio que o primeiro a ser dito, daqui da Alemanha, é sobre a vergonha que sinto quando penso no passado. Calma, amigo U. Passado recente. Não os mais de cinqüenta anos vividos no Brasil. Não seria inconseqüente assim. Refiro-me ao tanto que tremia ao pensar no meu futuro pós-ditadutra. Lembras de como eu mirava com obliqüidade para o amanhã? Lembras, eu dizia que, depois da ditadura ortográfica, só me restaria me associar ao Ponto-final e tentar vaga de reticência. Cogitei também me virar, tentar ser dois-pontos ou até, no auge da intranqüilidade, emoticon! Vergonhoso...
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“Sentava-se, inteiro, dentro do macio rumor do avião: o bom brinquedo trabalhoso.” (Guimarães Rosa) As estrelas embaçadas pelo pano de luzes e faróis atirado ao alto da cidade, os galos emudecidos, ele andante sobre os velhos ossos a catar frascos de poliuretano, sobre uma vida mais, ou menos, indolente, tão boa quanto nem tanto. Não adiantava ludibriar-se: os momentos agora eram curtos tais as batidas do coração vindo das minas e parado sobre cada esquina do bairro do Queens, sobre o lixo salubre amontoado, lixo que os porcos selvagens do seu sertão enxotariam com o focinho enlameado nos campos que o criaram, que o rejeitaram e que o arrancaram d’alma até o corpo para o cimento escorregadio, gelo negro.O gelo negro o aterroriza. Num instante de atenção escapulida, fez com que tombasse e a humilhação da queda em país tão estrangeiro onde a gargant...
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Já tinha a lua baixado do seu lugar pensativo quando deitou o corpo na terra. Chovia seco contra a poeira e o corpo lamacento. Acreditava que era seguro plantar beijos no chão e ver nascer segredos.Abriu a boca sequiosa aguardando aquilo acontecer. Imagens. Esperava que caíssem, que movimentassem o olfacto, o paladar, e as pudesse devorar devagar.«Jardim.»Pediu.Passado um bocado suplicou:«Algodão...mais...mais algodão.»Cerrou os lábios, a boca inundada de água sabia a chuva, chuva de tempestade que fazia as cabras berrarem, os porcos saltarem as pocilgas sem abrigo. Ouvia as galinhas cacarejarem aflitivas atrás dos pintos. Lá de cima do pardieiro a avó desafiava a trovoada com o seu nome.«Aleiiiidaaa!...Aleiiidaaa!...»As portas batendo, o céu voluptuoso caindo, a chama da lamparina ao longe tremendo contra a escuridão de prata. Todo o mundo a fugir da claridade do c&e...
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Vontade tenho de fazer uma afirmação geral, categórica: o nome da gente é destino. Mas quando reflito sobre isso, descubro que apenas cometi o título de um tango. Ou uma imensa bobagem. Por isso digo agora, mais restrito e conformado: o nome de algumas pessoas é destino. Como este meu, Urariano. Mais de uma vez, em mais de uma oportunidade, esse meu nome exige ser repetido a quem o escuta pela primeira vez, e ainda assim, mais de uma vez, sofre equívocos. Para ser matemático, direi que a cada dez vezes que me apresento, recebo de volta nove traduções. No mínimo. - Urano? Uriano? Uraniano? Ulariano?... Algumas traduções não lembro, porque a memória, sábia, prefere não guardar. E não exagero. Se alguém põe dúvida, consulte o Google. Ali verá Urariano Mota, Uraniano Mota, Uriano Mota, todas versões, por incrí...
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Eu sei que havia um bote no mar, o mar cheio de água, a água cheia de sal, eu sei, vi a perna baloiçar por sobre a transparência veloz do bote-barco, um semi-rígido com muitos cavalos, era a perna e o colete, era o riso esvoaçando nas alturas impróprias da hora em que os peixes almoçavam e queriam sossego, era isso e mais o limo no fundo do lago, o lago de mar aberto, saindo pela fissura de um canal de areias serenas. Havia o homem inteiro e azul e a mulher semi menina dois quatros de velha e meia pessoa era um ser periliquitante, parecia uma folha, saída de uma primavera. Mas espera, não era bem assim, era um tipo e uma miúda, calhou definirem a mesma ilha para se encontrarem, calhou dessa maneira pela razão coincidente de amarem com o mesmo ouvido, a força das ondas batendo no seu coração. Quase assim, estavam mais por ali sentados, cada um na sua ponta de areia, um com ...
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Isto se deu em uma farmácia em Olinda, no começo do crepúsculo de uma sexta-feira. A farmácia possui três largas divisões, sem paredes. Na entrada ficam os caixas, um vigilante armado e um terminal de auto-atendimento, para saques e depósitos bancários. Depois, vêm remédios, alimentos em potes e outras bugigangas, para o bebê, para a gestante, para os adultos maduros e mais longevos. São mercadorias – as bugigangas – dispostas em sucessivas armadilhas, como em todo e qualquer supermercado. Se a mercadoria na outra ponta – os pacientes – está velha e doente, saúde para os bem-aventurados: aqui têm joelheiras, meias contra varizes, bolsas térmicas, medidores de pressão e doces finos que, bem temperados, despertam e aguçam o gosto antigo. Chocolates vários, misturados a mel com babosa e mel com própolis. Mix de a...
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Jogo das DamasHá livros não escritos. Jarras não. Partidas.Folhas esguias. Sós mas soltas.Oriente por desorientar.Arrumação por desarrumar.Rima por soltar e versos por acertar.Há uma folha quase gémeadividida ao meio dentro de nósunida por uma linha apenas:o fio do encantamento se no ocaso o encontrarmos.Há um cantinho musical à espera de uma outra leitura. Poemas que o não são.Leitoras que o vão ser. … nasce a vontade de alongar o rosto e as máscaras, e distende-se o canto. Pré-revelação: das duas, uma. Entreolham-se as duas. Damas. Damíssima. Meneiam-se. Meras actrizes. Meretrizes. De um lado, uma dama inclina o olhar para a esquerda; do outro, a mesma dama mergulha o olhar para a direita. Duplos olhares. A jarra, serena, é sempre a mesma. O mesmo arabesco azul-marinho. A mesma porcelana. Ambas enroladas em felinos, escondidas por eles e escondidas neles, numa música...
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PLURESIAAgora disponível em pdf para ser impresso. É resultado da oficina de grafite + poesia visual (Grafitemas) realizada na biblioteca Alceu Amoroso Lima, por Lúcia Rosa e Lívia Lima. Vale a pena viajar através das imagens produzidas durante o trabalho.mais grafitemas:Notícias Dulcinéia CatadoraSite Dulcinéia CatadoraMeiotom...
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Março/ 2008Uma passagem buscadareviravolta a paisagem onde o homem se confundecom a paisagem fugidia beiras, olhos à frentepassagens, pequenas mortes e a transparência inexistena insubmissão ao realPutas tristes, Musas velhasA um canto três velhas mascando cegasuma goma que escorre devagar(a goma inexistia ao catadortambém ele cediço de vitrines– forma sem conformar inexistênciainexistência sem fugir à forma)Olhos cavados a fundo penumbramlições de um texto à margem que os escondeSua presença incabível à visãoSuas mutações a céu e chão incertoSua imagem se arremessa contra o tráfegoante meus olhos áridos de asfaltoA baba que mastigo despedaça-meo riso e a claridade mais profundaJunto a mim três velhas mascando cegasA baba que esqueci de deitar fora Paisagem pelo Fernão DiasO asfalto se...
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Eu lembro-me de coisas...Querem ver?Esta manhã dispunha-me a escrever,Ou melhor, tentava escrevinharAlguma coisa que se lesse,Quando minha mulher me traz um papo-seco,Com não sei quê lá dentro,Pedindo que o comesse;Ao pôr-lhe o dente,Sentindo-o fofo e ainda quente,Lembrei-me do Raul,O Raul da ti'Jstina,Que se casou com a FinaE só por isso teve padaria,Se fez padeiro sem vocaçãoE para os outros amassou pãoPara ganhar aquele que comia.Era um artista o Raul!Um dia, lembro-me bem.Talvez ninguém reparasse,Mas eu vi,Eu sentiO seu temperamentoSensível e delicado,Na tristeza dum momentoQue vivemos lado a lado.A música...A nossa banda estava em crise.Não sei porquê. Teve tantas!...Mas, nessa ocasiãoFoi muito grave a procela.Ficou sem mestre, desfez-se a direcçãoE ninguém queria mais saber dela.Por Minde inteiro correu a novaQue dava a banda por acabada.De facto assim ficara...
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Há cinco anos que eu fujo, literalmente, de muvuca, zoeira, badalação e festa do carnaval de Salvador. Desta vez eu fui para o litoral do Rio de Janeiro, curtir a paz e o sossego da Praia do Machado, em Angra dos Reis.Saí de Salvador às pressas. Trabalhei a manhã inteira e saí do trabalho às 2 horas da tarde. Do trampo para casa eu gasto cinco minutos caminhando. Moleza. As sacolas já estavam arrumadas há uma semana. Faltava colocar um par de sapatos, um par de meia, fechar tudo e correr para o aeroporto, distante de minha casa cerca de 40 quilômetros. Um amigo me acompanhou na viagem, Léo Dragone, poeta e romancista.De casa para o aeroporto gastei quase todo o tempo disponível. O voo sairia às 15:40h e eu cheguei ao balcão de check-in às 15:20hs. Ufa, por pouco meus planos de paz e descanso iriam por água abaixo. Impressas as passagens, embarquei as bagagens: dua...
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Convém ter um cuidado particular ao querer que a poesia relate a realidade ou se refira ao mundo de forma relevante. Tomo como referência um artigo de Luis Dolhnikoff, publicado em 2003 na revista Babel no 6, cujos contornos são acentuados num texto e numa entrevista posteriores ( e ). O artigo foi impropriamente intitulado "Da irrelevante exuberância da poesia brasileira contemporânea" (digo impropriamente porque o autor, sob o pretexto de abordar a poesia brasileira contemporânea, a rigor não fala nada sobre o assunto, a não ser no enfático intróito: "o problema central da poesia brasileira contemporânea pois há um problema central na poesia brasileira contemporânea é a falta de realismo"). Confesso que esperava que o autor destacasse essa exuberância ou criticasse, por exemplo, os exageros da auto-referência, os inflados torneios metalingüísticos ...
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Comece a espalhar a notícia, estou partindo hoje, / Eu quero ser parte dela / Nova Iorque, Nova Iorque”. O novo romance de Denny Yang evoca a canção de Sinatra: impossível não sê-lo. Basta pousar os olhos no título e a melodia flui à mente do leitor. New York, New York (Ed. Multifoco, 2008) é paradoxal com relação a um ponto em específico, o de vista: desenvolve-se no 11 de Setembro, período em que a mídia centrou toda a sua cobertura nos atentados terroristas em território estadunidense, mas mostra a quem lê que, muitas vezes, a verdadeira guerra trava-se em nosso cotidiano, não importando a quantas anda o mundo-cão exterior. Se o episódio nos EUA já era confuso por si só, imagine como seria se você ficasse longe de tudo por dois anos, em meio às montanhas. É exatamente o que se passa com o narrador da trama, e &ndas...
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- A senhora voltou, disse.Voltei para curar feridas antigas e levar outras.Voltei para vos ver e convosco ajudar o meu estar …" (p.9) Se nos últimos anos se tem assistido em Moçambique a um surto memorialista (particularmente desde o livro de Helder Martins) muito ligado à narrativa da "contrução da nação", torna-se ainda mais interessante esta raridade. Um pequeno livro, reportagem dos sentimentos de um breve Natal em Pemba, um regresso algumas décadas decorridas - a autora pertence a conhecida família local. A casa velha que revisita, antigos amigos e seus andares de hoje. Mas o que por ali sente mais importante: o som da língua que lhe falta desde então, o arrastado tempo do areal. E, ainda mais, aquele mar, o Índico do Cabo Delgado. Enquanto isso ainda há a abertura, talvez fruto da ausência, partilhando-se com as pessoas, ouvindo alguns sonhos avulsos - que ...
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"Travessias singulares – Pais e Filhos" é um livro sobre o qual os grandes jornais ainda não falaram. Mais um livro no silêncio, para todas as redações, poderia ser dito. É para romper essa paz dos cemitérios que alinhavo aqui algumas linhas. "Travessias Singulares – Pais e Filhos" é uma antologia que reúne escritores grandes, magníficos, e, dói-me dizê-lo, pequenos. De Machado de Assis a J. J. Veiga, passando por Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony, Antonio Torres, Wander Piroli, Silviano Santiago, Raimundo Carrero. Todos unidos pelo tema da relação entre pai e filho, de norte a sul do Brasil, do século XIX ao XXI. Essa é uma relação que interessa a todos os brasileiros, de pais que faltamos a um companheirismo, até os filhos que não guardam com os seus algum amor. Um terreno de conflito, mágoa...
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Ainda as Correntes, como entes queridos a delirem-se devagar no ferro dos dias, na estranheza da ausência. Eis o belo texto aí lido pelo escritor uruguaio Milton Fornaro.CADA PALABRA ES UN PEDAZO DE NOSOTROS MISMOS “Dijo Dios: ‘Haya luz’, y hubo luz. Vio Dio...
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Regressa-se da Póvoa e sentimo-nos mais pobres. Em casa, voltamos a ligar a televisão à hora dos telejornais, o mundo, como um aluvião de desgraças, invade-nos a sala e os ouvidos. Regressam, pela manhã, as filas de trânsito, as filas congestionadas de...
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A bonita lembrança de Rosa Lobato FariaO vento destas CorrentesO capacete mineiro de Manuel da Silva RamosA Barbie com defeito de produçãoAurelino a tocar e a dizer poesiaA incrível história de Malangatana descendo de um hotel pela janela na horizontalPorque foi t&...
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Quatro da manhã. Lá em baixo ainda anda gente... (cantaria o Sérgio Godinho) São os resistentes das Correntes. É a última noite, a já famosa noite de sábado. Aurelino vai a casa buscar a guitarra. Falta-lhe um espanhol para o quadro ficar compl...
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Os lançamentos de livros são um outro must das edições das Correntes. O ano presente não escapou à regra e muitos têm sido os livros aqui apresentados em primeira mão. Eis alguns deles: Manuel da Silva Ramos lançou «Três Vidas...
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O título deste post parece coisa de antanho, que de «correntes» em escolas já lá vai o tempo. Isto, descontado o aparte de hoje em dia muitos professores se sentirem acorrentados às escolas, mas isso por via de outros quinhentos para aqui não chamados. ...
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Leitura do texto desenvolvido a partir do mote:«Pedra a pedra, o poeta constrói o poema» algumas aproximações entre pedras, poemas e poetas: O poeta monumenta as emoções; por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais.O poet...
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Dia de trabalhos forçados para este escriba aqui na Póvoa. Presença numa mesa de debate pela manhã, ao meio-dia e picos lançamento de um livro, à tarde encontro numa escola preparatória (ébês, como lhes chamam hoje…) de Rates. Agor...
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Não está fácil, confesso que não está fácil. A edição das Correntes deste ano parece-me com dificuldades em impor o seu ritmo habitual. Talvez seja do mau tempo que por aqui se tem abatido, talvez seja das muitas caras novas ainda pouco à...
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Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado &ndash...
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Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square. Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma se...
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A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado. Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por nat...
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Entre Osnabrűck e Porto, que paralelo biográfico melhor para se ler Ilse Losa na direcção contrária àquela que ela geograficamente deu à sua vida. Uma vida que na tragédia da História da Alemanha encontrou porto de abrigo no Porto de onde eu provenho e que nessas trocas interculturais perdeu ou...
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Artistas plásticos, músicos, poetas e escritores encontram no Brooklyn refúgio e cenário e dali partem para expedições ultramarinas na Califórnia, na Índia, na França, na América Latina, na África, a book tour perhaps. Discussões literárias, conversas boêmias, propostas, idéias para livros em ebuli...
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Tem-se assistido a uma vitalidade do livro, apesar de tantas vezes ter sido profetizado o seu fim. Em vez de desaparecer, ele tem encontrado novos formatos e beneficiado com esse grande canal de divulgação e de distribuição que é a Internet. O mesmo seria inevit&aa...
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Alexandre Herculano nasceu há duzentos anos, a 28 de Março de 1810. Assinalamos a efeméride, recordando a obra de António José Saraiva, “Herculano e o Liberali... Ler Tudo >>
Quadras de Felícia Festas Hortinhas (natural de Évora): É um bem essencialCai do céu nasce do chãoDá-se a todos por igualNão fazendo distinç... Ler Tudo >>
[17-02-2010] | Fala de dois poetas populares alentejanos
Acreditar em mitos e lendas na era da técnica, da tecnologia e da suspensão do maravilhoso: dois textos de quem não perdeu a capacidade de se espantar… o poeta brasileiro Carlos Alberto Pessoa Rosa[1... Ler Tudo >>
Poesia Popular à maneira tradicional: Uma décima[i] do poeta popular alentejano Domingos José Pinto[ii], onde se narram os esforços hercúleos de um hortelão para defender o seu território de uma prese... Ler Tudo >>
[26-10-2009] | Maria João Brinquete e Paula Sande, Maria João Brinquete e Paula Sande
Recomeça hoje, na RTP1 (às 21h18), o programa Cuidado com a Língua! Uma ideia de José Mário Costa (responsável pelo Ciberdúvidas). Uma bela maneira de pôr os miúdos (e os outros) a pensar na língua po... Ler Tudo >>
4 & 1 QUARTO conta a história de um casal que, num momento de desejo ou tédio, esquece as convenções para atrair à intimidade um homem e uma mulher. São quatro numa cama, como se fosse natural.
Mas não será sempre natural, o sexo? E mesmo que fosse: brutalizará ele o amor? Aqui, as duas mulheres revivem um segredo da puberdade, os dois homens descobrem-se e atrevem-se, e, embora extraviando-se da identidade e da pertença, jamais se perdem do Amor.