A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNETliteratura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa.
Luís Carmelo, Coordenador
Inéditos LiteráriosInéditos Literários
Correspondentes

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS XIII - Candidatos Sedutores

[15-09-2009] | Almeida Faria
De pedra cor de ferro, este Círculo Oitavo, lar seguro e garantidoDos artistas do crime e da política,Será também, um dia, domicílioDa nossa eternidade relativa. Ninguém de aspecto humano, ao que supomos,Envelhece por gosto. Nós menos queNinguém. Mas somos sedutores? Ou só Nos desejamos sedutores e somos Uns pobres seduzidos por aquelas,Aqueles, que julgámos seduzir. Temos as qualidades dos defeitos.Jasão foi um dos nossos. Falava bemE mentia melhor. Bem parecido, Por detrás da cabeça, mal escondido,Tinha um longo intestino retorcido. ...  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS XII - Candidatos Hereges

[18-08-2009] | Almeida Faria, Almeida Faria
Ser herege é ter de escolher, custe o que custar.Não pensamos o que querem obrigar-nos a pensar,Não fazemos o que esperam obrigar-nos a fazer.Mas quem escreveria hoje Os Heróicos Furores?Quem enfrentaria a fogueira do Campo dei FioriComo o homem de Nola? Quem estaria disposto A ser representado de olhos esbugalhados, cara De pernas para o ar e orelhas no pescoço monstruoso? Quem estaria pronto a morrer como Julião ainda jovem? Quem correria hoje o risco de ser morto como um cão,Na prisão, num descampado, numa esquina anónima? Sabemos que a mesa mais venenosa é a Mesa Censória, Aquela que usa o seu poder para definir o que é háiresis,Tentação diabólica, coisa de orgulhosos e heterodoxos. A fossa do sexto círculo é melhor e mais espaçosaQue a estreiteza dos Bempenteadinhos que decidem Quem é herético ou herética: os que ardem depressa....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS XI - Aduladores

[14-07-2009] | Almeida Faria
Nós, os aduladores, adulamos por gosto.Para nós, nada mais delicioso que adular Gente famosa, poderosa, gente de posses, Gente que nos ouça e olhe e lá de cima Um dia, em público, nos ajude e elogie,Gente que nos defenda se for preciso,Gente que nos convide para o seu convívio,Gente que nos consiga a condecoraçãozinha, A sinecura, o título, o lugar político,O prémio (merecido ou imerecido).Adoramos os céus da fama, os amarelos Do ouro, do prestígio, da conta na Suiça. As metades das nossas caras de fugirSão a noite e o dia. Sob os nossos melhor sorrisosEscondemos focinhos grossos, de porcos bulldog.Chafurdamos no esterco, no lixo. Se nos descobrem, Assobiamos para os lados e disfarçamos, sorrindo. ...  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS X - Fraudulentos

[23-06-2009] | Almeida Faria
O Oitavo Círculo tem fama de ser o mais concorrido. Além de nós, incansáveis praticantes da fraude e deTodo o seu instrumental (o embuste, o branqueamento,Os documentos forjados), ao mesmo Círculo vão pararOs aduladores e sedutores de mansas falasE os temíveis rufias de várias rufiagens. Muitos de nós cultivamos a fraude fiscal, banal Quando Justiça e Estado andam neste estado.Os que têm três bocas preferem o comércio  Dos secos e molhados da mentirolaEm verso e prosa, das amplas promessasE solenes poses ideais para papalvos.Todos nós, mulheres e os homens,Porque a vaidade de aceder à verdade Não compensa, é pura perda de tempo e dá trabalho, Nos tornámos a fraude de nós próprios, defendendo A mais nobre das causas, a do direito à fraude....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS IX - Ladrões

[04-06-2009] | Almeida Faria
O interdito é o que mais atrai quem como nós nasceuSem timidez, sem pejo, e de ágeis dedos.Não nos envergonhamos de fazer mão baixa Em mulheres de amigos, em homens casados, Em pedras preciosas, em jóias e antiguidades, Em baixelas de ouro ou prata, em tecnologia informática. Imaginamos fechaduras por abrir como outros imaginam Virgens perversas e miraculosamente disponíveis.Deliramos diante de portas fechadas, de cofres por arrombar,De golpadas que o vulgo considera impensáveis.Dizem que os nossos dons especiais nos deformaram, Mas orgulhamo-nos do nosso destemor, o que não é pouco.Mestres ou meros aprendizes da arte de furtar e desfrutar Sem ser caçados, estamos bem preparados para entrarNos tortuosos labirintos infernais, cheios de falsas escadasQue não levam a nada, de janelas que ninguém abrirá,De ilusórias saídas que um de nós acabará por encontrar....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS VIII - Traidores

[29-04-2009] | Almeida Faria
Nem sempre fomos traidores. Aprendemos aos poucos,Praticando com método implacável a traição nada fácil,Traindo com rigor especial quem em nós confiava,Colegas, seres amados, amigos, sócios, família,Nossos alvos preferidos. A traição, seja ela arteOu defeito ou traço do carácter, é perfectível. Infiel, sei do que falo, sei o que faço, sei o que fizNa noite em que cheguei tão tarde a casa. Despi-me Com cuidado, de luz apagada, sem ruído, deitei-me Convencida de que Ugolino já dormia.Procurei o calor dele para beijá-lo. Foi aíQue um pano embebido em cheiro intensoMe abafou o nariz e a boca, enquantoQuatro mãos me prendiam. Os homens Traem mais que nós? Traem melhor.Adormeci, ou algo assim.Ugolino ri-se agora de mim....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS VII - Candidatos Epicuristas

[12-03-2009] | Almeida Faria
No tempo em que os deuses eram genteE os humanos copulavam com elesCom astúcias e artes como as deles,Os humanos pagavam quando erravam,Não quando pecavam. Não havia pecado. Para nós, os de Epicuro, o único pecadoÉ não gozarmos os gozos que perduram,É ceder aos gozos velozes, passageiros,Que não vencem o tempo. Não andamos de um lado para o outro Como lobos, como loucos, como Feras fechadas numa jaula, incapazes De respirarem entre grades, como o homem De óculos de aros grossos e ares de detective Espiando a mulher nua na piscina que sonhaRomantismos. Nós, os epicuristas, exigimos Bastante mais das nossas vidas....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS VI - Candidatos Gulosos

[12-02-2009] | Almeida Faria
Nós, os gulosos, temos mais olhos que barriga. Orgulhamo-nos disso. Cerbero nos espera, lá no terceiro círculo, não com uma cabeça, Mas com três, de cinco olhos em cada uma, nada menos,Soltando guinchos que assustariam as almas sensíveisSe não as protegesse o gigante Belzebu, todo nariz e boca,Cujas tripas lhe nascem na boca (o cheiro daquela boca!)Que não serve para sorrir, serve só para comer Sem mastigar, para sorver, tragar e devorar.Nos jantares mais formais, ao encherem os pratos,Ao enfardarem até não caber mais, Ao falarem antes de terem engolido,Ao pegarem nos talheres como animais,Alguns de nós não voltarão a ser convidados.Tanto lhes faz. Fazem como o trifauce Cerbero Cujas goelas, em trindade, nunca estarão saciadas.Seguem o exemplo da grandeza inalcançável De Nosso Senhor Belzebu, o grão-patrão da gula....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS V - Candidatos Luxuriosos

[13-01-2009] | Almeida Faria
Ao contrário Dos patamares do purgatório,Agrestes, nus, exaustos, escalvados, Monótonos, concêntricos, iguais, repetitivos,Sem que ao pobre mortal, depois de morto, agrade o esforço  De escalar degrau após degrau, até ao cimo nebuloso, o anfiteatroCircular do monte seco, fero, duro e estéril, os infernosSão um mar ebuliente, um magma imenso, Comparável ao sem fundo da luxúriaOnde nós, os deste culto, Entraremos sem custo. No meio das ágeis águas desse mar, No coração das ondas desse magma,Fica o gelado Lago dos Lamentos. Aí, perto da lúcida luz de Lucifer,Seremos, como Paolo e Francesca, Luxuriosos por inteiro, e para sempre....  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS IV - Candidatos Usurários

[11-12-2008] | Almeida Faria
Fiéis amantes do alheio, não nos venham dizer que isto é defeito.Cobiçosos do que não é nosso, somos insatisfeitos de nascença.Nascemos com cabeças de mealheiro, mas há mais deploráveis cabeças. Nascemos com diversos pares de pernas, por isso andamos mais depressa.Somos devotos do deus Money, nosso verdadeiro deus. Somos em geral poupados. Alguns, vá lá, talvez ávidos.Não negociamos com promessas.Não há paraíso na nossa igreja.Nossos credos são a bolsa, os mercados emergentes, as redes.Houve usurários padres, bispos, cardeais e até papas, e nem por isso menos louvados.Príncipes, reis, imperadores foram vaidosos usurários, e nem por isso menos louvados. Doges usurários pagaram aos Bellini, a Tiziano, a Veronese, e ainda bem.A persistente devoção à usura fez dos grandes do mundo respeitados mecenas.Des...  Ler Tudo >>

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS III - Candidatos Suicidas

[25-11-2008] | Almeida Faria
Aos mais modestos bastará o cinto numa trave, a corda numa árvore. A mim, que na piscina nunca saltei senão da prancha mais alta, Depois da maior vitória não esperei pela falha inevitável.Subi ao terraço no cimo do alto prédio onde vivo, Cheguei-me ao parapeito sem olhar lá para baixo, Virei costas ao vazio, respirei fundo como nas provas decisivas, Concentrei-me nas voltas necessárias ao tipo de salto que ia dar, Um duplo mortal de costas com primeira e segunda reviravolta,Chamado (Porquê? Já não vou perguntar) salto do beduíno. Quando o salto corre bem, a seguir às duas cambalhotas O corpo enrola-se sobre ele mesmo, feito um feto. O peso do desespero, a altura em excesso,A dureza do asfalto e a rudeza da quedaConjuraram-se para que o salto não fosse perfeito, apesar de eficaz. Esborrachei a cabeça, esmaguei pescoço e costelas, fiquei em bocados. Alguns de n&oac...  Ler Tudo >>

Guia para candidatos aos infernos II - Candidatos Iracundos

[28-10-2008] | Almeida Faria
De nós, os iracundos, que sabe quem prospera à custa dos infernos? Os profissionais da salvação da alma mentem a nosso respeito. Diz-se que o Rei dos Judeus expulsou, irado, os vendilhões do templo.Excelente exemplo! Sermos filhos da ira será defeito?  Há quem nos creia indignos de descer aos infernos. Há quem nos considere meros proletários do berro. É certo que os nossos guinchos são de bicho. Guinchamos pelo prazer da pura ira. Diante da mentira, a nossa irada ira desata a vomitar.E podemos até desatar às dentadas de tanta ira acumulada.Se não mordermos, espigam-nos picos na testa. Se não mordermos, nas nossas caras abrem-se fendas. Se não mordermos, espinhos de ferro esguicham-nos das pernas.Os mansos detestam descobrir-se nos nossos guinchos e gritos.Detestam ver em nós os seus dentes cerrados, os seus olhos vazios.Detestam ver em nós o seu pescoço em parafuso, as suas mentes retorcidas.Não é por sermos humanos que abdicamos do nosso direito ao grito. ...  Ler Tudo >>

Guia para candidatos aos infernos - candidatos coléricos

[04-09-2008] | Almeida Faria
Nós, os coléricos, temos a nossa própria honra.Sempre levámos a sério as ameaças dos livros sagrados. Sempre acreditámos que a cólera decidiria deste nosso lugar. Escolhemos, apesar disso, a grande recusa, dispostos a tudo. Ou foi ela a escolher-nos, dá no mesmo.Mostrámos aos doutores de todas as igrejas que desprezávamos as suas ameaças.Mostrámos aos donos do mundo o teor da nossa justa fúria.  Mostrámos aos timoratos que o medo é curável.Mostrámos ao nosso medo que não o tememos.Nenhum de nós aqui tem medo. Medo de quê?Dos homens de cornos e olhos de mocho? Dos grandes lagartos de línguas longas? Dos que têm enguias e cobras na boca?Dos que têm lábios de patas de polvo? Do dragões que vomitam fogo?Dos venenos? Dos monstros?A nossa cólera foi a nossa força. Almeida Faria...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (4)

[04-03-2010] | Gonçalo M. Tavares
Erro evidente Baptizar o movimento é errar.Não é possível baptizar o movimento.A modificação modifica-se.Baptizar é dizer: é estável.(Baptizar o movimento é um paradoxo - tal como movimentar o nome.) No meio O murro enquanto dúvida.A hesitação enquanto murro(os paradoxos). ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (3)

[25-02-2010] | Gonçalo M. Tavares
Destruição e estranhezaDestruição de categorias como método para compreender e analisar (as categorias da realidade).Destruir pode funcionar como método.Descategorizar é outro método.Modificar fronteiras, dimensões, escalas, funcionalidades, referências.Estranhar é a primeira fase do compreender diferente.Quem não passa pela fase de estranhar algo – uma realidade – compreenderá sempre de igual forma.Não estranhar é não aprender. É repetirÉ aceitar a estupidez....  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (2)

[18-02-2010] | Gonçalo M. Tavares
Métodos Desregular para compreender.Metamorfose.Modificação de proporções e escalas.Variações, combinações, fronteiras.  Abstracto e orgânico Um cavalo abstracto que relincha.Abstracção com cheiro.Um cubo com cheiro,uma linha recta com cheiro.Cheiros diferentes: o triângulo e o rectângulo.A forma é cheiro; o cheiro é forma.Um cheiro triângulo e um rectângulo-cheiro. ...  Ler Tudo >>

Breves notas sobre Arte (1)

[11-02-2010] | Gonçalo M. Tavares
O outro lado: Análise topográfica do tempo.O relevo do tempo. As zonas aquáticas do tempo.A latitude e a longitude do tempo.  Cronometrar o espaço.Quantos minutos tem o espaço?Quantos minutos tem um lugar? Um exacto lugar?Um ponto? Quantos minutos tem um ponto? ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 40

[28-01-2010] | Gonçalo M. Tavares
TTangente – Qualquer ligeiro toque poderá ser brutal. A delicadeza é apenas um dos modos de não matar. Qualquer frase-Bloom deverá traçar uma tangente às outras frases. Porém a ligação não será narrativa.  Técnica – Cada frase deverá ter a sua técnica. Uma técnica que se prolonga no tempo desactualiza-se. A frase seguinte é um tempo seguinte. Se utilizas a mesma técnica para um tempo seguinte, atrasas-te. Utilizar uma técnica por livro é o mesmo que querer utilizar o mesmo segundo durante dez anos.Todo o tempo velho é inútil; deverá ser deitado ao lixo.Porém, a técnica não é um massacre do espontâneo. A técnica é ter consciência do espontâneo. A técnica não é um cão dócil, é um animal imprevisto a quem julgas dar orde...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 39

[21-01-2010] | Gonçalo M. Tavares
Substância – A literatura é uma substância. Pode encontrar-se em maior ou menor concentração. Quando se olha para um texto o que se deve perguntar é: Que quantidade de substância literária tem esta frase? E aquela?Existem frases com uma concentração 0,0002 da substância literatura, e frases com uma concentração 0,98 de literatura. Existem ainda frases totalmente cheias, ou seja: nenhum vestígio de nada a não ser literatura.Perante uma frase Bloom nunca se dirá: é água quase tudo e literatura. O que se dirá é: é literatura quase tudo e água nada.Uma frase Bloom é insolúvel. Poderás deitar-lhe a água que quiseres que ela manterá a sua força.(Um leitor imbecil é aquele cuja leitura traduz o processo de despejar água sobre as frases.)...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 38

[14-01-2010] | Gonçalo M. Tavares
Solidificar – Método inimigo da literatura Bloom. Solidificar é imobilizar. Pelo contrário: derreter e evaporar.Tornar toda a matéria do texto inagarrável.Construir o índice-de-agarrabilidade de uma frase tal como pode existir o índice de agarrabilidade de um objecto (objecto com pega/objecto sem pega). É evidente que uma chávena de chá com pega se agarra mais facilmente. É evidente também que uma frase não deverá ter uma pega. (Não permitir que a frase se possa agarrar com uma única mão.)As frases da literatura Bloom não têm pegas para preguiçosos. Ou se agarra a frase com as duas mãos ou a frase cai.Para agarrares em certos objectos necessitas das duas mãos e de toda a tua atenção. Eis uma frase Bloom. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 37

[07-01-2010] | Gonçalo M. Tavares
Sintético – Uma frase deve. Mas também pode.Sintomas – Sintomas numa frase são as tendências reveladas pela parte exterior das palavras. Porque as palavras têm também parte interior, e esta não se exibe nos sintomas. Sintomas na literatura são as aparências, digamos: as letras. Porém, certas vezes, a palavra escreve-se: não, e o seu núcleo interno escreve-se: sim. Outras vezes os sintomas correspondem ao núcleo: a palavra não é feita de um não interior. A assimetria entre os sintomas de uma literatura e o seu núcleo dá a quantidade Bloom que existe nessa literatura. Maior assimetria, mais quantidade de literatura Bloom. Se o sintoma é explícito e revelador do que existe de oculto nas palavras, então não existe literatura.   ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 36

[17-12-2009] | Gonçalo M. Tavares
S Sacrilégio – A evidência de frases sucessivas. A beleza onde não existe a mancha. A mancha onde não existe a breve beleza. A frase que pareça terminar. Simultâneo – Nada acontece ímpar e um. Qualquer coisa, mesmo que grande, é apenas uma parte. Um elefante, por exemplo, ou um enorme edifício. Não há vidas separadas de outras, que vão do início ao fim como uma experiência química dentro de tubos de ensaio. Mostrar que a vida é simultânea é indispensável. Não existe a história de um homem: srº Jonas ou de uma família. Existem sim homens com outros homens e mulheres, coisas, vegetais, o cão da vizinha e a linguagem que existe no mundo e é dita por anónimos. Histórias individuais são violência sobre a linguagem. A linguagem é um organismo que gosta de ângulos e percursos subitamente laterais. É mais sensata a história de um segundo que atravessa o mundo, que a história de um homem que se apaixonou por uma mulher e depois veio outro e. A linguagem é mais lateral que longitudinal. Não é im...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 35

[10-12-2009] | Gonçalo M. Tavares
S Sacrilégio – A evidência de frases sucessivas. A beleza onde não existe a mancha. A mancha onde não existe a breve beleza. A frase que pareça terminar. Simultâneo – Nada acontece ímpar e um. Qualquer coisa, mesmo que grande, é apenas uma parte. Um elefante, por exemplo, ou um enorme edifício. Não há vidas separadas de outras, que vão do início ao fim como uma experiência química dentro de tubos de ensaio. Mostrar que a vida é simultânea é indispensável. Não existe a história de um homem: srº Jonas ou de uma família. Existem sim homens com outros homens e mulheres, coisas, vegetais, o cão da vizinha e a linguagem que existe no mundo e é dita por anónimos. Histórias individuais são violência sobre a linguagem. A linguagem é um organismo que gosta de ângulos e...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 34

[03-12-2009] | Gonçalo M. Tavares
Posição – Um texto não deverá ter posições, mas sim esconderijos não detectáveis. A posição é uma visibilidade evidente e um texto literário deverá ter apenas indícios de visibilidades. A única evidência será a sua invisibilidade.Mas claro que a invisibilidade total torna impossível o contacto. Diremos que o que se recomenda são invisibilidades intermédias. Ou: visibilidade intermédia. O que deverá permanecer escondido, sem posição visível? O mais importante. O que deverá ser a parte visível? Aquilo que leve o leitor a fazer mais coisas. O texto que trabalha mais é o texto que faz trabalhar mais.E uma personagem não deverá ter uma posição fixa. Se o tiver não é uma pessoa, mas um objecto. Uma personagem não tem posições, mas in-dis-posições: comportamentos em modificação permanente. Uma indis-posição é um momento que não sabemos como terminará. E uma posição nem sequer é um momento. É um não-momento. Um não-acontecimento.  Na literatura como na guerra: a posição do texto deverá ser um ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 33

[26-11-2009] | Gonçalo M. Tavares
Personagem – É uma coisa orgânica que poderá surgir e desaparecer na mesma frase. Em 100 frases consecutivas podem existir 100 personagens.Num romance Bloom as personagens são secundárias e as frases são primeiro. A presença de pessoas é apenas um pretexto para que a linguagem fale. O que importa quem fez o quê?Os organismos que existem nos textos empurram ideias. Um organismo sem ideias é apenas um organismo. Placebo – Todas as frases-placebo com o tempo se tornam inúteis. A literatura-placebo é aquela que engana durante uma semana o leitor. Porém, a literatura é algo que ocorre mais tarde.  ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 32

[19-11-2009] | Gonçalo M. Tavares
Patologia – A literatura tem doenças como todos os organismos. Porém, na literatura Bloom há uma inversão dos conceitos de saúde e doença. Se fora da literatura saúde é a repetição de um estado normal associado a uma previsibilidade no comportamento do organismo, na literatura, tal descrição, corresponde ao estado patológico. Texto estável é o doente. Na literatura a patologia é o tédio e a saúde é a alteração constante dos sintomas da frase. A frase 1 revela febre alta, a frase 2 rubor vermelho na face, a frase 3 perturbações na pele, a frase 4 uma aparente doença grave, e assim por diante. Eis a saúde de um texto: sucessivas patologias que combatem entre si e se substituem continuamente. Doença na literatura-Bloom é doença quando é estável; doenças instáveis revelam a vigorosa caminhada do texto....  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 31

[12-11-2009] | Gonçalo M. Tavares
P   Paciência – Paciência poderá ter toda a substância que é eterna. Quanto às substâncias que existem – um copo cheio de vinho, uma mulher cheia de desejo e uma frase cheia de literatura - só a impaciência lhes será útil. Se por azar um texto-paciente se cruzar com um leitor paciente: é deixá-los aos dois, frente a frente, à espera. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 30

[05-11-2009] | Gonçalo M. Tavares
 Obsoleto – As únicas palavras que perdem validade são os nomes das coisas. As coisas não se tornam obsoletas, mas os nomes que lhes são atribuídos sim. A linguagem não deverá dar nomes às coisas, mas sim nomes ao movimento das coisas. Pode parecer um paradoxo, mas é assim: se dás nomes ao que é fixo o nome rapidamente perde a validade; se dás nomes ao que se move o nome resiste porque também ele se move, acompanhando a velocidade da coisa.Qual a velocidade das tuas palavras? Qual a imobilidade das tuas palavras?A literatura Bloom imprime uma velocidade média às suas palavras. Certa literatura, pelo contrário, imprime uma imobilidade média às suas palavras. Eis o que se deve evitar....  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 29

[29-10-2009] | Gonçalo M. Tavares
OObscuro – Na literatura Bloom o obscuro não é o invisível, mas sim as evidências visíveis. O explícito é apenas um erro no olhar que detecta o mistério. A literatura Bloom recupera esse olhar. Eu não quero ver para entender, eu quero ver para não entender. Não descubras as evidências, descobre os mistérios. Cada objecto do teu quotidiano é um insulto à tua capacidade de tornar obscuro. Substituir o: por favor, clarifica, pelo: por favor, obscurece. Só tornar claro e evidência o impossível....  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 28

[22-10-2009] | Gonçalo M. Tavares
N Negócios – Uma frase não negoceia com os leitores e o escritor também não negoceia com as frases. A frase impõe-se ao escritor Bloom que a impõe ao leitor-Bloom. O mau escritor impõe frases à linguagem. O escritor-Bloom aceita as frases que a linguagem lhe impõe.O escritor-Bloom tem menos poder que a linguagem daí o poder que a sua linguagem tem. O escritor-turista tem mais poder que a linguagem daí a  fraqueza que a sua linguagem tem.Por vezes é necessário relembrar o óbvio: se dás força a uma coisa essa coisa fica forte, se impões a força a uma coisa essa coisa fica fraca.  ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 27

[15-10-2009] | Gonçalo M. Tavares
Músculos – O músculo parado é o verbo, porque o verbo não basta para que exista acção numa frase. Músculo em acção é verbo agarrado à substância. A acção só age se alguém a empurrar. A qualidade da acção dos músculos é, assim, efeito da associação verbo-substância. Associações raras provocam movimentos raros e os músculos, embora de número limitado, transformam-se em preciosidades de acordo com a substância a que se ligam. Habitar o toque e habitar a casa. Um homem alto habita a altura. Habitar a altura (como um prédio).Eis apenas um exemplo: habitar a casa é músculo em acção previsível. Frase muscularmente industrial. Habitar a altura já não tanto. Aproximação não usual.Claro que não é inventar novos músculos - novos verbos – mas sim novas ligações. Mas também podemos inventar novos músculos (João Guimarães Rosa). Com paciência poderemos contar, um a um, os verbos que surgem num dicionário. E se o fizermos chegaremos a um número; vamos supor: 20.352 verbos. Pois bem: anatomia pré-defi...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 26

[08-10-2009] | Gonçalo M. Tavares
Moral – A moral é uma força que impede que a frase diga o que tem a dizer. A moral é inimiga da linguagem surpreendente, é inimiga da linguagem. Uma frase moral não é uma frase, é uma moral. Uma frase imoral não é uma imoralidade, é uma frase. Ninguém deve esperar a bondade de um verso ou de uma substância. As palavras não têm bom-coração porque nem sequer têm coração. Não se deve confundir anatomia do alfabeto com anatomia humana. Um erro dos textos moralistas. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 25

[01-10-2009] | Gonçalo M. Tavares, Gonçalo M. Tavares
Menu (ver urgência) – A escolha do sítio para entrar num texto deverá partir do leitor, não do escritor. Se um texto só tem uma porta de entrada para quê entrar? Ao leitor-Bloom não agrada entrar na mesma porta em que todos entram.Um texto-Bloom pode começar a ser lido a partir da página 60, 342, ou 18. Um texto-Bloom pode até começar a ser lido da página 1. Cada frase é uma possibilidade de início do texto. Se a frase individualmente tem valor essa frase poderá ser colocada em qualquer sítio e poderá ser lida sob qualquer ordem. As frases cujo valor individual é dependente das 65.743 frases anteriores são frases que não têm valor individual.Uma frase é como um organismo: existe no mundo ao lado das outras; mas existe só e morrerá só.Os livros que morrem totalmente e inteiros são livros não-Bloom....  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 24

[24-09-2009] | Gonçalo M. Tavares
Maria – Nome de todas as personagens femininas Bloom. Se existir mais do que uma personagem feminina deverá chamar-se Maria 2, Maria 3, etc.Se um escritor Bloom, ao fim de sete romances, apresentar a 37ª personagem feminina deverá designá-la por: Maria 37.A mesma lógica deverá ser mantida para as personagens masculinas, agora utilizando como base o nome John. John 1, John 2, etc.Bloom é apelido. Não apenas de pessoas, também do mundo. Matéria – A matéria utilizada não são as palavras ou letras, mas sim a intensidade. Só é intenso o presente. A expectativa não é o antes do intenso, mas sim o intenso antes de um acontecimento que poderá ou não também ser intenso.Poderemos suspender a expectativa ainda na expectativa: e assim a expectativa será saciada. Todo o momento-Bloom não necessita do momento seguinte. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 23

[17-09-2009] | Gonçalo M. Tavares
Mapas – Claro que uma frase pode fornecer um mapa. Mas se o fizer a legenda não deverá ser clara. Na literatura os mapas surgirão em indícios. O primeiro olhar não nos localiza. O segundo também não. O mapa de indícios e não de evidências é um método para prolongar o olhar. Os imbecis olham rápido para uma coisa e dizem: aqui não há nada que possa ser pensado. O sensato olha longamente. Na literatura o mapa eficaz não é o que de imediato nos mostra onde estamos, o destino, e os caminhos. Mapa eficaz em literatura não é o que nos faz andar menos até ao destino, mas precisamente o inverso: o que nos faz andar mais. O que fazes com o mapa que um poema te deu? O que fazes com o mapa que um romance te deu? A quantidade e qualidade das coisas que fazes dá o efeito da literatura. A literatura forte leva-te para um sitio-longe e de todos os caminhos que dela saem nenhum é curto. E claro que há literaturas de diferentes escalas. Clarice Lispector escreve 100 páginas sobre uma barata. Thomas Man...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 22

[10-09-2009] | Gonçalo M. Tavares
L Legislação – Cada frase será metade legislação – imposição – e a outra metade convite, pedido. É indispensável que cada frase dite ordens. E é indispensável que as frases seguintes ditem ordens simétricas das anteriores. A poesia como legislação de contradições. Tornar lei, isto é – obrigatória – uma frase e o seu contrário. Estas duas leis simétricas, contraditórias e inconciliáveis, são a partir deste momento obrigatórias. Eis dois versos. E se o verso for denso como um diagrama: eis um único verso: duas leis inconciliáveis tornadas obrigatórias. Livro – O livro deverá ser um perigo com capa. Uma surpresa encadernada. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 21

[03-09-2009] | Gonçalo M. Tavares
Inundação – Um texto poderá ser subitamente inundado por outro texto. Não se trata de uma colagem ou de uma soma: a inundação é um processo de conquista rápida de espaço. É uma força que surge e rapidamente ocupa espaço, substituindo uma força anteriormente dominadora. Ao fim de dez páginas um certo tom na frase e um certo assunto é repentinamente engolido por uma frase de contornos diferentes. E claro que se poderá construir um texto feito de sucessivas inundações. Não há uma média de inundações aconselhável por página. Uma inundação por frase poderá ser demasiado, ou não.Invenção – Inventar é um processo antigo, um processo que se repete. Inventar é imitar o processo de inventar. A invenção é uma imitação n&ati...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 20

[27-08-2009] | Gonçalo M. Tavares
Intensidade – A intensidade de uma frase dá a educação dessa frase. Uma frase pouco intensa é uma frase mal-educada para o leitor. Porquê? Porque não deves fazer perder tempo a uma pessoa. Interferência – Em qualquer texto uma frase deverá interferir na outra. Interferir é entrar no espaço que não lhe pertence. Uma frase deverá entrar na frase anterior e na frase seguinte. Mas não se trata aqui de continuidade e harmonia entre frases. Pelo contrário: uma frase deverá entrar nas que a rodeiam como um berbequim em funcionamento: como algo que provoca distúrbios e ruídos disformes. Uma frase deverá perturbar o entendimento da anterior. Quando julgamos apaziguada uma frase eis que vem outra que se infiltra.Certas interferência poderão ser subtis, mas algumas poderão funcionar como explosões. Os estilhaços de uma frase entram na frase seguinte e este processo provoca ferimentos. Ou seja: situações por resolver.Mas atenção: um estilhaço não provoca cicatrizes, um estilhaço provoca feridas, e...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 19

[20-08-2009] | Gonçalo M. Tavares
Imitação – Falhar na imitação: eis um método Bloom. Ímpar – Todo o texto literário deverá ser ímpar, ou seja: dividido por dois não dá resto zero. O resto de um texto, o que fica depois de o lermos, nunca poderá ser zero. Se for zero, se todas as suas partes forem distribuídas de modo exacto, se no final olharmos para o texto e tivermos a mesma sensação que o matemático tem após a resolução de um equação difícil, então enganámo-nos nas contas literárias, ou seja: no processo. Não fizemos literatura, fizemos relatório.Se chegarmos a um resultado não chegamos à literatura. Se alcançarmos a literatura não alcançamos um resultado....  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 18

[13-08-2009] | Gonçalo M. Tavares
Individualidade – Toda a frase é individual. E todo o texto é individual. A dificuldade em conseguir com que cada frase seja individual – 1 – e que o texto, no seu conjunto, seja também individual –  1 – é a dificuldade do escritor.Cada livro não necessita de mais nenhuma livro.Cada frase não necessita de mais nenhuma frase.Se as frases são colectivas não são individuais. Se não são individuais – um – então não existem: podem ser eliminadas. Toda a frase que necessita de outras para ser forte deverá ser eliminada.Aplicar a brutalidade da selecção imediata a cada frase. Cada frase ou diz ou cala-se. Cada frase tem o seu momento para provar se vale a pena existir. Cada frase tem quinze segundos de existência para o leitor. Nesses quinze segundos terá de provar que merece existir nos próximos quinze séculos. Não ser individual é não ser. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 17

[06-08-2009] | Gonçalo M. Tavares
Hesitações – O escritor não deve hesitar, mas as suas frases sim. E o leitor também.A certeza de quem faz deverá instalar a dúvida em quem assiste.Todo o espectador ficará perturbado perante a acção imperturbável.Toda a frase inteligente é uma frase que hesita entre o zero e o um.Toda a decisão inequívoca deverá dar origem a milhares de decisões distintas. Só as grandes certezas poderão iniciar os distúrbios.A literatura deverá ser uma certeza que causa distúrbios e não um distúrbio cujo efeito é uma certeza.A literatura traz um reino dessincronizado. Híbrido – Não existe a acção de tornar híbrido um texto. Um texto é naturalmente híbrido. A linguagem mistura espontaneamente. Apenas existe o acto de impedir o híbrido na linguagem. A pureza na linguagem é artificial. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 16

[30-07-2009] | Gonçalo M. Tavares
Hermafrodita – A verdadeira frase Bloom não tem pessoa com sexualidade, tem pessoa com sexualidades.As ideias são coisas não sexuais, portanto: muito sexuais. Todo o motor que avança em duas direcções é mais prometedor que o motor que avança apenas numa.As letras em si – o alfabeto – não têm qualquer inclinação. É nas palavras que o feminino e masculino existe. Porém, a frase poderá reconstituir o neutro forte que existe no alfabeto. Se a senhora Bloom é fêmea no início da frase poderá terminar, na frase, masculina, com voz grossa e pêlos. Não compliquemos: em literatura as características das personagens dependem apenas das letras que o escritor coloca nas frases. Ela é uma personagem feminina apenas porque é ela: termina em a. Se terminasse em: e, em vez de a, essa mesma personagem seria: ele, um masculino personagem. Para quê, pois, dar tanto relevo à colocação de um a ou de um e?...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 15

[23-07-2009] | Gonçalo M.Tavares
Hemorragia – Toda a prosa clara deverá instalar a tendência para a hemorragia. Como se a frase existisse sempre à beira de sangrar, de se romper: de uma parte da frase desistir do sentido da outra. Toda a hemorragia é efeito de um afastamento. Todo o afastamento é a promessa de dois inícios distantes entre si, de dois recomeços. Se metade da frase se afasta da outra metade obtemos dois textos que avançam cada um para seu lado como dois animais. E todo o animal quer o seu alimento privado, a sua digestão escondida, a sua defecação envergonhada. Um texto que sangra é indício de uma multiplicação de sentidos. A prosa que evita a todo o custo as hemorragias é uma prosa infantil....  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 13

[09-07-2009] | Gonçalo M. Tavares
Geografia – A localização geográfica é um erro literário. Cada personagem age nos sítios, e basta. Nomes de cidades, nomes de países, de bairros, de casas, de pessoas, todos os nomes localizados são desnecessários. O texto literário não está perdido, mas também não está localizado. Onde se encontra esta frase? Em que sítio está esta frase?Onde? não é uma pergunta para a literatura responder. O que fazer enquanto estamos vivos?, é uma pergunta para a literatura perguntar.Personagens com países e acontecimentos geograficamente fixos são personagens e acontecimentos pesados. O que é leve transporta-se connosco, o pesado abandona-se no local (ninguém o leva).Ou uma acção sucede em múltiplas geografias, ou uma acção sucede num sítio que não tem nome de mapa: a literatura.Onde aconteceu isso? Isso aconteceu na literatura.A única geografia da literatura é a frase, a palavra. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 12

[02-07-2009] | Gonçalo M. Tavares
Genética – É evidente que cada palavra tem os seus genes: veio de um sítio e exibe uma marca. Porém o que importa não são tanto os genes individuais de cada palavra, mas sim o modo como os vários genes das várias palavras se combinam. Um escritor é alguém que associa genes, promove a mistura e a fecundação. E cada aproximação rara entre duas palavras produz uma nova combinação genética. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 11

[25-06-2009] | Gonçalo M. Tavares
 Frase – Podemos pensar numa inundação que começa na primeira letra da frase e que não termina na última letra da frase (pois alguma da água e da força passará para a frase seguinte). Uma frase não pode ser como um copo que contém água dócil para ser bebida; uma frase é um copo que tenta conter uma inundação. E não consegue. Cada frase é uma oportunidade para iniciar um mundo. A literatura-Bloom aproveita essa oportunidade....  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 10

[18-06-2009] | Gonçalo M. Tavares
Estalactites – Uma frase deverá ter terra em baixo e céu em cima: quotidiano e elevação. As estalactites são as ameaças do céu sobre o leitor, as estalagmites são as ameaças da terra. Estrangeiro – Uma frase estrangeira não é uma frase noutra língua que não a nossa. É, sim, uma frase que não conhecemos de imediato; que não reconhecemos nem explicamos de imediato. Na literatura Bloom todas as frases devem ser estrangeiras. F Fotografia – As palavras não devem fazer turismo. Cada frase que tire fotografias de uma cidade ou de uma pessoa perde linguagem e ganha máquina fotográfica. Uma frase não pode ser uma fotografia. Antes de as máquinas fotográficas existirem uma frase poderia fazer o que elas fazem, mas agora se o fizer faz pior: para quê fazê-lo?Descrever o aspecto físico de uma p...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 14

[16-06-2009] | Gonçalo M. Tavares
Geometria – Toda a frase com geometria possui geometria a mais. A literatura deverá funcionar como um enxame e nunca a desordem aceitou a fita métrica. Toda a medida que se retira de uma coisa é uma violência exercida sobre essa coisa.Medir é aprisionar através de um número.Toda a literatuta Bloom é não medível. Entre quatro palavras e o número quatro não existe qualquer coincidência.Instrumentos de medida para substâncias sólidas deparam-se com uma literatura líquida, instrumentos de medida para substâncias líquidas deparam-se com uma literatura sólida ou aérea. Todo o sólido literário se comportará como um líquido. Todo o líquido literário se comportará como um sólido.A morte da literatura começa no momento em que o leitor é capaz de prever comportamentos das frases seguintes.  A única lei da frase é uma outra. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books – 9

[11-06-2009] | Gonçalo M. Tavares
Energia – Não são as letras, a energia de um texto é invisível e é o mais importante. A energia de um texto poderá ser quantificada pelas consequências que provoca nos leitores. Quantos versos são originados por um verso? Quantos filmes, quantos quadros, quantas frases, quantas acções? A energia de um texto é o futuro desse texto. O que acontecerá no mundo por causa da sua existência.  Equilíbrio – Equilibradas deverão estar as balanças e os negócios. A literatura não é um negócio entre o escritor e o leitor. É uma ameaça, uma devastação, um roubo, uma acção desequilibrada que exige a existência de um futuro que recomponha as coisas e os nomes.Nomes de peso desproporcionado. Como se a mesma frase pudesse ter tendência para o céu e para a sub-terra....  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books - 8

[04-06-2009] | Editor
Direito – Uma frase não tem lado direito e esquerdo como os mamíferos. Uma frase tem lado direito e esquerdo como uma esfera. E esta diferença é importante e deve ser pensada.Se os dois lados de uma frase são fixos isso significa que a frase é sempre recebida a partir do mesmo ponto de vista. Neste caso: ou o leitor é imbecil ou a frase é imbecil. Domingo – Também há uma linguagem de Domingo. É a linguagem que não avança. É a linguagem que passeia por onde sempre passeou e a cada volta diz: que bom!E Educação – A literatura não deverá ser bem-educada. Mas também não deverá ser mal-educada – modo diferente de colocar a boa-educação no centro. A literatura deverá ser algo para além do bem e do mal extra-literário. ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books - 7

[28-05-2009] | Gonçalo M. Tavares
Diluição -  Os textos que diluem uma ideia por trinta páginas, transformando as ideias em objectos de usura, são falsificações. O método da diluição é um método de uma literatura não-Bloom, de uma literatura pobre que fica em casa seis meses a dividir o único pão que tem para sobreviver a seis meses. Mas há sempre a possibilidade de se sair de casa para procurar alimento, quem diria?Claro que é diferente diluir num texto de 100 páginas ou numa única frase. Diluir duas frases poderá ser um método Bloom no caso de ser seguido de outros processos químicos distintos. Uma concentração a grande velocidade, após duas frases diluídas, poderá ter um efeito Bloom maior do que a mesma concentração realizada após uma frase com a normal distribuição de substâncias. O método Bloom tem por base a alteração constante de processos; mas a diluição ser uma alínea dessa mudança não é o mesmo que a mudança ser uma alínea da diluição. Não se deve confundir um indício com algo diluído. Uma diluição não tem p...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books - 6

[21-05-2009] | Gonçalo M.Tavares
Diagrama – Se um livro é reduzível a um diagrama é porque o diagrama é ampliável até dar origem a um livro. Tudo o que é reduzível tem o tamanho da redução. Se um texto é reduzível a um diagrama para quê apresentar um texto?A literatura Bloom não é reduzível. Toda a literatura miserável é reduzível.O diagrama que sintetiza um texto é a prova de que o texto é inútil.Cada frase deverá ser um diagrama: o concentrado de uma explosão e de uma implosão. Cada frase ameaça sair inteira para fora ou entrar inteira para dentro.Um diagrama é uma matéria de energias altíssimas e a energia média de uma frase-Bloom deverá possuir a energia de um diagrama.Um texto literário-Bloom não é o somatório da energia de cada uma das frases. Não é: Energia da frase 1 + energia da frase 2 + energia da frase 3, e assim por diante. Não. É o inverso, isto é: é metade do inverso. Ou seja: a energia da frase 1 tem tanta quantidade quanto o texto inteiro, e tanta quantidade quanto a que existe em cada uma das frases ...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books - 5

[14-05-2009] | Gonçalo M. Tavares
Conselhos – Frases paternalistas, é deixa-las para os pais e eliminá-las da literatura (Bloom). Crueldade – Também poderemos falar da necessidade de um nível de crueldade médio numa frase literária. Uma frase piedosa tem menos literatura do que uma frase cruel. Se duvidas, pega num texto e faz a tua contabilidade. D Dicionário – (Ver músculos) Toda a literatura Bloom é feita contra os dicionários. É um combate entre a fixação e o empurrão (a des-fixação). Tudo o que é fixo é inútil; tudo o que só é assim, é inútil. O que interessa à literatura Bloom é tudo o que é assim, mas poderá ainda ser de outra maneira. Mas, se pensarmos bem, nada há que não seja interessante para a literatura Bloom, porque nada há que não possa ser de uma outra manei...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books - 4

[07-05-2009] | Gonçalo M.Tavares
Avançar – Há dois tipos de homens como há dois tipos de frases: os que correm o que as pernas correm e os que correm o que a cabeça corre.Na frase a cabeça é a parte da frase que imagina. BBloom – Nome universal aplicável a qualquer coisa ou acontecimento. Cadeira-Bloom, livro-Bloom, morte-Bloom, namoro-Bloom.  CCanina – Há frases caninas. Preparadas para obedecer ao dono, ao leitor. Estar disponível para o leitor: frase canina.Substituir frases caninas por frases-lobo ou frases-tigre. O leitor que experimente pôr lá a cabeça.Versos que amedrontem o leitor. Mas também, ao mesmo tempo, versos que instalem a precaução no leitor. Face ao perigo, uns fogem (método de precaução 1), enquanto outros investigam estratégias de aproximação (método de precaução 2). Estes, os bons leitores. Os outros:...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books - 3

[30-04-2009] | Gonçalo M. Tavares
Aristocracia -  Toda a frase com palavras não entendidas pela multidão deverá ser banida. Palavras individualmente obscuras são imbecis.Porém, toda a frase entendida pela multidão deverá ser banida. Frases individualmente claras e óbvias são imbecis.Percebo todas as palavras, mas não percebo o texto – eis o efeito da literatura Bloom.As frases elevam-se pela estranheza que ameaçam. As palavras rebaixam-se pela estranheza que exibem. Toda a palavra que individualmente requer investigação deverá ser eliminada. Toda a frase que não requeira investigação também deverá ser eliminada. Astros – O movimento de certos astros não influencia apenas as marés. Também a frase. A frase e o mar, afectados pela lua....  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books - 2

[16-04-2009] | Gonçalo M. Tavares
Adiposidade – Há frase adiposas, frases com barriga. Todo o adjectivo é uma ameaça adiposa sobre a frase. Um bom exemplo é a frase anterior. Há menos adiposidade na frase: todo o adjectivo é uma ameaça sobre a frase, do que na frase: todo o adjectivo é uma ameaça adiposa sobre a frase.Uma palavra-adiposa é uma palavra que não avança. Uma palavra sofá. Andaime – O andaime é uma estrutura intermédia que existe durante o processo; e classicamente considera-se que deverá desaparecer no fim da obra. Claro que tal é um exagero. Ou seja: um erro. O que deverá desaparecer no fim da obra é o menos interessante. O final é o final, o melhor é o melhor.Os andaimes na literatura permitem-nos subir para depois agir num determinado ponto mais elevado do que o habitual. Sem andaimes toda a literatura seria feita pouco mais acima que a altur...  Ler Tudo >>

Dicionário técnico-literário dos Bloom Books - 1

[26-03-2009] | Gonçalo M. Tavares
A Abstracto – Toda a literatura é abstracta, concretas são as pedras. Não aceitar isto é aceitar a literatura como copiadora do concreto, como uma segunda mesa, ou uma segunda casa.A palavra casa (imaginemos que é a casa da Srª Gertrude), a palavra casa não é uma segunda casa da senhora Gertrude. A senhora Gertrude – pobrezinha - só tem uma casa: não a enganemos pois com a ilusão de uma segunda habitação. A casa – nesta ou em qualquer frase – é uma casa abstracta, ou seja: uma casa literária.A literatura não é uma cópia dos objectos do mundo: a casa não é casa, e a mesa não é mesa. A literatura tem objectos próprios, completamente distintos dos que existem na vida dos vivos. Não confundas um escritor com um arrumador de mobílias.   Acumular – Não se devem acumular ...  Ler Tudo >>

Linguagem e Matemática II

[17-02-2009] | Gonçalo M. Tavares
Voltemos à linguagem fraccionada – disse o senhor Perec. - Esta linguagem fraccionada poderá ser muito útil nas frases burocráticas e legais, onde o que se visa é a objectividade absoluta e a eliminação de qualquer dúvida de interpretação, mas também pode ser importante para a poesia. A palavra com a ponderação matemática certa – disse o senhor Perec - é também exemplo perfeito de uma mestria na arte da linguagem, inseparável do homem-poeta.Um exemplo:Os sinais bateram/73 sobre a mesa/2 e o poeta soube interpretá-los, pegando/73 neles com a minúcia que só o entendimento da beleza dá.Isto é (tradução da linguagem fraccionada para linguagem corrente): Apesar dos sinais do mundo baterem tão suavemente (como é o bater/73) sobre a pequena mesa (mesa/2) o poeta soube pegar neles (nos sinais) com delicadeza de pormenor (pegar/73), pois havia sido treinado durante anos a governar de modo eficaz os raros momentos de beleza que os dias, por vezes, têm. Na mesma linha de raciocínio (fracção como ...  Ler Tudo >>

A água e a sua força (cont.)

[20-01-2009] | Gonçalo M.Tavares
De novo na casa de banho, olhou para o fundo da sanita e viu a pedra exactamente no mesmo sítio. Olhou-se ao espelho. Numa prateleira, entre outros objectos, uma máquina de barbear. Esboçou um sorriso estranho, nada racional. De repente, pegou na lâmina de barbear e passou-a com força pela face do lado esquerdo. O sangue surgiu de imediato. Fez o mesmo do outro lado da cara. Duas passagens rápidas, forçando a lâmina contra a pele; sangue de novo, agora bastante mais. Pousou a máquina de barbear e parecia agora não saber o que fazer. Está em casa, mas está perdida. Fixa-se de novo na pedra que permanece no fundo da sanita. O sangue do lado direito da cara escorre para o pescoço. Ela afasta o roupão, senta-se na sanita e começa a urinar. Agora, naquele momento preciso, alguém começa a tocar repetidamente à campainha da porta, alguém que está desesperad...  Ler Tudo >>

A água e a sua força

[19-12-2008] | Gonçalo M.Tavares
Alguém atirou uma pedra da rua e partiu o vidro da janela. Lá de fora ouve-se:- Puta!depois não se ouve mais nada.A princípio ela não se mexeu. Sobre os pés, mas como que suspensa. A dois passos dos vidros partidos da janela ganha coragem para começar um movimento.Obrigou-se a fazer qualquer coisa. Instintivamente, o primeiro gesto que fez foi baixar-se para agarrar a pedra. Depois de a ter na mão dirigiu-se à casa de banho, levantou o tampo da sanita e deixou-a cair lá para dentro. Qualquer coisa se partiu mas ela estava demasiado longe dali para se importar com sons tão pequenos e estragos tão insignificantes.Puxou então o manípulo da água. Queria fazer desaparecer pela sanita aquela pedra. Quando a água acalmou ela viu a pedra ainda imóvel sobre o fundo branco. Olhou longamente para a pedra. Não era grande. Tinha arestas irregulares e um tom cinzento que n&at...  Ler Tudo >>

Na auto-estrada podemos guiar mais rápido II

[13-11-2008] | Gonçali M. Tavares
(continuação do texto anterior)Fascinada pela neve, ela continuou a aproveitar o toque na cara dos flocos que ainda não haviam derretido. Depois, de súbito, parou, como se o marido só naquele momento tivesse falado.  Porém, ele estava já ao pé da porta. Os olhos cansados, mas esforçando-se para parecerem felizes, para parecerem corajosos, para parecerem mais novos. Mas os olhos estavam velhos.tenho de irdisse ele novamente.estão à minha espera.A mala, agora esquecida, continuava em cima da mesa.Ele disse:não venhas até à portaE depois disse:faz-te mal.Ela, parada a meio da sala, fez uma breve declaração de amor usando só uma palavra. Ele abriu a porta e saiu. Ele - o marido, agora longe - e um amigo estão numa casa de banho pública no meio da auto-estrada. Sobre a visita à mulher o colega nada havia perguntado. Há coisas que n&atil...  Ler Tudo >>

Na auto-estrada podemos guiar mais rápido

[23-10-2008] | Gonçalo M. Tavares
 Neva abundantemente lá fora. Ela vê a neve, à janela, e sorri um pouco, com esforço.Daí a instantes começa a vomitar de novo. As convulsões do corpo impressionam. É incontrolável. O vómito é espuma, não há carne, às vezes sangue, raramente uma coisa sólida.Ela encontra-se no meio da sala. Os pés tremem e algo dentro da cabeça bate contra o crânio. Sente-se tonta. Aproxima-se lentamente de uma cadeira e ainda mais lentamente deixa-se cair.De súbito, o barulho de uma chave na porta. Está sentada, vira-se. É ele, o marido, e traz uma mala na mão direita. Como estás, perguntou; ou então ele, o marido, não disse nada - só olhou.Mesmo que tivesse existido pergunta, ela não precisava de responder. O cheiro a vómito sente-se. Ele olha para a casa de banho e sorri. Depois, na casa de banho, p&otild...  Ler Tudo >>

Linguagem e Matemática

[07-09-2008] | Gonçalo M. Tavares
  Contra-linguagem. Pensemos no simétrico nos números, como o número negativo –2 em relação ao número positivo +2. Em primeiro lugar, poderá parecer que há números negativos, mas nunca palavras negativas. Porém, podemos pensar nisto, por exemplo: existe a palavra terra e poderá existir a palavra negativa –terra. +terra – terra = zero (0)-cão + água + copo = copo com água sem cão. (Ou: copo com água à espera de cão).Explicando: -cão não é igual a zero ou a silêncio. Significa, sim, que o cão está ausente. Isto é: ameaça estar presente. Designar uma ausência específica, particularizá-la, é designar uma possível presença.Portanto: qualquer palavra, afinal, pode ser pensada como tendo um negativo:mesa e -mesa (retirámos a mesa da sa...  Ler Tudo >>

A prisão do autor, sobre o livro «A Prisão do ético», de Paulo Rodrigues Ferreira

[25-05-2009] | valter hugo mãe
Chegou-me às mãos há poucos dias o livro deestreia de Paulo Rodrigues Ferreira, um jovem nascido em 1984, natural de TorresVedras, a viver em Lisboa que, depois de editar um breve e-book com chancela daMinguante, entra magnificamente na Livrododia Editores. «A prisão do ético»assim se chama este que considero o anúncio de um autor a não mais perder devista. São cerca de 120 páginas de textos curtos, divididos em duas partesdistintas, «O livro de Pedra» e «Criaturas», que acusam uma destreza admirávelna criação de uma obra que traz ao de cima a ficção com tom de crónica ou breveensaio, assim como criando uma filosofia da escrita e do saber que não perdenunca o pendor atractivo do conto (do micro-conto, como se diria no Brasil). É fácil de referir a obra de Gonçalo M. Tavares quandose pensa sobre esta de Paulo Rodrigues F...  Ler Tudo >>

O lugar do acolhimento, sobre a pintura de Isabel Lhano

[27-04-2009] | valter hugo mãe
O trabalho de Isabel Lhano tem sido sempre o defranco acolhimento do seu interlocutor, procurando criar empatias e afectos quese fundem numa visão positiva e libertadora da vida. A benignidade que inspiraa maioria das suas telas é sobretudo uma atitude ética que procura no homem umaredenção – embora muito pragmática, terrena e não mística –, claramenteresultando numa estética do belo, como anteriormente já escrevemos. Acompanharo trabalho desta pintora tem sido um exercício de crescente entusiasmo, queadvém do facto de a encontrarmos em constante procura de um novo modo de exporas suas magníficas capacidades técnicas no encalço de complexas representaçõesda figura humana, sempre presente, sempre entronizada, seja a partir da suarobustez, seja a partir da sua delicadeza. A recondução do processo aos extractos do corpo, como diria Bernard No&eum...  Ler Tudo >>

Declaração de Amor a Maria do Rosário Pedreira, no dia de S. Valentim de 2009

[14-02-2009] | valter hugo mãe
Não tenho outro modo de começar um texto abordando, ainda que brevemente, a poesia de Maria do Rosário Pedreira sem dizer de imediato que a amo, à Maria do Rosário e à sua poesia, inequivocamente. Por mais inusitada que seja uma apresentação assim, é a mais pura verdade, e a verdade tem tudo de científico, como é bom de entender. Cientificamente, posso agora explicar que quando o meu ex-sócio numa aventura editorial me disse que tínhamos visita marcada à casa desta poeta, eu glorifiquei o dia em que o conheci porque andava com o volume A casa e o cheiro dos livros atravessado no coração há muito e não havia maneira de o tirar ou fazer com que me queimasse menos. A Margaret Atwood diz que querermos conhecer um autor porque se gosta de ler os seus livros é como querer conhecer um pato porque se gosta de foi gras. Mas eu, que adoro a Margaret Atwood, acho qu...  Ler Tudo >>

Fruto maduro, sobre «Carreira do Fruto» de Juan Carlos Reche

[10-02-2009] | valter hugo mãe
Não podem deixar de ser evocados os nomes de Eugénio de Andrade, Al Berto e Luís Miguel Nava depois da leitura do livro de Juan Carlos Reche que a Quasi publicou. Há uma solaridade marinha e uma tonalidade sapiente que, aliadas a uma cândida resignação ou difícil esperança, tornam os poemas um lugar muito sensível, delicado, como poucas vezes resulta assim.Claro que falo de um poeta espanhol (Córdova, 1976) e que as suas referências mais directas talvez devessem ser encontradas na abundante e maravilhosa poesia do seu país, mas é por esta comunhão de estéticas, esta sintonia grande com a que pode ser também uma tradição poética portuguesa, que me compadece verdadeiramente a leitura deste livro. Juan Carlos Reche coloca-se, belissimamente traduzido por Pedro Santa María de Abreu, como alguém que nos diz respeito pelo lado mais íntimo: o modo de sentir; um modo de sentir ibérico, arriscaria agora. Acontecem versos simples – daqueles aparentemente simples, quero eu dizer –, versos que par...  Ler Tudo >>

Câmara de Lobos

[05-02-2009] | valter hugo mãe
É preciso que se mude urgentemente na cabeça dos portugueses o modo de pensar em Câmara de Lobos. Se outrora aquele foi o lugar de tantos receios, hoje como que emerge de uma segunda forma para se apossar dignamente de um imaginário romântico que envolve a braveza das suas gentes com a passagem impressionada de ilustres visitantes num espaço geográfico belíssimo, como é apanágio da ilha da Madeira. Câmara de Lobos é ilha outra vez por se fortalecer admiravelmente contra tudo quanto desfavoreceu aquele lugar e gentes durante tanto tempo, criando infra-estruturas de primeiro nível, bem como devolvendo à luz do dia os caminhos mais escuros – e, ao mesmo tempo, mais apetecíveis – do concelho. Neste sentido, Câmara de Lobos demonstra a capacidade rara de se regenerar através de intervenções em que a vanguarda da arquitectura e da engenharia vão ...  Ler Tudo >>

Nenhum perdão ao leitor - sobre «Para que ninguém sobreviva ao perdão», de Pedro Gil-Pedro

[20-01-2009] | valter hugo mãe, valter hugo mãe
Há uma violência fundadora de toda esta poesia, uma preferência clara pelo enunciado como evocação impiedosa, ainda que colorida por expressões que, por vezes imediatamente pela fonética, induzem a uma ideia de beleza. Sim, também estaremos no domínio do belo grotesco, o fascínio nada raro que tanta literatura e autores nutrem pelo lado negativo da vida e que leva a uma estética do escuro, visceral e eloquentemente assombrosa, como se da evocação das verdades primordiais e proibidas sempre se tratasse. Mas antes da beleza, ainda que grotesca, gostaria de frisar aquela ideia da violência como ambiente ou mensagem fundamental. É que o tipo de discurso desta poesia, a expressão difícil e feita de palavras desusadas, especializadas ou metaforizadas, é já por si um acto de violência, assumindo o papel do poema mais pelo lado da rejeição do leitor do que pelo seu acolhimento. De facto, a atracção que os poemas hão-de exercer sobre nós radica em dois propósitos: essa ilusão primeira de um cer...  Ler Tudo >>

2008 em miúdos e de modo parcial

[05-01-2009] | valter hugo mãe
20 livros em 2008 «O arquipélago da insónia», de António Lobo Antunes, Dom Quixote «O amante japonês», de Armando Silva Carvalho, Assírio & Alvim «Um dia na praia», de Bernardo Carvalho, Planeta Tangerina «Logo, em Porto Formoso», de Carlos Mota de Oliveira, edição do autor «O filho eterno», de Cristóvão Tezza, Editora Record «Metal sem húmus», de Dércio Braúna, 7 Letras «Não é preciso gritar», de Eduarda Chiote, Campo das Letras «O Senhor Breton e a entrevista», de Gonçalo M. Tavares, Editorial Caminho «A faca não corta o fogo», de Herberto Helder, Assírio & Alvim «As 3 vidas», de João Tordo, Qudinovi «Efeito Borboleta e outras histórias», de José Mário Silva, Oficina do Livro «A viagem do elefante...  Ler Tudo >>

Maldoror de Lautréamont visto pelos Mão Morta

[17-12-2008] | valter hugo mãe, valter hugo mãe, valter hugo mãe, valter hugo mãe
O rock português encontra nos Mão Morta o seu caso mais estruturado. Nenhum outro projecto alia, com a mesma destreza, a aposta permanente no risco – e o rock tem de ser arriscado –, à garantia de qualidade. Com estas duas premissas, a de não sabermos nunca o que vão fazer a seguir, e a de ser certo que o que farão não nos desiludirá, a banda justifica uma longevidade invejável e tem de orgulhar-se do culto manifesto que permanece numa segura legião de fãs. Ao longo de quase 25 anos de percurso, os Mão Morta criaram um sem número de temas que, dentro do underground possível num país pequeno como o nosso, e por vezes até no mainstream, ficaram a representar as novas gerações, influenciando tantos outros artistas, e não apenas músicos (e por favor deixem-me já incluir neste contingente). Fizeram-no pela eficácia das suas composições, obviamente, mas parece-me inegável que o que blindou estas composições e as foi tornando infalíveis passa pela inteligência conceptual que o grupo soube pre...  Ler Tudo >>

Génios Casmurros, ou os Tindersticks ao vivo em Genebra, 6 Dezembro 2008

[09-12-2008] | valter hugo mãe
É claro que os Tindersticks estão bem mais velhos e já passam grandemente pela fase casmurra de não quererem revisitar insistentemente os antigos êxitos, sobretudo para nos obrigarem a entender que as canções dos últimos discos também são excelentes. Bem, vamos a ver, não são tão excelentes quanto as antigas, e algumas até são más, mas, nas cabeças desta gente outrora e momentaneamente genial, voltar ao passado e viver dessa glória é render de modo humilhante, pelo que o concerto da banda no passado dia 6 (de Dezembro), na célebre Usine de Genebra, foi uma longa caminhada por coisas boas e alguma treta dos discos recentes até que, para gáudio do público fanático, se chegasse à razão, para o fim do espectáculo, com a interpretação de «She’s Gone», «My Sister»...  Ler Tudo >>

O homem que vê sereias, sobre As Sereias do Mindelo, de Manuel Jorge Marmelo

[04-12-2008] | valter hugo mãe, valter hugo mãe
Aquilo de que mais gosto nos livros de Manuel Jorge Marmelo é o embaraço da alma humana na sua perspectiva mais auto-consciente e crítica de si mesma. O ímpeto do indivíduo como seu pior inimigo, desmotivando-se e esperando de si muito menos do que seria de esperar.O embaraço será uma palavra adequada para definir o constante da frustração na figura do narrador, personagem principal, deste As Sereias de Mindelo. As situações descrevem-se pelo seu cariz mais inconsequente e quantas vezes casual, acusando sempre uma inércia grande e até uma convicção de que valerá pouco qualquer tentativa para a felicidade porque, ab initio, não são para si as glórias. Nesta elaboração disfórica do narrador, que significativamente é um escritor, reside o grande trunfo deste livro que, mais do que importar por ilustrar as capacidades sedutoras das mulheres cabo-verdianas, importa pela ironização do papel do escritor, aqui despido de qualquer crédito ou honraria.No excesso de auto-consciência de que falei,...  Ler Tudo >>

O Voo Ordinário do Odor e das Transparências

[11-05-2009] | Vanessa de Oliveira Godinho
Estava tudo tão transparente! Deitou-se no suor da pedra e adormeceu. A pequena ponte de madeira, os chinelos, o aguado sal do mar, olhavam a baía de Luanda de olhos semicerrados. Dali a um bocado poderia chover.  As chuvas de Abril nem sempre eram de gotas mansas, poderia descer daquelas nuvens de algodão, não apenas peixes voando à sombra de pássaros caçadores, poderia cair daquelas nuvens limpas, uma cascata de aguas cinzentas e ruidosos rugidos de vento. Mas a hora ainda não era mais, do que uma vaga possibilidade. Por isso deixou-se ficar deitada na ponte, rodeada da música calma dos barcos e de um céu vagamente sonolento.  Um sabor delicado a alperces soltou-se-lhe da blusa. Sabor atrevido, com raízes de trepadeiras e asas de pelicano, ensaiou um voo por cima do barulho das gruas, colorindo de laranja os tons tardios da tarde.  Passou o tempo, tão devagar, no rosto do sol. Troca o p...  Ler Tudo >>

Livro do Desejo - primeiro capítulo

[15-09-2008] | Casimiro de Brito
Arte regendus amor.Ovídio.Quando o amor te acenar...segue-o.Khalil GibranA morte não existe.Tudo é sexo e canto.Livro das QuedasCAPÍTULO IA terra é feminina“As vossas mulheres são para vós como a terra.” Alcorão, II, 223. A terra é feminina, a terra é caótica e pertence, naturalmente, ao reino das mulheres. Floresce nelas o enigma do mar. A morte ao vivo. O mundo pertence à morte. Quando nasci já estava feito. Perfeito. Preparado para a morte — para regressar ao caos. A este caos vivo em que vivo e raramente se vê. Havia que regressar atrás e o caminho era e continua a ser o corpo ardente e húmido das mulheres. São elas quem, mais do que inspiram, escrevem o que vai ser, eu não sei, este livro.Regresso, anos depois, ao meu diário. Quantas vezes me caiu o coração? Deixei-o em deriva e assim o quero. Vivi tormentosas sepa...  Ler Tudo >>

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24-27 Fev. 2010, Póvoa do Varzim
Pedro Teixeira Neves

Um texto de Milton Fornaro

Ainda as Correntes, como entes queridos a delirem-se devagar no ferro dos dias, na estranheza da ausência. Eis o belo texto aí lido pelo escritor uruguaio Milton Fornaro.CADA PALABRA ES UN PEDAZO DE NOSOTROS MISMOS  “Dijo Dios: ‘Haya luz’, y hubo luz. Vio Dio...  Ler Tudo >>
[03-03-2010]  |  ptn
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Cervantes, Gargantas e Pitos

Regressa-se da Póvoa e sentimo-nos mais pobres. Em casa, voltamos a ligar a televisão à hora dos telejornais, o mundo, como um aluvião de desgraças, invade-nos a sala e os ouvidos. Regressam, pela manhã, as filas de trânsito, as filas congestionadas de...  Ler Tudo >>
[02-03-2010]  |  ptn
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coisas assim na retina acorrentadas

A bonita lembrança de Rosa Lobato FariaO vento destas CorrentesO capacete mineiro de Manuel da Silva RamosA Barbie com defeito de produçãoAurelino a tocar e a dizer poesiaA incrível história de Malangatana descendo de um hotel pela janela na horizontalPorque foi t&...  Ler Tudo >>
[28-02-2010]  |  ptn
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Acorrentados - 5

Quatro da manhã. Lá em baixo ainda anda gente... (cantaria o Sérgio Godinho) São os resistentes das Correntes. É a última noite, a já famosa noite de sábado. Aurelino vai a casa buscar a guitarra. Falta-lhe um espanhol para o quadro ficar compl...  Ler Tudo >>
[28-02-2010]  |  ptn
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Livros, alguns livros

Os lançamentos de livros são um outro must das edições das Correntes. O ano presente não escapou à regra e muitos têm sido os livros aqui apresentados em primeira mão. Eis alguns deles: Manuel da Silva Ramos lançou «Três Vidas...  Ler Tudo >>
[27-02-2010]  |  ptn
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As Correntes nas Escolas

O título deste post parece coisa de antanho, que de «correntes» em escolas já lá vai o tempo. Isto, descontado o aparte de hoje em dia muitos professores se sentirem acorrentados às escolas, mas isso por via de outros quinhentos para aqui não chamados. ...  Ler Tudo >>
[27-02-2010]  |  ptn
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Acorrentados - 4

1.       Afinal, o Papa morreu ou não?2.       O Onésimo, já chegou?3.       E o Albano Martins, nunca foi convidado?4.       Sabias que ele era primo direito ...  Ler Tudo >>
[26-02-2010]  |  ptn
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Pedra a Pedra... a poesia, os poetas, as pedras

Leitura do texto desenvolvido a partir do mote:«Pedra a pedra, o poeta constrói o poema» algumas aproximações entre pedras, poemas e poetas: O poeta monumenta as emoções; por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais.O poet...  Ler Tudo >>
[26-02-2010]  |  ptn
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Acorrentados 3

Dia de trabalhos forçados para este escriba aqui na Póvoa. Presença numa mesa de debate pela manhã, ao meio-dia e picos lançamento de um livro, à tarde encontro numa escola preparatória (ébês, como lhes chamam hoje…) de Rates. Agor...  Ler Tudo >>
[25-02-2010]  |  ptn
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Acorrentados - 2

Não está fácil, confesso que não está fácil. A edição das Correntes deste ano parece-me com dificuldades em impor o seu ritmo habitual. Talvez seja do mau tempo que por aqui se tem abatido, talvez seja das muitas caras novas ainda pouco à...  Ler Tudo >>
[25-02-2010]  |  ptn
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Correspondências

Porquê Portugal? Exemplos de uma existência inspiradora

Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado &ndash...  Ler Tudo >>
[18-02-2010]  |  Susana Leite, em Leipzig
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Cuentame un cuento

Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square.  Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma se...  Ler Tudo >>
[11-02-2010]  |  Kátia Gerlach
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Adeus migrante

A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado.  Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por nat...  Ler Tudo >>
[09-02-2010]  |  Kátia Gerlach
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“Ora ouve…”

Entre Osnabrűck e Porto, que paralelo biográfico melhor para se ler Ilse Losa na direcção contrária àquela que ela geograficamente deu à sua vida. Uma vida que na tragédia da História da Alemanha encontrou porto de abrigo no Porto de onde eu provenho e que nessas trocas interculturais perdeu ou...  Ler Tudo >>
[12-01-2010]  |  Susana Leite
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Brooklynites

Artistas plásticos, músicos, poetas e escritores encontram no Brooklyn refúgio e cenário e dali partem para expedições ultramarinas na Califórnia, na Índia, na França, na América Latina, na África, a book tour perhaps.  Discussões literárias, conversas boêmias, propostas, idéias para livros em ebuli...  Ler Tudo >>
[18-12-2009]  |  Kátia Gerlach
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1º aniversário - depoimentos

Sofia Bragança Buchholz

Tem-se assistido a uma vitalidade do livro, apesar de tantas vezes ter sido profetizado o seu fim. Em vez de desaparecer, ele tem encontrado novos formatos e beneficiado com esse grande canal de divulgação e de distribuição que é a Internet. O mesmo seria inevit&aa...  Ler Tudo >>
[15-09-2009]  |  Sofia Bragança Buchholz
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CENTRO NACIONAL DE CULTURA
Parceria

A VIDA DOS LIVROS - de 8 a 14 de Março de 2010

Alexandre Herculano nasceu há duzentos anos, a 28 de Março de 1810. Assinalamos a efeméride, recordando a obra de António José Saraiva, “Herculano e o Liberali... 
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[08-03-2010]  |  Guilherme d'Oliveira Martins
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Espaço editorial

Espaço reservado a eventual Parceria.... 
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[28-10-2008]  |  Vítor Coelho da Silva
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Literatura Popular
Literatura Infanto Juvenil

Brainstorming: água – chuva: chuva – nuvem; nuvem – céu; céu – terra; terra – mar; mar – rio; rio – fonte; fonte – sede. Água.

Quadras de Felícia Festas Hortinhas (natural de Évora): É um bem essencialCai do céu nasce do chãoDá-se a todos por igualNão fazendo distinç... 
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[17-02-2010]  |  Fala de dois poetas populares alentejanos
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LOBISOMEM

Acreditar em mitos e lendas na era da técnica, da tecnologia e da suspensão do maravilhoso: dois textos de quem não perdeu a capacidade de se espantar…  o poeta brasileiro Carlos Alberto Pessoa Rosa[1... 
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[18-12-2009]  |  Maria João Brinquete
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Passo o tempo com a enxada na mão…

Poesia Popular à maneira tradicional: Uma décima[i] do poeta popular alentejano Domingos José Pinto[ii], onde se narram os esforços hercúleos de um hortelão para defender o seu território de uma prese... 
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[26-10-2009]  |  Maria João Brinquete e Paula Sande, Maria João Brinquete e Paula Sande
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Cuidado com a língua! De acordo?

Recomeça hoje, na RTP1 (às 21h18), o programa Cuidado com a Língua! Uma ideia de José Mário Costa (responsável pelo Ciberdúvidas). Uma bela maneira de pôr os miúdos (e os outros) a pensar na língua po... 
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[01-03-2010]  |  Letra Pequena                                                  Ver Mais >>
Vídeo

Rita Ferro - 4 & 1 QUARTO

4 & 1 QUARTO conta a história de um casal que, num momento de desejo ou tédio, esquece as convenções para atrair à intimidade um homem e uma mulher. São quatro numa cama, como se fosse natural. Mas não será sempre natural, o sexo? E mesmo que fosse: brutalizará ele o amor? Aqui, as duas mulheres revivem um segredo da puberdade, os dois homens descobrem-se e atrevem-se, e, embora extraviando-se da identidade e da pertença, jamais se perdem do Amor.

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