A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNETliteratura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa. Luís Carmelo, Coordenador
, de espíritos zombeteiros, o calor provoca visões, e o fogo não é pouco, banquete de inesperados, improvisações e reações caóticas, tanto melhor para esquecer da própria sombra, diante do trágicoPessoas perdem o compasso, a reza, a ladainha. Olhos esbugalhados e presos à tragédia; aguçados no próximo lance. Jogo e suspense. Sobremesa de escravos. A mulher mirrada de corpo, mas de seios fartos, tapa os ouvidos com as mãos. Faz expressão de pavor. Um velho espalma a mão direita sobre a testa e não para de repetir: Meu Deus! Muitos continuam os passos de retorno para casa. Nem um olhar para cima... Ignorar os imprevistos afasta a ideia da morte. Muitos rezam, alguns choram... Um sujeito sorri. Estranhamente... Empurra-me com o corpo e me agride com o cotovelo tão logo percebe meu interesse pelo sorriso. Vamos, deixe-me passar, seu idiota! Acerto o prumo, realinho o corpo. Por que sorria? Qual seria o prazer sentido ao ver labaredas carbonizando gente? Adorador de desgraças... De velórios...
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O que menos se vê na imagem é o objeto da propaganda. Até o momento, sou o único a perceber. Um estouro seguido do ruído de vidro estraçalhado na calçada desencadeia uma onda de pânico e correria. As pessoas refugiam-se no interior dos prédios e bares. Um amontoado humano começa a se formar diante de mim. Além da fumaça, há chama. O fogo lambe as bordas da janela sem vidro. Observo o sentido e a força do vento. Vai piorar... Nada a ver com meu costumeiro pessimismo. Um homem refugia-se no parapeito de uma das janelas. Está sem camisa e gesticula desesperado. O incêndio deve ser maior que o percebido. Um grupo escreve uma mensagem no asfalto: paciência, Deus é pai. Somente os órfãos procuram os pais. Onde foram arrumar a cal? Penso ter ouvido um palavrão... Deve ter vindo de lá, do parapeito, o impropério. Trazido pelo vento. O homem deve sentir na pele um calor dos infernos. Nessas horas, vasculha-se a memória à procura de algum pacto com o Diabo. Com banqueiros fez alguns, ainda não l...
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A mesma ladainha, sempre, nas manhãs, às tardes e às noites. Não se cansam de rezar o terço; um ângelus. Palavras que já não dizem... Apenas sonoridades desnudas de espírito. Celebração coletiva do que morto. Ao alcançar o comum através de palavras mortas, deixo de me sentir um estrangeiro. Por que a necessidade de escrever? Quando me fazem essa pergunta, e sempre fazem essa pergunta idiota ao escritor, digo que é para afastar o que a existência plantou em minha mente e acreditar que sou um sujeito igual a todos os que me cercam, que cantinelas me convencem que não sou um doente. Funciona como uma terapêutica temporária, melhor que os eletrochoques que me aplicaram, ou as drogas que amarram e anestesiam os dentes. Não ser espreitado, martirizado e atormentado pela depressão evita as cercanias da morte., mas enquanto não me decido, um fato, entre tantos acontecimentos, aguça em mim a ideia de que haverá um banquete anárquico ao redor, será uma noite orgíaca e mareante, recheada de fanta...
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, zoa na cabeça o rumor da rua... ruídos ao redor de uma monótona depressão que me desfaz em cozimento lento, até me decidir pelas cinzasBuzinas, freadas, xingamentos, gesticulações obscenas... Cruzamentos me atraem. A disposição em cruz sempre me fascinou. Ao tornar-se insuportável o mal-trato provocado pela doença, refugio-me em alguma intersecção existente na cidade. Nessas horas necessito de confusão e tumulto. Atenua o luto. Pesar sem morte. Ninguém morreu. Nasci com um véu negro agarrado à alma. Os de branco dizem de problemas químicos... Mas não resolveram meu problema com seus delírios sobre sinapses. A aflição me fragmenta. De tal modo me despedaça que não consigo escrever. Então, pego os cacos, e saio. Você poderia não acreditar... Balbúrdia e confusão abafam meus enterramentos. A rua me devolve uma certa linearidade. Essa falsa linearidade que rouba os ciclos da psique. É o suficiente para me suportar e escrever. E as pessoas gostam de orar no mesmo breviário. (continua)...
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Abri as pernas e descansei meu sexo sobre o dele, ajoelhada na cama. Tinha os ombros largos, o tórax escondido em pelo negro e retorcido, fechado até o pescoço. Mantinha a barba sempre bem–aparada. Grossas e negras sobrancelhas acentuavam os serenos grãos dos olhos. Pouco a pouco, fui movimentando meu corpo, oscilando-o como um pêndulo, para frente e para trás. Desejava engolir seu pênis, ajeitei-o com as mãos tentando enfiá-lo na vagina, mas estava mole. Mesmo assim, sentia seu órgão e as bolas. Meu corpo continuou sua dança, um ritual noturno e desconhecido, até o calor que subiu em minha cabeça e roubou o controle da voz e dos movimentos. Caí pesada sobre o cadáver. Úmida, como nunca experimentara. Fui até o banheiro. Urinei aliviada, observei-me no espelho um bom tempo. Que sorriso estranho era aquele que experimentava? Fiquei uma hora no banho e saí.O Sol começa a sorrir entre as nuvens, acho que não vai chover. Não me arrependo de nada, podem acreditar. Sem impotência, sem culpa,...
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Brigávamos diariamente. Eu abandonava a criança em qualquer canto escuro, divertia-me ver o homem suando o corpo sobre o meu, incontido e perverso. Não gozava, negava-me a fazê-lo, o que o incomodava muito. Dizia nunca saber com quem conversava, que cada dia eu agia de um modo e não me entregava na relação. Verdade, eu bem o sabia, mas não queria mudar absolutamente nada. Hoje a briga foi pior, ameaçou abandonar-me caso não procurasse alguma ajuda. Tentei-lhe dizer que não havia solução, que não o deixaria usar meu corpo como bem entendesse. Pela primeira vez, levantou-me a voz e os braços. Corri para junto da parede. A boca e as mãos ameaçavam-me, tentavam arrancar-me do lugar. Não sei como fui capaz, o vaso estava próximo. Quando percebi, seu corpo estava caído no chão, o sangue escorria em seu rosto, havia estilhaços de vaso espalhados no tapete. Apalpei seu pescoço e coloquei a mão em seus lábios.Dirigi-me ao banheiro, molhei a toalha com água morna e limpei o sangue que escorria d...
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Um dia, haveria de acontecer. Mesmo uma tarde como a de hoje tem suas surpresas. Assim é a vida, e comigo não poderia ser diferente. Tenho de aproveitar o pouco tempo livre, logo estarei trancafiada em alguma cela fria e escura. É só chegarem em casa e constatarem o ocorrido. Com certeza, acostumada que fui com os cantos frios e escuros, não sofrerei. Lá atrás ficou o homem que de algum modo descobriu a morada da criança perdida no passado, entrou em sua escuridão, apalpou sua mão e seu corpo, atraiu-a com a compreensão e as palavras que nunca ouvira dos pais. Quando conseguiu torná-la adulta, decidiu tomá-la para si. Alma sem corpo. Aí errou. Havia em mim uma menina, portanto, não cederia meu corpo a ela. Não queria aquele passado na matéria presente. (continua)...
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Não me lembro o dia em que a mãe começou a sorrir somente nos lábios. Tudo foi ocorrendo muito devagar. Um estranho olhar desligava-a das coisas da vida. Hoje, praticamente não brigam, perderam as forças, remoeram tanto que sobraram apenas fragmentos. Sabe-se lá o motivo de terem permanecido juntos. O pai deve ter alguma mulher por aí, está sempre ocupado com reuniões. Ela não cobra mais nada, mesmo sabendo que ele mente. Não há ciúmes ou ódio. Destruíram a vida deles e a minha foi de roldão. Morreram, estão mortos e não sabem, não perceberam, não lhes disseram. Procurei morar bem longe deles, imaginei que os momentos desagradáveis ficariam fechados em algum baú do sótão. Mas eles insistem em me trazer as lembranças, não se recordam do mal que me fizeram. Ela tentou de todo modo anular a mulher que nascia, procurava defeitos em meu corpo e apoiava o velho. Ele bem que tentou aprisionar-me em casa, chamava-me de vagabunda, mas nada conseguiu. (continua)...
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Mas meus pais gozavam. Verdade, apesar de tudo, eles gozavam. Depois das discussões, levavam-me para a cama, acariciavam meus cabelos em silêncio e beijam-me. Tão logo deixavam o quarto, limpava o rosto com a manga do pijama. Enojava-me ouvir seus gemidos. Eu morrendo, sendo massacrada, e eles renascendo em ciclo sadomasoquista. No início, amarfanhava-me junto às cobertas imaginando ser a continuação da briga, não queria perdê-los. Ao levantar, prestava muita atenção nos ruídos, somente me acalmava ao ouvir a voz de um deles. Não demorou à inocência dar lugar à realidade. Brigavam, trepavam e gozavam. Assim era. De manhã, quando os via deitados em sono profundo, o desejo era o de estarem mortos de verdade. (continua)...
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Eu permanecia horas assim, ocupando as paredes e as sombras, não o centro ou a luz; fugindo de todos, até escurecer ou alguém dar por minha falta. Acreditava que aquele seria sempre o último dia. Ilusão, sonho de criança, eles se repetiam em surto epiléptico. Assim o mundo passava, sempre do mesmo modo, do outro lado da infância, visto através de um periscópio invisível ou do interior de um trem em alta velocidade. Os adultos sempre me assustaram. É muito estranho sentir-me um deles; não sou um deles. Mulher formada, o corpo saiu da clausura, encheu-se de brotamentos, seios e pelos avançaram. Com os acessórios, não foi difícil camuflar a menina incriada. Tratava com chiste todos os que me desejavam, mantinha-os o mais próximo possível de meus cheiros para depois enxotá-los para bem longe. Usava a tática do derrotado. Pura vingança. A vontade era matar lentamente cada um que levava para a cama, gritar em seus ouvidos, enquanto agonizavam, o que fizeram comigo. O ódio não me deixava sent...
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Voltar à infância é perceber que o olhar da criança morreu. Que ninguém procure culpados ou liberem lágrimas. É de tal ordem a sutileza do processo que somente aqueles que têm um olhar crepuscular conseguem perceber. Adulto não vê tudo alto e grande, emergiu no mundo dito real, enterrou todas as metáforas do olhar infantil. Tentei soterrá-las... Mas, pelo menos para mim, o enterrado sempre voltou; nunca aprendi. Quando você menos espera alguém dedilha sons que devolvem a música e a imagem conhecidas. Então, uma transformação aterrorizadora deixa-o cara–a–cara com emoções disformes e violentas. Morre-se devagar, todo dia um pouco. E o grito nos leva até os cantos escuros, quebrantamos a estética das linhas retas das paredes. Acreditem, atrás de todas as portas há uma criança de cócoras fechada sobre si mesma. (continua)...
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Rondar em ruas ermas, debaixo de acúmulos de nuvens, de tarde parada de vento e cega de luz. Crepúsculo enevoado. Nos dias de briga, bocas e membros gesticulavam, mantinham corpo em aterrorizada mudez, encolhido em algum canto da casa ou atrás de alguma porta. O gato era o primeiro a desaparecer. Depois, sumiam os pássaros. As pernas moles não me tiravam do lugar. Tremulavam os dentes e os dedos. Dia desses, algo que vi devolveu-me a antiga sensação de nó na garganta. A mulher estava de cócoras, mãos tapando os ouvidos e pálpebras apertadas, uma contra a outra, em alguma dobra da cidade. O desespero estacionara ao lado dela. E como eu o conhecia! Com certeza, fugia de algum passado, de corpos que estavam muito acima do olhar de uma criança. Quem retornou à escola da infância, com certeza, teve sua curiosidade surpreendida por esse falso registro de perspectiva. Tudo sempre foi muito menor. Invadiu-me uma sensação terrível de dor e dó. Nenhuma química apagaria os pesadelos da estranha, ...
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Não consegui chegar na hora. Por que me olham desse jeito? Duas horas de atraso não poderia ser o motivo. Os telefones já funcionam. Alguns sondaram minha sanidade mental com perguntas inoportunas. Enchessem meu saco e tiraria todos do ar. Mais um dia de blecaute telefônico. Deixá-los sem comunicação, desesperados ante a possibilidade de terem que pensar. Enquanto não se acalmam, acomodo o guarda–chuva preto em um canto, coloco o avental branco que a pouco comprara em uma cadeira... Passarei o dia dedilhando o teclado do computador como se estivesse tocando a nona sinfonia de Beethoven. A realidade? Que se dane! Fim...
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Outros conversavam baixo, como se tivessem arquitetando um grande segredo. Dali sairiam novas ideias, novas revoluções, novas peças teatrais e novas paixões. Cinco horas... Uma claridade começava a escancarar o cenário da rua. O mundo ainda adormecido. Aos poucos, o bar esvaziava. Os garçons empurravam os últimos fregueses para fora. O homem da máquina registradora abandonara seu sonho. A poeta, seus óculos. Os músicos, seus instrumentos. Fui junto... No hotel, entrei em uma ducha fria. Lembrei-me da capa e da galocha que usava quando garoto. Uma borracha preta que não nos protegia da enxurrada. Por que pensava e sonhava essas coisas sem sentido? (continua)...
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Aceitou com a condição de que o próximo passo não fosse um convite para trepar. Aceitei o desafio. Falamos de seus poemas, coisas vagas e perdidas. Foi rápido, não demorou muito para ser requisitada pelo grupo. Subiu em uma mesa e declamou algumas de suas poesias.O tempo no seu valor real, curtido minuto a minuto, passou rapidamente. Os garçons trabalhavam com prazer. Fumavam seus cigarros sem culpas. Cantarolavam. O espaço embaçado. Alguns mais exagerados na bebida roncavam nos cantos. (continua)...
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Fora, muito raramente, um carro rasgava o silêncio, abria um cone de luz na escuridão. Ator, oito horas por dia... O chope chegou rápido, desceu goela abaixo sem obstáculos. Não demorou e as pessoas começarem a aparecer. Primeiro, um jovem atrelado a um violão. Parou uns segundos o olhar em mim. Em pouco tempo o silêncio havia sido substituído por uma confusão de sons. Barroco mesclado com roque e música sertaneja. A sensibilidade do artista para a falta de referências... O dedilhar de incertezas, do medo, da ansiedade... O sonho do coletivo... Um livro largado na mesa, sem que tivesse tempo de ver o rosto de quem o depositava: Po (e) tear. Devolveu-me o cenário. Chamei-a. Um rosto afilado. Lábios pequenos e olhos escondidos atrás de óculos escuros. Como se houvesse um olhar de poeta para a noite. Convidei-a para tomar um chope comigo. (continua)...
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Lá estava... Vazio. Atrás de uma velha máquina registradora o homem, olhar distante, não notou minha presença. Dois garçons conversavam no lado oposto. Um deles aproximou-se e guiou-me até uma mesa no fundo do bar. Bem ao meu gosto. Pegou um bloco retorcido e uma caneta do bolso de um jaleco amarelado e puído. Aguardou meu pedido. Sorri ao ver sua gravata fora de centro. Lembrou-me da cena ridícula do sonho. Percebendo, ajeitou-a. O ridículo sempre no olhar do outro, como um espelho. Perguntei-lhe se estava sempre assim, vazio. Disse-me que a casa logo estaria cheia, ali se encontravam músicos, poetas e o pessoal do teatro. Disse-lhe que também era um ator. Devolveu-me um sorriso irônico. E o que seria, perguntei-lhe. Com toda certeza um utivo insone, respondeu-me. Cada um com a sua marca. Onde teria percebido? Na roupa, na expressão, na forma de me pentear, no modo como entrei no bar, no m...
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Os corredores dos andares inferiores apresentavam-se vazios. A luz iluminava os números dos andares correspondentes. Falhou no segundo. Havia várias lâmpadas queimadas, corrimãos gastos, carpetes envelhecidos e empoeirados, no prédio. Não tinha nada a ver com a sala onde passara o dia trabalhando. Parou de frente a um grande saguão com seus sofás floridos e arredondados. Nenhuma alma acordada. Acostumado aos ruídos do ambiente, o recepcionista dormia profundamente. Deixei a chave do quarto sobre o balcão e saí. Encontraria algum bar aberto.Tudo deserto... Muito diferente de São Paulo que na mesma hora apresenta seu lixo, seu luxo e seus heróis. Havia um cheiro de fantasmas transitando pelas ruas, como nas velhas casas assombradas da infância. À minha frente o prédio onde passara o dia mexendo com memórias e programações. Todo o sistema telefônico em minhas mãos. A cidade emudecida. Durante uma hora. O desespero tomou conta da urbe. Senti-me um moleque travesso. (continua)...
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O mundo esfumaçado. Os objetos sem a precisão dos limites... Os óculos de grossas lentes devolveram-me a possível realidade. Nuvens flocadas. Um rebanho ao redor da Lua cheia. Eu na janela. Casarões antigos resistindo à verticalização da cidade. Mantinham um pouco de sua história. O que haveria para se fazer? Poderia ligar para a recepção e pedir uma acompanhante como se pede uma dose de uísque. Talvez, com a recessão e o medo das pragas do século, o preço já fosse o mesmo.Peguei a primeira roupa que a mala apresentou. Estava toda amarrotada. Como meu rosto, pelo cansaço. Quem estaria acordado a essa hora da madrugada para reparar nessas coisas? Saí com cuidado para não acordar os outros hóspedes. De nada adiantou. O velho elevador gritou suas engrenagens em todos os poros do prédio. Ecoou... A porta sanfonada chacoalhou sua presença. (continua)...
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O olhar cara a cara com o relógio. Uma hora da madrugada... A televisão chiando, o livro no chão, restos de cigarro caindo do cinzeiro... Essa sensação de ridículo com que acordara... Maldita insônia! O homem de avental branco e guarda–chuva preto entrando em uma opereta acordou-me. Era a terceira vez que interrompia o sono. Sempre o mesmo cenário e roupa. Qual seria o sentido? Antes eram os pássaros verdes sugados pelos bueiros. Depois um caderno aberto onde se viam signos desconhecidos. Agora...Não conseguiria dormir. Era sempre assim quando saía a trabalho, ausentava-me da família. Oitavo andar de um hotel de terceira, era o que a firma oferecia nessa época de crise. Era pegar ou largar. Ninguém largava nada. Segurava-se com unhas e dentes. (continua)...
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Quando o professor desapareceu de cena, sofreu muito. Morrera ou desistira. Quem poderia saber... Um cliente falou da internação. Visita-o sempre que pode. Hoje, também veio.Enquanto conversamos, o velho professor cisma nas dissonâncias: preto e professor; puta e preto; puta e literatura; latim e grego; irmã e sexo... Não levanta a cabeça. Deve acabar seu trabalho. Debaixo de figuras inumanas desenhadas em um céu azul. Cercado por um muro de mais de cinco metros de altura. Absorto de tudo. Lava compulsivamente um dicionário. De tempos em tempos, olhar perdido no delírio, balbucia desconexas frases: as palavras, eu preciso lavar as palavras antes de morrer, as palavras, preciso lavar todas elas... FIM...
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Fomos em turma. A casa ficava do outro lado da cidade. Vê-lo com uma garota foi estranho. Ignorou-me. Fez que não me conhecia. Os dias se seguiram normalmente. Nunca tocou no assunto. A mulher que lhe faz uma visita é a que vi sentada em seu colo. Rosaura. Também órfã. Expulsa do convento por práticas libidinosas. Foi a única que aceitou transar com o professor negro. Cobrava uma taxa extra. Hoje, se arrepende. Acabou gostando dele. Educado e carinhoso. Trepar mesmo era uma vez por semana. Nos outros dias declamava poesia e conversava muito. Aprendeu com ele o pouco que conhecia sobre literatura. Recebia livros de presente. Confessou-se apaixonada pelo professor de queixo geométrico. Nunca lhe disse. Sabia o seu lugar. Certos papéis na vida não se encaixam com casamento, afirmava. Gostaria de cuidar só dele, ter uma casa... Não forçou nada. Envelheceu. Hoje, inicia adolescentes nas práticas do corpo. Quem mais desejaria uma mulher enrugada pelo uso? (continua)...
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No início, ninguém percebeu. Não saía dos consultórios médicos. Acreditava morrer canceroso. Dizia a todos que paravam para conversar com ele que a saúde não ia bem. Dois anos nesse rosário doentio. Aos poucos, foram-se os hábitos pessoais. Relaxou no modo de se vestir e abandonou a estética do nó da gravata. A gola da camisa dobrou, a sujeira acumulava-se no terno e o desinteresse em se alimentar aumentava. Tremia ao pegar nas mãos das crianças. Esquecia-se dos resultados matemáticos e dos versos das poesias. Como declamava Gonçalves Dias! Deixou de lado os cadernos e as lições de casa. Paris era a capital da Argentina. Afastaram-no da escola. Piorou. Parou de comer. Emagreceu. Um dia, alguém deu por sua falta. Encontraram-no, fechado no quarto, olhar no teto e boca em desvario. O doutor confirmou a insânia e sugeriu internação. Como já disse, o homem não tinha parente. Nunca mais saiu. Eu o visitava todos os meses. Às vezes, encontrava a prostituta. Encontrá-la naquele local foi uma ...
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O professor de retórica fina, exigente com o significado de cada palavra, que vivia a nos corrigir, atualmente pouco fala. Parece-me que seu silêncio diz muito mais. Não arrisca e não joga com as palavras, desconfia delas e dos dicionários. Parou os movimentos dos braços quando me viu. Mas foi por pouco tempo. Apenas o necessário para um esboço de sorriso. A testa ficara mais larga com a queda do cabelo. Suava sobre a pele lisa e brilhante. As grossas e negras sobrancelhas, com torcidas de fios brancos, rodeavam os olhos encravados no rosto. O nariz bojudo e os lábios suculentos formavam a segunda imagem em seu rosto. O queixo quadrado e partido caía sobre o peito. Nunca conheceu a família. Foi abandonado na rotatória das irmãs de caridade. Aprendeu o latim e o grego. Bem que tentou a carreira religiosa, afastava o medo de enfrentar o mundo. Convenceram-no do contrário. Obstáculos da cor; sabia. Mas devia muito aos que dele cuidaram. Saiu com profissão e acerto de emprego. (continua)...
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Professor e preto; preto e míope. Foi indicação do governo; engoliram. Haveria opções? Estrangeiro não escolhia. Bem que tentaram, mas não conseguiram seu afastamento. A tolerância veio com o tempo. Pelo resultado alcançado com as crianças. Exigente, ele era. Os cadernos deviam estar encapados e limpos. Um para cada atividade. A cor da capa indicava a matéria: a vermelha, matemática; a azul, geografia; a amarela, português; a verde, história; a incolor, caligrafia. Caligrafia... Já havia me esquecido. Eu era muito bom. Não saía da prisão das linhas, respeitava a bitola dos trilhos, o que agradava ao mestre. Hoje, descarrilei, escrevo de acordo com meu humor, aprendi que a letra tem a ver com a personalidade. Algo atmosférico e pensante.(continua)...
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Os braços vão e vêm provocando um som opaco e úmido. O uniforme de um azul desbotado. Nome da instituição bordado no bolso. Da cintura para baixo, todo molhado. As mãos que esfregavam compulsivamente, de dedos longos e escuros, pegaram delicadamente nas minhas para ensinar as primeiras letras, matemática, história e geografia. Tudo muito certinho, pespontado. Alinhavado, nunca. Não se notavam as costuras em seu dia–a–dia. Homem de hábitos estranhos para os habitantes da pequena vila de trabalhadores da estrada de ferro, a maioria formada por operários portugueses e italianos.Não se casou. Mesmo querendo, ali não haveria pretendentes. Solteiro, enfrentou dúvidas quanto à sua identidade sexual. Orgulhoso, ganhou status no imaginário popular. (continua)...
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Não escrever corretamente uma palavra justificava registrá-la na lousa vinte vezes; não saber seu significado implicava como castigo dizer em voz alta todos os seus sinônimos dez vezes. Mas sabia retribuir com carinho os acertos. Muito didático. Comparava o uso errado e inadequado da palavra com uma superfície suja. Uma poeira roubava o brilho da folha de papel em branco. Irritava-se com nossos dicionários. Precisariam de uma boa lavagem, gracejava. Agora, envelhecido e arqueado, com uma crosta enegrecida rodeando o calcanhar, unhas encravadas em dores e sujeira, o antigo professor não desviava um só momento a atenção da tarefa. (continua)...
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Fossem normais os rostos, e as pessoas não se amontoassem no pátio do antigo prédio construído com tijolos à vista, não haveria dificuldade em deparar com meu velho professor primário.Depois de um ritual de entrada, quando homens, no uso de um poder delirante, inquiriam, perquiriam documentos e revistavam, encontrá-lo demandava abrir um corredor de olhares desconfiados, de palavras obscenas e voantes. Corpos encurvados entreolhavam-se e me tocavam esporadicamente com os dedos. Depois, atravessar o corredor de pé–direito alto, teto gótico antigo e assoalho vitrificado. Suportar o cheiro de éter vindo do ambulatório médico até o outro pátio, mais rústico e sem jardins ou calçamento. O chão de terra, curtido nos arrastos de pés descalços a rastejar em delírios. Cheio de tufos de grama maltratados. Para trás ficavam os fachos de luz...
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Ainda demorará algumas horas. O vácuo e o polímero. Disseram-me que seria a última espécie de autor existente. O que será da literatura, então? Fluxos aleatórios... De pensamentos... Não-pensamentos. Caóticos. Imponderáveis. Por isso mais verdadeiros e tolerantes? Apreender em nossos vértices... Interpretações interiores... O que sei sobre mim além do que estes parasitas escreveram? Pior, o que os vizinhos sabem de mim além do estereótipo criado? Somos o mistério... Sou uma câmera, diz o narrador em ‘Adeus a Berlim’. Mas não do externo, direi. Disseco para me desvendar. A vísceras e os pensamentos não pertencem a ninguém. Falo de meus sonhos também diurnos. Sonhamos sempre. O mundo é cenário onírico. A matéria é fruto de fantasia e simulacro... Estou cansado deles – de mim... Narrativa igual queijo suíço. Esburacada. Perdida em seus próprios vãos. Buracos negros. Caóticos e angustiantes. Neles deverá o leitor mergulhar. Que nada lembre a vida. Tudo pronto. O corpo dissecado exposto na ...
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Não deixaria o sexo dela exposto. Não! Apenas o útero grávido. Houvesse a possibilidade. Não poder parir frustra o macho. Virgínia plastificada... Aproximou-me mais de minha identidade. Fosse homem, estaria mais próxima de um Joyce ou de um Kafka. Vergílio Ferreira: E estou assim, entregue à minha melancolia – que barulho no corredor. Alguém a arrastar os pés, um resmonear confuso de palavras inteligíveis. Olho a porta, sou eu que entro, ah, como tu vens. Sento-me ao meu lado, Matraca veio à varanda ladrar pelo instinto de propriedade – como tu estás. Melhor continuar o trabalho. Ninguém perguntará quem é o sujeito. Se memória do presente, do passado ou do futuro. Mortos, tornamo-nos desinteressantes. Perdemos as particularidades... (continua)...
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Como gostaria... Arrancar-lhe estes testículos. Agora, nada sente. Vou expor o sexo dele. Tornar público seu grão direito. Pudesse castraria todos os que se acham escritores. Alcançaria a liberdade tão esperada. Dizer e atuar. Sem voz estranha a nós. Como em um sonho... Escapar. Ver os próprios cabelos brancos. Quase cinquenta... Um dia, plastificarei uma Virginia Woolf. Fantástica! A delicadeza com que tratava nossa mente... Fosse na primeira ou na terceira pessoa. Dominava a multiplicidade. Tinha seu cantinho próprio. Como seriam as circunvoluções de seu cérebro? Especial... Talvez por ser mulher, nascer castrada. Agir contra as normas... Viver a diferença na pele. Havia de ser mais personagem que autora... (continua)...
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Parte do serviço terminado. Sinistro, o coração. Quem decide? O cérebro ou o coração? Ouvir o outro... Ser tolerante é caminhar na diferença. Tão irreal... A autoridade age como um baço. Comanda o sistema de defesa. Enjaulado no gradil ósseo. Outrem uta o braçal. Na tensão. Sentir a diferença e agir. Rapidamente. Sondar e reconhecer. Guardar na memória cada lance que diga do outro. Registrar e passar adiante. Aperfeiçoar o ataque. No reconhecimento e nos lances. Antecipar ideias e ações. Frustrar-se às vezes. É verdade. Perceber-se impotente. Testemunhar... Muito mais microcosmo. Pensam que assim nos deixam mais livres. Particularidade técnica. Nada mais que. Nem sempre as respostas eram as que eu desejava. O petulante estava lá. Jogava diferente... A corda necessária. Mas seus dedos comandavam. (continua)...
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A ideia de um Contraponto viria de um outro coração. Nada de invasões inoportunas. Coração mole. Não criticava. Viam por ele. Tudo indireto: Tinha ele a tez quase tisnada de sol, com lábios cheios, mal conformados, embora rubros e lisos, acima dos quais se via um bigode preto bem frisado, com pontas recurvadas, embora a sua idade não pudesse ser de mais de vinte e três ou vinte e quatro anos. Todavia, apesar dos traços de barbárie dos seus contornos, havia uma força singular no rosto do cavalheiro e nos seus olhos móveis e atrevidos. Terceira pessoa. Um dos personagens vendo por Tess. Hardy observando Alex. Frases de efeito. Firulas literárias. O que teria visto Tess de verdade? Um olhar de mulher... Não o de um homem! Com a cena não era melhor: A aragem e a brisa da plena noite, chorando entre a cortiça e os ramos bem abrigados das ramadas hibernais, eram fórmulas de amarga censura. Acontecia ou aconteceu? Liberdade de dizer o que víamos ou sentíamos. Nunca! Éramos vítimas das artiman...
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Lábios suculentos. Boca grande. Língua musculosa. As cordas vocais com calosidade. Falava muito. Boca de boi. Voz longa e espessa. Parágrafos longos e tortuosos. Técnica primorosa. Eterno jogo do discurso. Movimentos elípticos. Nariz adunco. As jugulares expostas, salientes. A abertura passará no meio do rosto. Terminará no pescoço. Músculos, ossos e dentes abertos ao visitante. Sem chávena. Todo letrado gosta de um chá. De um bom vinho também. Ah, Bachelard! Testemunha de um intemporal. Devaneio da água, do fogo... Do próprio devaneio. Na época, tão distante... Perfeito! Agora o tórax. O que mais gosto de dissecar. A ossatura antes de chegar ao centro da máquina. A parte mecânica. Afetiva também. Durante milênios. Para que mudar? Serrar o osso externo. O envoltório fino sobre o coração e os pulmões. Trilhões de batidas... (continua)...
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Do cérebro, os vasos nítidos. Nas circunvoluções, os cenários perdidos. Arquivo morto. Resta apenas a anatomia. Não ter como saciar as emoções... Crueldade sem ação, guerra sem soldado... Que cada visitante use a imaginação... Crie... Decida pelas imagens. Ilusão pessoal... Não é assim com tudo? Multiplicidade de informações... De pensamentos, sentimentos e percepções. A trama criada a partir de simulacros. Talvez descubram que foram educados assim... Um criador muito maior que nós. Crítico e intrometido... Sempre. Perfeito! Não poderia ficar melhor... O olho. Lanterna sobre o mundo. Iluminamos sempre o exterior. Do interior, esses senhores diziam por nós... Não dirão mais; nunca mais! Aí está minha dose de maldade... Dormir fora do túmulo... Desonrado....
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Houve e ainda há desses intrusos. O cérebro que no momento preparo é um deles. Psicopatas que pensam e agem pelos outros. Os grandes delírios humanos infernizaram a vida dos comuns. Discursar o simulacro das palavras, burilar ideias e enxertá-las na cabeça das pessoas: Observo, entre parêntesis, que para nós, devido à falta de hábito e à nostalgia, a liberdade parecia muito mais “livre” do que na realidade é. Qual para nós seria esse? O homem não tira a bunda da cadeira. Horas contemplando o etéreo. Caçando palavras e adequando-as às imagens. Camuflado em um ‘eu’ ou em um ‘nós’. Santa hipocrisia! Dessa fratura, a ideia de Direitos Humanos. Um burguês escrevendo sobre presídios e presidiários. Melado de culpas. Mas... Estou cometendo o mesmo erro. Sem revanchismos... Não devo. Respeito sacro. O homem está morto. Dizer dele me transformaria em um igual. Meu trabalho é outro. Detesto a ficção. Aprecio mais a ossatura fria de um cadáver. Odeio corpos consumidos por vermes ou pelo calor. Me...
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Imagens delirantes... Assim é com a maioria dos escritores. Puro acaso coincidir com a vida. O Petrov descrito nada tinha a ver com o vivente. Um de seus companheiros de presídio registrou o diálogo ocorrido naquele dia. Alimentar esperanças? Nunca foi do feitio de Petrov, os registros são claros. Não! Descreviam-no com calculista e frio. Conseguisse a liberdade, voltaria a roubar. Petrov adorava transgredir. Nada a ver com o encarcerado no cérebro do autor. A ideia de que o meio faz o sujeito. Sombras... Criações de alguém que acredita ler inconscientes. Com a petulância de se meter também em medicina: A tuberculose é uma doença que se conhece à primeira vista. Preso pela doença e pelas pernas... Doença que o autor plantou no personagem. Acorrentados. Como fugir, então? Mas fugiam. Apesar dos grilhões nas pernas, da tuberculose, da sífilis e da lepra. Claro que não iam muito longe... Havia a neve, o frio... E a vontade de retornar. Todo foragido deseja um regresso. (continua)...
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Primeiro: desidratar e desengordurar. Cada grão de existência armazenado nas circunvoluções do encéfalo. Em partículas tão minúsculas quanto um neutrino. No observado do mundo e do comportamento humano. Tanto faz se Grin ou Dostoievski. Exagero? Os fatos demonstram que não: Petrov me procurou duas vezes. Bebera pouco o dia todo, estava a bem dizer, normal. Mas até à última hora seu feitio era o de quem aguarda e confia em alguma coisa que não pode deixar de vir e de acontecer; alguma coisa, diferente, nova radiante, triunfal! Pobre Petrov... Assim o homem o descreveu em ‘Recordações da Casa dos Mortos’. Como se houvesse convivido com ele na prisão. Deixasse claro tratar-se de ficção e não da vida... Daí sim, não me intrometeria. Que estavam todos tristes naquele dia, é verdadeiro. Mas apenas alguns choravam. Para Petrov não havia mediania: caso bebesse, sempre era muito. Está no registro do presídio para quem quiser ler. (continua)...
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Começarei pelo cérebro. Serrar o osso. Dentro, o reservatório de toda a criação. Memória sem voz... Que tipo de energia clarearia suas partículas após a morte? Transformar resíduos em imagens. Ondas... De que tipo? A última camada leva a alegoria do céu e do inferno. O corpo parou de correr atrás do tempo. Pensamento sem pensador... Bion. Uma janela da fronte até o meio do crânio. O polímero? Base de poliéster ou silicone? Transparentes e flexíveis ficam melhores. Quase reais. Cadáveres... Como se esculpidos e congelados. Os vizinhos desconfiaram... Não, não imaginam. Trabalho no porão da residência. Montei um pequeno laboratório. Estranharam a movimentação. Sempre fui muito discreto. Mas os caminhões, as mesas metálicas e os galões incitaram alguma curiosidade. Por pouco tempo. Logo, tudo voltou à rotina. Para eles não passo de um escultor medíocre e esquisito. Não dispensariam uma atenção maior a um sujeito inexpressivo como eu. Fossem mais curiosos... Um laboratório de plastinação. ...
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Fácil? Coisa nenhuma. Sentir-se usado, abusado até. Não sem uma dose de culpa pessoal. Confesso. O sujeito pode ir da intrusão à omissão. A autoria é dele. O personagem, uma marionete. Portanto, tem todo o direito. Agora, deixar de reagir é que não vou. Nem com o pai... Imagine se com um estranho! Sem culpá-lo. Foi até onde eu permiti. Hoje é mais fácil o rompimento. Nem sempre foi assim. Melhor nem pensar em deslocamentos. Já é difícil julgar no vivido... Imagine se acrescentássemos preocupações com as palavras. Falar das corrupções e dos desvios arqueológicos. Delas são a ciência e (a)ética. A estética. Jogo de signos. A máscara e o esterco da autoria. Ser transformado em estátua. Dissecar o cadáver que ora se apresenta. Coincidência ser o dele. Igual ao encontro do senhor Stilton e Ivy em ‘A Lâmpada Verde’, de Grin: As suas intenções em relação a Ivy eram uma rematada estupidez. Grin dizia de Stilton. Um Deus todo poderoso. Um entre tantos oniscientes intrusos. (continua)...
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Domingo. (Nuestro amor se pone amarillo). Acordo bem cedo. Estranhamente, sinto-me disposto. Tomo um banho e aparo a barba. Olhos incrustados em abismo. La noche quieta siempre. El día va y viene. Abro a janela. A luz dá vida aos objetos. Um casaco longo e um blusão marrom envelhecido sobre a cadeira, uma camisa vermelha, e o sapato gasto ao lado da cama. Nada além dos objetos pessoais. Fora, uma imensidão vazia. Somente silêncio ao lado de silêncio, compacto. És un silencio ondulado, un silencio, donde resbalan valles y ecos y que inclina las frentes hacia el cielo. Domingo. No quise. No quise decirte nada.Sábado. Puerta de jardín...(Fim)...
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Gostaria que fosse cantado em castelhano. O homem de casaco marrom ri com tudo que digo. Malditos enigmas. Lorca, o que seus fantasmas fazem comigo? Que provação será essa? Meu corpo encostado no batente da porta. A alma, léguas daqui. Sou eu o homem de casaco comprido e camisa vermelha. Olheiras marcantes. A cadeira na varanda vazia. O longo caminho até o jardim. A volta com parada no lupanar. A loira de roupa laranja, transparente. A vergonha de expor o corpo a um macho distante. Incomodo até as profissionais do sexo. A mulher de olhos verdes dá lugar a uma de olhos castanhos. Carrega uma nuvem de pena na fala. Está esquecendo o bilhete. Escrito nos dois lados. Faces de uma mesma moeda. Sábado. Semente estremecida. (continua)...
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Sábado. Semilla estremecida. Sozinho. Depois do infarto viver só foi uma opção. Mas a casa encheu-se de fantasmas e assombrações. São eles, hoje, os atores que me dão vida. Portanto, não acreditem em nada do que virem ou ouvirem. Fiz um canto escuro como morada. El canto quiere ser luz. En lo oscuro el canto tiene hilos de fósforo y luna. La luz no sabe qué quiere. En sus límites de ópalo, se encuentra ella misma, y vuelve. Da janela, vejo quando a moça vestida em um tecido fino e transparente sobe uma rampa invisível e desaparece na imensidão do oceano. O mar não tem laranja. Ah, amor. Nem Sevilha tem amor! Voz da mulher de olhos verdes que uma leve brisa me traz. (continua)...
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Domingo. Mar con orillas. Metas. Está escrito atrás do bilhete. Coloco uma roupa de banho. Corro pela praia à procura de um joelho ferido. Sinto-me um imbecil. Nunca fui de correr atrás de rabo de saia. É como se o corpo permanecesse colado no meu. Toco pessoas por engano. Giro o corpo de um lado a outro. Observo os banhistas no mar. Nem sei mais quem procuro. Um homem dirige-me um aceno. Respondo. Tem ao lado uma mulher que mantém a cabeça baixa. A pele branca amorenada. Conheço aquele pescoço. A brisa carrega um cheiro conhecido. Uma jovem passa correndo. Tem ao lado um garoto da idade dela. Traz um curativo no ferimento. É ela... Las niñas de la brisa van com sus largas colas. Aprisiono seu traseiro na retina. Ayer. Suportarei? Já tive um infarto... Desaparece na orla. Corro enroscado no ‘Eternity’ que a garoa rouba de mim. Volto desesperado. Os dias estão cada vez mais curtos. A paixão cada vez mais perdida. Ayer. (Estrellas de fuego.) Mañana. (Estrellas moradas.) Hoy. A mulher de...
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Olho para ver se há alguém por perto. É hoje? Pergunta rindo de meu embaraço. O homem de boné escondendo o olho observa-me obliquamente. Está de pé do outro lado da portada. Fuma um cigarro atrás do outro. Carrega a blusa de couro ferrugento na mão. Foi na outra semana. Não, não foi, diz a jovem balançando o bilhete no vazio. Tento arrancar o papel da mão dela. Caímos. Eu sobre seu peito. Naranja y limón. ¡Ay de la niña del mal amor! Limón y naranja. ¡Ay de la niña, de la niña blanca! Limón. (Cómo brillaba el sol.) Naranja. (En las chinas del agua). Do chão, vejo um sapato espezinhar calmamente um toco de cigarro. Bizarro modo de agir. Olho para o alto. O sujeito vai ao encontro de uma mulher de olhos verdes, não mais que um e setenta, cabelos curtos, pescoço longo, surrealista, já conhecida, o bilhete na mão da Lolita, o corpo quente no meu... E os movimentos nos lábios na mulher que se afasta: Sábado. Arcos azuis. Brisa.(continua)...
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Sábado. Arcos azules. Brisa. Faz uma semana que o céu não se abre. Agora, o azul em arcos, até onde se avista. E a brisa calorosa, não fria. A algazarra dos jovens nas calçadas. Falam alto, gesticulam. Ejaculam seus hormônios pela boca e pelos braços. Melhor sair, aproveitar o dia. O jardim lotado de mulheres com seus filhos pequenos: Mamá. Yo quiero ser de plata. Hijo, tendrás mucho frio. Mamá. Yo quiero ser de agua. Hijo, tendrás mucho frio. Mamá. Bórdame en tua almohada. !Eso sí! ¡Ahora mismo! Sento no banco de cimento. Deito o pescoço no encosto. O azul não tem fundo. Nele podemos mergulhar que não encontraremos fundo ou fim. Alguém chora... Vestido amarelo plissado. O joelho ensanguentado. No portão de ferro... Limpo aquela carne com cheiro juvenil. Ela pega o pequeno bilhete que caiu de meu bolso ao retirar o lenço. Sábado. Puerta de jardín. Lê alto. Em castelhano. (continua)...
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Permaneço sonâmbulo algumas horas ainda. Toda manhã é a mesma coisa. Colocar a primavera em seu devido lugar, clarear o dia e o mar. Verde que te quiero verde. Verde viento. Verdes ramas... Saímos. Gaivotas nos acompanham. As ondas roubam nossos rastros, nosso passado, não deixam pistas para o futuro. Pergunto sobre o bilhete. Demora a dizer, vasculha o interior, fala do amor compulsivo de um homem de casaco de couro ferrugento, do arrependimento no último momento, que apesar de estar com ele, não o conhece, é como se não passasse de um frequentador de um mesmo bar, o sujeito vive parte na realidade e parte no sonho, você finaliza como se eu não existisse. Rumor. Aunque no quede más que el rumor. Aroma. Aunque no quede más que el aroma, aquerônticas vozes que o vento traz, eu na janela, minhas mãos debruçadas no vazio, há uma mulher descalça e solitária adentrando o mar, cristais de imagens, um véu de chuva no horizonte, e a voz: Domingo. Dia cinza. Cinza. (continua)...
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Domingo. Dia gris. Gris. Da janela avisto o oceano. Nas ondas agitadas e obscuras habita minha tristeza. Leio uma vez mais o bilhete. Deveria ter aguardado mais tempo. Há os amantes da madrugada, botos e lobisomens que moram na cidade. Vampirista de olhos verdes, não mais que um e setenta, cabelos curtos para deixar um pescoço longo, surrealista, atento ao vento... E aos lábios. Usa saia justa. Joelhos discretamente expostos. Caindo entre os seios, traz uma gota, pérola dependurada em delicada, quase invisível, corrente de ouro. Lágrima congelada. Fotogramas. Verde que te quero verde. Verde vento. Verdes ramos... Assim canta a descuidada. Em minha cama? (continua)...
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Vi em tus ojos dos arbolitos locos. De brisa, de risa y de oro. Decididamente, tratava-se de um apaixonado à espera de alguém... Que não chegou. O último cigarro foi jogado ao chão e pisado com raiva. Ainda mapeou todos os quadrantes antes de se retirar, sem se despedir. Seria dirigido a ele o bilhete? Talvez, descuidado, deixou que o vento o levasse. Poderia ter perguntado... Sem o companheiro de infortúnio, hesito em permanecer. Mas uma força estranha cria raízes em meus pés. Os minutos adensam ainda mais o silêncio, o ruído de água descendo resgata a madrugada em que o poeta foi assassinado, tenho a pele em arrepios, melhor ir, carregar a frustração, o céu sem astros, junto com Lorca: La luna está muerta; pero resucita em la primavera (continua)...
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Namorados encontram-se ainda dia, quando a praça está cheia de gente jovem, para um sorvete. Escrito assim, de um modo velado, o bilhete sugere um encontro entre amantes, ao cair da tarde, quando a algazarra dá lugar aos beijos fortuitos e toques de pele, e os casais perdem-se atrás dos troncos de árvores. Sábado carregado de aroma, rastro e penumbra, estou em pé na entrada do jardim. A brisa traz esses fragmentos do poeta espanhol. Não estou sozinho. Ao meu lado, há um sujeito que fuma um cigarro atrás do outro. Quando não traga, puxa a manga da camisa para ver as horas. Usa um boné com a pala baixa de modo a encobrir os olhos. O casaco marrom está todo riscado pelo tempo. Os sapatos, da mesma cor do agasalho, brilham apenas onde o couro mantém a tinta. Percebo alguma agitação quando o isqueiro não responde ao movimento de seu dedo. Tem fogo? (continua)...
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Sábado. Porta do jardim. Um bilhete que o vento traz. Enigmático. Lembra-me um poema de Lorca: Sábado. Puerta de jardín... O espanhol enriquece a sonoridade, transforma o recado em canto andaluz. Aproximo-o do nariz, há nele um cheiro de mulher. A autora gosta de poesia, mas não é afeiçoada às línguas. Em contrário, não seria tão descuidada com um poema. Não consigo definir o perfume. Jovens usam ‘Eternity’. A quem seria dirigido? Na cidade, há apenas um jardim com portada. Todo em ferro, ornamentado com deusas gregas. Poucos percebem e param para observar os entalhes. Detalhes quase perdidos pela corrosão do tempo. Mas poderia referir-se ao jardim de alguma casa abandonada. Também não diz a data e a hora. Com certeza, não é o primeiro encontro. (continua)...
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Aberta, apenas a janela que dá para o fundo da casa, é de onde converso com as andorinhas que pousam no varal e contemplo as montanhas que se assomam na distância. Os medicamentos prescritos devolvem-me apenas a ordem das palavras, nada mais... Tudo ao redor se passa em branco-e-preto.Lá está... Um homem! Corre em minha direção. Sorri e me abraça forte. Permanecemos algum tempo abraçados. Afasto seu rosto de meu ombro e seguro-o com as duas mãos. Já tem pelos no rosto. Feliz? Felicidade é amor, me responde. Não seguro a lágrima que ele limpa com um lenço. Saímos de mãos dadas, como dois namorados, ele cheio de novidades, e eu, você sabe, contemplativa e sem sombra, um mundo que nada tem a ver com meus cheiros, minhas texturas e meus mistérios, além de meu filho e um último pensamento: Depois que as flores murcharam, quero distância do mundo, peço a Deus um quarto com banheiro e chuveiro. É isso que chamam de cura... (fim)...
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III. A cura e o retorno: Felicidade é amorEu não queria. Todos se foram. Estou sozinha sentada nesse banco em frente do manicômio. Precisavam me liberar. Agora você pode viver lá fora, disse-me o doutor. De que lá fora estaria falando? Pensa me devolver a saúde, a liberdade, quando o que fez foi me enclausurar junto às vozes que, espectrais, convivem comigo, escrevem meu destino. Acostumei-me com o olhar que as pessoas me dirigem. Não vejo felicidade no rosto deles... Percebem logo que somos diferentes. Protegem-se. Hoje sei, da própria loucura.Meu filho vem me buscar. Sempre ele. O marido desistiu. Os vizinhos têm medo de mim. Dos surtos. É o que dizem, que são surtos, cada vez mais longos. Não ligo para nada do que dizem. Quando no mundo, atuo a maior parte do dia a Ana do poema que você já conhece: Retida em casa, D. Ana, / Qual num cárcere, vivia; / E aí, cerrada a ventana, / Da rua ninguém a via. (continua)...
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De passarinhos. Vinham no varal. Centenas de andorinhas. E eu chamando elas. Da janela. Uma tonta! Uma tonta! Isso sim! É verdade! Como podiam conversar comigo? Mas feliz. Felicidade é amor. Agora vão! Se não... Amanhã tem mais. Vão! Vão! Vão! Aqui não tem passarinho. Nem sombra. Perdi a minha quando me jogaram aqui. Agora? É! Tem um prontuário. Não sei que tanto tem escrito lá. Eu não escrevi nada. Não disse. Também não! Acho que foi o marido. Foi fugindo, fugindo... De mim. Esperava um mês pra amor. Eu queria todo dia. Que vergonha! Dizer isso pra vocês. Não! Não falem! É segredo nosso. Segredo. Ouviram? Olham muito sério praquilo tudo que está escrito. Olham pra pasta, olham pra mim, misturam uns comprimidos em um copinho e me dão. Esperam engolir. São vivos! É! Se acham. Se pudesse tirar vocês daqui! Vão! Vão! Um cantinho só pra mim. Não sabem nada. Não! Falar de vocês! Nunca! Agora vão! Preciso dormir. Quando durmo sou feliz. É! Verdade! E felicidade é amor. Eu amo. Muito! Muito!...
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Atrás do branco só tem sujeira. Verdade! Não queria dizer, mas disse. Não! Não gosto... Do jeito que me olha. Eu pelada na frente deles. Divertem-se ligando aqueles fios em mim. Eu sei de meus fios soltos. Mas tenho vergonha do corpo. Engordei muito. A merda dos remédios que me dão. Desaforo... Me urino toda. É pra ele não usar o pinto em mim. Já vi molhado. Não gosto! Não gosto! Do jeito que ele passa a mão na gente. Leva a luz com vocês. Por favor! Tem bicho nela. Muitos bichos. Rezo! Rezo! Rezo! Assim não chegam aqui. Deus me ajuda. Sempre sempre sempre. Fiz umas artes. Um dia passei no meio daqueles rapazes... Não! Não! Não falo. Não quero! E pronto! Agora vão! Vão daqui! Deixem eu quietinha. Deixem! Deixem! Ele já me perdoou. Meu filho! Meu filho também. É um homem. É feliz. Felicidade é amor. Melhor saírem. O tal de branco não pode saber. Doidinho por um choque. Medo! Medo! Sinto muito, muito mesmo. Medo! Brinca com os fios. É! Aquele olho encurvado e torto brilha quando mexe com...
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II. O surto e a internação: Voltar pra dentro da mãeNão, não saia daí. Deixem eu quietinha aqui. Deixem! Deixem! Vão! Vão! Vão daqui! Vocês são muito chatos. É! Sim! Sim! Vocês adoram celas, não é? Eu também. Mas seria melhor se não estivessem aqui. Principalmente você que fala muito. Não me conhece não! Vai! Vai! Vocês ouviram o que ele disse: Depois que as flores murcharam, quero distância do mundo, peço a Deus um quarto com banheiro e chuveiro... Gosta de tudo certinho. É verdade! É verdade! O quê? Tudo que disse. Falou como eu penso. Não certinho assim. E dizem. Todos dizem alguma coisa. Acho que pensam ter o direito. Deixe! Deixe! Deixe que falem. Eu? Não suporto mais. Quero ficar aqui bem quietinha. Leva essa luz pra lá, esse barulho no corredor. Sou feliz assim. Felicidade é amor. Meu filho sempre dizia amor pra mim. Feliz feliz feliz... Acho que sim. Levaram ele cedo de mim. Aqui ninguém fica junto. Me achava gorda. Queria pagar uma lipo. Falei Nem vendendo o carro. Coitadinho!...
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Efêmeros os dias, as horas, o tempo. Mergulhar na memória é como fazê-lo em um rio, as águas nunca são as mesmas, nada se sabe das nascentes ou cabeceiras. Tudo é fluxo, fluência, enchentes, seca... Substância. Submersa nessa atmosférica escuridade, os olhos repassam os passos, descobrem o quão obscuro e marmóreo tem sido o trajeto, a luz mais ocultou que ilustrou. Não há marcas como as dos pés descalços no pó assentado no piso. A memória é feita de areia e ventanias; imagens nômades. Ao não ofender como o Sol do deserto que abrasa, a luz é sutiliza que engana; como tudo que simula. Pensa-se ver tudo com ela, mas ela cega, penetra os olhos como o falo o sexo, provoca aberturas e gozos, orgasmos em série, a luz rouba os fantasmas e os deuses da meninice e que nos visitam, sonâmbulos, quando as pálpebras se encontram ou a fantasia se achega. São da escuridão as texturas e os mistérios que nos rondam; da vida, a luz que deixa desfilar minúsculas sutilezas aéreas; do dia, o calor abrasante...
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I. O fato: A memória é feita de areia e ventaniasA expressão do olhar é de alguém que contempla a memória de um modo sereno, introspecção a esquadrinhar texturas e mistérios interiores. Nenhuma luz ou cor desviaria tal absorção de pensamento, extravagante olhar encravado no abismo, extasiado pelo desvario da alma. Quem poderia imaginar... Foi um quase surto o que se passou, a luz mal decifrava o assoalho de madeira corrida, abria uma lacuna na escuridão do quarto. Palavra nenhuma. A cortina enfeita e resguarda, uma fenda quase virtual não fosse o vazamento fino e iluminador. O de fora estupra como se percebesse os cheiros de uma sensualidade muda, inocente e passiva. Uma brisa tímida, esbatida, venta sutilmente as intenções da manhã, traz também suas vozes secas e frias, ruídos dispersos: Retida em casa, D. Ana, / Qual num cárcere, vivia; / E aí, cerrada a ventana, / Da rua ninguém a via. Ainda se lembra... Pouco sabia da vida ao ler o poema de Raimundo Correia, das algemas e das pocil...
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Álvaro acordou com a luz que vinha da janela. Pequenas partículas vagavam em suspensão. A mulher dormia ao seu lado. Nunca sentira o prazer que ela lhe proporcionara. Percebeu que alguém abrira o envelope que deixara sobre a escrivaninha. Só podia ser ela. À medida que a luz iluminava o ambiente, o ódio que sentia aumentava. Não compreendia o motivo de ter aceitado o jogo. Não precisava disso, era jovem ainda, poderia escolher uma adolescente como fazem seus amigos. Aproximar-se da vida, não da morte. A vontade era arrancar o sutiã dela, humilhá-la. Ela saberia que ele gozou sabendo de seu cancro, de seu câncer.Dora acordou sorrindo, sem dar sinais de saber de algo. Levantou-se e foi até a janela. Pássaros faziam algazarra na lateral da casa. O sol era forte e dava cores vivas e fortes à natureza. No horizonte, uma tênue cortina de névoa encobria as montanhas. Dora espreguiçou os braços e o corpo. Permaneceu alguns minutos com a paisagem impetigando a retina. O momento devolveu-lhe o s...
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"Essa mulher é uma coitada, Álvaro, se eu fosse você puxava conversa com ela.", foi o que lhe disse o amigo, assim que a mulher se afastou. “Por que faria isso, Paulo?", olhando-a, agora, fixamente. "Eu sou seu médico. Como ela me iria encarar na cama, sabendo que eu sei de seu problema?", respondeu-lhe, olhando o amigo com um ar de pena. "Como assim?". "Ela foi operada do seio, você sabe, teve que extrair um deles, seria um favor que você faria a ela. Pense bem, Álvaro". Depois desse curto diálogo, por mais que as ideias dos dois vagassem e enroscassem aqui e ali, Álvaro não conseguia desviar o olhar daquela mulher. Nunca sentira algo semelhante, uma vontade compulsiva de resolver o problema dela. Tudo era tão absurdo; inexplicável também. Tentou várias vezes pegar o chapéu e sair, mas alguma força o impedia. Vez ou outra, os olhares cruzavam-se. Ela sorria e acenava. Era convidá-la a ir ao seu chalé e pronto. Então, por que não o fazia? Al...
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Tudo não passaria de um encontro de velhos amigos, não fosse sua atenção desviada para aquela mulher. "Não olhe agora, Álvaro, mas há uma mulher à sua direita, sentada com outras duas amigas, na mesa de fundo, que não tira os olhos de você", cochichou-lhe Paulo, a certa altura da noite. Álvaro não lhe deu atenção, disse não estar interessado, que queria ficar sozinho, colocar a leitura em dia e descansar. Paulo mudou de assunto. Parecia ter esquecido o ocorrido. Quando voltou do banheiro, Álvaro percebeu que se enganara. Ao lado do amigo, uma mulher, de cabelos lisos e escorridos, que caíam sobre os ombros, conversava animadamente. Sorriu-lhe ao perceber que se aproximava. Paulo não permitiu que ele pegasse o chapéu, segurou-o pelo braço e apresentou-lhe a amiga. Álvaro tomou seu aperitivo em silêncio. Os dois pareciam velhos conhecidos. Um pouco de conversa e Álvaro ficou sabendo que era desquitada e tinha um filho que estudava na capital. Já se sentia arrependido de ter saí...
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Com o rápido reconhecimento do amigo, Álvaro retirou o chapéu, passou a mão levemente pela sua aba úmida e fria, ajeitou os cabelos, e dirigiu-se até onde ele se encontrava. Os olhos, metidos em grandes e grossas sobrancelhas negras, esquadrinhavam todo o ambiente. Ninguém deixava de observar o homem de rosto afilado e que se vestia de forma incomum, mas com uma elegância indiscutível. Deixou o chapéu sobre o balcão e abraçou o amigo carinhosamente. Manteve-se algum tempo com as mãos sobre os ombros dele. Um pouco mais velho, como também ele deveria estar. O rosto aluado de sempre, cheio de cicatrizes, sequelas da juventude e dos medicamentos da tuberculose. "E, então, como estão as coisas?", perguntou-lhe, enquanto retirava as mãos de seus ombros e pedia um aperitivo. "Nada de novo. O que poderia acontecer em uma cidade do interior? Estupro? Crimes? Assaltos? A estreia de alguma peça teatral? Até o festival de inverno anda sem criatividade. Os velhos amigos, dos tempos ...
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Parou na frente do bar. O embaçado dava um certo ar de fantasia na luz que refletia nos vidros foscos e amarelos da porta. Sentiu-se frágil ao se lembrar da caneca de vidro da Bohêmia estilhaçar-se no chão. Era como se sentisse aquele segundo de arrependimento por ter entrado no escritório do pai sem ordem e ainda ter derrubado o objeto que ele mais gostava. O pai não o castigou, mas o silêncio no rosto dele ficara gravado na sua memória. Era como se naquele momento o mundo se resumisse no seu pai catando os estilhaços no chão, tentando ainda juntá-los como um quebra-cabeça, com uma sombra negra ao redor dele.Um casal abriu a porta e desapareceu na noite. Abriram uma avenida de luzes e vozes no ontem de Álvaro. Um passo foi o suficiente para saber que não estava no sonho. A porta fechou automaticamente às suas costas. O olhar vasculhava cada rosto à procura de um conhecido. Já havia desistido de encontrar alguém, quando viu um homem acenando-lhe, segurava um copo de chope na mão. Recon...
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Achava-as mais para poetas do que para um cidadão comum. O sorriso discreto em seus lábios era pelo que ouvira quando criança. Da própria Cecília Meireles. Era amiga de seu pai. Ela havia ido ao encontro de Fernando Pessoa e ele, em função de análise minuciosa do horóscopo dos dois, deixou de comparecer. No local combinado, deixou um livro autografado e um bilhete pedindo desculpas. Álvaro considerava-os uns malucos. Recebia-os na editora por respeito ao pai. Às vezes, sentia vontade de publicar um autor ou outro mas as aventuras literárias do pai logo o alertavam para o risco do fracasso. Temia cometer o mesmo erro comercial do velho. Realismo forçado pela situação falimentar em que ele deixou a editora. Toda a família sofreu com o seu idealismo. Com sua morte, Álvaro reestruturou a empresa. Especializou-se na publicação de livros técnicos. Todo o patrimônio conseguira nesse empreendimento. No segmento de mercado em que atuava não havia concorrentes.As pernas seguiam à mercê das lembr...
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O corpo chamou-o à realidade. A mão começava a adormecer, formigava; o estômago reclamava de sua distração. Nem água tomara nas últimas dez horas. Sair roubaria a tranquilidade em que estivera mergulhado a tarde toda, mas poderia afastar os fantasmas. Acendeu a luz do abajur que estava sobre uma antiga escrivaninha. Havia sido de seu pai. Passou as mãos no pequeno reservatório de tinta. Desde sua morte não teve coragem de explorar aquelas pequenas gavetas. Sentou-se e colocou a pena na caneta de madeira. Ficou algum tempo observando-a contra a luz. Apesar das mãos pesadas, o pai as deslizava levemente sobre o papel. Admirava aquelas letras angulosas, nítidas e cheias de curvas. Via nelas a energia e firmeza do pai; também a teimosia e a severidade. Nenhum deslize. Não admitia rasuras em seus textos, fosse carta ou recibo, jogava-os na lareira. Álvaro lembrava-se da chama retorcendo, no início rápida e depois lentamente, o papel amassado.O frio começava, com sua lâmina fina e fria, a co...
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Seo frio de julho não era impedimento para Álvaro sair, como imaginar queos fantasmas que rondavam sua cabeça o seriam? Álvaro aproveitava aviagem da família para passar o final de semana nas montanhas. Passou odia entretido na leitura de alguns clássicos que mantinha em sua casade campo, em Campos do Jordão. A campainha do telefone despertou-o.Eraseu filho ao telefone. Haviam chegado sem problemas. Procurou serrápido. Disse estar bem e que não lhe faltava nada. Quando desligou,foi atraído pelas cores na janela. À esquerda, um céu quase cinza faziauma falsa linha de horizonte; à frente, um céu amarelo, com nuvens emcirros, em um espectro de cores: do cinza ao amarelo. Aglomeradas,tornavam-se vermelhas.Achouestranho esse seu interesse repentino pelas cores. Traziam-lherecordações da infância, quando brincava de colocar pipas nas nuvens.Era como se colocasse palavras: l&a...
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Quando se voltou, não havia mais crosta ou sombra. Somente a cena do crime. A mulher, não mais de quarenta anos, cabeça caída na janela, mantinha os olhos abertos, fixos no chão. Exangue. A pele mais clara que os cabelos. A cor e a textura de uma folha de papel em branco. Faltavam palavras ali. Levou um tiro no peito e outro na genitália. O sangue escorreu pela blusa, formou uma poça coagulada na saia, sobre o colo. Alguém colocou a fotografia da família no colo da húngara. Ao lado, faltava miolo na cabeça do homem. As pálpebras fortemente cerradas indicavam um último esforço para não ouvir o estampido. De nada adiantou. Foi carimbado também com um tiro nas partes baixas. Os corpos dos amantes ficaram em exposição quase todo o dia. O sangue misturou-se ao das manchetes dos jornais. Romantismo e guerra. Os pais evitavam que as crianças se aproximassem dos ...
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Há quanto tempo não trepavam? Um dia ela se queixou de dor, parou de reclamar do hábito que ele tinha de enfiar o dedo no nariz, meteu o seu na televisão e clique, desligou o botão do prazer. As bundas ficaram frias. Sentia falta do rosto bravo que ela lhe dirigia; do verde dos olhos que ficavam mais verdes ainda quando sentia raiva ou gozava. Estranho perceber essas coisas somente agora... Achava-a atraente, mesmo metida naquela roupa simples e desbotada. Cuidou dos filhos como ninguém. Não deitava enquanto não tivesse certeza de que estavam bem-acomodados e dormindo. Sobrava tempo para o marido. Adorava ser lambida, ouvir o barulhar da secreção vaginal e gemer baixinho. Não conversaram sobre o assunto. A velhice trouxe esses respeitos inúteis. Pensamentos... Mais passamento... O distanciamento imposto pelo tempo não o incomodava mais. Com a morte das palavras, apareceu um enorme abismo, cheio d...
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Ser testemunha do caso passou a ser o assunto predileto. Fazia frio e garoava... Começava a narrativa dando um tom nebuloso e sombrio. Não fosse sua intuição e teria fugido da chuva. Mas algo lhe dizia para ficar um pouco mais no portão. Assim conseguiu os detalhes. Apresentou-se ao policial que primeiro chegou ao local. Foi logo dizendo que viu um homem cruzar a rua e jogar o revólver no córrego. Para ele, parecia tranquilo demais para alguém que acabava de matar. Frisou que o suposto assassino chegou a ajeitar a gola do paletó calmamente sobre o rosto para se proteger da chuva. Depois, desapareceu na esquina. Não, não estava perto quando ele atirou — o fato constou dos autos — mas ouviu o estampido poucos minutos antes de o sujeito aparecer e jogar o revólver nas águas sujas do córrego.A sombra e o ruído. Quase tudo na vida é consequência deles. A mulher r...
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Trabalhador exemplar, treinava brasileiros em uma multinacional. A guerra não lhe deu outra opção, era pegar ou largar. Perdeu dois filhos na viagem, foram lançados ao mar. Submergiam em sonhos. Ninguém soube como o caso da mulher chegou até o ouvido do homem. Um dia ele resolveu parar para conversar, falou de coisas fúteis. O tremor nas pálpebras parecia um aviso. O italiano não se cansava de dizer que na terra dele homem era homem, mulher era mulher — um pouco fora de época, hão de concordar -, e naquela situação alguém tinha de morrer. Mas a passividade do homem intrigava, o que levou os amantes a abusarem da sorte. Um dia tinha de acontecer. Aposentou os mandamentos. Sentiu ódio de Noé por ser um incluído, de Deus por ter abandonado Cristo à sua sorte, e matou os dois. Isso mesmo, o tiro entrou pela têmpora do amante. A mulher apanhou antes de mo...
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Água, algumas horas por dia. O córrego em frente mais parecia um esgoto ao ar livre. Sem aviso, cortavam a energia elétrica. Daí manter uma vela em lugares estratégicos na casa. A luz no rosto, esboços de objetos e o negrumoso imitavam um quadro à Oitocentos. Nessas horas, a palavra morte entrava em seu circuito. Arrepiava-se todo ao pensar na possibilidade de ser enterrado vivo. Avisou a mulher para colocar uma vela e uma caixa de fósforos no caixão quando partisse. Ela brincou com a seriedade dele, perguntou-lhe se queria alguns livros e revistas. Para quê?, pensou. As palavras ajuntavam-se em sua cabeça sem o mínimo esforço. Sua história de vida mudou tanto que não sabia mais o que era real e o que era imaginação. O velho álbum de fotografia trazia-lhe à lembrança uma infinidade de passados. Apesar disso, nunca o agradou escrever. Letras possu&ia...
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O homem era um nordestino calado pelo intemperismo da vida, sempre bem-trajado, gel no cabelo, com costeletas bem-aparadas e rosto arredondado. Não dispensava o sapato marrom e branco e o chapéu caído sobre a testa. Trazia uma cicatriz no lado direito do pescoço. Ficava carrancudo quando lhe perguntavam o motivo. Ele a valorizava. Poucos sabiam que foi provocada por um acidente ainda na infância. Foi estourar uma bombinha dentro de uma garrafa e um caco quase lhe cortou a jugular. Imaginavam fruto de valentia de nordestino, de algum acerto de contas, coisas da deusa Fama em seu castelo cheio de orifícios que assopravam novidades ao mundo. A mulher caiu nas graças dele. Essas coisas de paixão desenfreada, sem muita explicação, que acontecem em romances, mas também na vida. De repente, ela trocou de marido, de roupa e de sorriso.Ele gostava de matutar coisas inúteis. Elas vinham e iam como os insetos que v...
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Dedo indicador no nariz, o homem fuçou o buraco calmamente. Parou a ponta do dedo na frente dos olhos. Notou a estreiteza do campo visual, daí aproximar e afastar o dedo procurando o ponto de melhor foco. Estava envelhecendo. O cigarro deixou uma marca escura na unha e na pele ao redor dela. O corpo estranho foi analisado com a minúcia de um relojoeiro, como se fosse o primeiro. No fundo, a sombra de um homem não lhe despertou maior interesse.Hábito antigo, gostava de passar o dia sentado no portão. Vez ou outra, ia bebericar na cozinha. Pinga de alambique, das boas, nunca desprezou. Aprendeu com o pai. Um gole só. Retornava esfregando as mãos e fazendo careta. Os olhos vermelhos e brilhantes fixavam o olhar no final da rua. Oferecia-lhe outro colorido. Há anos, aguardava da vida algo mais do que ser tetracampeão ou herói por ter sobrevivido às endemias, epidemias, desnutrição, doenç...
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Ao sair do bar, embrulho debaixo do braço, reencontrou o sujeito de preto. Ele estava de pé, na porta da lanchonete, olhando para a janela do quarto dela. Misteriosamente, ela se viu, na tênue luz daquele quarto, penteando-se. O vulto do marido refletido no espelho, os objetos espalhados pela cadeira e pelo chão, a música...Esses acontecimentos tornaram-se frequentes nos últimos meses. O álcool roubava-lhe toda a noção de dentro ou fora; de real e espelho. Imaginava tê-lo visto uma vez mais. Mas o relógio estava quebrado e o tempo parado. O mundo e as mentalidades atrasados. A única certeza era a de detestar homens sem rosto e céu abricó. Por isso fechou a janela no exato momento em que o cão livrava-se da cachorra. Ainda viu quando ele, em disparada, foi disputar outra cadela. Janela como anteparo, enclausurada para sempre, ela tinha uma única certeza: a imortalidade era uma cadela no cio. (fim)...
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Durante todo o dia, manteve-se do lado do marido. Cansada dos “meus sentimentos”, sentiu-se aliviada quando a pá silenciou e as máscaras foram embora. Colocaram a melhor roupa e mandaram lavar os carros. Faziam de tudo uma festa. A expressão e a fala disfarçavam seus vícios. O ouro ornamentava e o perfume disfarçava qualquer deslize da alma. Era o único objetivo do supérfluo: esconder-se de si próprio. Não era o luxo que envenenava a nação, mas o homem. Rejeitou os convites de parentes e amigos para que dormisse com eles e retornou a casa. Sabia que convidavam por gentileza. Também não tentou explicar. Não entenderiam se dissesse que queria ficar um pouco ao lado dele. Foi o que fez nesses quarenta anos, ficou ao seu lado. Literalmente, foram cúmplices do maior roubo de suas histórias, o de suas individualidades.Sorte ter encontrado uma lanchonete aberta. Parou para comprar umas garrafas de vodca. Contribuiria com os impostos. (continua)...
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Como todas as amigas, quis compreender o sentido do que ouvira na infância. Não tivesse ouvido falar do amor, talvez não se encontrasse naquela situação. Por que a mentira passava de geração a geração? Talvez o companheirismo desinteressado que conheceram com as eternas brigas e desgastes fosse o verdadeiro amor. Virou-se para o outro lado. Pela primeira vez dormiria sem ouvir o ronco dele. Balançou o relógio no ar para ver se funcionava. Nunca funcionou. O tempo parado sempre na mesma hora. Como saber o horário de sua morte? De manhã, veria o que fazer. Avisaria parentes e amigos. Apagou a fraca luz do quarto. Uma brisa fria agitou a cortina e trouxe o céu estrelado. O bom-humor puxava uma bela noite, uma madrugada calma, um renascimento. Um fim... Nunca!A noite puxou o dia. A mulher acordou bebendo. Pegou a agenda e telefonou para o médico. A funerária ficava ao lado, esperaria abrir. Avisou amigos e familiares. Tentou vestir o marido, era pesado demais. Além do mais, havia no corpo ...
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O último badalo do sino da igreja acordou-a da viagem. Deu mais um gole e foi até o banheiro. O jovem cubano não sabia o que fazer com os seios à mostra das alemãs que pediam cerveja. Parecia gostar. Algumas dezenas de anos de lutas rendidas por um par de belos seios. A imagem congelada na memória abriu desejos que minarão lentamente o poder. Mijou forte e rindo. Duas mulheres nuas são suficientes para derrubar um governo. O cio é muito mais forte que as ideias.Saiu do banheiro cambaleando. No caminho até a cama, esqueceu da viagem. Procurou espaço no lençol. Aproximou-se do companheiro. Achou simpáticos os lábios roxos e frios do marido. Sempre o imaginou um morto agradável. Ajeitou o corpo dele. Era esperado, há meses não manifestava o menor apetite. Até a cerveja abandonou. Por que a olhava daquela forma? (continua)...
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O ruído áspero sobre o disco levou-a do espelho. A agulha procurava a música nos microssulcos. Colocou Miles Davis sem perceber que o marido não roncava. Não encontrou mais vodca. Abriu um Ron Caribbean Club, 5 anos, que havia comprado em Cuba. Turismo exótico. Uma fumaça preta saía pela chaminé do hotel e riscava o céu limpo de Havana. Prenúncio de defumação do cidadão. A lenha se rendia e fornecia calor aos estrangeiros. À noite, o desfile de moda e prostitutas. Gigolô anos cinquentas. Com sapato branco e preto, terno branco e chapéu Panamá. O dono da casa guardava o luxo antigo como a um totem. Ele era o sacerdote. E as portas abriam-se aos curiosos pelo templo. Qual homem seria tão maluco a ponto de preferir a pobre Ítaca de Ulisses ao luxo e comodidade que a modernidade nos oferece? Será possível o luxo com justiça?Havana ficou nos anos cinquentas. Uma arte triste e pesada que somente os goles que desciam pela garganta poderiam afastar. Não entendeu o quadro a óleo, uma transparên...
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O da rua se parecia com o dos sonhos: alto e moreno, cabelos cheios e negros. Cozinhou e vestiu-se com luxúria e sensualidade para o sujeito da fantasia. Por isso trepava de olhos fechados. Pena não ter visto a cor dos olhos dele. Sonhava sempre em branco e preto. Nunca procurou o motivo. Adorava homens morenos de olhos verdes. Nunca o encontrou. Ficou na memória e nas fitas cinematográficas. Ambos deteriorados pelo tempo. Imagens fragmentadas e desprovidas de seu egoísmo.Agora, era tarde. Deixou-o desaparecer no horizonte sensível e voltou ao espelho e ao foxtrote. Irritou-se com a garrafa e o copo vazios de vodca. Era a única forma de continuar viva. A vida segura por um único apetite. Olhou para o outro lado do espelho. O fundo do quarto escuro mostrava o esboço do marido, do lençol continuando o amarfanhado do corpo dele, objetos pessoais jogados pela cadeira e pelo chão. Odiava natureza morta. No centro, o rosto da mulher de sessenta, surrada por ter sido falsa consigo mesma, deso...
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A mulher na janela, do outro lado da rua, não havia ido à missa. Penteava os escorridos cabelos. Ele sabia que aquela cena não seria a última. Não acreditava em finais, nem em fios tecidos sem rompimentos. Era artesão do tempo e plantador de gemas e nós. Daí ter dado pouco importância ao fato.A mulher somente percebeu o homem quando ele passou por sua janela. Não viu o rosto. Sentiu um arrepio estranho. Fazia muito tempo que o corpo não respondia a nada. Somente aos apetites da carne e mesmos estes a torturavam. Num rápido movimento, comparou-o ao seu companheiro que dormitava na cama de casal. O porco roncava, barriga inchada pela cerveja e falta de exercício. Caía sobre ela como um saco de batatas. Todo e qualquer sentido se esgotara. Fungava e desistia. Quanto mais impotente, mais ciumento. E o tempo foi roubando o apetite e a imaginação. Também o ciúme. (continua)...
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Água, algumas horas por dia. O córrego em frente mais parecia um esgoto ao ar livre. Sem aviso, cortavam a energia elétrica. Daí manter uma vela em lugares estratégicos na casa. A luz no rosto, esboços de objetos e o negrumoso imitavam um quadro à Oitocentos. Nessas horas, a palavra morte entrava em seu circuito. Arrepiava-se todo ao pensar na possibilidade de ser enterrado vivo. Avisou a mulher para colocar uma vela e uma caixa de fósforos no caixão quando partisse. Ela brincou com a seriedade dele, perguntou-lhe se queria alguns livros e revistas. Para quê?, pensou. As palavras ajuntavam-se em sua cabeça sem o mínimo esforço. Sua história de vida mudou tanto que não sabia mais o que era real e o que era imaginação. O velho álbum de fotografia trazia-lhe à lembrança uma infinidade de passados. Apesar disso, nunca o agradou escrever. Letras possu&ia...
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Um homem misturou-se às imagens. Sem provocar o menor ruído, ajeitou os castiçais sobre as banquetas, acomodou o cálice e o missal, e saiu. Com certeza, não eram mais dele os pensamentos. Jejuaria e oraria até ser agraciado com a imortalidade. Passos abafados na espessura das paredes, superar obstáculos, ascender. Acompanhou-os degrau a degrau. Do campanário, uma bimbalhada clareou o silêncio. Dos céus, pombos arrulharam por toda a praça. Em disparada, cães saíam das sombras. Tinham esperança de abocanhar algum. Macho e fêmea copulavam. Ao som do bronze no campanário, fiéis invadiam como formigas a praça. Emparelhados, afetos e igreja. Enchiam a nave e ocupavam os bancos com suas ninhadas barulhentas. Um órgão emitia algumas notas musicais. Pedaleiras tecendo fios sacros. Oratórios e tocatas de Haendel e Bach. Envoltório gasoso de poesi...
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No interior da igreja, os bancos, em madeira rústica e maciça, estavam despovoados. Somente a luz indireta, dissimulada e oblíqua cortava aquele silêncio de fundo de mar. Chamou um denso suspiro e um poema não anotado. Muitas poesias são perdidas por falta de papel e caneta. Iluminam o lado invisível e desconhecido da matéria. Habitam terras de ninguém. Talvez um raio as ilumine na textura de fundo, transforme-as em desenhos e relevos. Assim eram as paredes da igreja, adornadas por imagens santas incrustadas, dependuradas e pintadas. Apesar do ouro, eram bens espirituais, estavam ali para serem admirados enquanto imagem. Aceitáveis, portanto. Sentou-se sem desviar os olhos daquelas metáforas e alegorias. Fora, o temporal e o terreno; dentro, o espiritual e o místico. Seduzia-o aquele clima de ausência, do amor a Deus de forma pura, vazia de outros valores. Procurou um entrepano, um muro divisório, não os encontrou. Sabia que estavam em algum lugar entre a rua e o púlpito. Invisíveis, o...
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O relógio da igreja estava adiantado. Queria acreditar nisso para justificar o atraso. Mas o sujeito vestido de preto que suava em bicas conhecia a habilidade dos homens que fizeram aquelas engrenagens. Demorou anos para desvendar os segredos das rodas dentadas que se escondiam atrás do mostrador do relógio da igreja da Matriz. A precisão era a sina de seus ponteiros. Portanto, o atraso era real. A frustração era puxada dente a dente pelo tempo.A cadela no cio a arrastar o tapete com bocas salivantes e machos cegos distraiu-o. Sedentos de desejo. A imortalidade é uma cadela no cio. Nela está a genitália do universo. Depois do gozo, a morte. O lenço no pescoço, encobrindo parte do rosto, desseca. Fazia muito calor naquela tarde de outono. Tarde frouxa, mortiça, vazia de almas e de movimentos. Nenhuma brisa, nenhum pássaro, nenhuma borboleta, nada além dos latidos dos cães que dobraram a esquina com seus latidos e dos corpos morrediços, amortecidos pelo álcool, dos mendigos que acompanha...
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Mandei flores, as mulheres têm um vínculo místico com perfumes e cores. Os poetas descobriram primeiro; os amantes, depois. A mãe gostava delas, para vê-la sorrir bastava um botão de rosa. Telefonou, agradeceu, conversamos longamente sobre coisas à toa. As pétalas renderam segredos, casada há dois anos, o marido não a satisfazia. Trepava como um animal, rosnando, gozava, virava de lado e dormia. Com certeza, nunca experimentaria um orgasmo completo, igual ao que vi quando criança, entre coelhos. A horas, eles param, entram em transe, o olhar fixo em algum devaneio. Sonhariam? Eu a atraía, não havia dúvida, percebia ao tocar os lábios em seus ombros ou no roçar dos corpos quando dançávamos. Ela vem duas vezes por semana. Hoje é dia, está um pouco atrasada. Talvez tenha desistido. Da última vez, ao confirmar a vinda, percebi-a ansiosa e embaraçada. São muitos os pontos de convergência: curtimos a mesma música, nossos signos se completam, adoramos dançar e, mais importante, percebemos a a...
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A moça reapareceu alguns meses depois, algo envergonhada pela saída repentina e sem agradecimentos. Trazia uma caixa de bombom nas mãos. Adentrou levantando o vestido, mostrando os joelhos. Cicatrizaram, disse sorrindo. Ah, ia me esquecendo, são para você, que boba que fui, você foi tão gentil e eu fugi. Não me deixava falar, os olhos desassossegados mirando os móveis da casa. Não parava de me oferecer fragmentos: o pescoço longo, a veia ingurgitando com a fala, os braços descobertos e os lábios enormes, escondidos em batom lilás. Os cheiros sempre me atraíram, cerrava as pálpebras para que a luz não interferisse. A pele tem raízes que exalam perfumes, são glândulas alquímicas, à mercê do ritmo circadiano e do humor. Quanto mais próximo do sexo, mais viçoso o aroma. Peguei um bombom da caixa e ofereci outro a ela. Gosto da mobília, do pé direito alto, já passei muitas vezes por aqui, queria conhecer por dentro, nunca pensei que fosse desse jeito... Aproveitei sua distração para agarrá-...
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Os joelhos sangravam, sulcados e cheios de areia. As pernas semi-abertas deixavam à mostra os pelos acastanhados, as coxas feitas ao torno e o cheiro volátil do sexo. Estava sem calcinha. Os pequenos olhos pediam para que eu poupasse a dor. Meus dedos percorreram suas sobrancelhas espessas, perambularam pelo rosto e pararam nos lábios. Fique calma, não vai doer nada, disse-lhe com carinho. Rosto no rosto, não estava diante de uma harpia, sua cabeça era única. Só faltava dizer que estava diante de uma deusa. Afastei um pouco o vestido para cima. Passei lentamente a gaze embebida em água boricada no ferimento. Ela não esboçou qualquer movimento ou gemido. Passei outra, desta vez seca, sem desviar o olhar de suas pernas. Aproximei os lábios para beijá-la. Ao mesmo tempo em que sussurrou um não, contraiu as coxas. Desculpe, foi a única palavra que consegui articular. Ajeitei os medicamentos e a gaze no estojo. Voltei ao banheiro. Quando retornei, ela havia desaparecido. Somente nesse momen...
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No dia em que a garota atravessou a rua, também ouvia Billie´s Best, Speak Low, ficou marcado. Vinha da outra calçada. O cabelo fouveiro e cortado rente. O vestido caía leve sobre o corpo, discretamente transparente e elegante. Os seios tocavam o tecido sutilmente, os pés procuravam fugir das rachaduras do asfalto. Não conseguiu, os olhos saltaram em grito, a voz pouca, quase não se ouviu. O joelho acurvilhou-se. Saltei a janela imediatamente, ofereci meu braço, levei-a até a calçada. A dor incomodava, ofereci-lhe a casa, deixei-a sentada na poltrona e corri até o banheiro. A caixa de emergência, onde estava a caixa de emergência? Meu reflexo no espelho, a mãe estendida na banheira, o sangue incontinente. Foi a primeira vez que vi a cara da morte. “Em vós os olhos têm o mouro frio, / Em quem vê seu exício afigurado”, Camões. Deixou uma longa carta. Nada de culpas, apenas relatava os bens que possuía e o modo como gostaria de me ver utilizando-os. Meu amor não foi suficiente para manter...
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Ouvia Billie´s Best, What a Little Moonlight Can Do, debruçado sobre o parapeito da janela da velha casa rosada, uma das poucas que resistiu aos buldôzeres. Algumas sequelas ficaram desenhadas nas paredes, semelham as linhas do rosto da velhice. Tinha dignidade, ali, metida entre dois arranha-céus, o telhado ferido de tralhas que vinham de cima. Foram meses de acordo sem solução. Depois, veio o pior, ameaças veladas, desaforos e telefonemas anônimos. A mãe trazia um ego agreste, fruto de uma viuvez precoce. Havia outra forma de a mulher sobreviver sem o macho? Nas horas de desesperança ela pegava o velho álbum de fotografias e ficava a passar os dedos no rosto dele. O ventilador arvorava o vestido, refrescando as pernas abertas. Aprendi muito cedo a conhecer a cor e o cheiro do desejo no rosto da mulher. Cresci com eles. A saudade puxava a linha do tempo, trazia na ponta o prazer, um sorriso taciturno que logo escapava. O que você está olhando?, dizia de seu canto. Mal imaginava a vont...
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A cidade passou pelos seus olhos como algo muito distante e impossível de ser vivido. As pessoas nada sabiam dos corredores escuros do poder. Passou pela sua cabeça perguntar o motivo da liberdade. Queria dizer que havia outros na mesma situação; que estavam morrendo; queria... Somente muito mais tarde ela soube o motivo de sua liberdade. No processo militar, o nome do filho de um general desfilava ao lado do dela. Alguém roubou a folha onde constava o nome dele. Quando era para ser enviada de volta ao presídio, nada encontraram que a incriminasse.Preferia ter morrido a ter a sorte que minha mãe tanto me buzina nos ouvidos. Lá fora começa a chover. Agrada-me abraçar o travesseiro contra o peito. A flor do hibisco esconde o vermelho, o peso da água fechou-a. A tarde deixa lágrimas sobre suas pétalas. Vem um gosto salgado na boca. Perdi o pólen, a essência, a fantasia. O quadro... N&at...
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Um novo início. A vida é sempre um reinício. Contínua ilusão de estarmos conscientes de nós mesmos, termos o domínio do destino. Mas na maioria das vezes ele muda de rumo sem nos consultar. Foi o que aconteceu com ela naquele dia. Agredir o tal de bigode e os outros deu algum resultado. Partiram para cima dela. Quando abriu os olhos estava cercada de branco. Sentiu cheiro de hospital. Foi com muita dificuldade, e muita dor, que se levantou. Havia uma fileira de camas à direita e outra à esquerda. Alguém sorria, sentado em uma delas. Há muito não via um sorriso. Ao lado da cama, uma cadeira. Sobre ela um pequeno espelho. Pegou-o. O rosto um hematoma só. Agrediram com o que tinham nas mãos. Como leões famintos. Soube depois, mandaram-na para a enfermaria, quase morta. Ficou desacordada cinco dias. A data registrada no calendário de parede assustou-a.Três anos escondida do mundo, num silêncio terrorista. Era um dia como o de hoje, vinha uma claridade de fora. Olhava a sombra da grade dese...
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Quando a luz acendeu, havia na frente dela um outro homem, bem mais velho que o tenente Zé, sem bigode, cabelos grisalhos, o olhar frio e distante. Sentiu muito medo. Ela ouvia coisas horríveis dos outros torturadores. Sentia-se segura com o tenente. Respeitava-a. Este se aproximou e acariciou o rosto dela. Mas não parou, desceu até os seios e mais embaixo. Ela apertou uma perna na outra com força. A voz dando a ordem para darem o choque foi a última coisa que ouviu. Quando voltou a si, as pernas estavam abertas. O homem ria na sua frente. Foram dez homens depois dele. Fez com que cada um desfilasse na frente dela. Aos berros, ela maldisse as possíveis filhas, esposas, mães, de todos eles.Ruídos... O ouvido no alvoroço que faz um bando de pássaros. Brincam. O calor está mais insuportável ainda. As nuvens acumulam-se no céu. O espelho... A terceira pessoa... O olhar e o ouvir. Eu sempre olh...
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O pai, a essas horas, deve estar jogando xadrez com os amigos. Ficou calado durante todo o trajeto que a devolvia ao lar. Filho de emigrantes espanhóis, nunca endossou o comportamento da filha, principalmente os que antecederam a prisão. Dizia-se apolítico e concordava, à distância, com a propaganda anticomunista. Dizia nas conversas de bar, quando a bebida liberava sua timidez, que admirava o fascismo. Detestava a juventude. Em todo o tempo em que ela esteve presa negou-se a citar seu nome, ignorou-a. Foi a mãe quem foi à luta, compreendia, era mulher também.Era mais amigo de meus irmãos. Sempre quieto, inatingível. Nunca me dirigiu um carinho sequer. Eu ansiava por receber o mesmo olhar que ele dirigia para minha mãe. Aceitei o jogo. Perdi. Perdemos. No final, ele se afastou das duas. Eu me senti como uma boneca perdida nos cantos da casa. Imaginava-me a outra... Devia haver outra. Passei a odiar minha m&atil...
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"Quem pensa que é? Quer reformar o mundo? Vamos, diga, quem são seus companheiros?" Ela desistira de dizer que era um sonho planejado em seu quarto. Tudo solitário, sem companheiros. No silêncio do dia-a-dia. Desejava que o mundo coubesse na tranquilidade do quadro que estava dependurado lá na parede, que as pessoas fossem felizes como a criança que pesca sem pensar em peixes. Ou igual ao casal que vai eternamente ao encontro do barco, sem nunca conseguir alcançá-lo. Era somente isso que ela queria e não sabia como explicar. Não podia compreender o sangue escorrendo pelo seu rosto, a cor da violência em seus lábios, por sonhar.Ruídos... Dia e noite. Tiros dirigidos a quem? As pessoas desapareciam; outros rostos ocupavam seus lugares. No início assustados; depois resignados. É minha mãe lavando a louça. Sempre submissa. Ia na vida como as bainhas das costuras qu...
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Tenente Zé ordenava que a levassem dali assim que recobrasse a consciência. Ajeitava o cabelo e, sem tirar os olhos da mulher, colocava o quepe sobre a cabeça e ia embora. Era um homem muito paciente, que cumpria as determinações superiores sem questionar, era o que havia apreendido com os anos de caserna: o respeito à hierarquia. E sua função naquele momento era arrancar o que fosse possível, custasse o que custasse. O fato de ser uma mulher deixava-o mais tranquilo, sempre foi mais fácil arrancar delas a verdade. As sessões repetiam-se uma, duas... dezenas de vezes. Quando voltava a si, estava na cela, um cubículo úmido e cheirando a mofo. Molhada e humilhada. Na cabeça, a voz do homem: "E então, vai falar ou não?" O cheiro de suor, sangue; os gritos... Os corpos dos companheiros que não suportavam a tortura, com uma estranha paz no rosto, eram carregados pe...
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Um grito forte e curto. Deixou-a paralisada, olhar perdido na distância. Trouxe-lhe a figura do tenente Zé, escondido atrás das lentes escuras dos óculos e do bigode sempre muito bem-aparado. Fazia seu serviço com perfeição. Primeiro, o silêncio e a pouca luz como intimidação. Ele ficava sentado, o quepe sobre uma velha mesa, encarando-a. Nenhum gesto; nada. Apenas a respiração lenta e rítmica. De repente, uma luz vinda de trás da mesa rasgava aquela pocilga. No chão, esparramados pelos cantos, metais e roupas sujas. Um ventilador só para ele. Não havia janelas, o que deixava o ambiente muito quente. Depois de um longo silêncio, levantava-se deixando a sombra de seu corpo cobrir a acusada. Então caminhava de um lado para o outro. Conversava, dizia que ela deveria tornar o serviço mais fácil, que seus amigos já haviam confessado tudo. Que...
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Talvez eu devesse iniciar falando de meus traços, mas peço desculpas. Pouco conheço das linhas e dos limites de minha substância vital. Tudo ficou perdido nos reflexos das águas e dos espelhos. Eu me olhei milhões de vezes, escovando os dentes, penteando-me, maquiando-me, e nunca me enxerguei. Se nada sei de meu corpo, como descrevê-lo? Os outros, a família, sempre souberam mais sobre ele do que eu mesma. Amarrada e calada pelo mundo dos adultos, restou-me o olhar e o ouvir. Sou essa massa amorfa sentada de frente para a janela de meu quarto.São duas horas. O céu nublado e o mormaço prenunciam uma chuva de novembro. A pouca luz que entra no quarto é suficiente para desnudar a velha máquina de costura, o quadro na parede e a mulher sentada na cama. Fora, próximo ao muro que dá para a janela, uma flor alaranjada, tremula. De seu centro avermelhado escapa uma haste branca. É uma f...
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Não preciso nem perguntar se você se lembra. Apavorou-se com tudo. Ficou semanas olhando-se no espelho. Queria até que eu apalpasse seus seios. Procurou aproximar-se dela. Lembra-se? Talvez não. Você está distraída com a beleza da renda. O tempo sempre apaga um pouco o pavor. O tempo... Uma caixa de comestíveis minutos. Foram meses assim, um silêncio sepulcral. Ela estava mais arredia que antes. A peruca mal disfarçava o sofrimento. A volta de diálogos, muitas vezes monólogos, do outro lado, indicava que algo não estava tão perdido assim.Nada mudou desde então. Em alguns momentos, chegava a acreditar que tudo voltaria a ser como antes. Mas não. Ouvia-se somente o silêncio. A menina nunca mais apareceu na janela com seus olhos de gato, nunca mais apanhou. Ela perdeu a curiosidade. Ainda ontem a vi na rua. Atravessar a rua pode ser apenas um gesto a mais. Parecia adulta demais para seus treze anos. Pouco se ouvia dos meninos, das antigas brigas que tanto exigiram dela. Andam chutando rai...
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Eu não preciso lhe perguntar. Você se lembra. Foi a vizinha da outra rua que confirmou. Aquela mudança repentina não trazia boas notícias. É câncer, cochichou a vizinha. Confirmei com o marido dela no dia em que ele lavava o carro. Contou-me tudo como um grande segredo. Percebi que precisava falar. Meu silêncio serviu-lhe como uma luva. Câncer... Meus olhos nos fios de alta-tensão. Por ali passa o ópio do povo, milhares de quilowatts, sons e imagens. Sob os pés de um pássaro inocente. Como? Câncer...Foi espontâneo suas mãos passearem pelos próprios seios quando lhe dei a notícia. Você quis saber como ele estava. Como podia estar? Assustado, os cabelos mais brancos. Continuava frequentando a casa às noites e nos finais-de-semana. Isso quando ela não ia fazer quimioterapia. No restante, era o mesmo homem que imaginávamos quando ouvíamos...
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A coleira esquecida no prego, as palmeiras, a velha arandela sem luz, as azaleias, a água da piscina, serena. Quantas vezes não parei nesse mesmo lugar e fiquei à espreita aguardando o silêncio depois dos gritos? Como toras a impedir novos caminhos. Matam... Para que os muros? Eles não barram vozes... Muito menos silêncios. Somente os olhares... Nós a conhecemos tão bem! É o que você diria, não estivéssemos preocupados com o melhor lugar para colocar a planta. Mas não precisava, não havia muros entre nós, somente o olhar. E eles se separavam, desviavam-se para o outro lado sempre que o ódio daquela voz clareava os cantos escuros dos canteiros. Não passava meio-dia para os gritos rasgarem a manhã, afugentarem as pequenas aves. Elas saíam em revoada, assustadas como as crianças. Voltavam mansamente, ciscando pequenos alimentos. Não demorava para a antiga ordem voltar. Na casa, também. Acho até que, com o tempo, eles se acostumaram. Pareciam menos convictos da necessidade da fuga.Estranha...
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"Fica quietinho, fica... Olha!" Os corredores das duas casas eram separados por um muro. Ela não sabia que eu estava do outro lado. Tomava um café, recostado no batente da porta. Sua voz, quase infantil, misturou-se ao chilrear dos pássaros, ao verde da renda portuguesa, às flores brancas e vermelhas caídas dos hibiscos. Era uma manhã lavada. Tudo parecia novo, como se a natureza acabasse de ser formada. Chovera muito à noite. Daquelas chuvas inesperadas... Inesperada como a morte. De repente, a notícia. O silêncio... Uma longa pausa... Desapareceram os gritos. Não havia mais razão; os filhos pareciam ter dado uma trégua a ela.Borboletas arriscam um voejar pirata. Duas orquídeas nos espiam. Pássaros empurram o silêncio. Ondulam asas-deltas no céu... Surfar em nuvens. Alguém bate estacas ao longe. Há um ruído de máquina; alguém cortando grama. Mutilam... Teimosas, elas crescem novamente. Onde deixar a renda? Debaixo dos hibiscos, na sombra, você disse. Percebi que também ouvi...
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Disse os teus beijos e aqui se levanta um parêntese, que até então, antes de escrever “os teus beijos”, eu não havia notado. Eu te beijei muito nesses dias, e, embora te mostrasses passiva, apenas dando o colo, o pescoço para os meus beijos, bem sei e também sabes que isto, dar-se e sentir-se beijada, já era um agir. No entanto, nunca me beijaste, digo, nunca houve de ti uma procura para pôr os lábios em mim. Sei, compreendo, que até nisto representavas, até nisto eras A Pretendida. Mas nessas representações, nessa entrega como se fosses a perseguida, teatro era apenas um instrumento. O representar era a vitória, parcial, da proibição. Quando entregavas o rosto para se beijada, quando os meus lábios passavam rentes a teus lábios, a tangenciar o seu calor e tato, sem neles pousar a minha força, nisso não ia só uma inexperiência. Ora, o instinto natural já é uma experiência. Não se precisa ir ao cinema ou se aprender lições de beijo para se pousar os lábios nos lábios de quem amamos. Qua...
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Então tu me falavas o que sentias diante do olhar de Gilvan, lembras? Então já começávamos a dominar a nova linguagem, pelo gosto da representação, pelo irmão prazer de obediência às regras criadas pelo calor e no calor do sentimento. Dizias como se me abrisses um segredo, um porta-jóias raro tu me abrias, e abrir, esse verbo, não escrevo por acaso, porque me dizias: - Quando ele me olha assim, eu fico toda molhada. As minhas calcinhas ficam úmidas.Dizias, como se tu fosses paciente, um reflexo daquele olhar, quando na verdade eras a imperiosa agente, pois eras a razão e o estímulo do olhar. – Eu fico toda úmida, dizias, com voz chorosa, e baixinho, como se baixinho nos convidasses a um passeio na mata, de árvores muito altas, e lá em segredo me dissesses com hálito quente, ao ouvido, com língua e carícia na língua: - Eu fico toda úmida. E eu, gaguejante, anjo poderoso a me atrapalhar nas próprias asas, nas próprias poderosas asas a ruflar por entre as pernas, perguntava: - Molhas? E c...
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A segunda mentira, e agora mesmo eu sinto o teu perfume, me feres com o teu cheiro agora, quando te recordo nisto: a segunda mentira que eu te fazia era quando eu te levava os nomes de amigos e conhecidos que eu deixava a impressão de que te desejavam. Aí, para mais acabada mentira, grande era a minha perfídia. Que eles viessem a te desejar, se soubessem que te eram prometidos, era natural. Qualquer homem era um potencial desejoso do teu corpo. Ou da tua pessoa, como eu te dizia, para melhor perfídia. Mas eles não te desejariam nos termos em que eu te falava. Os termos eram meus, Carmem, e de terceiros eu me servia para te falar. Como nestes termos: - Você já viu Gilvan? - Não, eu ainda não notei ...- Procure notá-lo. Veja como ele te olha.- Sim, mas como?- Ele te come com os olhos...- Que é isso?- É te olhar desejando com os olhos, te pondo nua. Parece que ele adivinha você nua. E assim dizia olhando-te com intenso fervor. Assim como os crentes conseguem o milagre pela Oração, e põem...
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(Quando veio o amor)As referências aos nomes das tuas amigas que eu falava, as pequenas histórias de fatos e interesses em mim, que eu te contava, todas eram franca e aberta mentira. Quando eu dizia, quando me perguntavas, que minha maior atração era por Selma, e a partir disto eu passava a exaltar, exageradamente, algumas das suas virtudes, pernas, olhos, por exemplo, o meu grande prazer era sentir tu a desceres do ponto em que eu a erguia. Dizia-te: - Um dia ela cruzou as pernas e eu pude ver boa parte das suas coxas. Que coisa bonita!, dizia-te. E tu, ato contínuo, jogavas-me de volta esta reação: - Besteira. Coxas por coxas, ó, eu também tenho... e dizendo isto me exibias o que eu sempre desejara. Não sei se meus olhos se enchiam de luz, se deles lançavam-se flamas, mas ao vê-los naquelas horas, ao vê-los na minha perturbação, tu mais erguias a tua saia, e era simplesmente bestial, brutal, o modo como eu continha em mim o impulso de não te assaltar. Era simplesmente doloroso o esfo...
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(O poder da palavra, ou Porque eras minha irmã)Sossegues, nada vou dizer que cheire a uma sociologia fúnebre. Mas se queremos falar com propriedade, e saibas, esta é a hora e a vez ou será nunca, então devemos falar com alguns traços da paisagem. Ela é sombria, ainda que se tenha passado em dias e geografia de sol. Dias de religiosidade, e tamanha era a sua opressão que deles poderíamos falar a partir dos Dez Mandamentos. De como os Dez Mandamentos se traduziram em nossos dias. I – Não terás outros deuses diante de mim. (Êxodo 20:3) Se Deus for um Ser a quem devemos adorar, então Deus era a tua vulva. Não digo logo o nome em maiúscula, Vulva, porque eras um substantivo comum, ainda que naquelas circunstâncias fosses uma não só determinada, mas e mais além, porque eras a única. Então digamos-te melhor assim, Vulva. Porque era t...
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Estavam úmidos, lágrimas lento desciam, e não choravas de dor, ali mesmo e naquela hora pude ver. Assim percebi porque, enquanto o espelho refletia os teus olhos apequenados e em lágrimas, tuas ancas em minha virilha aproximavas, e tua altura descias, sem te curvares, porque tuas pernas abrias um pouco. A ser dor era a própria dor que pedias. Não sei, não lembro agora, se tive consciência de que ali podias ser minha. Naquele instante, na irracionalidade sem recato e pública da excitação, ali mesmo, que eras minha. Que digo, só agora percebo, ali eu é que era teu, ainda que não te houvesse penetrado. Eu estava sob o teu domínio, porque te mostravas dominada. Mas eu não podia, por mais que nesse impedimento muito penasse, ali mesmo me ferir de cheio enquanto te penetrava. Estávamos no quintal, era um lugar público, esta a aparente razão. Mas eu poderia enlaçar-te, ainda que para isso eu me vestisse outro personagem, o de um vaqueiro que laça a sua rês, não importa, eu poderia enlaçar-te...
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(Diante do espelho quando eu vinha)Mas então eu em vez de te pegar pelos ombros, de te acariciar nos ombros, fiz dos meus dedos garras, como se compridas unhas tivessem, e com elas eu te cerquei, como uma ave de rapina, e enquanto os teus olhos cresciam para compreender e assimilar aquele novo perigo, e enquanto assim te distraías, de costas para mim, a ver as minhas garras no reflexo do espelho, então eu pousei os meus dentes no teu pescoço, como se nele eu os cravasse fundo. Beijei o teu pescoço e o mordi de leve, como um prolongamento do beijo, porque macio e latejante de viço eu o sentia. Estremeceste, pude ver, diria que pulsações eu vi, porque eu também estremeci ao contato e reflexo do teu estremecimento. Tive impulso de lamber a pequena mordida que te fiz, mas recuei, não bem horrorizado ao que eu desejava, mas recuei por desconhecer esse caminho do afeto, por não saber, naquela tenra idade, que todo i...
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(A transformação da gargalhada)Então o impasse do rapazinho a gargalhar parado diante da mocinha, que sôfrega se dava e nada recebia, então o impasse que fazia retirar-se o gênio de Aladim com o pênis enlouquecido, porque o seu papel ali morrera, então o impasse gerou uma outra invenção. Foi real, não foi sonho, Carmem, bem te lembras. ("Você partiu, sozinho me deixou, eu chorei", lembro o samba agora.) Parece um sonho porque resolvemos com a imaginação o obstáculo, resolvemos com extraordinária liberdade sem os impedimentos da lógica mecânica. Então sabes, sabes e lembras, então a gargalhada se transformou no vampiro. Como um nascente Drácula então o adolescente se envolveu num lençol, lençol que era ao mesmo tempo capa de vampiro e cobertura da ereção, e o menino, sem perder o estrondoso riso, pois q...
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(Brincar)Foi então que passamos a brincar. Não saltamos de imediato daquela visão generosa do teu sexo para as brincadeiras. Não foi na mesma tarde do mesmo dia. Naquele dia eu vivi sob o impacto, sob o choque de quem eras, eu vivi febril naquele dia, com o pescoço e a genitália em brasa, com uma febre que me acompanhou bem ou mal a partir de então todos os dias. Até hoje, de certo modo, um fio dessa febre me acompanha, confesso. Mas não se compara àquele dia, àquele momento. Antes daquela visão, o sexo, o ardor sexual vinha antes da vista da coisa, do músculo, da boceta em pêlos florida. Era uma fome longe da mesa, sem saber o que era mesa, sem jamais ter visto mesa. Era uma fome a vagar à procura da sua razão de ser. Uma alma penada sem objeto, sem fim nem finalidade, a correr e a se consumir num vale de sombras. A partir daquela vista a minha fome ganhou um alvo, a fome viu...
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Então a tua vulva me ofereceste, com generosidade, prodigalidade, delicadeza, tentação, irresistível e invencível, invencível, invencível, Carmem. Mais uma vez choro a esta lembrança. Este choro, sei, é não só um gozo perdido, é não só um gozo tardio, de compensação. Ele é a lembrança que me dá esse conhecimento da inocência. Tivesse eu a ciência de hoje então, então eu enviaria a ti um beijo, a ti propriamente não, Carmem, mas à tua vulva. Um beijo como um pássaro, como uma lança, como uma flecha, como um falo que te penetrasse, exatamente por entre os pêlos que me abrias. Mas não, sou apenas um homem, com todas as limitações de que um homem é feito. E por isto me vem um irreprimível soluço. Agora. Para aquela manhã, tivesse eu o poder do desejo, ...
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(Feições de Carmem)Eu não posso reduzir o teu retrato à tua vulva. Não quero, não posso, a razão que acompanha o desejo me diz. Eu não quero reduzir o teu ser a tuas costas, a teu pescoço, não posso nem devo, a razão me diz. Mas somente por método, separemos o adolescente desejo da razão. Na memória, de memória, que tão viva não é memória, é o real agora neste momento, falo e falo-te com a dureza rija a ponto de, com aquela ponta nervosa antes do doce desfalecer. Tinhas o bom mau hábito de usar calcinhas de seda. Era bom, Carmem, porque elas, róseas, colavam-se em ti como uma segunda pele, pondo em teu sexo um luxo artificial, como se fosse uma jóia no escrínio, e pela distância dos meus afagos, como se fosse um escrínio escrínio, um porta-escrínio. Lembro que foi com a forma do teu sexo ...
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Há coisas que não se escrevem somente com letras marcadas à mão no papel ou na tela do computador. Escrever que retorno àqueles dias não é tudo. Dizer que ali se iniciou um jogo amoroso, mais rico que o aprendido em As Relações Perigosas, porque na pele vivido, porque mais primário, fundador, ainda não é dizer tudo. Sequer será dizer e expressar a nuance de cor daqueles dias ou daqueles fundamentais meses, distendidos ao longo dos anos na lembrança. Posso dizer, por exemplo, que ali houve uma oportunidade para o sexo na consciência. E no entanto saber que isto é muito alto e largo como uma generalidade. Porque não atinge o músculo do mistério. Posso dizer que nos penetramos em primeiro lugar nos cérebros. E isto é tão verdadeiro quanto o azul que, pintado em uma tela, se pusesse no lugar do azul do céu. É chapado e grosso...
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Mas recuar diante do futuro do pretérito não é o mesmo que responde à interrogação:Por que não saímos dos limites daquela casa? Por que não fugimos da sufocante vigilância? Se a nossa casa estava com uma cruz marcada (meu Deus, agora sei,agora compreendo por que demos um decisivo passo seguinte! Por que a cruz, por que a revolta contra a cruz, e as formas e conteúdos que tomou o nosso passo seguinte!), dizia, se naqueles limites éramos irmãos, se ali havia o pecado do incesto, um crime tornado monstruoso pela agonia do nosso pai, por que não afastamos a cruz em brasa da nossa pele, afastando-nos dela com o nosso afastamento da casa? Com a maturidade depositada hoje, é mais fácil ver. Para sair, e com isto possuirmos um roteiro prévio para o nosso encontro em algum lugar escondido, precisaríamos antes ser íntimos na carne. Se não isto, pelo menos dev...
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Penso e repenso nos simulacros de gozo que perdemos. Digo, nos simulacros de gozo real. Digo, do puro gozo, ainda que não nos fundíssemos em um só corpo. Penso agora, quando tudo ou quase tudo é perdido, nas possibilidades do amor sem penetração que perdemos. Faltava-nos astúcia, conhecimento, apesar da nossa hipocrisia. É natural, claro. É revoltantemente natural. Num tempo em que tudo era desejo, em que tudo era prenúncio e anúncio de carne fodida e fornicada, presente em teus pés, Carmem, nas marcas dos teus pés na areia, na fita de cabelo esquecida a um canto na sala, na tua voz, nos falsetes da tua voz, no calor da tua voz que me transmitia um álcool no peito. Presente no teu pentear-se ao espelho, em um retrato preto e branco do teu rosto, que mata, até hoje, com a tua expressão alheia e séria na foto, fingida,na tua passagem próxima a mim, com um halo e &...
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Por que ela veioNão sei como tudo começou. O ponto exato do começo não sei. Isto para mim é tão insolúvel quanto saber em que ponto nascemos, em que ponto morremos. Sei o acontecimento, ou os acontecimentos, factuais, exteriores, que antecederam o desejo, quase amor. Como um cinetoscópio mecânico que antecedeu a arte do cinema. E aqui, a lembrança de uma representação teatral, da tela , vem a propósito. Tudo começou com uma gargalhada. Havia um filme em cinemascope, uma adaptação de um conto de As Mil e Uma Noites, em que um imenso gênio saía de uma garrafa trazida à areia da praia pelas ondas do mar. Esse gênio possuía uma coisa tão maravilhosa quanto o sair do gargalo como fumaça e lá nas nuvens surgir medonho. Essa coisa era a sua gargalhada, estrondosa. Ela começava pela irrupção de uma voz, de...
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Aquela noite não foi ontem, na véspera destas linhas, e no entanto me vem com tal insistência, tantas vezes eu a tenho lembrado, que não sei até onde foi um sonho, até onde foi real. Sinto-a em parte como a concretização de um desejo, e em parte como a frustração de um absoluto. - Está dormindo?, ela me perguntou. Lembro, e isto é certo, era noite, ela veio sozinha a meu quarto, disso eu tenho plena consciência. Tão real, Carmem, que posso quase tocar aquele momento. Eu dormia no último quarto da casa. Eu mal acreditei, daí porque a vejo como a concretização do sonho, a realização do sonho, a intervenção do sonho na realidade. Era mesmo Carmem, de short curto, às 11 da noite, que vinha para o meu quarto. – Está dormindo? Eu não lhe respondi. Abracei-a, abracei-a e beijei-a com toda a inexperiê...
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Andava por não ter amigos, nas ruas ninguém é amigo de ninguém, individualismo extremo, disfarces não funcionam. Com eles a cobrança vem junto, sem limites. Não adiantaria voltar para casa, há anos não dormia à noite. Encontrou ponto de pó, cheirou forte, longe do povo que se aglomerava na porta do bar. Foi sempre de usar droga sozinha, não gostava de se expor, dar bandeira para investigador zureta e mal-intencionado.Ziguezaguear passos amordaçada pelo pó branco. Anjos dançavam Adios Nonino em Buenos Aires ou Santiago. Rostos eram difíceis de ver. É noite clara, um carro pára na calçada, e a mulher sabe que, com ou sem Astor, puta não pode, nem morta, se dar ao luxo de ter um passado. Fim...
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Sempre viu nas amigas que se suicidaram um olhar de Maísa, de avenida São João com avenida Ipiranga. Todas que não faziam um pé-de-meia tinham o mesmo fim, os corpos eram encontrados em algum hotel vagabundo perto da rodoviária. Arrepiou-se toda com a possibilidade de ser despejada. Puta sem gigolô é como carniça, será comida de urubu.Depois da morte do pai, o locador vivia em casa cobrando aluguel. Um dia, calou. Nunca perguntou à mãe o motivo. Nunca mais o viu pelas redondezas, nem para cobrar o que lhe era direito. Até a morte, a mãe permaneceu na casa onde o pai teve crânio trincado. Distante no tempo, não é difícil entender o que aconteceu. As idas à igreja tinham outros motivos que não o aborto da filha. O homem também era de igreja, amigo muito próximo do padre da paróquia. Nunca desconfiou da demora da mãe e, se so...
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Matou e não sentia remorso, pagou pelo filho que ele mandou tirar. Não se conformava com a morte do estranho, pelo modo de se expressar, homem de estudo. Falava difícil, mas de algum modo tudo que dizia tinha um sentido para ela. Puta ouve muito e não deve se envolver, nem os fregueses pagam para ouvir conselhos ou opiniões, aprendeu cedo. As amigas que resolveram se intrometer não duraram muito na vida. O segredo de uma boa profissional é ser desorelhada e muda. Homens não gostam que relembremos o que disseram, principalmente se rola droga, pagam pelo silêncio.Com o estrangeiro foi diferente, fitou a orelha e deixou som entrar, assim como faz quando ouve Moderato Místico. Não compreendeu o que ele queria dizer quando viu que ela também gostava de Astor: Cuidado, Piazzolla é a própria morte. Nele, sangue é sangue, lágrima é lágrima, somos suicidas ou criminosos, ...
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O bulício na frente do prédio da Gazeta arrastou um monte de rostos jovens pela calçada. Ouviu alguns gracejos, soltou alguma grosseria, sempre prosseguindo. Por mais que se esforçasse, música alguma aliviava o abismo que tinha à sua frente. Com duas mortes, por mais que nos afastemos, sempre haverá escuridão, mais se foram provocadas por amor ou ódio.Atravessou o passadiço que liga a Paulista à Brigadeiro. Já foi um luxo, hoje é um prédio decadente. As meninas não estavam na rua. O momento era muito mais de medo que de respeito ao luto. Ligação de puta com gigolô é igual família, respeito amalgamado pelo pavor. Você vai se acostumando com o outro, ajeitando-se nos defeitos dele, comete pequenos delitos e descobre o prazer que eles trazem. Quando pai morre, até se descobrir uma nova ordem, muito sofrimento rola. Você se habitua co...
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No velório, a música escolhida deverá ser Oblivion, deixou escrito nas últimas recomendações de um morto. Também deixou uma carta aos filhos para que eles compreendessem que o ato nada tinha a ver com suas vidas. Por último, deixou uma declaração proibindo qualquer utilização de órgão seu. Não permitiria que parte sua andasse pela cidade no corpo de outrem, por mais humano que fosse o discurso. Não queria ver órgão seu fora das fronteiras do país. Nem uma córnea doaria. Cegos existem aos montes e córnea alguma melhoraria suas visões. A cegueira verdadeira talvez lhes dê a oportunidade de enxergar os fatos como são e não como os desejamos. Por que mudar destinos? Morria com a certeza de que o homem não tem o direito de adiar o momento mais sagrado da vida.Música e silêncio. Descanso final. Cansava-se com as frases que surgiam em surtos já paralisadas de qualquer ato possível. Nunca imaginou que a espera da morte fosse tão cheia de delírios, como se palavras fizessem a ligação do corpo c...
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Nem nas artes conseguiu adiar um pouco. Virgínia Woolf, Sylvia Plath, Van Gogh, Charlie Parker e tantos outros deram-se um tempo. Partiram no dia escolhido, quando o novelo de medo se desfez. O que construiria um homem amputado da própria vida, estorvado pelo dinheiro, tornado cego de crepúsculos? Nada, isso mesmo, nem a família foi obra sua, deixou emoções aprisionadas em blocos de gelo e carregou-as de um lado para o outro como utivos fazem com suas pastas vazias de conteúdos. Que outra atividade poderia ter alguém que acreditou em Freud? Não, nada se cura, para a mente nada é doença, tudo é possível, até assassinatos e suicídios.Morrer sem conhecer a Santiago de Il Pleut Sur Santiago, aí está a verdadeira peste. É tarde para arrependimentos, não dá mais tempo para nada, não quer ter tempo, a mulher com cara de boneca, que caiu de algum acaso, foi seu último gozo em vida, um anjo enviado da constelação de Cérbero. Sem mais ilusões, sem aventuras e exercícios de riscos. Dizem que nest...
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Viver na cidade é ter o crepúsculo roubado da visão. O homem fechou com porta de aço o horizonte. Aprendemos a nascer e a morrer com o crepúsculo todos os dias, e sem este olhar contemplativo nada somos além de máquinas de fazer moedas. Morrer é este movimento simples de se pôr, apagar de luz, de ceder o espaço à escuridão. Argamassa e luzes de néon são a mentira, o céu e o inferno do positivismo científico. Assim era o homem, todas as tardes, arrependia-se de ter abandonado a pacata cidade onde nasceu. A capital ofereceu-lhe estudo, boas mulheres, bons teatros, bons cinemas e até uma família, mas roubou-lhe o que há de mais sagrado na vida: o crepúsculo. Entristecia-o morrer assim, sem o canto barroco e o jogo de cores da tarde. Por isso escolheu o vão do MASP, mergulhado em artes e no local mais alto, moradia de bruxos e feiticeiros. ...
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Desta vez, não passou na choperia que ficava embaixo do prédio onde trabalhava, tinha pressa, apostava com quem quisesse que ela o esperava. A certeza foi perdendo força à medida que entrava em contato com a dependência provocada pela experiência que tiveram juntos. Não era agora que se submeteria a alguém, não dava mais, por mais forte que fosse a atração. Nada de cegueiras, com o tempo os defeitos apareceriam, abafariam as boas intenções e os bons momentos, sabia o quanto era difícil para alguém conviver com um companheiro igual a ele. Sentiu-se aliviado com o congestionamento, teria mais tempo para decidir. E se ela estivesse lá?, disse-lhe que podia ficar, não poderia mandá-la embora sem mais nem menos. Não conseguiria, o cheiro dela continuava no nariz, um cheiro de sexo que lhe acendia todo o corpo. A luz do apartamento estava acesa, mas ela poderia t...
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O homem parecia não ter passado, não encontrou nenhum indício de que houvesse algum. Nenhuma fotografia, diário ou cartas. Apenas um livro aberto com uma frase riscada a lápis: o homem que enxerga pela primeira vez, depois de anos de cegueira, não compreende o fato de chamarem de cão um animal, seja ele visto de frente ou de lado. Com letras pequenas havia acrescentado: o cego de Diderot era mais sábio e mais atual que todos os doutores juntos, preferia ter braços longos para tocar a Lua, sabia da inexistência de imagens visuais nos blocos da memória. Ver era tocar as partes, montar o todo. Foi assim que ele desvendou seu corpo, com toques leves e suaves, fossem com os dedos ou com os lábios. Nunca se sentiu tão invadida, apesar da leveza e do carinho com que a tratou. Quando notou não era dona de si, nem dele. Nada mais que um corpo em queda livre. Foi ao banho. A água descia pelo a...
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Vacilou na linha que separava o mármore, da pedra vagabunda. Tornava-se cada vez mais difícil assumir a rotina do dia-a-dia. A identidade, registro geral quatro milhões, trezentos e trinta mil, duzentos e vinte e dois, o número é a coisa, a coisa, o número, celas iguais, roupas iguais, mesma hora de se recolher e se divertir, todos são batizados, crismados e se masturbam aos doze, moram em conjuntos residenciais, fumam um mesmo baixo-teor, comem um mesmo diet, trepam com a mesma loira do cinema, na prisão e nas ruas, as mesmas crendices e o mesmo Deus, padres, com humor, fogem de suas igrejas ante à cegueira voluntária dos fiéis, escolas ensinam boas maneiras, jovens saem com o mesmo hábito invisível da mediocridade, enfrentam testes de suficiência, serão doutores, ninguém deixa de violar as leis, há um pacto de permissividade entre os casais, infinitamente, um é...
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Considerou absurdo o romantismo momentâneo. Com certeza, ajeitava as coisas para desaparecer, todas agiam assim. Adorava seu espaço, um mundo muito particular, sem o ruído que faziam as correntes presas nas pernas e no pescoço daqueles que caminhavam cegos de luz, que nada sabiam de metáforas em corpos nus. Quarenta anos vivendo sozinho, fazia parte daquelas paredes, igual à lenda turca onde a gruta serve de molde a uma forma humana que, sob o efeito do sol, adquire vida. Talvez, fosse sua metade perdida... gostaria de acreditar em duendes e fadas mas, por mais que tentasse, voltava ao concreto. Seria difícil habituar-se a dividir o espaço com alguém...De repente, a mulher sentiu frio. Os olhos vasculharam cada dobra do apartamento. Com certeza, tratava-se de um homem com hábitos estranhos, nunca entrara em uma sala daquelas, mais parecia um templo, a melancolia e a energia conviviam simultaneamente. Uma tape&cce...
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Nunca foi tratada assim por ninguém, mesmo o convite para que ela o acompanhasse ao apartamento foi muito natural. Até aquele momento, além de um toque de dedos, um ou outro olhar mais indiscreto, nada mais havia acontecido. Tudo muito sutil e indireto, igual à poesia que ouvira e gostara muito: seus seios/olham meus lábios/tesos/num rigor militar//meus lábios anseiam seus seios/úmidos/num sutil transgredir/de olhar//:se tocam/apesar da distância/e das metáforas. Agora, aquelas palavras ouvidas, com o mesmo carinho com que a tratou na cama: se você ficar tem comida e bebida na geladeira. Queria ter os lábios dele beijando seu corpo, o grito que não conseguiu segurar, o corpo caindo no vazio e o sono. Um milhão de vezes... convulsionar. Acordou com o barulho de buzinas, ele lhe havia dito algo sobre a reunião. Lembrou-se apenas do horário. Procurou afastar a vontade de ir até a ...
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A porta fechou um mundo e abriu outro. O ruído de chave girando na fechadura deixou definitivamente uma das montagens de sua vida para trás. Sentia-se cansado desse abrir e fechar de destinos, do jogo de poder que gerava crises nas relações a dois. No corredor, um tapete amarelo-ouro forrava o soalho estreito e cheio de portas. Em cada uma das entradas, do mesmo tamanho e da mesma altura, um olho espiava e deformava rostos. O interior a observar o exterior, a decidir quem tem direito de atravessar os vãos. Parou esperançoso de encontrar algo novo, alguma surpresa, o som ou o cheiro de algum mistério. Ouviu somente os gritos vindos de dentro, criaturas de Baltasar, repetitivas, agiam como se a madeira e os gonzos fossem simples objetos de carpintaria. Um ruído forte e seco no outro corredor afugentou os sons, balançou os delicados lustres dourados que se alternavam com extintores de incêndio e gravuras c...
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Enquanto mordia e mastigava a fruta, Artur tentava compreender o estranho e pesado cansaço com que acordou. A carne e as juntas do corpo doíam muito, como se andasse a levantar uma parede de pedras. Há muito, não erguia um único tijolo e a idade não era muita para justificar aquele mal-estar todo, muito menos a noite que havia sido muito prazerosa. Se um caminhão passou por cima de meu corpo, foi no sonho, disse às paredes. De uns tempos para cá, vinha a falar com elas. Somente assim conseguia se distrair do coro que vinha de dentro. O falatório perdia as forças com o passar das horas. No almoço, não haveria mais que um frágil sussurro, um som de procissão a se esgotar nas inflexões das ruas. Acostumou-se. Você vai chegar atrasado, fez saber uma voz feminina. A luz, interceptada pelas grades da janela, fatiou o corpo de uma mulher nua. Fitou o corpo zebrado pelas s...
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Em homenagem a Paula RegoA mãe chora no quarto. Amanhã estarão na praia, com estrelas do mar, tartarugas e peixes. A mãe levará a máscara de quem não tem o animal a satisfazer o gozo e as flores mostrarão a língua. Para dormir, colocará o paletó do marido sob o corpo. Vestirá a roupa de casamento e manterá o olhar no branco acetinado do passado. Terá crises histéricas, morderá o próprio corpo e olhará a vulva como homem. Paula ouvirá os gemidos da mãe que roça o sexo na dobra da cama e perceberá no dia seguinte o medo que ela sente de ser apedrejada. Mas ela continuará a se vestir para o retorno, tirará a roupa todos os dias como se o marido estivesse presente e, na sua ausência, tirará a calça com tristeza. Amigas terão um olhar pesaroso e a mãe ficará nua na areia, entre carangu...
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Em homenagem a Paula RegoPassariam o final de semana na praia. Veria a mãe ajoelhada a deixar a brisa e o calor da areia entrarem entre as pernas, uivando no vazio da praia e no roçar da água na areia. Coxas de onde vinha um ruído de concha, chamamento de macho que se rendia àquelas pernas suculentas a comprimir seu sexo. Mãe e filha transformavam-se em duas cadelas a focinhar a falta do homem na casa. Suportavam o calor com punhos trancafiados e pés estendidos nos sonhos. O lobo uiva, fitando o horizonte, à procura de seu par. Paula não suportava o silêncio imposto pela mãe, sentada na velha poltrona da casa, um pé sobre o outro, braços escondidos nas costas e pernas contraindo o sexo. Sentia-se abandonada por aquele olhar vencido pela saudade e pela raiva. Bem diferente do dia em que o pai partiu e a mãe o penteava carinhosamente. Era seu o troféu. Ver a mãe daquele jeito, m...
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Em homenagem a Paula RegoMas Paula era mesmo estranha. Uma menina com cavernas de vazios e represada no ódio. Ora mirava distante, do alto do cabo da Roca, ora as ondas agitavam-se muito próximas, entre pedras, como devia ser a boca do inferno. Uma criança instável e esquisita. Opinião da mãe. O pai achava-a especial. Que era diferente das outras, sabia. Nenhuma prima tinha a mania de ver tudo em branco e preto quando sentia raiva. Menos ainda essa coisa de pedaços de cores fortes formando imagens e a compulsão de recortar figuras de jornais e revistas velhos. Por isso, em certas manhãs, não gostava de ouvir Schoenberg. O pai também ouviria as cores dele? E se enxergasse as dela? Ouviria os animais de profunda garganta negra e único olho, rostos perdidos, cabelos escorridos e as línguas e bocas vagueando pela sua mente nas horas das refeições? Criança-animal aprisionada em li...
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Em homenagem a Paula RegoMas Paula era mesmo estranha. Uma menina com cavernas de vazios e represada no ódio. Ora mirava distante, do alto do cabo da Roca, ora as ondas agitavam-se muito próximas, entre pedras, como devia ser a boca do inferno. Uma criança instável e esquisita. Opinião da mãe. O pai achava-a especial. Que era diferente das outras, sabia. Nenhuma prima tinha a mania de ver tudo em branco e preto quando sentia raiva. Menos ainda essa coisa de pedaços de cores fortes formando imagens e a compulsão de recortar figuras de jornais e revistas velhos. Por isso, em certas manhãs, não gostava de ouvir Schoenberg. O pai também ouviria as cores dele? E se enxergasse as dela? Ouviria os animais de profunda garganta negra e único olho, rostos perdidos, cabelos escorridos e as línguas e bocas vagueando pela sua mente nas horas das refeições? Criança-animal aprisionada em li...
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Em homenagem a Paula RegoA música que o pai ouvia incomodava-a. Na verdade, nem sempre foi assim. Dependia muito do modo como acordava.Nesse dia, por exemplo, acordou com a imagem da fada azul. Parecia um quadro. Um garoto com o corpo todo retesado e nu, os braços estendidos para trás e as mãos cerradas caindo sobre as nádegas. Na sua frente, a fada de azul trazia uma vareta mágica, segura pelo polegar e indicador da mão direita, a cair ao lado do corpo do menino de pés grandes e a cabeça pouco inclinada para a frente. Posição de quem anseia inundado de medo, o corpo todo duro, não somente o sexo. Este, por sinal, não se via. Não precisava, o corpo era todo falo. Mas o que incomodou no sonho foi a fada de azul. Corpo relaxado, sentada em uma poltrona, com os pés muito grandes descalços sobre um tapete. No rosto, a geografia do desejo e da morte. Grande veia fluía pela ...
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Estranho comportamento dos amigos do quarto quando retornou da festa. Percebeu a mudança quando lhes informou de onde vinha. Observou-se no espelho para ver se a cor da pele havia mudado. Nada! Tomou banho para perder possíveis cheiros anormais e se perfumou. Nada! Naquela semana, a polícia abordou-o diversas vezes. Em uma delas, levaram-no para o distrito, quiseram revistar o rabo. Não deixou. Ganhou algumas horas de cana. Aconselharam-no a não se misturar com os negros. Antes de retornar à casa, parou no bar onde o saxofonista trabalhava. Ficava enfurnado em uma viela escura, na floresta de argamassa. No exílio imposto pelo tráfico, havia uma repetição da África antiga. Sentou-se na frente do músico. O cenário de pouca luz e o chapéu do músico sobre uma mesa trouxeram-lhe a fantasia de sua tese estar também ali. “Em seus sonhos ele tinha prevenido contra essa mudan&cc...
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Não havia implicação com droga, assalto ou briga étnica. O músico tentou explicar-lhe o ocorrido. A surra foi um alerta por ter engraçado com mulher casada. Preocupava-o a chegada em casa. Caso a esposa descobrisse o motivo, teria de agüentar outra sova. Enquanto falava, fuçava o quarto improvisado. Parou nos discos. Ouviu alguns. Perdeu-se no som e no horizonte. Alto e acurvado pescava novas melodias, sempre gesticulando o corpo. Como agradecimento, retirou do bolso do casaco um CD e desapareceu. Se a vida desafiava, a música aliviava, disse sorrindo antes de sair. Restou o fim de noite e o presente. Produção independente. O entremeio fez com que perdesse o prazo de entrega do relatório. Deixou a universidade um pouco contrariado, caminhou por ruas ermas de tio Sam, entre mulheres de saias curtas, seios enormes, e grupos de jovens em ritual onírico. Singularidades. Dormiu o restante do dia.Já havia esquecido o incidente quanto o homem reapareceu. Trazia um CD debaixo do braço e um con...
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Não sabia o motivo que o levou a abrir a porta. Fazia um relatório para o mestrado — sem motivação, é certo —, quando um som seco veio de fora. Ao abri-la, o corpo veio junto. O suor vazava da pele do negro. Fazia um frio dos diabos. Reconheceu-o. Metido em longo casaco negro e usando um antigo chapéu de artista, lembrava o personagem de Beckett: “Dia após dia viam-no percorrer, a passos lentos, a ilhota. Hora após hora. Vestido com seu longo casaco negro, fizesse frio ou calor, e usando um antigo chapéu de artista. Na ponta, ele parava sempre para contemplar a água que se afastava. Como em alegres rodamoinhos, os dois braços confluíam e refluíam unidos. Depois, a passos lentos, voltava”. Estava sempre às voltas com um sax dourado, tocava em casas noturnas, refúgio da mesmice. Não sabia o que fazer com o homem desmaiado no chão. Sem telefone, es...
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A música soprava uma estranha saudade. A realidade é que os olhos acostumaram-se e a simetria emergiu. Também o viam do mesmo modo, tinha certeza. Em cada janela basculante um espião o acompanhava até o total desaparecimento na dobra da rua. Depois, vinham outros, até cruzar a avenida que os separava da elite econômica, do mundo dos sonhos, da boca cheia de conservantes e corantes mirabolantes. Ao redor da riqueza, sempre existe um bolsão de injustiças. Morava em um deles. No bairro, encontrava-se toda espécie de homem. Negros, latinos, prostitutas, artistas e homossexuais dividiam um dos quarteirões mais baratos da cidade. Velhas fábricas amontoavam-se, pintura gasta, reboco deixando à mostra o metal enferrujado. Ruído de locomotivas e aviões. Bem próximo, havia uma estação ferroviária e um aeroporto.A bolsa oferecida pelo governo mal pagava a moradia. Dividir o espaço de uma antiga oficina de carros com mais dois estudantes aliviou o aluguel. Sem conforto, calefação ou aquecedor, dif...
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Lia O Improviso de Ohio pela décima vez: “Para sofrer menos ele tinha apostado na estranheza. Cômodo estranho. Cena estranha. Sair para onde nada nunca partilhado. Entrar onde nada nunca partilhado. Foi nisso que ele apostou um pouco, para sofrer menos”. Apreciava Beckett, um garimpeiro das diferenças, das repetições e do simulacro. Em cada leitura, descobria-se algo de novo. Agora, por exemplo, debruçado na única janela do cômodo onde morava, pensava no fato de o Blues ter algo a ver com a obra dele.Na rua, a música expunha rostos estranhos, beiços e bundas grandes; também negras de cabelos brilhantes escorridos nas fronteiras africanas de seus ombros, algumas metidas em perucas grosseiras e grotescas. De nada adiantou o curso de antropologia na melhor universidade de seu país, acabou envolvendo-se com a tribo. No início, não. Anos de academicismo criaram muro mais alto e mais v...
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O pó no nariz rebrilha um céu fantasia. Que gosto terão as estrelas? A Lua parte-se ao meio, deixa sair o rosto de uma mulher cheia de serpentes. O que importa é o maldito ascendente, e ele diz que o romance não é promissor. Terminaria tudo tão logo a outra acordasse. Pediria socorro ao gerente do banco, o vizinho do 15, um solteirão cinéfilo, de libra. Ela desagrega, ele concilia. Foram irmãos em outra encarnação, debaixo de um céu medieval. Vieram de lá, os dois, das ruas estreitas, da música barroca na praça, da Lua brincando entre as torres...O 4 é muito perfeito para a época, que nada tem de sólido ou sensível. Todas as luzes estão apagadas, ninguém mora no apartamento há anos. Não vendem e não alugam. O dono aparece vez ou outra para arejar e limpá-lo. Falam que os antigos moradores formavam um casal ...
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O casal de velhos em beijocas na varanda do 83 não pertence ao nosso tempo. Parece invencionice, embuste de algum escritor. Mas são tão verdadeiros quanto a existência deste texto. Moram sozinhos: ele, no 85; ela, no 83. São viúvos, a família nada sabe sobre o romance. Nem perceberam a felicidade dos dois, o desaparecimento dos sinais dos maltratos causados pela exclusão do rosto deles. Dormem juntos há meses. O velho, vez ou outra, brinca de alcançar a Lua para ofertá-la à companheira e amante. Esqueceram as picuinhas do dia-a-dia. Há meses brincam com os vizinhos, pulam amarelinha com as crianças e não reclamam da aposentadoria. As pessoas estranham, olham de través os aventureiros que violam costumes e atravessam oceanos. Vão descobrir um dia que somente a velhice sabe da morte da Lua.A mulher do 31 conhece o gosto de todos os uísques. Ela morre e ressuscita t...
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O céu encostou os ouvidos nas janelas dos prédios, aproximou perigosamente a Lua e as estrelas, da vida.No apartamento 22 de um prédio antigo, até o homem que se distrai com a intimidade alheia aponta a luneta para o céu. Nas paredes do aposento, sucedem-se fotografias de mulheres nuas, casais na cama, na mesa e na rua. Sobre uma velha escrivaninha de madeira rústica, a fumaça do cigarro embaça o registro da mímica da família. O cigarro é torcido no cinzeiro e esquecido. Estranha sensação, ser observado por estrelas. A mesma que sentiu ao perceber que a mãe tinha um cheiro esquisito, que todas as mulheres exalavam um perfume ambíguo. Custou-lhe caro a curiosidade. Ninguém mandou a mulher que entrou no elevador vestida de tailleur branco encostar o cheiro no nariz dele. Sabia que a dor sentida ao ser mordida no púbis não chegou perto daquela causada pelos olhos c...
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Olegário quase aprendeu a tocar flauta quando criança. O pai achou que violão era mais para homens, jogou-lhe um pentacórdio nos braços. Não saiu das primeiras lições, os dedos doíam. Deixaria uma carta pedindo que seu corpo fosse velado ao ar livre e ao som de um instrumento de sopro. Dispensava a família, os amigos e o padre; nunca o flautista. O corpo na praça principal de San Gimignano, observado pelos velhos sentados sob arcos e no silêncio de suas idades. Um estrangeiro tocaria no arco gótico. Pediria ao pároco para não fechar a igreja depois da missa. Desejava estar com seu Deus. Assim fosse, prometia perseguir todos aqueles que desacreditavam em um Deus único, ressuscitaria as cruzadas, defenderia a igreja. Mas pode sonhar um professor universitário, viciado em álcool e jogo, cheio de pecados? O criador ficou do outro lado da corda assistindo de cam...
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Chegou na universidade amarfanhado e bêbado. Acabou sendo preso por agredir um aluno que lhe chamou a atenção pelo fato de estar embriagado. Não respeitou nem o guarda que tentou apaziguar os ânimos. Ficou 48 horas dentro de um dado listrado de barras de ferro. Da gaiola, viu o Cruzeiro do Sul, suas cinco estrelas visíveis a olho nu. A universidade mandou um advogado para defendê-lo. Trazia também um recado: queriam que ele retornasse à faculdade quando tivesse resolvido o problema do vício. Ofereceram para pagar a despesa de um hospital psiquiátrico. Não aceitou, não se considerava um alcoólatra. “Viciado em jogo, sim!”, disse ao advogado, na porta da delegacia, dispensando seus serviços. Queria caminhar entre as linhas do pentagrama que desenhara como seu destino. Gostaria de recomeçar tudo, redescobrir a virgindade dos tempos, viver de forma ordeira e equilibrada....
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O álcool vagabundo voltava na boca, ardia o peito. Depois do terceiro trago, engolia qualquer porcaria que lhe oferecessem. Dava razão à mulher, mesmo com um olho de vidro que a raiva dela colocou em seu rosto. Nunca imaginou que ela pudesse ficar tão contrariada com uma linha de sangue. Acostumou-se com o vidro sem vida, camuflando. Condizia mais com o seu dia-a-dia. A cruz dependurada na parede do pronto-socorro trazia o mesmo herói secular. O que teria feito até os trinta e três para querer salvar o mundo? Qual a culpa do seio de Maria? Crucificado na colina... De todas elas, a quarta é a mais próxima da saída. Deve-se aceitá-la sem ilusões desviadas para paixões desenfreadas. A idade é irreversível, não existe alquimista que nos revele o segredo da imortalidade. A cruz é um quadrado, cada face do dado tem quatro lados. Todos os reis são chefes de quatro...
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Acordou tendo ao redor uma dupla de branco. Um aplicava a injeção enquanto o outro bochechava o cansaço. Não conseguia distinguir os limites dos corpos. Ainda o impressionavam as labaredas e o frio que viviam lado a lado no pesadelo. Os gases sufocavam, não deixavam que a voz pedisse socorro. Ardia a glicose que era aplicada na veia; devia ser assim o calor dos infernos. Os olhos pareciam ver pela primeira vez, fitavam pedaços do outro. Lábios gesticulavam sem som; olheiras de cansaço circundavam pálpebras. Sentia um gosto de diesel na boca. Ser um em três: o intelectual, o boêmio e o espiritual. “Precisarei dar três voltas para escolher o caminho...”, disse, ainda tonto. O médico riu para o companheiro e saiu sem nada dizer. Não podia mais manter aquele estado de coisas. O eterno triângulo que vinha desde a infância. O pai não suportou e se foi. Desde ced...
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Foi assim que a conheceu, jogando. Festejava uma vitória, lançando a mão fechada no vazio, quando a atenção refugiou-se nos ombros descobertos da mulher de longo pescoço, cabelos curtos e castanhos. Usava um longo vestido marfim, apenas acompanhando as linhas do corpo. Na orelha, trazia um brinco em ouro. Incrustado bem no centro, um diamante. No rosto, uma maquiagem discreta, sobrancelhas grossas e longos cílios. Agitava o vermelho dos lábios animadamente. Percebeu que ela o observava obliquamente. Na primeira oportunidade aproximou-se da mesa onde ela jogava. Acertou as primeiras cinco jogadas na cabeça o que o levou a puxar conversa. Estava convencido de ter uma fada ao seu lado. Soubesse em que estava se metendo, teria evitado. A mulher era cheia de palavras, o pescoço surrealista e os gestos discretos escondiam uma serpente preparada a dar um bote. Mas o amor nessas horas é um ato de fé. Acreditou ...
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Olegário passou grande parte de sua vida envolvido em livros e mais livros de filosofia e direito, vomitou pelos quatro cantos e por todas as desdobras o estudo da ética. Todos o respeitavam pelo excelente professor, profissional e pai de família que demonstrava ser. Destacou-se entre os alunos desde o início dos estudos. Muito cedo, foi convidado a participar de seita secreta, o que aceitou com bastante discrição. Destacou-se rapidamente entre os membros da estranha confraria. Não fosse a finitude, nos assuntos da mente, uma fantasia medíocre, tudo estaria na mais perfeita ordem. Talvez estivesse aí sua resistência em tentar compreender a angústia que sentia nos finais de tarde. A retórica não combinava com o sujeito fragmentado que estranhava a própria elegância com que se vestia. Fez do destino uma rapsódia húngara, uma composição tabular. À noite...
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Na mesa de centro, a escultura de um homem musculoso jogando o peso do marrão sobre concreto. Do quarto, um tom lilás espiava. A cama arredondada ocupava quase todo o espaço. No teto, o espelho refletia a peça de renda com fundo azul acetinado. O abajur sobre uma cômoda e o incenso enchiam o ambiente de magia. O real e a fantasia. Não passou por aquilo que algum filósofo chamou de desencantamento, preservara seu lado criança, de mula-sem-cabeça, de bruxas e lobisomens. Adorava ler Mario Quintana e ouvir Astor Piazzolla. Homens de almas meretrizes mergulhados em perfumes antigos, vadios e vagabundos.Surpresa, a mulher permaneceu parada com ombro apoiado no batente da porta, entre a sala e o quarto. Em geral, os homens tinham fome de sexo e não perdiam tempo com imagens, cheiros e cores. Do quarto, o sujeito ficou um tempo no rosto barroco da prostituta, notou-a incomodada, talvez olhassem somente sua bunda e suas coxas...
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Levantou-se, pegou as roupas e foi até a sala. Evitava qualquer ruído, não queria se prender a ninguém. Nem mesmo o brilho que viu nos próprios olhos refletidos no teto seria suficiente para mudar o destino. Talvez se a tivesse conhecido antes... Uma fatia de luz atravessava o vão deixado entre a porta e a soleira. O ruído de motores e buzinas diziam de um mundo que o aguardava. Não deixou a incerteza tomar vulto. No centro da porta, entre uma farmácia e uma padaria, apareceu um homem com roupas amarrotadas e cabelos desajeitados. Do outro lado, por ironia, um painel enorme dizia dos riscos do sexo. Deu com os ombros no vazio. Em certos momentos, toda ação torna-se suicida, sabia disso. Entrou na padaria à procura de café. Nenhum antibiótico adiantaria para o maldito vírus. Pagou com o dinheiro que a mulher havia deixado sobre a mesa. Riu da perda dos valores morais.Difícil escolher caminhos quando o passado não nos mantém mais e abandonamos a idéia de futuro. O andar fica mais pesado,...
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Na mesa de centro, a escultura de um homem musculoso jogando o peso do marrão sobre concreto. Do quarto, um tom lilás espiava. A cama arredondada ocupava quase todo o espaço. No teto, o espelho refletia a peça de renda com fundo azul acetinado. O abajur sobre uma cômoda e o incenso enchiam o ambiente de magia. O real e a fantasia. Não passou por aquilo que algum filósofo chamou de desencantamento, preservara seu lado criança, de mula-sem-cabeça, de bruxas e lobisomens. Adorava ler Mario Quintana e ouvir Astor Piazzolla. Homens de almas meretrizes mergulhados em perfumes antigos, vadios e vagabundos.Surpresa, a mulher permaneceu parada com ombro apoiado no batente da porta, entre a sala e o quarto. Em geral, os homens tinham fome de sexo e não perdiam tempo com imagens, cheiros e cores. Do quarto, o sujeito ficou um tempo no rosto barroco da prostituta, notou-a incomodada, talvez olhassem somente sua bunda e suas coxas. Viajou pelas linhas, não pelas proporções e brotamentos, da mulher ...
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O afogueamento na ponta do cigarro aumentava a cada tragada, crescia e morria igual idéias delirantes, a cinza quedava em bloco e desaparecia em redemoinhos. Sempre desejou ser cremado, achava mais natural e excitante. Em sua opinião, mortos não deviam deixar pistas. Jogava idéias nunca ditas à estranha de franjas negras, brincos dourados e calcinhas brancas. Não parecia haver muita diferença entre sua profissão e a dela. Ouvidos de psicólogo e de puta escutam as mesmas fantasias e os dois cobram pelo serviço. A diferença é que a puta sabe que não muda nada e o psicólogo acredita mudar as pessoas. Fodido é o padre que ouve, acredita mudar e não cobra. Pelo menos oficialmente. Assim é a vida, cheia de onipotentes, impotentes e resignados. Sempre acreditou que putas tinham mais noção da vida. O tipo que aparecia no consultório vinha de outra linhagem, cheia de pânicos e camuflagens.Quanto mais idéias queimavam na boca do estranho, mais o calor das pernas da mulher que entrou apenas para ...
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O homem não imaginava o que seria de sua vida quando entrou no boteco encardido entre a Consolação e a Augusta. Tentava ver o futuro no fundo do copo de cerveja, aquela coisa mágica de rostos lesmas e arco-íris. Deixou tudo para trás: a família, os discos de Piazzolla e a idéia de um futuro. Saída de ladrão, não queria escândalos ou choradeiras. O bilhete agitaria as peças e depois, como em qualquer jogo, cada qual encontraria seu par e reencontraria a ordem. A ausência de um jogador, fato corriqueiro em uma mesa de dominó, seria logo esquecida. Ninguém sobrevive à idéia da morte por muito tempo. Desesperação, La Maison de Monique. Abandona a vida com uma única frustração, não ter conhecido Buenos Aires ou Santiago de Salvador Allende. A grana sempre faltava, até para morrer escolheu arma econômica. Levaria a cidade imaginária para o túmulo.A madrugada avançava pregueada, cheia de chiados roçando pré-verbais no ouvido do desertor, quando um ar quente quebrantou o selvagem. Intrometidos...
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Já disse — mas narrador não serve de testemunha — que o homem estava perdido em alguma praia, quando um lanho transformou o pescoço do gigolô em chafariz de sangue. A luz da lua, segundos antes, refletiu fios prateados na lâmina que descia do céu igual meteorito. Objeto cortante não encontrado nas redondezas do suspeito que morreu branco nácar. Não têm documentos, o dito criminoso e a vítima. Muitos sem identidade simplesmente adormecem. Camburão limpa o cruzamento. O jato de água transforma sangue em crepúsculo rosicler. Na distração, rato leva a língua para o bueiro. Agora, menos utilidade teria o órgão musculoso.A mulher abriu a bolsa e retirou um lenço embebido em perfume. Pedaço de espelho expõe os lábios vermelhos. Trêmulas pela falta do pó branco, mãos limpam a navalha. Rosto do macho e da criança, como irmãos gêmeos. Puta não é mulher; puta é qualquer coisa, menos mulher; puta não pode parir filho de homem que ama. A velha de pescoço grosso e unhas impregnadas de nicotina só...
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...O pontapé na barriga acorda o miserável adormecido no vão do MASP. Não gostou de ser arrancado de sua ilha com único tranco. Homens fardados calaram o ódio. Não vi nada, não sei de nada; costume das madrugadas. Apanhou sem saber motivo. Enquanto se contorcia de dor, os policiais conversavam com a central. O perfume agradável levou seus olhos até o cadáver na calçada. Conhecia o morto, cuidava das mulheres da vida e sempre lhe dava um trocado. Costumava chegar alta madrugada para conferir os negócios. Deixava carro importado na calçada, ao som de Bidonville ou Oblivion. Enquanto meninas aliciavam fregueses, queimava um charuto cubano. Mantinha cabelos escorridos em gel e vestia ternos discretamente listrados. O lenço de seda era acessório inseparável. Cuidava bem das meninas, seria capaz de morrer por elas, mas também tinha seus momentos de histeria que marcav...
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Sirenes acalcanham os vazios, resvalam nos medos, afugentam meretrizes e ladrões de carros. Ventania em varais; tempestades no deserto. Depois, ladrão é ladrão, puta é puta, homem de bem nunca existiu. O ilícito é praga que cresce no homem desde o nascimento. Na vida, tinha freguês religioso, juiz e até freguesa. Por um momento, preocupa-se com o sem-teto, poderia ter presenciado o crime. Dormia profundamente. Ante a palidez noturna, o coração pulsa no abdômen da fêmea; ela ouviu em algum lugar que as prisões são frias noites em deambulação. Matar um bastava, e o mendigo nada lhe fizera que justificasse outro assassinato. A mulher de cabelos negros e curtos, com franja na testa, deixa o corpo verter no sentido da Peixoto Gomide. Vez ou outra, joga um flash de olhar para trás. Filhos que nunca chegou a conhecer perpassaram seus pensamentos. A primeira g...
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E a navalha cortou a névoa que se abateu no rosto da cidade, no pacato cruzamento da principal avenida. É noite e chove; chove um líquido vermelho e viscoso. Aborto. Palavra solta. Igual ao ato que deixa feto em lata de lixo. O ódio de ver sangue vazando e corpo vazio de filho anula. Há um mapa sobre a calçada que resiste à chuva. Pele macerada em cal, raspada e polida. Há muitas tatuagens no couro do asfalto. No sono do mendigo, que dorme apesar do crime, existe uma ilha de areia grossa e branca. Um meteorito desenha uma luz prata no azul do sonho. Alguém morreu na queda do estranho objeto e ninguém viu. O homem que repousa na paz da noite está deitado sobre notícias, ruídos externos invadem em ondas sonoras seu dormitar.Ziguezaguear passos, coxas bojudas e calcanhares finos metidos em sapatos vermelhos. Amordaçada pela roupa preta grudada às linhas e um echarpe da mes...
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Ainda as Correntes, como entes queridos a delirem-se devagar no ferro dos dias, na estranheza da ausência. Eis o belo texto aí lido pelo escritor uruguaio Milton Fornaro.CADA PALABRA ES UN PEDAZO DE NOSOTROS MISMOS “Dijo Dios: ‘Haya luz’, y hubo luz. Vio Dio...
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Regressa-se da Póvoa e sentimo-nos mais pobres. Em casa, voltamos a ligar a televisão à hora dos telejornais, o mundo, como um aluvião de desgraças, invade-nos a sala e os ouvidos. Regressam, pela manhã, as filas de trânsito, as filas congestionadas de...
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A bonita lembrança de Rosa Lobato FariaO vento destas CorrentesO capacete mineiro de Manuel da Silva RamosA Barbie com defeito de produçãoAurelino a tocar e a dizer poesiaA incrível história de Malangatana descendo de um hotel pela janela na horizontalPorque foi t&...
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Quatro da manhã. Lá em baixo ainda anda gente... (cantaria o Sérgio Godinho) São os resistentes das Correntes. É a última noite, a já famosa noite de sábado. Aurelino vai a casa buscar a guitarra. Falta-lhe um espanhol para o quadro ficar compl...
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Os lançamentos de livros são um outro must das edições das Correntes. O ano presente não escapou à regra e muitos têm sido os livros aqui apresentados em primeira mão. Eis alguns deles: Manuel da Silva Ramos lançou «Três Vidas...
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O título deste post parece coisa de antanho, que de «correntes» em escolas já lá vai o tempo. Isto, descontado o aparte de hoje em dia muitos professores se sentirem acorrentados às escolas, mas isso por via de outros quinhentos para aqui não chamados. ...
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Leitura do texto desenvolvido a partir do mote:«Pedra a pedra, o poeta constrói o poema» algumas aproximações entre pedras, poemas e poetas: O poeta monumenta as emoções; por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais.O poet...
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Dia de trabalhos forçados para este escriba aqui na Póvoa. Presença numa mesa de debate pela manhã, ao meio-dia e picos lançamento de um livro, à tarde encontro numa escola preparatória (ébês, como lhes chamam hoje…) de Rates. Agor...
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Não está fácil, confesso que não está fácil. A edição das Correntes deste ano parece-me com dificuldades em impor o seu ritmo habitual. Talvez seja do mau tempo que por aqui se tem abatido, talvez seja das muitas caras novas ainda pouco à...
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Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado &ndash...
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Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square. Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma se...
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A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado. Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por nat...
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Entre Osnabrűck e Porto, que paralelo biográfico melhor para se ler Ilse Losa na direcção contrária àquela que ela geograficamente deu à sua vida. Uma vida que na tragédia da História da Alemanha encontrou porto de abrigo no Porto de onde eu provenho e que nessas trocas interculturais perdeu ou...
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Artistas plásticos, músicos, poetas e escritores encontram no Brooklyn refúgio e cenário e dali partem para expedições ultramarinas na Califórnia, na Índia, na França, na América Latina, na África, a book tour perhaps. Discussões literárias, conversas boêmias, propostas, idéias para livros em ebuli...
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Tem-se assistido a uma vitalidade do livro, apesar de tantas vezes ter sido profetizado o seu fim. Em vez de desaparecer, ele tem encontrado novos formatos e beneficiado com esse grande canal de divulgação e de distribuição que é a Internet. O mesmo seria inevit&aa...
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Alexandre Herculano nasceu há duzentos anos, a 28 de Março de 1810. Assinalamos a efeméride, recordando a obra de António José Saraiva, “Herculano e o Liberali... Ler Tudo >>
Quadras de Felícia Festas Hortinhas (natural de Évora): É um bem essencialCai do céu nasce do chãoDá-se a todos por igualNão fazendo distinç... Ler Tudo >>
[17-02-2010] | Fala de dois poetas populares alentejanos
Acreditar em mitos e lendas na era da técnica, da tecnologia e da suspensão do maravilhoso: dois textos de quem não perdeu a capacidade de se espantar… o poeta brasileiro Carlos Alberto Pessoa Rosa[1... Ler Tudo >>
Poesia Popular à maneira tradicional: Uma décima[i] do poeta popular alentejano Domingos José Pinto[ii], onde se narram os esforços hercúleos de um hortelão para defender o seu território de uma prese... Ler Tudo >>
[26-10-2009] | Maria João Brinquete e Paula Sande, Maria João Brinquete e Paula Sande
Recomeça hoje, na RTP1 (às 21h18), o programa Cuidado com a Língua! Uma ideia de José Mário Costa (responsável pelo Ciberdúvidas). Uma bela maneira de pôr os miúdos (e os outros) a pensar na língua po... Ler Tudo >>
4 & 1 QUARTO conta a história de um casal que, num momento de desejo ou tédio, esquece as convenções para atrair à intimidade um homem e uma mulher. São quatro numa cama, como se fosse natural.
Mas não será sempre natural, o sexo? E mesmo que fosse: brutalizará ele o amor? Aqui, as duas mulheres revivem um segredo da puberdade, os dois homens descobrem-se e atrevem-se, e, embora extraviando-se da identidade e da pertença, jamais se perdem do Amor.