Joaquim Magalhães de Castro
[27-07-2010]
1 - No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?A literatura terá sempre sentido, a não ser que a abandonemos, rendidos à barbárie do irrisório efémero e do ultra visual. Num planeta a mil à hora, conspurcado por imagens de uma agressividade avassaladora, a literatura é mais do que nunca uma forma de resistência, um verdadeiro refúgio. Só ela nos fornece as imagens que nós queremos, e que só nós vemos. Digamos que é um caloroso espaço de intimidade nestes enormes e ruidosos parques temáticos em que se estão a tornar as sociedades em que vivemos, com todos em bicos de pés a quererem provar a sua individualidade, ignorando que, no fundo, não passam de uma massa homogénea. Vivemos no estranho mundo da individualidade uniforme.
2 - Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Porquê?
Não acompanho de perto os actuais movimentos literários, antes concentro as minhas leituras nos autores que já cá não estão. Elejo um movimento de há muito tempo (de que tão pouco se fala) decorrente do processo da Expansão portuguesa. Refiro-me aos relatos que trouxeram pela primeira vez à Europa um universo até então desconhecido. Esse foi, quanto a mim, o momento mais relevante do Renascimento, pois complementou os ideais humanistas expressos na escrita e nas obras de arte com a fundamental experiência do contacto com o Outro. A partir daí surgiu a dita literatura de viagens, que, inexplicavelmente, não vingou no nosso país.
Em termos de acontecimento literário da actualidade, que certamente pretende contrariar o que ficou escrito no final do anterior parágrafo, saliento o LeV – Festival de Literatura de Viagens de Matosinhos, louvável iniciativa do Francisco Guedes, mentor também do festival Correntes de Escrita, da Póvoa do Varzim.
3 - Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.
O meu mais recente livro intitula-se «Viagem ao Tecto do Mundo» e é essencialmente o diário de uma viagem cheia de peripécias a uma das regiões mais inóspitas e fascinantes do planeta: a zona ocidental do Tibete, afastada dos roteiros turísticos, sendo mesmo, uma parte considerável dessa vasta área, interdita a estrangeiros. Essa viagem inspira-se em alguns intrépidos jesuítas portugueses (António de Andrade, Manuel Marques, Francisco de Azevedo, Estêvão Cacela, João Cabral, entre outros), pioneiros europeus nos Himalaias no início do século XVII, e nos passos dos peregrinos que anualmente circundam a Monte Kailash e o Lago Manasorovar, dois dos pontos mais sagrados do planeta, tanto para budistas como para hindus.
Em Setembro, também na colecção Volta ao Mundo da Editorial Presença, será publicado o relato da viagem que fiz aos locais do património luso espalhado pelo mundo, resultado da minha participação na iniciativa 7 Maravilhas de origem portuguesa. Por questões de espaço, limito a narrativa a apenas três das cinco áreas geográficas visitadas: a América do Sul, a costa leste de África e o Golfo Pérsico.
4 - Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?
Não creio. A rede não passa de um novo e revolucionário acessório, fundamental, sem dúvida, para o escritor dos dias de hoje. Mas é um universo muito próprio que não irá substituir o que se imprime em papel, senão isso já teria acontecido. Pelo menos assim o espero, pois essa coisa da interactividade acaba por se tornar metediça. Pior ainda: chega a ser irritante até à quinta casa.
5 - Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.
Comecei pela banda desenhada, os ditos livros de cowboys; seguiram-se os romances de Jules Verne e do Emílio Salgari, e aos dezoito anos os livros de Jack Kerouac (o incontornável Pela Estrada Fora) e de outros autores da beat generation. Mais tarde vim a «descobrir» a nossa literatura de viagens do tempo das naus e das caravelas, um verdadeiro tesouro, que é agora a minha principal referência, com a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto a encabeçar a lista.
* Breve Bio-Bibliografia de Joaquim Magalhães de Castro
Natural das Caldas de S. Jorge (Santa Maria da Feira), Joaquim Magalhães de Castro é jornalista independente, fotógrafo e investigador da História da Expansão Portuguesa.
Colabora na imprensa em Macau, onde habitualmente reside, e em Portugal, sendo presença regular nas revistas Tempo Livre, Fugas e Notícias Sábado.
É autor dos livros Mar das Especiarias (2009), «Viagem ao Tecto do Mundo – O Tibete Desconhecido» (2010), ambos publicados pela Editorial Presença, Os Bayingyis do Vale do Mu – Luso Descendentes na Birmânia (2001) e A Maravilha do Outro – No Rasto de Fernão Mendes Pinto (2004), e ainda dos documentários televisivos A Outra Face da Birmânia (2001), Dund - Viagem à Mongólia (2004) e A Tartária de Tomás Pereira (2010).
Em 2009 participou no projecto 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, visitando todos os locais a concurso com o intuito de fotografar e escrever sobre eles. Como resultado desse trabalho, foram publicados três livros que saíram com o DN e o JN.
Com a chancela da Editorial Presença, será editado em Setembro próximo o relato desta jornada, estando prevista para o ano de 2011 a publicação de outros dois livros de viagem.
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