25º episódio - O BOM LADRÃO - Folhetim em setenta e cinco episódios
[24-07-2010] | Carlos Pessoa Rosa
Para mim os dois são motivo de choro, não de riso. Dou conta de Carol a ranger os dentes como Maysa. É assim que faz quando excluída. Depois lhe explico, é loucura minha, vamos jantar! Carol segue na frente, atropelando fantasmas sem se aperceber de suas presenças, reclama das paredes úmidas, do piso craquelê, só para quando é abraçada por trás, beijo seu longo pescoço surrealista e digo uma sacanagem em seu ouvido. É quando se volta e me beija na boca, úmida e suculenta, esfregando o púbis no meu membro, eu apertando-a contra a parede, levantando sua saia, Carol, em casa, não usa calcinha, pensar nisso me deixa mais excitado ainda, eu descendo a língua, abrindo sua blusa, lambendo seu umbigo, separando os pelos para os lados, deixando meus dedos em seus lábios gementes, ela abrindo mais ainda as pernas, com as mãos segurando minha cabeça, abaixando o corpo, jogando o meu sobre o assoalho gasto, retirando meu pênis e sentando sobre ele, a luz da arandela pouca, junto os fantasmas e as sombras, ao fundo Fugata de Astor Piazzolla, olho para trás e vejo o gato sobre a pia bebericando a água que goteja na torneira, e os movimentos, a umidade, morrer afogado na própria saliva, e os gritos. Levantamos ajeitando a roupa, há um pelo incomodando na garganta, o gosto do suco da fêmea na boca, olho na direção da porta, um dos gritos veio de fora, quem seria louco de descerrá-la em hora tão imprópria? Mas a mãe sai primeiro, apressada, aflita, ruído de tamanco acalcanhando assoalho, abre a porta ansiosa, ouviu um grito vindo de fora, diante dela a criança sangrando no rosto, ela tentando estancar a hemorragia com o avental, cheiro de alho e cebola, mas o sangramento não cessa, e o grito tanto tempo depois, hora a mesma, e o fantasma da criança em choro convulsivo, passe gelo, a voz de quem revisita perdidos na memória, e tudo se passa como se ela ouvisse, entra, fecha a porta, a sineta histérica, o gelo enrolado no avental manchado de sangue, sobre a minha cabeça, o vermelho aguado adentrando o que restava de limpo como magma; e a pausa. Treme o corpo, da mãe e do filho, com o som da sineta. Ela olha no velho cuco pregado na parede da cozinha. Hora do jantar e nem terminara os afazeres. Trata de esconder o avental e a roupa sujos de sangue, limpa as lágrimas da criança, olha ainda uma vez mais para verificar se o sangramento havia realmente estancado. Aguardou os movimentos do marido. Ele pegaria as cartas, haveria uma pausa para leitura dos remetentes, daria alguns passos até o escritório, sentaria na velha poltrona de couro de carneiro, abriria uma a uma com o instrumento afiado que comprara em uma de suas viagens ao exterior, faria uma leitura minuciosa, soltaria alguns resmungos, teceria alguns comentários estéreis, faria algumas anotações e largaria as cartas sobre o móvel, responderia mais tarde, pegaria o cachimbo, colocaria o fumo importado no fornilho, acenderia com o fósforo que a mulher deixara sobre a mesa, daria uma longa tragada, olhar distante, a pensamentear particularidades não divididas com ninguém na casa. Tempo suficiente para atravessar o corredor sem provocar ruídos, levar a criança até o quarto, mudar sua roupa e apresentar ao pai uma família ideal e feliz. O filho espia possibilidades, tenta não fazer barulho. Aonde vai? Flagrado pelo fantasma do pai, não há tempo para reações já experimentadas quando diante do inesperado. Nenhuma resposta, olhar na fissura entre as madeiras no chão, não consegue encará-lo, o outro fazendo micagem em alguma circunvolução cerebral, pudesse fazia picadinho do velho, não havia como, os pés do pai metidos em sapato Vulcabras, sempre deixa marca de barro no limpa-pés, a calça com dobra no final, azul-marinho, quase preta. É surdo? A mãe chama para o jantar... Voz fugidia pelo medo, cambaleante. O bofete na cabeça cai do nada, ouve-se um Não sei o que fazer com você! Então saio em correria, na cozinha a mãe dá os últimos retoques na mesa.(continua)
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António Manuel Pacheco
Carlito Lima
Diana Menasché















