Nota sobre música e poesia
[20-07-2010] | Vasco Graça Moura
É da corrente experiência de audição da música (e procurarei manter-me no quadro da música ocidental, embora incluindo nela o jazz apesar das suas origens africanas) que, para além das suas regras técnicas a que, stravinskyanamente, caberia com propriedade o sintagma “poética da música” ou “poética musical”, como maneira de fazer ou de construir objectos estéticos por recurso a uma arte dos sons, há também, em termos mais imediatos e comezinhos, uma poesia da música.Não me refiro apenas a uma série de representações, emoções e estímulos, tanto intelectuais como afectivos e até musculares, que a música nos transmite no que poderia redundar numa poética da escuta, mas sobretudo a uma escrita de poesia induzida por uma fenomenologia da escuta ou por outros aspectos ligados à música.
Além disso, é frequente sermos capturados, agarrados, “apanhados” por um estado poético que tanto se liga à indicibilidade da música puramente instrumental, como à “dicibilidade” da poesia cantada com o seu duplo de indicibilidade enquanto mais valia musical que implica um autêntico tratamento de texto, sobretudo nas suas subunidades vocálicas e silábicas, no tocante à materialidade do poema.
Essa é uma experiência pessoal do ser humano, partilhável com terceiros em muitos aspectos no contexto de um mesmo quadro de valores artísticos e culturais. Só por via de uma noção alargada do poético podemos tentar descrever o efeito que provoca em nós uma peça de Bach ou Mozart, de Haydn ou de Schubert, de Beethoven ou de Mahler. E ligamos a cada um deles e ao seu estilo determinadas interpretações e sentimentos que nos chegam a partir de uma audição da sua música frequentemente “contaminada” (no bom sentido) por informações de outra índole e por uma tradição ligada à própria escuta. É a própria impossibilidade de traduzir exactamente por um dado meio de expressão artística aquilo que se diz por outro meio que leva a uma permanente renovação das tentativas nesse sentido. Essas tentativas nunca esgotam o quadro de possibilidades e de transposições. E por falar em tradução, convém assinalar que Dante considerava impossível a tradução da poesia exactamente por causa da música: “saibam todos que nenhuma coisa harmonizada por ligação musical se pode transmutar da sua linguagem noutra sem quebrar toda a sua doçura e harmonia”, razão por que, no entender do poeta, Homero não se mudou de grego em latino e também razão por que os Salmos são privados de doçura de música e de harmonia, por terem sido traduzidos do hebreu para o grego e do grego para o latim…
Para dar um exemplo, entre milhares possíveis, parece-me evidente que ao conteúdo poético do texto de Goethe Gretchen am Spinnrad (Margarida fiando), acresce a mais valia musical tanto da melodia como da parte de piano de Schubert, e que, neste Lied, a combinação do elemento verbal com o elemento musical redunda numa intensificação de um efeito poético que do ponto de vista qualitativo não se confunde com o que decorreria, isoladamente, de cada uma dessas partes… Mais, se não tivermos a noção do que seja uma roda de fiar, não poderemos apreciar devidamente o aspecto quase mimético da belíssima rotação de que a parte de piano às tantas parece possuída. Sentimos que se trata de uma roda de fiar e por isso interpretamos assim a parte musical ligada a um texto. Mas não nos iludamos. Se, em vez disso, o texto tratasse de um cata-vento, a nossa leitura implicaria uma certa descoincidência e levar-nos-ia a sentir na mesma música a sugestão de um cata-vento... Há portanto um conjunto de informações que interfere poeticamente na nossa interpretação de um texto musical.
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