20º episódio - O BOM LADRÃO - Folhetim em setenta e cinco episódios
[04-07-2010] | Carlos Pessoa Rosa
O pai estranhou, foi até ela, saiu do quarto estuante, atravessou o corredor apressadamente, abriu a porta e desapareceu. A sineta gritou até a exaustão. Todos os dias à noite os soluços. O pai retornou depois de duas semanas sem que a mãe impusesse qualquer condição. Eu e você até que aceitamos bem o abandono, você mais que eu, o escritório sem dono, brincamos na velha Remington Rand, mas a felicidade durou pouco, ele reassumiu o chiqueiro... A mãe nunca mais a mesma com ele e com nós. Adotou os cantos que sempre foram nossos, a escuridão onde conversávamos com os fantasmas. Deixou de cobrar a sua mania pelo ovo e você para atraí-la lambuzava-se todo, mas nenhuma reação partia dela; nem dele. Eu me aproximava mais e mais da máquina de escrever, ela deixou de me recriminar por brincar no escritório, assim fui tomando gosto pelas palavras. Códigos e mistérios que nos acompanham até os dias atuais, mesmo sozinhos, cada qual enclausurado no próprio passado. Foi sua a ideia de prestar concurso público. Faltava grana, o velho não deixou nada além de uma aposentadoria ridícula. A prometida ajuda vinda dos irmãos de seita nunca chegou, ao contrário, alguns até se aproveitaram do momento. O serviço público aliviaria a dificuldade e você me liberaria para a literatura. Nas desoras, a criação vem com força. A estratégia, a primeira conjunta, parecia promissora. E lá foi você à repartição. Primeiro emprego. Eu não suportaria aquilo sozinho. Um lugar imundo, uma coisa nossa mãe havia nos ensinado, a ser responsáveis, mas ali ninguém assumia nada, usufruíam do público sem dar nada em troca. E o engenheiro veio com a oferta, lembra-se? Organizar o arquivo, e você o fez muito bem, mas um dia descobriu que os arquitetos desapareciam com processos de empresas envolvidas em multas por desrespeito ao meio-ambiente, foi quando entregou as chaves negando-se a continuar naquela atividade. De quem é a afirmação de que sem transformação das mentalidades e dos hábitos coletivos haverá apenas medidas ilusórias relativas ao meio ambiente? Félix Guattari... Isso mesmo! Início do martírio, transferência forçada, adaptação nenhuma, não há departamento que não conheça. Havia a vantagem de no final da tarde, ao entrar às 17h30 em casa, ter fatos novos para nossa obra ficcional, você vinha carregado deles, a pausa no bar e o pouco de álcool tornava-o um personagem narrador delirante, Carol andando pela casa usando apenas uma camiseta longa, fumando muito, desaparecia às vezes, voltava mais calma, não sei se droga ou homem, retornava, sempre mais carinhosa, cuidando de mim como seu animal de estimação, ouvia as besteiras que eu escrevia, dava sugestões e questionava minha atração pelos temas malditos. O caldo verde está na mesa, vai esfriar... Sorriso inconfundível, lábios suculentos, daria uma boa mãe... Quantos perdidos caíram de sua barriga? O primeiro, ainda adolescente. Quase morreu de tanto sangrar. A vergonha de encarar os médicos que ao invés de cuidar de sua saúde censuravam o feito e cobravam o nome e endereço do aborteiro. Não sinto vergonha nem nojo de viver com Carol, nenhuma mulher outra igual a ela, não cobra nada de mim, faço da vida o que bem entendo, e deixo-a fazer o que gosta. Mas parece que Deus não aprecia muito ver as pessoas se completarem... Lembra-se, Carol? Você passou a tossir pelos corredores. Você não para de tossir e suar.(continua)
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