18º episódio - O BOM LADRÃO - Folhetim em setenta e cinco episódios
[27-06-2010] | Carlos Pessoa Rosa
É uma prostituta, como pode? Não é mais desde que estamos juntos. Não posso permitir... Seu pai não concordaria! Não depende de você, muito menos dele que já morreu, e que assim permaneça, o que deixou de bom? Ouvir seu choro noites afora? Você ouvia? Até o dia que resolveu ensinar Carol a fazer caldo verde. Jabuticabas e caldo verde me lembram Clara e Carol. Sensualidade que as perdas não castram, pornografia correndo no sangue. Fruto transformado em pedra. Gozo transformado em luto. Estamos todos mortos... O teclado da velha Remington Rand é ritornelo. Contar histórias é o destino das letras e das palavras. Mas não quero só contá-las, quero a vida, a forma e as intuições das palavras. Opção profissional. Carol apoiou. Até ajudou um tempo, manteve alguns clientes. Nunca me incomodou o fato de Carol ser uma profissional. Havia a vantagem de vivermos sem culpas. Mas quem poderia esperar... O vírus abriu a porta para a morte. Eu também HIV positivo. Mas valeu... E como! Do que riem as duas? Passou a ser uma rotina ouvir Clara e Carol gargalhando na casa. Nunca imaginei Clara rindo histericamente. Sempre contida... Respeitosa... Esposa de um grande qualquer coisa. A morte do velho livrou-a das algemas do casamento e das amarras sociais. Carol abriu as portas e as janelas. Minhas crianças voltaram à rua e ao quintal. Devolveram-me as flores com seus perfumes. A casa sempre florida. Arejada, perfumada e colorida. Deixou de existir o outro de mim como contraponto. Comecei a ouvir O amor em paz, Jobim & Vinícius, como um aviso, sei lá, alguém explicará a loucura? Até... Não tem mais jeito. Dito assim, não diz quase nada. E Carol poderia não passar de uma possibilidade, mas fui atrás, descobri o telefone profissional de Carol. Reconheceu-me assim que nos encontramos. Depois da experiência, não quis receber. Pela ajuda de outro dia... Então você me dá o direito de convidá-la a jantar. Aceitou, seria seu último cliente. Sujinho foi opção da hora. Perto do cemitério da Consolação. Só você, disse o outro de mim, faz seu clima, pode dar uma volta por lá depois do jantar, quem sabe trepar entre os mortos, é de seu gosto, eu é que não aguento mais essa sua atração pelo crepuscular... E não é que estava certo? Havia pensado nisso, gozar com Carol no cemitério... Por que olha tanto na direção do cemitério? Carol flagra meu desejo. Tem algo meu por lá. Você é estranho mesmo. Verdade! Tem um lado meu que necessita da presença dos mortos. Vamos parar com isso! Prefiro o que está bem vivinho e comigo, olhe para mim! Puxou-me pelo queixo com um toque leve do dedo indicador. O beijo. Os dentes nos lábios. O fruto.(continua)
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Carlito Lima
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