O novo século
[15-06-2010] | Eduardo Pitta
Gilles Lipovetsky diz que vivemos numa sociedade pós-moralista, em que «o dever é edulcorado e anemiado, em que a ideia de sacrifício de si próprio está socialmente deslegitimada, em que a moral já não exige que cada um de nós se dedique a um fim superior a si mesmo, em que os direitos subjectivos dominam os mandamentos imperativos, onde as lições de moral são ultrapassadas pelos spots do viver melhor, do sol e das férias, do divertimento mediático.» O filósofo que teorizou sobre hipermodernidade e hiperindividualismo, escreveu estas reflexões há perto de vinte anos: Le Crépuscule du devoir / O Crepúsculo do Dever foi publicado em 1992. Porém, no momento em que, entre o azedume e a leviandade, a Europa se interroga sobre a sua viabilidade, as palavras de Lipovetsky, corroborando o “retrato de família” dos 27, parecem ter sido escritas ontem.Sabemos que o século XIX acabou em 1914, naquele 28 de Junho em que uma bala matou o arquiduque Franz Ferdinand von Österreich-Este, herdeiro do império Austro-Húngaro. Quanto ao XXI, que julgávamos inaugurado no dia em que colapsaram as torres do World Trade Center, parece, afinal, só agora começar. Não é mais possível disfarçar a derrocada europeia. E no momento em que a realidade faz tábua rasa da civilização, é o tempo que muda. A impotência dos 27 face à crise do euro tem um suplemento de ironia: o de ver a Europa afundar a reboque de uma crise cambial. Para a humilhação ser completa, são inomináveis os caminhos da agiotagem.
O endosso de culpas (no quintal irlandês, no quintal grego, nos outros quintais todos, entre eles o nosso) é um expediente tribal. Conversa fiada para omitir o óbvio. A Europa era um clube de cavalheiros. Agora, o clube faliu. Porquê camisas de Savile Row, se o preço de cada uma equivale ao recheio de uma casa do outro lado do mundo? A princesa Dragomiroff não estaria mais perplexa.
Verdade que o hedonismo e a «dinâmica individualista de consumo» não são exclusivo europeu. A diferença é que a China, o Japão e a Índia produzem. E nós, europeus, fazendo cada vez menos filhos, trabalhando cada vez menos horas, estribados na exaltação do eu e da volúpia, aristocratas fora do tempo, começamos a sair de cena. É o século XXI que chega. Já não há barragens no Pacífico...
(continua)
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António Manuel Pacheco
Carlito Lima
Diana Menasché















