Marco Aurélio Cremasco*
[19-05-2010]
1 – No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?O mundo tecnológico sempre existiu, o que mudou foram as ferramentas tecnológicas. A questão de ser instantâneo não é novidade, pois a Revolução Industrial trouxe o trem no século XIX e com ele uma velocidade até então inimaginável. E não só isso, propiciou um crescimento jamais visto na história da humanidade, afetando consideravelmente os setores produtivos, permitindo, entre outros, o desenvolvimento das comunicações. As artes foram afetadas e transformadas, incluindo a própria literatura sem, contudo, negar completamente manifestações artísticas passadas. Dessa maneira, perde-se o sentido quando se perde a memória e, por consequência, as referências. Os clássicos continuarão a ser clássicos. A literatura é fruto do que é humano e na medida em que este se transforma aquela o acompanhará, tendo ou não sentido.
2 – Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Por quê?
Não penso no último acontecimento literário, mas nos últimos que permeiam esta década. Por exemplo, a necessidade contínua de exposição dos escritores. É um fenômeno de nossa época que tende a condicionar a sobrevivência do autor: o aparecimento em programas de TV, a síndrome das redes sociais como orkut, blogs, twitter, facebook, a ministração de oficinas e a participação quase compulsiva em eventos e feiras de literatura. Até parece que o autor precisa polemizar, pensar em performance à beira do histrionismo para lançar, divulgar ou manter viva a sua obra, não importando se o que escreve venha a ser um mimetismo dos verdadeiros escritores.
3 – Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.
Creio que eu não seja o que se pode denominar um “escritor de sucesso”, em que o indicador é o número de exemplares vendidos. Nesse caso, gostaria de apresentar o meu último livro (de contos e inédito) A solidão dos anjos, cujo universo de leitores se restringe ao poeta Ademir Demarchi e ao escritor Eustáquio Gomes. O Eustáquio teve a gentileza e a paciência de ler, além de sugerir modificações aqui e ali. Enfim, ele me enviou um email, o qual tomo a liberdade e a indelicadeza de transcrevê-lo: “A solidão dos anjos é um livro forte e original. E é também um livro experimental. O texto é curto mas parece longo. Você é de uma abundância semântica que dá medo. E gosta das grandes torrentes oníricas, dos grandes paineis trágicos como aqueles desenhos feitos com poucos traços. Não dá para classificar você: é às vezes realista, às vezes lírico, com frequência surrealista. É um cenário dantesco o que você narra, mas também parece Bosch e Brueghel. É muito visual, pictórico... e dramático. Na medida em que avançava nesse turbilhão de pessoas e situações, mais me via no labirinto de uma cidade enlouquecida, condenada, marcada. É belo e terrível ao mesmo tempo. Não é um livro comercial”. Pelo jeito, falarei para os meus amigos (quase em sussurro): é, acho que vou me internar numa catacumba ou me refugiar de vez na engenharia química.
4 – Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?
Interessante a pergunta, pois a vejo por um viés dialético do conteúdo & forma. A literatura é inerente ao ser humano, pois se refere à manifestação escrita do pensamento. Entendo isto, no contexto desta pergunta, como sendo o conteúdo. A forma de essa manifestação atingir efetivamente o outro, o leitor, nos acompanha – enquanto seres pensantes – desde sempre. Hoje, quem sabe, os livros impressos no modo como o conhecemos poderão ser mensagens rupestres para o futuro. E o futuro, na ponta de nossos narizes, nos diz: venha, não importa como.
5 – Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.
R. Eu deveria ter dezesseis anos quando li: “quando Ismália enlouqueceu, pôs-se na torre a sonhar... Viu uma lua no céu, viu outra lua no mar...”. O poema “Ismália” do Alphonsus de Guimaraens marcou-me sobremaneira, uma vez que me despertou para a poesia e desta para a escrita. Nessa mesma época conheci Cem anos de solidão, de García Márquez, e esse livro me fez entender que podemos cantar, escrever, pintar, esculpir o nosso próprio universo, sem barreiras e sem o medo de desafiar Deus quanto ao delicioso pecado de criar mundos próprios.
* Marco Aurélio Cremasco é autor do romance Santo Reis da Luz Divina (2005), finalista no Prêmio Jabuti, e de Histórias Prováveis (2007), coletânea de contos, ambos editados pela Record. Professor de engenharia química na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é também autor de livros na área e publicou até aqui mais uma centena de artigos em revistas científicas brasileiras e internacionais.
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