Ainda a plasticidade
[13-05-2010] | Maria do Carmo Figueira
Mas, desta vez, não do cérebro, mas da língua... inglesa. É bela, muito por causa disso.Numa entrevista a Steve Jobs, o jornalista, ao descrevê-lo, diz “Apareceu bejeaned”, ou seja, com umas jeans, umas calças de ganga. Para os ingleses e americanos, procurar uma coisa no Google é simplesmente “google it” (ou seja, cinco palavras contra duas), o portuguesíssimo “não me venhas com mas, nem meio mas” é apenas “don’t but me”, aspirar a casa pode ser “hoover it” (com a apropriação da marca Hoover), “bedgasm” é uma sensação (que deve ser comum a muitos tradutores) de prazer total, de libertação total, de relaxamento total, ao ir para a cama depois de muitas horas de trabalho, “obamacheck” é uma espécie de rendimento mínimo, “redtube” é o Youtube de conteúdos pornográficos, “iPerbole” é a devoção a tudo o que a Apple produz, “beclown” é fazer figura de palhaço, “facebocrastinate” é passar tempo no Facebook para não fazer nada, e (só mais uma...) “Jack Johnsoned”, que é alguém que ouve a mesma música vezes sem conta até ficar farto.
Esta maleabilidade está completamente ausente do português e constitui um grande problema para a tradução pois, ainda que seja possível traduzir estes termos por uma frase inteira, a verdade é que o tom informal que lhes está associado perde-se por completo nesse exercício.
Ouvi recentemente a palavra “adultície”, correspondente ao inglês “adulthood”, como substituto de idade adulta. É um azar estes neologismos soarem sempre tão mal e tão decalcados do inglês. Devemos dizer “stewards” ou o pomposo “assistentes de recinto desportivo” – que vem na linha do politicamente correcto “auxiliar de acção médica” (ex-auxiliares) ou “auxiliar de acção educativa” (em vez do tradicional “contínuo”).
O Hermann José diz que a língua portuguesa é muito traiçoeira. Mas di-lo certamente por ser um falante de alemão. Se conhecesse bem o inglês, teria outra opinião.
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