Um príncipe entre os doutores
[02-04-2010] | Eduardo Pitta
Aos poucos, a historiografia nacional vai escavando o século XX. Seria fútil fazer aqui o inventário de obras que de uma forma ou de outra têm contribuído para iluminar os últimos cem anos da História portuguesa. No ano do centenário da República, é mesmo de esperar um aumento significativo de estudos.Uma das áreas menos conhecidas respeita à História da igreja. A ideia de um “país católico” vê-se desmentida todos os dias, numa sociedade pautada menos pela ignorância religiosa que pelo real desinteresse. Contudo, o clero sempre excitou a imaginação do povo. Quem não conhece a estrofe de Guerra Junqueiro: «Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz, / Que andais pelo universo há mil e tantos anos / Exibindo, explorando o corpo de Jesus.» (cf. A Velhice do Padre Eterno, 1885).
A minha geração cresceu à sombra de dois homens: Salazar e Cerejeira. De ambos se tem dito tudo e o seu contrário. Sobre o primeiro dispomos de razoável bibiografia, o que não acontece com o segundo. Razão acrescida para saudar a biografia de Irene Flunser Pimentel: Cardeal Cerejeira. O Príncipe da Igreja (Esfera dos Livros, 2010). Naturalmente, a biografia de um homem como Manuel Gonçalves Cerejeira é parte da História do século XX português.
Manuel Gonçalves Cerejeira nasceu em Novembro de 1888. Quando chega a Coimbra, em Outubro de 1909, para matricular-se em teologia (com o apoio do arcebispo-primaz de Braga), levava com ele certa aura de “irreverência”. Não se apagara ainda o eco da oração fúnebre que proferira em memória de D. Carlos e do príncipe herdeiro: «Cerejeira afirmou de forma algo polémica que o rei não tinha actuado bem em vida, embora se tivesse redimido ao morrer.» Em pouco tempo, Cerejeira integra o núcleo académico (católico e conservador) que luta «contra o positivismo, o cientismo, o pessimismo e o realismo da geração de 70». Cerejeira não quer nada com os Vencidos da Vida. É o tempo de Fernando Pessoa, António Sardinha, Cunha Leal e Salazar.
A coscuvilhice feita tradição oral, ou, se preferirem, o anedotário popular, credita a Cerejeira toda a índole de reputações. Sem ênfase particular, Irene Flunser Pimentel repõe a verdade histórica, desautorizando os lugares-comuns. A título de exemplo, a “comunhão” política com Salazar sofre sério revez.
A autora segue passo a passo a vida do futuro chefe da igreja portuguesa: os anos de Coimbra, o convívio com Salazar no Convento dos Grilos, a implantação da República, a militância no Centro Académico de Democracia Cristã (para onde convidou Gomes Leal), os textos do Imparcial, o doutoramento em ciências históricas e geográficas, a docência (chegou a catedrático em 1921), o fim da I República, a Action Française, o 28 de Maio, a vinda para Lisboa, a nomeação como arcebispo de Mitilene (1928), o Patriarcado e a ascensão ao cardinalato (1929), as primeiras “dissensões” com o regime, as negociações da Concordata (1938), a Segunda Guerra Mundial, as preocupações sociais, as “reticências” com a Mocidade Portuguesa, o culto mariano, a polémica com Alfredo Pimenta, o burburinho causado pelo proclamado ideal de uma «civilização cristã negra», a pastoral «Cristianismo e comunismo» (1947), a Guerra Colonial, o papel da igreja moçambicana (e, em especial, do Bispo da Beira) face à luta emancipalista, a transmissão de poderes para o novo Patriarca (1971), o retiro da Buraca... Dito de outra forma, trata-se de analisar um largo perído da História portuguesa à luz dos acidentes biográficos de Cerejeira
Uma obra imprescindível.
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