Nelson de Oliveira*
[24-03-2010]
1 – No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?Mais do que nunca, hoje a literatura faz muito sentido, porque apenas ela está enfrentando vigorosamente a mentalidade burocrática e mercantil do mundo contemporâneo. Os bons romances, as boas coletâneas de contos e poemas são invendáveis. Apesar disso, os grandes romances e as grandes coletâneas invendáveis não param de surgir no mundo todo. Isso é sinal de que ainda há algo poético, na natureza de algumas pessoas, que não se deixa reduzir nem simplificar.
2 – Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Por quê?
Já faz muito tempo... Mas me lembro de que fiquei bastante feliz, em 1998, com o primeiro Nobel para um autor de língua portuguesa. Veja bem, eu não acredito em prêmios literários. Eu creio na literatura, não nos critérios das comissões julgadoras. Mas o Nobel de 98 me emocionou um pouco.
3 – Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.
Em fevereiro publicarei, pela editora Língua Geral, o romance Poeira: demônios e maldições. É uma distopia ambientada em uma realidade alternativa, numa cidade não nomeada. Trata-se de um romance a respeito de um mundo onde a publicação de livros foi estritamente proibida. Aos poucos, contudo, novas obras começam a surgir, misteriosamente, na biblioteca chefiada pelo temido Frederico, protagonista da história, e depois em todo o planeta.
4 – Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?
A rede tem sido bastante útil, como laboratório e área de testes. Os novos autores, justamente esses que têm a maior dificuldade em conseguir editor, encontraram na internet o local ideal para testar seus escritos. Mas não vejo nada mais além disso. Mesmo no futuro, quando os leitores digitais iguais ao Kindle substituírem o livro impresso, a internet continuará sendo usada principalmente como canal de distribuição e divulgação, e muito pouco como ferramenta de criação. A menos que o hiperlink comece a ser usado em futuras obras abertas, originando narrativas interativas, como O jogo da amarelinha, de Cortázar.
5 – Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.
Sou um leitor compulsivo (qual escritor não é?) e, ao longo de vinte anos de atividade literária, muitos autores e muitas obras me impressionaram. Mas, para não fugir ao desafio, cito os romances A paixão segundo GH, de Clarice Lispector, e Húmus, de Raul Brandão. Realmente poderosos.
*Nelson de Oliveira nasceu em Guaíra (Paraná, Brasil) em 1966. É doutor em letras pela Universidade de São Paulo (USP) e estreou em 1998 com Naquela época tínhamos um gato. De sua já vasta obra, destacam-se Subsolo infinito (2000), A maldição do macho (2002), Algum lugar em parte alguma (2006) e Babel Babilônia (2007). Seu livro mais recente é Axis mundi: o jogo de força da lírica portuguesa contemporânea (2009).
Colaboração: Eustáquio Gomes
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