Marcelino Freire
[17-03-2010] | Luís Carmelo
1 – No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?Sempre haverá teimosamente um campo para a palavra escrita, para as ideias, as histórias, a poesia. Não sou pessimista nesse sentido... Aliás, sou pessimista quanto ao sentido da literatura. Ela procura, digamos, dar sentido ao que não tem sentido. Ave nossa! Por isso, sempre continuaremos escrevendo...
2 – Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Porquê?
No final do ano passado, na cidade do Recife, um grupo de jovens escritores organizou o evento mais inusitado e original de que eu tenho notícia: a FREEPORTO. Eles fazem uma clara referência, uma bem-vinda paródia a um evento literário que acontece perto do Recife, a FLIPORTO – Festa Literária de Porto de Galinhas. A FREE é bem mais informal, divertida. E tudo superbem organizado. Um barato!
3 – Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.
Meu mais recente livro é o volume de contos RASIF - Mar que Arrebenta, publicado em 2008 pela Editora Record (finalista do Prêmio Jabuti 2009). Nele, reuni contos apocalípticos, narrativas ali, bambas, na fronteira, coisas de fim de mundo... Guerras particulares e nucleares, digamos. RASIF é a origem, em árabe, da palavra "RECIFE". "Mar que Arrebenta" é o significado de "PERNAMBUCO", que vem do tupi-guarani. "RASIF" foi o lugar que eu resolvi criar para habitar meus personagens à deriva. Para eu mesmo morar, com minhas neuroses, saudades e conflitos e saravá!
4 – Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?
Acho que esse destino já está traçado, já está acontecendo. Balançando na rede faz tempo... Nunca vi tanta gente escrevendo, trocando ideias e parafusos, se comunicando. A literatura está cada vez mais viva, fora das gavetas para o mundo. Só estamos atualizando-afinando os "instrumentos". Não vejo mal nisto... Nesta suruba literocomputadorizada...
5 – Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.
O livro Estrela da Vida Inteira foi a primeira coisa que li (aos 9 anos de idade) e a poesia do MANUEL BANDEIRA marcou, assim, a minha trajetória, a minha vontade, o meu juízo. Foi por causa dele, a partir dele, que eu comecei a sonhar em ser "doente", em ser "tuberculoso", em querer ser um escritor. Para citar um autor internacional, fico com o livro Histórias de Cronópios e de Famas, de Julio Cortázar. Mas enfim... São tantos autores e livros: Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Vergílio Ferreira...
*MARCELINO FREIRE nasceu em 1967 em Sertânia, Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor, entre outros, de Contos Negreiros, vencedor do Prêmio Jabuti 2006 (Editora Record). Em 2004, idealizou e organizou a antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (Ateliê Editorial). Criou o evento BALADA LITERÁRIA, que anualmente, desde 2006, reúne quase uma centena de escritores, nacionais e internacionais, pelo bairro paulistano da Vila Madalena. Para saber mais sobre autor e obra, visite: www.eraodito.blogspot.com
Colaboração: Eustáquio Gomes
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