A vida de uma revista
[17-02-2010] | Eduardo Pitta
As revistas da Fundação Calouste Gulbenkian fazem parte do nosso património. A Colóquio em particular. Mudou de nome, as direcções têm-se sucedido, mas continua a ser a Colóquio. São dois os momentos da sua existência. O primeiro, que durou de Janeiro de 1959 a Dezembro de 1970, e corresponde a 61 números, sob direcção de Reinaldo dos Santos, Hernâni Cidade e Bernardo Marques. Ainda nessa fase, a partir do n.º 57, José-Augusto França e Jacinto do Prado Coelho entraram para a direcção.Nesse formato, a revista cindiu-se em duas: a Colóquio-Letras e a Colóquio-Artes. (Mais tarde surgiu a Colóquio-Ciências, de que não nos ocuparemos.) O primeiro número de Colóquio-Letras saiu em Março de 1971. Nos últimos 39 anos, foram muitos os que passaram pela sua direcção: Hernâni Cidade, Jacinto do Prado Coelho, David Mourão-Ferreira, Joana Morais Varela, Luís Amaro, Abel Barros Baptista, Nuno Júdice. A todos a revista deve um patamar de exigência inquestionável.
O afastamento de Joana Morais Varela, em Novembro de 2008, criou um impasse ultrapassado com a chegada de Nuno Júdice à direcção. Desse modo, a revista publicou, em Setembro de 2009, os números 170 e 171, dedicados ambos à obra de Eduardo Lourenço. Restabelecida a periodicidade, acaba de chegar às livrarias o n.º 173, relativo a Janeiro/Abril de 2010.
A primeira parte deste número é preenchida com artigos sobre Al Berto (1948-1997), dos quais destacaria os de Mark Sabine, Cânone literário, identidade e expressão ‘queer’ em Salsugem, e de Mário Lugarinho, Al Berto: poesia e experiência. Uma segunda parte ocupa-se de Maria Teresa Horta, Vasco Graça Moura, Armando Silva Carvalho, Yvette K. Centeno, Mário Cláudio, Hélia Correia e Gonçalo M. Tavares. É interessante verificar que Maria Teresa Horta regressa às preocupações da hermenêutica “académica”. As secções de poesia e prosa coligem textos destes sete autores. Os poemas, em particular «wild is the wind» (pp. 136-7), de Vasco Graça Moura, e «Antero, areia e água» (pp. 143-5), de Armando Silva Carvalho, são dois momentos de raro conseguimento.
Uma desembaraçada crónica de Paulo Castilho dá conta dos solavancos que Nova Iorque sofreu entre 1965 e o tempo presente: «Da última vez que estive em NY precipitei-me, cheio de entusiasmo, para a 5.ª Avenida na firme disposição de me enfiar na Brentano — a mais bela livraria de todo o Universo — e não sair de lá antes de esgotar o saldo do cartão de crédito. Só que, no lugar da Brentano e dos livros encontrei uma loja da Sephora e muitos perfumes.» OK, então já somos dois.
Ana Marques Gastão entrevista Helena Carvalhão Buescu: «Como não existe uma tradição implantada de uma consciência de participação cultural sistemática [...] o discurso de ressentimento [...] torna-se evidente e, no geral, triste.»
As habituais recensões críticas vêm assinadas por, entre outros, Teresa Sousa de Almeida, Frederico Lourenço, Miguel Real, Eugénio Lisboa, Álvaro Manuel Machado e Clara Rowland.
A capa e os hors-texte (excelentes) deste número são de António Sena.
Quem foi que disse que a Colóquio morreu?
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António Manuel Pacheco
Carlito Lima
Diana Menasché















