Miguel Sanches Neto*
[03-02-2010]
1- No mundo tecnológico e instantanista em que vivemos, crê que a literatura, tal como a aprendemos a significar pelo menos desde o Iluminismo, ainda tem sentido?Em uma idade de permanente superação tecnológica, a literatura faz cada vez mais sentido, mas dentro de um outro padrão de produção e de consumo. A forma de recepção do texto literário modificou, mas ele continua com uma grande força humanizadora. Antes, a idéia de totalidade do texto funcionava no sentido de propor uma compreensão pessoal da realidade. Um autor propunha um modelo. Hoje, fragmentou-se tanto o tempo, por conta das novas mídias, que esta compreensão se dá em pequenas fatias, e é multifocal. O leitor de hoje é um colecionador de fragmentos, e quer ele próprio construir uma percepção das coisas. As percepções são coletivas e mutantes, nascendo de um outro ponto de vista: não é mais o de um autor, mas o de um conjunto de autores, consumidos tumultuadamente, e que se unem apenas neste leitor criativo, que customiza a tradição literária. Este leitor midiático é um gerenciador de links, um coletor de textos. Desfez-se a distância entre autor e leitor. São uma única entidade agora. Este é o principal efeito da internet. Todos somos autores. A literatura, como forma de produção, se coletivizou.
2- Qual foi o último acontecimento literário, independentemente da sua natureza, que mais lhe tocou? Porquê?
Não consigo identificar acontecimentos literários de destaque. Com esta nova idade, na qual me formei meio tardiamente, pois venho da estética intimista da máquina de escrever, tudo acontece pelas beiradas, tudo é periferia. Como mudança de paradigma, acho este o principal feito da comunicação literária. As muitas periferias dissolveram os centros culturais. Isso é visível nas traduções de literatura. Estão disponíveis em nossa língua autores das regiões mais remotas do mundo, e nós os lemos de maneira interessada, dando-lhes uma centralidade que é mais afetiva do que real. Como instrumento, o principal acontecimento da década é a invenção e a popularização do Twitter, que permite um consumo e uma produção tribal de literatura. O Twitter intensifica a dispersão da autoria, e terá conseqüências positivas na permanência da literatura, mas dentro de outra sintonia, sobre a qual falei acima.
3- Fale-nos resumidamente do seu último livro, como se estivesse a revê-lo em voz alta para um grupo de amigos.
Meu livro mais recente é o romance A primeira mulher (Record, 2008). Neste livro, eu quis me aproximar de várias linguagens, do romance policial à crônica política, do poema de amor ou conto erótico, para representar um momento de suspensão das fronteiras de gênero. É a história de um professor de literatura que negou sempre a cidade dos homens, vivendo apenas em sua biblioteca, e que súbito se vê envolvido com uma campanha eleitoral e com as chantagens do meio político. Ele então tem que agir, modificando assim a postura de misantropo.
4- Pensa que a literatura e a rede poderão vir a ter, de algum modo, um destino comum?
Elas já estão tendo um destino comum. Não as vejo como mundos opostos. Há uma intensa interação entre elas. A rede está modificando a literatura produzida hoje, acrescendo-lhe ruídos, dando-lhe uma velocidade nova. O jovem faz tudo de forma simultânea. Lê, ouve música, acompanha vídeos, e conversa com pessoas. A literatura entra neste tempo de simultaneidades. Se quiser ser consumida apenas no gabinete de leitura, sem ruídos, estará fadada ao esquecimento. Por outro lado, a literatura modifica os padrões de comunicação. Há uma quantidade imensa de literatura circulando na rede, de boa literatura, e produzida por pessoas que não são formalmente autores. É uma relação simbiótica. Claro, ela modifica nossos padrões. Está colocando em destaque o caráter autobiográfico, que hoje é a tônica da produção não apenas na rede.
5- Refira dois autores e duas obras que o tenham marcado na sua carreira.
Os relatos de Júlio Cortázar promoveram uma modificação muito grande em minha maneira de fazer literatura. Aprendi com ele a valorizar a velocidade narrativa. Escrever como uma forma de encantamento por meio do texto. Mais recentemente, foi a leitura da obra de Isaac Bashevis Singer, boa parte dela produzida para jornais, e que valoriza a comunicação literária, sem abrir mão de uma percepção profunda do ser humano.
*Miguel Sanches Neto é ficcionista, crítico literário e professor de literatura brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa (Paraná). De sua vasta obra destacam-se os romances Chove sobre minha infância (Record, 2000), Um amor anarquista (2005) e A primeira mulher (2007). Publica uma crônica semanal no jornal “Gazeta do Povo”, de Curitiba. Pode também ser acompanhado no microcroblog www.twitter.com/miguelsanchesnt.
Colaboração: Eustáquio Gomes
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