To Translate - A Viagem das Palavras
[28-10-2009] | Maria do Carmo Figueira
Este ano, o DocLisboa ofereceu uma pérola aos tradutores: o documentário To Translate do realizador italiano Pier Paolo Giarolo.Ao longo de 56 minutos, o espectador assiste a um belíssimo cruzamento de imagens entre diversos modos de fabricar pão e entrevistas com onze tradutores literários italianos. O realizador leva-nos, assim, de uma padaria artesanal da França, onde o pão é feito com enorme carinho e vagar, à mecanização de uma padaria alemã, à organização de uma padaria holandesa, ao ar atarefado de dois padeiros portugueses, a uma padaria espanhola onde não podia faltar uma imagem de Cristo e ao “aroma” dos materiais vindos da Revolução Industrial de uma padaria inglesa.
Os tradutores, que traduzem do Hebraico Antigo, do Português (Saramago), do Francês, do Inglês, do Árabe, entre outras línguas, vão narrando as suas experiências, conflitos, a forma como encaram o seu trabalho, em depoimentos muito sentidos, muito persuasivos, que dificilmente deixarão alguém indiferente – muito menos, um tradutor.
Quando questionado sobre a justificação da analogia entre o pão e a tradução, Giarolo explicou que, apesar dos diferentes métodos de fabrico, há três coisas muito simples que são comuns ao pão em todos os países: a farinha, a água e o sal. Também a tradução tem “ingredientes” comuns, independentemente dos idiomas envolvidos: a língua, as palavras, algo que, como o pão, tem uma presença indelével no quotidiano.
Para além disso, as imagens do fabrico do pão, cuja recolha não foi certamente aleatória, correspondem ao paradigma da cultura de cada país – cultura essa que está espelhada na respectiva língua, no seu ritmo e musicalidade.
Desde a fluidez da relação com o Francês, à dificuldade de transpor para o Italiano o ritmo do Inglês, até à afirmação do tradutor de Hebraico de que traduzia um verso apenas por dia pelo esforço que lhe era exigido para pôr em Italiano a infinidade de significados de cada verso original, ainda à explicação da tradutora de Árabe de que tinha começado a traduzir porque queria estudar e não tinha acesso na sua língua a livros árabes e ainda à sugestão da tradutora de Saramago de que havia trechos dos seus livros que deviam ser traduzidos em música e não em palavras, o filme apresenta de uma forma poética, bela e muito completa no que consiste a arte de traduzir, a viagem das palavras.






































