A literatura é um rio que se reconhece, hoje em dia, através de uma identidade multifacetada: um vastíssimo esteio de afluentes que disputa os limites de uma fronteira sempre impossível de traçar. É neste limbo dinâmico, ponteado por marés imprevistas, que o site PNETliteratura se situa. Sem dizer que não à turbulência ou à contingência. Interrogando, enquanto publica; dando a ver, enquanto relativa. Luís Carmelo, Coordenador
Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado – sei que já existem há muito tempo, mas só agora é que as letras deles me ocorrem nas actividades mais normais do dia-a-dia. Soa bem a música, a banda tem letras que custam a decifrar em função da sua denominação. No ano passado a banda esteve em Portugal aquando da sua tour europeia e foi ao festival de Paredes de Coura. Penso. Porque razão se auto-propuseram este nome? Deve ser das perguntas que a nível mundial mais frequentemente serão colocadas a esta banda - que qualquer português por maior óbv...
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Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square. Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma senhora aflita pergunta no vernáculo aqui e acolá se a palestra será dada em espanhol, em qual caso ela temia nada compreender. Quer certificar-se para evitar o inconveniente de uma retirada, afinal via-se presa no meio da fileira de poltronas compactas e cinzentas. Latino-americanos e espanhóis ibéricos, as introduções costumeiras, donde vienes? Cartágena, Buenos Aires, Córdoba, Montevidéu, todos conversam em pé no tumulto da sala apertada, a expectativa soa no ar. O escritor, titular da cadeira de Cultura e Civilização Espanhola, tratará da sua experiência em ficção.Currículo resumido de Muñoz Molina: autor de mais de vinte livros, dentre eles, novelas (“Um Inverno em Lisboa”, “Lua Chei...
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A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado. Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por natureza. Ao lado, uma senhora de porte alto, a cabeça erguida, sempre erguida (não a abaixaria por nada neste mundo), o corpo levemente desajeitado sobre a cadeira que se faz pequena ao seu redor, fala no vagar do pensamento e em poucas palavras demonstra o domínio da linguagem, a capacidade de criar surpresa em velhas idéias. Para completar o trio, acomoda-se um pouco impaciente, uma mulher asiática de cabelos tingidos de ruivo, curtos, os fios em desalinho apontados para o teto como lanças, esta sim borbulha e tem uma desenvoltura que quase a faz passar por filha da terra. Norman Manea, Jamaica Kincaid e Jessica Hegedorn, respectivamente, convidados de Ilan Stavans no palco de um auditór...
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Entre Osnabrűck e Porto, que paralelo biográfico melhor para se ler Ilse Losa na direcção contrária àquela que ela geograficamente deu à sua vida. Uma vida que na tragédia da História da Alemanha encontrou porto de abrigo no Porto de onde eu provenho e que nessas trocas interculturais perdeu ou ganhou fronteiras entre o sonho e a realidade, transformando a experiência imaginária vivida em livro do vivido ou não vivido e do que se gostava de ter vivido. Nos tempos de recolhimento da alma como o Inverno se propicia a fazer, as raízes imperam sobre a consciência e vale a pena recordar os livros que me liam ou que eu própria me lia – quantas vezes em voz alta, de preferência em frente a um espelho. Este livro simples fez-me repousar o olhar sobre uma dada infância e acrescentar-lhe a dissecação da estrutura seca à qual chamamos preocupações culturais contemporâneas: o bardo, o hipermédia e a cultura infantil. Esta autora engendra um contexto no livro infantil “Ora Ouve...” em que a...
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Artistas plásticos, músicos, poetas e escritores encontram no Brooklyn refúgio e cenário e dali partem para expedições ultramarinas na Califórnia, na Índia, na França, na América Latina, na África, a book tour perhaps. Discussões literárias, conversas boêmias, propostas, idéias para livros em ebulição: the Brooklyn follies estão aí para ficar. Os agentes literários se distinguem pelas pilhas de manuscritos e contratos que carregam soltos, arriscando-se no vento forte de inverno, tudo vale pelo próximo bestseller, as páginas podem voar como pombos ousados. Os americanos têm a capacidade de transformar a arte em business talk, mesmo que façam small talk, as they say. Escritores, alguns personas mascaradas pela mídia, e poetas, verdadeiros heróis na odisséia pela poesia sobrevivente são protagonistas na tal história. Agentes literários estabanados, com os cabelos em desconcerto, trocam figurinhas pelas ruas do bairro. As editoras gigantescas verdadeiros king kongs a pular de um empi...
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Tal como a memória ou um texto, a cidade tem múltiplas sobreposições. Camada sobre camada que foi sendo sobreposta pelo tempo, os projectos dos homens e o acaso, e que é possível ler num determinado momento. Por exemplo, Leipzig em Novembro de 2009. Vinte anos depois da “revolução pacífica”, os acontecimentos que anteciparam a Queda do Muro de Berlim. Antes disso, quase quarenta anos de pertença à República Democrática Alemã e ainda antes, a Segunda Grande Guerra e os tempos do nacional-socialismo. Uma cidade de muitas memórias, de grandes mutações, de sacrifício e sofrimento, espelhando afinal a história da Alemanha e até da Europa. Percorro as ruas e registo, como num filme, algumas dessas sobreposições que vemos no espaço e lemos no tempo. Perto da estação de caminho-de-ferro, o exemplo talvez mais visual - a “caixa de lata” (“Blechbüchse”), uma fachada de metal sem janelas. O edifício de 1964-66 de oito andares albergou os maiores e mais modernos armazéns da RDA, hoje sob protecção...
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Não há de se esperar em Laura, uma novela e sim fragmentos. Nas lacunas, o legado de Nabokov aos leitores. Cento e trinta e oito cartões escrevinhados, a obra inacabada de um homem em estado terminal. Vladimir pedira à Vera que os destruísse, assim como anos antes, em duas vezes consecutivas, levara o rascunho de Lolita ao incinerador sem que no momento final chegasse a atirá-lo às chamas. Dmitri Nabokov, tradutor das obras do pai, autorizou em 2007 a publicação do original de Laura no formato deixado pelo pai, sem intervenções. Resolve-se o dilema de Dmitri.Sob capa elaborada por Chip Kidd, ilustrador conhecido no mundo editorial e responsável pela obra de Vladimir Nabokov no Brasil através da Companhia das Letras, o livro oferece ao leitor a opção de destacar cópias perfeitas dos cartões anotados por Nabokov e reordená-los comme il faut. O...
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Tempo e palavras culminam na necessidade instantânea de evitar o ócio dos segundos. Outono e inverno fazem-se incertos. Eventos literários e musicais dão vida aos centros culturais excessivamente calefados e neste calor artificial, um público trajando variadas vestimentas e opiniões, dos mais velhos aos jovens, estes últimos irrequietos nas poltronas, escutam música e prosa enquanto digitam em seus blackberries. A adolescente na poltrona à frente encosta a cabeça no ombro do colega, nasce ali uma novela romântica inesgotável, ou terá sido a chance de amor logo vencida pela pressa e a digitalização dos sentimentos? Em cinco minutos, eles vão partir. O rapaz com suas pernas compridas demais para o assento apertado, a menina com olhos de mulher. Um vento de furacão tropical sopra. Prematuro.Recente, no curso de uma semana, assistimos à apresentação de Orhan Pamuk e a uma encenação de Don Quijote de la Mancha com o Los Angeles String Quartet.É notável a interseção matemática neste p...
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Em seu último livro The Children’s Book, Antonia confessa através da protagonista que todo o escritor deve ter a sua frase talismática. Há palavras que funcionam como chave do horizonte, têm o poder de ligar a máquina da criação. No ano passado, Amy Bloom confidenciou ao público que no seu escritório emoldurou em letras graúdas a máxima de Samuel Becket: “Ever tried? Ever failed? No matter, try again, fail again, fail better.” A escrita nascida do fracasso? Enquanto Chinua Achebe vê na atividade literária, a busca; Antonia complementa, a escrita pode representar tanto a busca quanto a fuga. E nestes encontros e desencontros consigo, descobre-se a relevância da sombra, a sombra de cada um de nós e o mistério daqueles que não possuem sombra alguma como num conto de fadas. Inspirada pelo misticismo nórdico e espiritualidade sob medida, Antônia recusa-se a revelar crença na reencarnação embora em visitas à Torre de Londres intuísse a presença do espírito do diabo e não impediu que e...
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“I blow through here… and the music goes round and round… and it comes down here” (Louis Armstrong, The Five Pennies) Não é nos parques, jardins botânicos ou bosques que se respira o melhor ar de uma cidade, mas sim... numa sala de concertos. Talvez nem pensemos nisto, quando assistimos a um concerto e nos deleitamos com o sublime dos sons, mas toda essa “fantasmagoria” sonora depende, afinal, também de coisas bem concretas. Tal como quando conversamos com alguém, e o entendimento depende de tantas coisas complexas como falarmos o mesmo idioma, termos referências culturais comuns, estarmos num momento mais ou menos sociável... Mesmo partilhando códigos de referência a comunicação é difícil e “a linguagem é fonte de mal-entendidos”, como escreveu Saint-Exupéry. Pode então desistir-se da comunicação, mas também o silêncio pode ser eloquente, ou de oiro. Seja como for, quando comunicamos oralmente não são só factores linguísticos e culturais, afectivos ou emocionais que estão em que...
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Da poltrona com ampla vista para o palco, quis capturá-lo. Não como o mestre da escrita da África colonizada pelos ingleses, o escritor premiado. Quis tê-lo, sim, como personagem. Quantas histórias não renderiam este homem vivido que carrega a Nigéria no coração, abriga as tristezas do fracasso da nação com mais pendor do que aprecia o próprio sucesso dos livros traduzidos mundo afora. Chinua Achebe é a interseção entre a tradição, o passado a se perder do vilarejo que o criou e a contemporaneidade que nos atira ao léu com uma pergunta apenas: quem somos? A busca da identidade, há de se desvendar o porque da vida, quem somos. Assim explica Chinua Achebe ao esclarecer o fundamento da sua escrita. E na busca, derramou palavras guiadas por provérbios e reminiscências da terra mãe, pronuncia o inglês como idioma estrangeiro, o sotaque uma pista para uma verdade. Perguntam-lhe se considera a vida na América, exílio forçado. Responde no middle-ground. Sem negar, sem concordar. No c...
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Coimbra, Maio de 1996 Querida Annie, posso ver o que tens estado a fazer? Oh, só a tentar descrever uma coisa de que gosto! Posso ver o que escreveste? Claro! Tenho estado a vê-la trabalhar – ela deve ter querido muito e até precisado do trabalho dela – repara – está inclinada sobre o quadro como um ovo com uma cabeça a sair um bocadinho fora do lugar, como uma tartaruga. Esta cabeça – cabelo escuro, um laço branco de menina a contrastar com – a face – tensa e austera – a pele escura e pálida. Um braço e uma esguia mão direita a sair do ovo, apoiada com jeito pela mão esquerda, apenas visível à volta do pulso da mão direita. Parece que a saúde pouco lhe importa, ao inclinar-se para fora do corpo, rosto, cabeça e mão, o bra&...
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Todos os domingos pela manhã, os cumprimentos se repetem tal episódio de série antiga de televisão: bom dia, bom dia, dizem eles tomando de um tempo, inexistente ao longo da semana quando os cumprimentos e o indício da educação geram um sorrisinho sem vontade de sorrir, um movimento très légère dos lábios pois o humor é duvidoso e tudo absolutamente tudo tudo vai depender de como o dia evoluirá. Eles compartilham destas frações de planeta, destes retalhos de terra, nada os surpreende porque as ruas não sofrem censura, mulheres desnudas, a faca passa a manteiga no pão, a faca arranca o coração, não há véu que cubra as ruas. Mulheres cor de rosa no arrepio da pele riscada arriscam-se no arrebentar a porta para a manhã acesa pela estrela pálida e desaforada e nem sempre presente por se aproveitar das nuvens. Antes do anoitecer a morte será certa para muitos, Alah, Alah promete o paraíso e Aziz faz fé, recusa-se a aparar a barba ou os cabelos, gosta do que vê em frente ao espelho num qu...
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Portugal é âncora de viagens e de viajantes. A alma lusa espera, sente e quer “o outro”, onde quer que ele esteja. É um tanto românico e idealista e pouco prático imaginar que “o Outro” não está onde nós estamos. Mas assim lá vão os viajantes à procura desse encontro com o outro, o mistério, ou até não à procura, mas ao encontro directo. Vai-se desmistificando esse Outro, onde quer que ele esteja, vendo-o com os próprios olhos, pondo os pés na sua terra, sentindo-lhe o cheiro, comendo o que come, aprendendo porque reage assim, qual é o seu humor, quais são os seus prazeres e fontes de melancolia e tristeza, valorizando os aspectos sociais, económicos, humanos que envolvem esse Outro, conhecendo, em suma, a sua História, através do seu presente. Ninguém melhor que um viajante para o fazer. Tiago Salazar &ea...
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Exposição: O Banho e o Espelho, Cuidados do Corpo e Cosméticos da Antiguidade à Idade Média (até 21 de Setembro nas Termas e Palácio de Cluny, Paris)Foram necessários anos confronto entre os textos da antiguidade (Ovídio, Plino-o-Antigo, por exemplo) e 144 produtos encontrados em França, Itália, Grécia e Alemanha entre 2005 e 2008 para criar esta exposição. Os romanos, homens e mulheres, cuidavam a aparência nesta e, esperavam eles, na outra vida. Por isso os arqueólogos têm agora recolhido tantos objectos e produtos destinados aos cuidados do corpo. Recipientes muito variados, frascos, ânforas, píxides, estojos, mais ou menos luxuosos, para produtos de beleza não menos variados. Os perfumes. Os óleos de massagem; por vezes importados de outros continentes. A maquilhagem branca, alvaiade, composta de carbonato de chumbo, uma substância t&...
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A notícia deste Verão, divulgada por rádios, televisões, jornais e magazines, debatida em jantares e serões, foram os resultados de uma investigação Ifop/Tena intitulada "As mulheres e a nudez". Três números, entre outros: 88% das francesas qualificam-se como "púdicas"; 67% não se mostram nuas num vestiário; 29% preferem fazer amor às escuras. Um telejornal foi mesmo para a praia perguntar às banhistas por que não mostravam os seios. Várias respostas, com efeito, como ensaiadas: por razões de pudor. O argumento teria nos anos setenta parecido ridículo. O pudor era um acessório retrógrado, estimável num museu de velharias; nem as avós se serviam dele sem precauções – por falta de prática. Todo o mundo ocidental queimava os sutiãs. Eu era miúda mas ainda me lembro da minha indignação quando, talvez em 1975, ouvi na rádio as reacções de alguns homens perante uma celebração lisboeta do rito. Anos mais tarde, quando me emancipei um pouco da tutela familiar, também entre...
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Maio de 2009, final do semestre de Primavera na Universidade de Georgetown, quinze estudantes do curso “Arte do Monólogo” da Profª Susan Lynskey apresentam, no teatro de bolso Devine, a mostra Solo Vox, uma exploração de monólogo, solilóquio e narrativa na primeira pessoa marcada pela diversidade e pelo intuito provocador. É surpreendente a qualidade do espectáculo e o profissionalismo dos actores/estudantes, a capacidade crítica dos textos seleccionados, mostrando uma visão bem diferenciada dos EUA. Quem é a professora cujos alunos dão uma lição de teatro de tão grande qualidade no final do curso semestral? Susan Lynskey ensina teatro e dialectologia em Georgetown desde 2003, e é conselheira de grupos de teatro co-curriculares. Estudou Psicologia e fez o bacharelato na Universidade de McGill em Montreal e o mestrado em Belas-Artes na Universidade de Iowa. Trabalha também como actriz profissional e tem-se dedicado às novas tendências teatrais – por este trabalho recebeu já duas nomeaç...
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Tudo o que Irina, Olga e Masha queriam era voltar a Moscou. Vender a casa herdada do pai há um ano apenas, o aniversário da morte celebrado no aniversário de Irina, as impressões da saudade havendo se mutado no passar dos dias. O contraste entre a província e a cidade grande, um dos temas marcantes na obra de Chekhov, oferece às irmãs a possibilidade de existência renovada. Enquanto Tolstói defendia a pureza do campo, a simplicidade dos mujiques, as personagens de Chekhov deleitam-se com os atrativos dos boulevards de Moscou, o fascínio pela vida urbana menos enfadonha do que a levada no interior do país. No Moma, Museum of Modern Art em Nova Iorque, o festival de cinema brasileiro de 2009 traz nove documentários por Eduardo Coutinho, ícone do cinema brasileiro, em sua maioria “snapshots” de pessoas cujas vidas se confundem na imaginação do público, transformando-se em personagens de si, a linha marginal entre realidade e ficção sendo delineada com talento. Do nordeste aos grandes...
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Na lista dos bestsellers de ficção, o Los Angeles Times traz em terceiro lugar o livro de “co-autoria” de Jane Austen e Seth Grahame-Smith entitulado “Pride, Prejudice and Zombies” (“Razão, Sensibilidade e Zumbis”), a obra de Austen reescrita a partir da inserção de personagens zumbis e ninjas a invadirem o cenário da Inglaterra pré-victoriana no início do século dezenove. Oitenta e cinco por cento do texto original escrito por Austen manteve-se preservado por Seth, cujo trabalho consistiu em transformar as protagonistas em talentosas ninjas e inserir zumbis maltrapilhos nas festas e ambientes frequentados pelos personagens originais. Seth também precisou manter as mortes e desaparecimentos e lutas consistentes para que a narrativa não se perdesse. As modificações não eliminaram o caráter cômico dado por Austen e usaram de ...
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Paris situa-se longe do mar em quilómetros e em tempo: neste aglomerado populacional com mais de dez milhões de habitantes as saídas na direcção do mar permanecem saturadas durante todo o fim-de-semana. Claro que não falta aqui que fazer... O cinema, o teatro, as conferências, as exposições, as caminhadas e inúmeras outras actividades, claro, consoante a idade e personalidade de cada um, para além do trabalho, não deixam margem para o tédio. Nem sequer para o descanso... Paris solicita demais. Portanto o parisiense é um cidadão esgotado. E, ao fim de algum tempo, nesta cidade com uma cor cinzenta dominante (um dos seus encantos), surge uma ânsia de verde e azul, de areia e far niente... Por isso, para quem no Verão, por razões familiares, profissionais, económicas, fica em Paris, a câmara inventou Paris Praias. Onde é? Podemos, de maneira aprox...
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Do feriado de 14 de Julho ao de 15 de Agosto, os parisienses abandonam progressivamente a capital. Restam os turistas... e os apreciadores de uma Paris estival que, durante um ano, esperaram pela metamorfose: uma cidade com menos carros, menos barulho e menos poluição. Paris-Praia à beira do Sena. Calmos passeios de bicicleta – com ou sem Vélib. E, nestas temperaturas agradáveis, até as filas para entrar nos principais museus se tornam menos contrariantes... O museu de Orsay aprofunda o mito da viagem à Itália no século XIX através de três exposições: Voir l'Italie et Mourir (Ver a Itália e Morrer) com nove salas: antes da fotografia (uma sala: Camille Corot, Léon Cogniet); os daguerreótipos (duas salas); a Grande Volta (uma sala); o Risorgimento (uma sala); o olhar arqueológico (uma sala: Pompeia, a erupção do Vesúvio, o Forum romano); povo i...
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Não ouvi das pessoas ao sair da apresentação de Lobo Antunes ontem senão elogios e um jeito encantado de falar sobre ele. O escritor conquistou a platéia com sua gentileza, seu modo de falar sobre a escrita, seu humor divertido, sua evidente emoção ao falar do Brasil que lhe era próximo por intermédio do avô brasileiro, transformando a entrevista num encontro afetos e literatura entre brasileiros e um português genial. Assistir a Lobo Antunes valeu pela FLIP inteira, era a opinião de todos.Comovido, ao final da palestra, depois de ter sido o único participante a ser demoradamente aplaudido de pé, ele voltou ao meio do palco e pedindo atenção agradeceu a generosidade e a acolhida dos brasileiros e acrescentou: - Deus lhes pague !( continuarei logo mais )Sílvia Chueire...
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Cercada de expectativas a mesa de Milton Hatoum e Chico Buarque, “Sequências Brasileiras” começa bastante diferente de todas as outras. A Tenda dos Autores completamente cheia - os ingressos haviam se esgotado em uma hora de venda pela internet – recebeu os dois em meio a flashes de fotografia das duas dezenas de fotógrafos que esperavam e se revezavam espremidos à beira do palco. Chico e Hatoum chegaram elegantemente vestidos e em nenhum momento, apesar do status de “pop star”, a presença de Chico ofuscou a presença ou as palavras de Milton Hatoum, ao contrário, foram conversando sobre o último livro de cada um com naturalidade e bom humor. Hatoum , professor de literatura, discorreu com segurança sobre seu último livro, ‘Órfãos do Eldorado’, fundamentando suas afirmações sobre a estratégia do livro. Chico pareceu mais instintivo e disse de ...
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“Os portugueses têm preconceito em relação aos escritores brasileiros. Acham que nós não sabemos escrever em português. Nenhum escritor brasileiro atual vende bem em Portugal”.Bernardo de Carvalho, escritor brasileiro, 49 anos,um dos principais nomes da literatura nacional contemporânea, é jornalista e autor de, entre outros, Aberração (contos), Teatro (romance), Nove noites (romance, prêmios Portugal Telecom e Machado de Assis, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), Mongólia (romance, prêmio Jabuti e APCA) e O sol se põe em São Paulo (romance). Escritor original, urbano, O filho da mãe é o seu romance mais recente. Gentil, Bernardo concordou em falar ao Pnetliteratura. Interessou-nos o que ele havia dito mais cedo num determinado momento do debate da FLIP ao falar de seu novo livro “O Filho da Mãe”, romance que se passa em Sã...
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Atiq Rahimi e Bernardo de Carvalho dividiram uma das mesas desta sexta feira pródiga em discussões interessantes. Ambos falaram do processo criativo e do que pretendiam com a literatura. E discordaram um do outro. O que é bom para variar num evento em que todos celebram a literatura e poucas divergências aparecem claramente.“Não existe uma literatura universal”, disse Bernardo, autor de romances em que o elemento estrangeiro é crucial, como “Mongólia” e “O filho da mãe”. E explicou: “Existe uma guerra geopolítica de imposição de literaturas. Na China, onde estive antes de escrever ‘Mongólia’, não existe o menor interesse pela literatura brasileira. Acho que ela nem seria compreendida lá, caso fosse lida. Posso estar sendo pessimista, mas vejo cada vez mais uma política de fechamento, cada bloco cultural defendendo seus interesses....
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A terceira artista da casa, que só no final se revela e é reconhecida como tal, é Mrs. Brown, a funcionária negra da Guiana, o verdadeiro espírito protector e tutelar da casa, o seu totem. Ela acaba por se tornar a personagem central e mais interessante do conto, aliada de Debbie e em permanente conflito com Robin. Sheba Brown é descrita como “um génio da justaposição” (Kelly, 59) – veste-se de modo surpreendente, tecidos floridos, malhas de todas as cores, feitas de restos de lã. Ela confecciona a roupa que usa com restos de tecidos e roupas usadas que lhe dão. Quando uma elegante e requintada galerista visita a família Dennison para eventualmente expor a obra de Robin, é Mrs. Brown quem capta a sua atenção e acaba por ser escolhida para expor o seu recém-descoberto “artwork”. A família Dennison não fazia ideia de...
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Acordei, depois das pedras, depois do leve cansaço dos pássaros, e o mundo estava em estado de azul.Lembrei, então, da minha amiga, a garça gaga.Fui feliz pelas pedras. ...
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Continua lindo o céu em paraty. Circulam as pessoas nos seus ritmos amenos ou eufóricos.As ruas lindas. As pessoas soltas. Os pássaros fogem das pessoas barulhentas. Acho bem.... Aos autores, oferece a organização uma garrafa de cachaça Maria Isabel. Parece-me bem....
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Começa hoje a Festa Internacional de Literatura de Paraty, a FLIP. Reunidos na pequena cidade à beira mar, teremos artistas, literatos, curiosos, estudantes universitários, autores, leitores, jovens, crianças. É isto o que faz interessante a festa de Paraty, a diversidade do público. Limitada, é claro, pela localização da cidade, que fica a três horas e meia, de carro, do Rio e a quatro horas de São Paulo.Seu pequeno Centro Histórico, suas Igrejas, as ruas de pedras irregulares, estarão cheios de gente interessada em literatura, ou nos autores, ou apenas na festa. Shows paralelos, mostras paralelas, discussões literárias nas mesas de bar, sobre estilos, autores, opiniões.Sim, porque teremos, a discorrer de modo informal, os escritores falando sobre suas obras, lendo-as, comentando sobre a questão da criação, respondendo a perguntas do público e ao f...
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Na loja do Museu de Arte de Baltimore encontro um livro de contos, The Matisse Stories, de A. S. Byatt, autora do romance Possession, vencedor do Booker Prize em 1990 e adaptado ao cinema em 2002. Escritas em 1993, as Matisse Stories são uma homenagem de A. S. Byatt a Matisse, o seu pintor preferido. Na capa, o enigmático quadro de Matisse, Le silence habité des maisons (1947). Os três contos, “Medusa’s Ankles”, “Artwork” e “The Chinese Lobster”, dialogam com três desenhos de Matisse, respectivamente La chevelure (1931-2), L’Artiste et le modèle reflétés dans le miroir (1937), Nymphe et faune (1931-2), e narram situações do quotidiano – uma professora universitária que vai ao cabeleireiro, um casal de artistas que contrata uma empregada que gosta de fazer malha, e dois académicos que discutem o futuro de uma aluna enquanto almoçam num restaurante chinês. Nestes quadros desenham-se tensões que virão a revelar situações insólitas e facetas inesperadas das personagens, desconhecidas at...
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Quem seriam as mulheres de Bolaño? Meretrizes, assassinas, poetas ou poetisas? O escritor Roberto Bolaño, beatnick de origem chilena assumiu estatura nos últimos anos e parte da sua obra ainda está sendo escavada para sair ao público. Ensaios literários menos recentes não chegam a mencioná-lo, apesar da sua obra característicamente pós-boom na literatura latino-americana. A sua escrita é pop na atitude, e realista-lírica na linguagem marcada pelo passado poético do autor. Indo em direção por vezes oposta às tendências dos escritores do boom, o acervo de Bolaño não sofre do vício pela super-técnica e oferece ao leitor mais espontaneidade estética e desfechos sem resignação ou pessimismo. Os diálogos narrados ao vivo por três atrizes latino-americanos dão vida a três personagens femininas do autor e não diluem o poder da sua pena. Assim foi a apresentação há algumas semanas atrás no café teatro improvisado da McNally Jackson Bookstore no coração de Greenwich Village, Prince Street...
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Sempre associei o texto de Herberto Helder sobre o pintor que tinha um aquário e lá dentro um peixe vermelho – com Matisse. O texto é de Retrato em movimento, de 1968, e conta a história do pintor e do peixe vermelho que se transforma em peixe amarelo, depois de passar por mutações negras, ensinando a lição da metamorfose. É que Matisse pintou variações do motivo do peixe vermelho em datas diferentes, de 1909 até 1921. No quadro Zorah sur la terrasse, de 1912, o aquário com peixes vermelhos parece estar fora do contexto mas, por ser um motivo recorrente na obra de Matisse e pela sua colocação no canto inferior direito do quadro, funciona como assinatura do pintor.Hoje é da relação de Henri Matisse com a literatura que gostaria de vos falar.Desde o Romantismo que as artes estão interligadas e os artistas se inspiram e dialogam entre si, independentem...
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“Quem resgatará a imaginação?”Este foi o desafio lançado à platéia por Azar Nafisi, autora do bestseller “Lendo Lolita em Teerã” e de “Things I have been silent about: a Memoir”, ainda sem título oficial para o português. Em seu mais recente trabalho, que ela faz questão de estressar não ser uma continuação do primeiro, Nafisi traz à luz a conversa inacabada com os seus pais, expondo corajosamente os conflitos familiares, tocando nas chagas que sequer o tempo cicatrizou e cobrindo décadas de mudanças sócio-políticas na história do Irã contemporâneo. Após a morte de sua mãe, logo seguida pela de seu pai, Nafisi buscou redescobrir a figura materna na coleção de fotos herdada. A ponto de causar preocupação no marido e na filha, Nafisi passou o período de luto absôrta com as imagens esparramadas sobre a cama, queria penetrar nos olhares capturados da mãe, desvendar os pensamentos de uma mulher enérgica e atormentada pelas perdas sofridas. Da busca, surgiu a idéia de uma obra auto-biogr...
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[20-05-2009] | Ana Maria Delgado, Ana Maria Delgado
Atrai-me o que é cantabile em tudo, aquilo a que Leonard Bernstein chamou nas Harvard Lectures “A Poesia da Terra”, referindo-se à tonalidade, que em música está presente mesmo na música atonal. Em literatura, seria o sentido; na filosofia, a racionalidade. É isto que guia os meus passos na direcção do Healy Hall, o edifício central da Universidade de Georgetown, sua alma mater, e aí na direcção de Gaston Hall. Este é a “Jóia da Coroa” da Universidade, um auditório imponente de 750 lugares, que tem recebido inúmeros líderes mundiais – ainda há poucos dias este espaço se encheu por completo de público que quis ouvir o Presidente Obama falar sobre a situação económica. Hoje é o Coro de Concertos da Universidade de Georgetown que apresenta, como todos os anos, o seu Concerto Anual de ...
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A Casa das Américas abriu os seus salões elegantes para a apresentação de “Mil y una muertes” (2004) por Sérgio Ramírez e traduzido como “One Thousand Deaths plus One” (2009) por Leland H. Chambers. O autor, considerado uma das mais importantes figuras da literatura latino-americana contemporânea, faz parte da geração subsequente ao boom. Ganhador de vários prêmios literários, inclusive o Prêmio Internacional Alfaguara de Novela I com o livro “Margarita, está linda la mar” (1998), Ramírez abriu mão da carreira literária durante alguns anos para exilar-se voluntariamente na Costa Rica e na Alemanha de onde atuaria ativamente na revolução sandinista que veio a destituir a ditadura Somoza na Nicarágua dos anos oitenta.Numa terça feira primaveril, entre espirros alérgicos sob a nuvem de pólen ...
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Busboys and Poets, na intersecção da Rua V com a Rua 14, junto ao corredor da Rua U, Washington, D. C. - uma área do Distrito de Columbia que tem sido um centro da cena cultural e activista com lugares como o Lincoln Theatre, o Howard Theatre, o Bens Chili Bowl, as Bohemian Caverns, o Jazz-Utopia. Era esta a grande zona urbana afro-americana dos EUA, até ter sido ultrapassada pelo Harlem nos anos 1920. A cantora de jazz Pearl Bailey chamou-lhe a Broadway Negra, e em 1968 foi palco de motins que se seguiram ao assassínio do Reverendo Martin Luther King. Hoje em dia, reabilitada e quase sem vestígios de incêndios e destruição, é uma zona residencial e de lojas muito agradável. Muito perto fica a Igreja de St. Augustine, onde as missas são acompanhadas por belíssimos espirituais negros cantados ao vivo. Busboys and Poets é um café, restaurante, livraria, espaço de performanc...
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Um pequeno passeio pelo amplo espaço da livraria da Universidade de Georgetown em Washington, D.C., leva-nos a uma prateleira onde foram expostos cinco livros, com o letreiro “What President Obama is reading”. Podemos assim seguir as preferências do Presidente Obama em matéria de leituras, observando estes cinco livros que revelam alguns dos seus temas de reflexão. Dois autores negros, três mulheres, duas biografias de Lincoln, os destaques de um Presidente que aparece na capa do número de Inverno / 2009 da Ms. Magazine, edição especial da tomada de posse, exibindo uma t-shirt preta sob camisa branca e gravata vermelha, em pose de quase Super-homem, com a seguinte frase: “This is what a feminist looks like.” A gerência da livraria está atenta a cada vez que o Presidente Obama menciona um livro numa entrevista ou é fotografado com um livro na mão, sobretudo porque isto signific...
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O tema “onde escrevem os escritores”, suas manias e hábitos, os subterfúgios para conseguirem produzir a criatura que pede desesperadamente para nascer, é um tema que metaforicamente dá muito pano para a manga. Nas últimas colunas, tratamos de falar sobre colônias ou retiros espirituais como Yaddo no estado de Nova Iorque, a casa que praticamente iniciou Truman Capote no ofício. Falamos sobre os cafés e confeitarias como a Hungarian Pastry Shop no Upper West Side cujas mesas servem de reflexo para a alma e apóiam papel, caneta, laptop e cotovelos, durante horas, enquanto algum líquido esfria no copinho de papel (pouco importa se chá ou café, com uma gota de leite o gosto não se distingue!). Este, ou aquele, lugares auspiciosos, verdadeiros escritórios ambulantes já que para escrever não se precisa de muitos recursos. Compartilhar cama e mesa com a musa inspiradora, passar algumas horas acompanhado pela voz secreta que conduz a mão e faz o escritor derramar o preto no branco, o univ...
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The Hungarian Pastry Shop, uma confeitaria húngara, próxima ao campus da Columbia University e com vista para a bela catedral St John the Divine, abriga durante todas as estações do ano escritores, lado a lado a estudantes universitários, misteriosos filósofos urbanos (aqueles que, desprovidos de livros ou material qualquer de trabalho, sentam-se a mesa com um copo de papel transbordando o líquido espesso do café puro e contemplam o nada ou o tudo ao seu redor) e turistas (os que ousam sair do circuito Times Square-Estátua da Liberdade e se arriscam até Morningside Heights). Os croissants, biscoitos e strudels de sabores variados encantam os visitantes e os frequentadores habituais como Rivka Galchen, Julie Otsuka, Nathan Englander e outros escritores contemporâneos. As manhãs na confeitaria são mais tranquilas. Rivka Galchen conta que começa o seu dia com três biscoitos e café...
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Até meados de fevereiro, a New York Public Library oferece a exposição “Yaddo: Making American Culture” organizada sob a curadoria de Micki McGee, sociologista da Universidade de Fordham. Yaddo, cujo nome rima com Shadow (“Sombra”), denomina o retiro artístico localizado na região de Saratoga Springs, estado de Nova Iorque, onde uma seleção de escritores, artistas plásticos e músicos hospedaram-se desde 1926 em busca da musa inspiradora ou de uma fraternidade criativa. Segundo Katrina Trask, fundadora da casa, espalhados por quatrocentos acres os seus convidados seriam capazes de beber da fonte de Hippocrene e encontrariam o Fogo Sagrado para acenderem as suas tochas diretamente na chama.Com o advento da industrialização, surgiu a necessidade de um refúgio das pressões do quotidiano, a quietude requerida para que se pudesse concentrar na criação artíst...
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Acabam de ser publicados pelo IMEC, o instituto Mémoires de l'Édition Contemporaine, com o título Journal de Deuil (Diário de Luto), os fragmentos que, num ritmo mais ou menos regular, Roland Barthes escreveu de 26 de Outubro de 1977, após a morte da mãe, até ao dia 15 de Setembro de 1979. Estes fragmentos encontravam-se redigidos em fichas mas separadas do arquivo onde o autor classificava as ideias, citações e reflexões que lhe serviam de base de trabalho. Os leitores reconhecerão no livro a maneira como Roland Barthes passa da sensação à palavra – o discurso amoroso; ou, aqui, o luto – através de textos curtos que, a pouco e pouco, vão traçando uma figura complexa. Encontramos neles a dor, a falta, o vazio, a lembrança: o discurso plurifacetado do luto. Por exemplo, neva em Paris. Roland Barthes sofre: "Ela não estará mais aqui ...
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Contos assombrosos numa noite de inverno, esta era a proposta dos organizadores do evento literário da semana na série “Selected Shorts” (Contos Selecionados) organizada pelo Symphony Space ao longo do ano. Afora, a noite temperada por um frio impassível transformava o teatro em abrigo para os rostos e mãos vulneráveis ao vento do caminho. Joyce Carol Oates, uma das escritoras americanas mais prolíficas da história, subiu ao palco, alta e esguia, com um lenço azul estampado ao pescoço, trajes simples, para apresentar o seu conto que seria lido em seguida. Oates revelou ao público o pano de fundo de “Thanksgiving” (Ação de Graças): uma lembrança muito pessoal da sua própria infância, quando a sua mãe se ausentou por alguns dias devido a problemas de saúde. O conto é linear, simples e ainda assim revelador dos murmúrios d...
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Uma pedra, por vezes nem é bem pedra, é um bocado de asfalto, Uma pedra precisa de tempo para ser pedra, sem tempo é asfalto a sol azul....O sol e o reflexo do pó no tempo do chão.....O tempo, do chão, da pedra, da roda, e o carro um corpo falante acelerado,......Pisa o pé, roda o carro, fatiga a vida e a míope agita-se.....O calhau,Continua no mesmo lugar,Por baixo a nudez do céuPor cima a negritude sempre estrelar do cosmos,O amigo calhau ali acostado, finalmente, Pergunta-lhe:Vais aonde Miss baby?Vais aonde nesse vestido colorido cheio de batom?Fazer quê com essa boca cheia de palavras?Descansar aonde esse cabelo cheio de barulho?Vais aonde Miss baby, com essa pressa toda?Próximos, muito próximos, perigosamente juntos, a face dela abriu por sobre o asfalto. O pé de delicados dedos jurou sangue à sandália carnalmente fashion. Apeteceu-lhe chorar. Não tanto pela dor...
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A realidade na vida quotidiana, um e um são dois, a Terra à volta do Sol e o preço das laranjas lançam-nos por vezes na busca de uma trancendência. O jornal Le Monde de 7 de Janeiro de 2009 apresenta o novo filme de Manoel de Oliveira num artigo de Jean-Luc Douin intitulado As angústias místicas dos ricos e, nesta sociedade em que o católico praticante se tornou quase tão raro como o urso dos Pirinéus, os debates teológicos e as aparições da Virgem ganham um atractivo insólito: Oliveira ri-se dos teólogos que conseguiram convencer Alfreda de que a Virgem era rica e, por conseguinte, Jesus também, o qual passava as noites no jardim das Oliveiras, propriedade dos avós. Seria a Virgem loura? Eis o tipo de angústia que põe o juízo de uma bela senhora a arder. Também o semanário Télérama de 7 de Janeiro, num artigo de Jacques ...
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Dito assim, parece que feri o teu nome, usei a espada, extorqui-te o sangue. Dito assim, um quarto de hotel não resiste. O medo entra sem bater, explode no braço branco que me empurra para dentro. Tudo o que resta, resta no limiar da porta, resta na força da sombra e do abraço. A bondade da luz deveria ter uma cadência mais calma. Poderia então ter sido a história feita do mel das despedidas, ter sido contada de trás para frente, e o que quer que dali resultasse, teria sido menos bonito do que aquilo que não faltou. A minha alma serena sentada na tua nostalgia. O espaço está cheio de palavras que morrem, a vida engorda, é tudo tão insípido. Queria ouvir-te bater no meu coração as cinco da tarde, suspeitar a tua voz na minha nuca, pressentir a tua mão no voo das tranças negras. Haveria de regressar a ti da mesma maneira de todas as vezes. Com o fim igual ao ...
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Com uma temperatura perto dos zero graus, o sol não consegue aquecer a multidão que serpenteia à frente do museu de Orsay... Tanto a colecção permanente como a exposições temporárias, em particular Picasso/Manet, atraem, todos os dias, muitos milhares de visitantes. De facto, para além desta exposição-vedeta e das Correspondências, que confrontam Paul Cézanne com E. Kelly e Edouard Manet com V. Bélin, há ainda, no museu, duas exposições que merecem a visita. A primeira, Le mystère et l'éclat, O mistério e o brilho, propõe um percurso pela colecção de pastéis, em treze salas, que vão de uma introdução, O renovamento do pastel no século XIX, com exemplos da utilização do material não só antes (dois retratos do século XVIII) mas também depois (três o...
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A comemoração de quarenta anos desde o lançamento de “O Teste do Ácido do Refresco Elétrico” contou com a presença do autor, Tom Wolfe, num teatro do Upper West Side, lotado por uma audiência quase tão eclética quantos os personagens desta história nada fictícia escrita no apogeu da era hippie. Os anos sessenta, apesar de marcados pela guerra do Vietnam e protestos de paz em todo o país, significaram também uma virada para a classe média americana, a descoberta de liberdade e afluência sem precedente. A democracia vigente tolerava manchetes de jornal que chegavam a sugerir o assassinato do então presidente Richard Nixon. Os jovens se rebelavam e formavam comunidades auto-sustentáveis, descobrindo meios financeiros que propiciavam a independência dos pais.Tom Wolfe, jornalista de renome, começou o livro com a idéia de uma ...
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Doente há já alguns anos morreu ontem em França Michel Laban, professor na Sorbonne, especialista de literaturas africanas em língua portuguesa, seu divulgador, tradutor ("Nós matámos o cão tinhoso", de Honwana; contos tradicionais moçambicanos e cabo-verdianos, "De profundis" de Cardoso Pires, entre outras obras), ensaísta, autor de detalhada obra sobre autores moçambicanos, angolanos, santomenses, guineenses e cabo-verdianos, que originaram os oito volumes de "Entrevista com Escritores" (editados pela Fundação Engenheiro António de Almeida), inestimáveis documentos sobre os processos de formação literária nesses países.(ver ma-schamba)...
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As Ondas (1931), o sétimo livro de Virginia Woolf, veio ao palco pela primeira vez em Nova Iorque a partir da iniciativa do Lincoln Center de introduzir grandes obras literárias ao público através da música ou de encenação teatral, numa série entitulada The Literary Muse (A Musa Literária).O tratamento admirável dado à obra de Woolf pela diretora inglesa Katie Mitchell transporta o público ao mundo da autora e dos solilóquios de seus seis personagens, cujas vidas acompanha-se desde os tempos de escola até a crise da meia idade. Diversos atores compartilham do palco durante duas horas em que se ouve a leitura intercalada do livro original, auxiliada por uma multitude de sons, imagens filmadas in loco e refletidas na tela gigantesca ao fundo, e o movimento cronometrado dos atores, que representam e colaboram com a produção da sonoplastia e cinematografia simultâneas.Para ...
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Pioneiro do jornalismo fotográfico Moçambique, olhar único na sua mescla de paixão e ironia, há pelo menos uma década que Ricardo Rangel vem assistindo a uma sucessão de homenagens oficiais. Mais que merecidas, e duplamente pois Rangel não as troca por particular vénia, mantendo-se dono daquele tom jovial, corrosivo, que convoca os circundantes. A pensarem, nisso que lhe são decerto homenagens privadas quotidianas. Que me lembre desde que alguém em Portugal se lembrou de o condecorar como Oficial da Ordem do Infante (1998) seguiram-se a moçambicana Nanchingwea e a francesa Cavaleiro das Artes e Letras (2007). Agora a Universidade Eduardo Mondlane atribuíu-lhe o doutoramento honoris causa, coincidindo com a evocação dos seus 50 anos de actividade profissional como fotógrafo. Efeméride saudada com uma exposição retrospectiva apresentada no Centro Cultural Franco-Moçambicano, "Ricardo Rangel. História, histórias ... 50 Anos de fotojornalismo em Moçambique" – os franceses atentos...
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Foi agora lançado em Maputo o recente livro "Moçambique. Das Palavras Escritas" (Afrontamento, 2008), obra colectiva dedicada à reflexão sobre a literatura moçambicana, organizada por Margarida Calafate Ribeiro e Maria Paula Meneses, ambas investigadoras do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. A sessão pública ocorreu no Instituto Camões local, e contou com uma apresentação a cargo de Nataniel Ngomane e de M. Calafate Ribeiro.O livro contém 12 textos da autoria de académicos brasileiros, ingleses, moçambicanos e portugueses e 3 de escritores moçambicanos: Borges Coelho, que aborda a distinção entre a escrita da história (seu ofício) e da literatura, Patraquim, relacionando a escrita poética e o percurso da história, e Saúte, que evoca o início da sua escrita, despoletada pelo histórico assassinato em ...
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“Away” é uma daquelas palavras da língua inglesa que não encontra equivalente em outras. Pode significar passado ou futuro, excluindo apenas o presente. Pode se referir à ausência física ou psicológica. Uma palavra de nuances e por isso escolhida por Amy Bloom como título para o seu último livro, lançado recentemente.A autora, que vive em Connecticut, esteve em Nova Iorque, no teatro do Symphony Space para uma leitura do primeiro capítulo do novo livro e discussão sobre o processo criativo. O livro trata da história de uma refugiada russa recém chegada a Nova Iorque, havendo passado pelo processo de triagem em Ellis Island, e que, por motivos pessoais, resolve retornar ao país de origem à pé, na rota oeste, passando pela Califórnia, o estado de Washington e o Alasca (estreito de Bhering). A jornada se dá em busca da felicidade idealizada, o reencontro com a filha perdida nos progroms de Stalin.Segundo Bloom, “Away” define-se como uma novela picaresca do século XIX para o século XX...
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Dois novos livros de Nelson Saúte. Oito anos depois da dupla "O Apóstolo da Desgraça" (contos, 1999) e "Os Narradores da Sobrevivência" (romance, 2000) é o seu regresso à ficção com este "Rio dos Bons Sinais" (edição portuguesa D. Quixote, edição brasileira Língua Geral), dez contos com auto-retrato incluído. Neles mergulha o autor no constante vai-vem entre "tradição" e "modernidade", este casamento cosmológico que vai fazendo o seu Moçambique actual, feito de aparentes rupturas e de um sondável continuidade, essa que Saúte explora em breves mergulhos nos ritos diários, em particular no ritos da morte, esses que ele, muito sabiamente, descortina como momentos da perenidade e do esclarecimento. E neles mergulha, falsa aparência de morbidez, numa escrita que recusa a exotização, da vida e da morte. Também por isso um olhar aqui único, no seu naturalidade. Cosmopolita. Apenas em edição moçambicana surge também "Escrevedor de Destino...
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Na contramão do mercado, nasceu a Idlewild Books, uma livraria boutique localizada a poucas quadras da Union Square em Manhattan e com uma proposta inovadora: selecionar livros de ficção lado a lado com guias turísticos e culinários de determinado país ou região do mundo. Vizinha de uma gigantesca Barnes & Nobles, a Idlewild encarou o quadro econômico atual e acendeu a luz no mezanino de um edifício na 19th Street, esquina com a Broadway. O interior da livraria não poderia ser mais aconchegante, as colunas de madeira clara e brilhante, o ambiente despojado com cantos e cadeiras onde o visitante pode passar horas folheando livros raros e de edição limitada. Nas noites de quarta-feira, a Idlewild oferece eventos patrocinados pelo New York Council for the Humanities com escritores, tradutores e críticos. A lista completa destes eventos pode ser encontrada na revista em rede. Considerando que apenas seis porcento da literatura estrangeira é traduzida anualmente para o idioma de Shakespear...
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Jornalista cultural, durante mais de década e meia residente no "Expresso", editor, poeta e prosador, António Cabrita emigrou há alguns anos para Moçambique onde actualmente é docente universitário, editor e (sempre) homem de jornal, feito personagem de Maputo. O patrício vizinho acaba de publicar em Portugal "Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo", uma edição da Teorema. Contos a trazerem uma ternurenta galeria de personagens em finais de puberdade, confusas adolescências e iniciais andares, um desenho da geração que brotou nos finais de 1950s, prosa onde se adivinha a reconstrução de uma memória própria, em traços pícaros que o próprio autor serem devedores de Fernando Assis Pacheco e Dinis Machado. Sob os ícones da BD é desta gente que se fala: "Nós éramos miúdos de liceu e após uma partida de bilhar e três palpites sobre miúdas e política, sentávamo-nos invariavelmente ao lado daquela mesa onde os três cinquentões discreteavam sobre as singularidades d...
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Iniciado esta semana o 20º curso de literatura portuguesa, uma referência no panorama literário de Maputo. Actividade anual iniciada nos anos 1980s pelo então Adido Cultural português José Soares Martins (o historiador José Capela, especialista na historiografia moçambicana) os cursos são realizados pelo Instituto Camões e pela Universidade Eduardo Mondlane. A efeméride - esta é mais antiga actividade cultural regular no país - foi salientada com a produção de uma exposição documental e iconográfica, incluindo registo das presenças em Maputo no âmbito destes cursos de José Saramago e Eduardo Lourenço, em inícios dos anos 1990s, uma produção da Leitora do Instituto Camões na Universidade Eduardo Mondlane, Maria da Conceição Siopa, também organizadora do curso. Contand...
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O centro cultural da fundação Calouste Gulbenkian de Paris tem um papel fundamental na difusão da cultura portuguesa em Paris. No programa deste Outono há, entre numerosos outros eventos, uma conferência internacional sobre a Europa e o Japão dos séculos XVI a XIX (já decorrida nos dias 16 e 17 de Outubro), um colóquio sobre Manoel de Oliveira, uma homenagem a Eduardo Prado Coelho, outro colóquio sobre Camilo Pessanha, uma conferência sobre D. Francisco Manuel de Melo, um seminário sobre a iconografia no teatro... Ontem Eça de Queiroz foi o tema de duas conferências. Na primeira, Elena Losada Soler, depois de sublinhar a frequência do adultério feminino na literatura do século XIX, mostrou que o romancista começara por adoptar a conclusão mais banal: Luísa morre no fim de O Primo Basílio. No entanto, mesmo nesta obra, Eça já se dis...
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Para aqueles interessados nos segredos dos bastidores da ficção, o livro “Off the Page”, editado por Carole Burns, contribuinte do jornal em rede do Washington Post, divulga um pouco do processo criativo de escritores ilustres como Edward P. Jones, Joyce Carol Oates, Jhumpa Lahiri, Marisha Pessl, Alice McDermott, Martin Amis, Russell Banks, Michael Cunningham, e outros. A.S. Byatt conta que começa as suas novelas pensando em cores, ao invés de idéias ou palavras. Richard Bausch declara que não se ensina a escrita, porém paciência, rigor, teimosia, a capacidade de fracassar e a vida como ela é em geral. Será que os escritores se degladeiam com a realidade? Onde buscar inspiração caso a musa não apareça? Os personagens fictícios se baseiam em pessoas conhecidas, nascem da pura imaginação do criador, ou são uma mistura de am...
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Paris homenageia neste momento Picasso com três exposições: Picasso e os Mestres no Grand Palais; Picasso e Delacroix no Museu do Louvre; e Picasso e Manet no Museu de Orsay. A exposição no Museu de Orsay é inteiramente dedicada ao trabalho inspirado por um quadro de Manet: O Almoço no Campo. Começa com o apontamento de Picasso num envelope usado, provavelmente em 1932, quando visita a retrospectiva da obra de Manet no Museu de l’Orangerie: “Quando vejo o Almoço no Campo de Manet, digo a mim mesmo: dores para mais tarde”. E, de facto, em 1954, Picasso copia as quatro personagens do quadro num caderno: uma verdadeira cópia, fiel à obra de Manet; porém, a partir de 20 de Fevereiro de 1960, começa uma série de variações sobre este quadro, que o conduzirão, ao longo de dois anos e meio, a realizar 27 quadros, 140 desenhos e 3 linóleos, que expõe em Julho de 1962 na galeria Louise Leiris.O quadro de Manet representa quatro personagens: um homem, sentado na relva, mostra uma mulher nua, a qu...
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Em decorrência da homogeneização cultural americana nas últimas décadas, fortalecida pelo movimento de migração interna e uma concepção urbana inovadora, o traçado das fronteiras interestaduais veio se apagando e hoje os americanos, insulares como um todo, continuam em busca de identidade. Relatos auto-biográficos e afins compõem o interessante livro State by State, A Panoramic Portrait of America (Estado por Estado, Um Retrato Panorâmico da América), lançado nesta sexta-feira pelos editores Matt Weiland e Sean Wilsey, que se beneficiaram de um filme caseiro, uma espécie de YouTube mais demorado, para explicar o processo de criação e dar voz a alguns dos cinquenta autores da antologia. A idéia do livro nasceu de um antigo programa do governo americano (“WPA Federal Writers Project”), parte do New Deal do presidente F.D. Roosevelt lançado nos anos trinta e que subsidiou durante três décadas, em torno de seis mil escritores americanos, com uma verba de cinquenta e sete milhões de dólare...
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Esta antologia, que vem sendo editada há trinta anos, contou neste ano com a edição de Salman Rushdie, primeiro escritor estrangeiro a participar de um processo seletivo marcadamente americano, embora abrangendo escritores canadenses. Os contos advêm de diversas publicações nos Estados Unidos e Canadá (New Yorker, Granta, Iowa Review, Harper, dentre outras) e Salman Rushdie teve em mãos 120 histórias, das quais vinte vieram a ser publicadas com base nos elementos da surpresa, do humor e da energia. Em 2008, as questões domésticas (o drama familiar, os desentendimentos entre pais e filhos, as separações, o individualismo) e religiosas prevaleceram. O papel de Deus e da religião fixaram-se como preocupações em âmbito geral, visando tapar o buraco existencial onde se encontram os protagonistas e personagens afins.Nas palavras de Rushdie, atualmente profess...
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A expressão francesa "nuit blanche" designa uma noite durante a qual não dormimos ou por insónia ou por nos dedicarmos a outras actividades – entre as quais, de há alguns anos a esta parte, podemos apontar um evento com o mesmo nome. As "Nuits Blanches" começaram em Paris e difundiram-se rapidamente, não só pela França, mas também pelo mundo. A noite passada tornou-se assim ocasião para milhão e meio de pessoas circularem durante toda a noite pela cidade, participando em mais de duzentas manifestações artísticas que, com frequência, associavam cinema, música e arte contemporânea, das quais dou alguns exemplos: um ecrã gigante na Torre de Saint-Jacques, um espectáculo de kung-fu na Comédie Française, o concerto poético de Patti Smith, sequências de filmes à moda de bollywood... Bons argumentos para ...
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"Marias Deste Nosso Mundo" (Ndjira, 2006), de Maria Helena Massena Ferreira. Médica pediatra do Hospital Central, professora universitária (presumo que jubilada), de ascendência portuguesa e residente em Moçambique desde os anos 50, quando aportou já mãe à então colónia. Na nota biográfica descrevendo-se como de um núcleo familiar oposicionista ("Democratas de Moçambique"?, não está explícito).Livro de memórias, sem objectivos literários, consta de 5 pequenas histórias (e um poema), das muitas que a médica terá para recordar. Esse o seu interesse central, o eco da permanência das "doenças da fome" - tantas vezes esquecida quando apresentadas no seu avatar subnutrição -, descritas com alguma minúcia bem como a sua recorrência no mundo infantil. Acompanhando-as vem também a memória da desestruturação das redes familiares que a guerra provocou, de como fez grassar não só as doenças como a incapacidade dos núcleos familiares se reproduzirem.São sempre textos s...
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Quando leio livros de Ondjaki, como Os da minha Rua e o último, Avô Dezanove e o segredo do Soviético, envolvo-me de nuvens mansa melancolia, visito infância, visito lugares com cheiros que não se apagam, cheiros de manga, de sal, de ruas sem medo de corridas de inocência. Assistir ao lançamento do Romance «Avô Dezanove e o segredo do soviético» foi uma corrida contra o trânsito garrafeiro de Luanda. A sala tardia estava já composta, borbulhando de pessoas de início tímidas, que arreliadas por uma criança atrevida cheia de perguntas inocentes, desabotoaram-se e testaram as suas ideias sobre o autor. Este como lhe é habitual, resolveu-as com uma seriedade amiga de muito humor. Este Romance de manga e sal, escorre sobre Luanda nos anos oitenta e fala histórias de crianças da praia do Bispo e o modo como desacompanharam as obras do Mausoléu de Agostinho Neto...
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Deparar-me com os olhos de Clarice a saltarem da penumbra da sala de exposições olhando direto nos meus e ler a sua frase “Ver é a pura loucura do corpo”, foi uma surpresa. Não se espera ir a uma exposição cenográfica que assinala os 30 anos de morte da escritora e da publicação de A Hora da Estrela seu último livro publicado em vida, e dar com a escritora, a mulher, ali, tão próxima. Este é o efeito que tem no espectador a exposição “Clarice Lispector - A Hora da Estrela”, que estará no Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB no Rio de Janeiro, até dia 05 de outubro próximo.Com a cenografia a cargo de Daniela Thomas e Felipe Tassara, somos conduzidos ao universo de Clarice cuidadosamente e no modo silencioso, à meia-luz, que propicia a introspecção.Cercados de frases de seus livros, fotografias ampliadas do rosto de ...
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Comprovando a tendência atual da atração pelos reality shows, as novelas históricas, os documentários a la Michael Moore, Nova Iorque termina o mês de setembro com alguns eventos que refletem a vontade do público contemporâneo de explorar a realidade na sua crueza, querendo-a apenas afinada pela sofisticação artística dos que a embrulham em peças de teatro, filmes, séries de televisão, revistas fotográficas, dentre outros.A Man For All SeasonsVoltou a estrear na Broadway, a peça A Man For All Seasons (Um Homem Para Todas as Estações), escrita por Robert Bolt (1925 – 1995) em 1960. Inspirado na sua admiração por Sir Thomas More, Bolt trouxe para o palco, sem romantismo, o confronto moral entre More e Henrique VIII, confronto este que culminou na ruptura entre a coroa inglesa e a Igreja Católica em 1532. Com Frank Langella como protagonista...
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Assistimos na semana passada a abertura da exposição "Drawing Babar, Early Drafts and Watercolors" na Morgan Library and Museum em Nova Iorque.Espalhados por três salas do museu, os desenhos e aquarelas de Jean de Brunhoff (1899-1937) e de seu filho e sucessor Laurent de Brunhoff (n. 1925) oferecem um registro extraordinário sobre o método de trabalho de ambos, artistas plásticos transformados em escritores.Desde as origens de Babar, o pequeno elefante que perde a mãe na floresta, e exerce o papel de protagonista nas diversas histórias da coleção, até a introdução da Rainha Celeste, os rascunhos em exposição mostram o processo de criação em sua essência e a integração entre a arte plástica e a ficção. Na edição semanal da revista New Yorker (22 de setembro), um artigo de Adam Gopnik discursa sobre as...
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Ainda as Correntes, como entes queridos a delirem-se devagar no ferro dos dias, na estranheza da ausência. Eis o belo texto aí lido pelo escritor uruguaio Milton Fornaro.CADA PALABRA ES UN PEDAZO DE NOSOTROS MISMOS “Dijo Dios: ‘Haya luz’, y hubo luz. Vio Dio...
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Regressa-se da Póvoa e sentimo-nos mais pobres. Em casa, voltamos a ligar a televisão à hora dos telejornais, o mundo, como um aluvião de desgraças, invade-nos a sala e os ouvidos. Regressam, pela manhã, as filas de trânsito, as filas congestionadas de...
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A bonita lembrança de Rosa Lobato FariaO vento destas CorrentesO capacete mineiro de Manuel da Silva RamosA Barbie com defeito de produçãoAurelino a tocar e a dizer poesiaA incrível história de Malangatana descendo de um hotel pela janela na horizontalPorque foi t&...
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Quatro da manhã. Lá em baixo ainda anda gente... (cantaria o Sérgio Godinho) São os resistentes das Correntes. É a última noite, a já famosa noite de sábado. Aurelino vai a casa buscar a guitarra. Falta-lhe um espanhol para o quadro ficar compl...
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Os lançamentos de livros são um outro must das edições das Correntes. O ano presente não escapou à regra e muitos têm sido os livros aqui apresentados em primeira mão. Eis alguns deles: Manuel da Silva Ramos lançou «Três Vidas...
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O título deste post parece coisa de antanho, que de «correntes» em escolas já lá vai o tempo. Isto, descontado o aparte de hoje em dia muitos professores se sentirem acorrentados às escolas, mas isso por via de outros quinhentos para aqui não chamados. ...
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Leitura do texto desenvolvido a partir do mote:«Pedra a pedra, o poeta constrói o poema» algumas aproximações entre pedras, poemas e poetas: O poeta monumenta as emoções; por isso há poemas e livros que se confundem com catedrais.O poet...
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Dia de trabalhos forçados para este escriba aqui na Póvoa. Presença numa mesa de debate pela manhã, ao meio-dia e picos lançamento de um livro, à tarde encontro numa escola preparatória (ébês, como lhes chamam hoje…) de Rates. Agor...
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Não está fácil, confesso que não está fácil. A edição das Correntes deste ano parece-me com dificuldades em impor o seu ritmo habitual. Talvez seja do mau tempo que por aqui se tem abatido, talvez seja das muitas caras novas ainda pouco à...
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Já não é uma novidade no panorama musical mundial, mas um nome destes desperta sempre curiosidade a um português, especialmente se os membros desta banda são provenientes do longínquo Alaska. Tenho andado a ouvir os Portugal.The Man desde o ano passado &ndash...
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Havia muito de Umberto Ecco na aula aberta ao público de Antonio Muñoz Molina ontem à noite no King Juan Carlos I of Spain Center, parte do campus da New York University, o edifício de número 53 ao sul do grandioso Washington Square. Na sala reservada ao evento, não se ouve o inglês enquanto uma se...
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A princípio, são as meias vermelhas que nos distraem e fazem reparar na combinação com a camisa também vermelha mas em outro tom, o terno é marron escuro, o blazer descasado. Um homem visivelmente mais jovem do que a idade, um sotaque aplicado à pronúncia rastejante, um pessimista, medroso, por nat...
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Entre Osnabrűck e Porto, que paralelo biográfico melhor para se ler Ilse Losa na direcção contrária àquela que ela geograficamente deu à sua vida. Uma vida que na tragédia da História da Alemanha encontrou porto de abrigo no Porto de onde eu provenho e que nessas trocas interculturais perdeu ou...
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Artistas plásticos, músicos, poetas e escritores encontram no Brooklyn refúgio e cenário e dali partem para expedições ultramarinas na Califórnia, na Índia, na França, na América Latina, na África, a book tour perhaps. Discussões literárias, conversas boêmias, propostas, idéias para livros em ebuli...
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Tem-se assistido a uma vitalidade do livro, apesar de tantas vezes ter sido profetizado o seu fim. Em vez de desaparecer, ele tem encontrado novos formatos e beneficiado com esse grande canal de divulgação e de distribuição que é a Internet. O mesmo seria inevit&aa...
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Alexandre Herculano nasceu há duzentos anos, a 28 de Março de 1810. Assinalamos a efeméride, recordando a obra de António José Saraiva, “Herculano e o Liberali... Ler Tudo >>
Quadras de Felícia Festas Hortinhas (natural de Évora): É um bem essencialCai do céu nasce do chãoDá-se a todos por igualNão fazendo distinç... Ler Tudo >>
[17-02-2010] | Fala de dois poetas populares alentejanos
Acreditar em mitos e lendas na era da técnica, da tecnologia e da suspensão do maravilhoso: dois textos de quem não perdeu a capacidade de se espantar… o poeta brasileiro Carlos Alberto Pessoa Rosa[1... Ler Tudo >>
Poesia Popular à maneira tradicional: Uma décima[i] do poeta popular alentejano Domingos José Pinto[ii], onde se narram os esforços hercúleos de um hortelão para defender o seu território de uma prese... Ler Tudo >>
[26-10-2009] | Maria João Brinquete e Paula Sande, Maria João Brinquete e Paula Sande
Recomeça hoje, na RTP1 (às 21h18), o programa Cuidado com a Língua! Uma ideia de José Mário Costa (responsável pelo Ciberdúvidas). Uma bela maneira de pôr os miúdos (e os outros) a pensar na língua po... Ler Tudo >>
4 & 1 QUARTO conta a história de um casal que, num momento de desejo ou tédio, esquece as convenções para atrair à intimidade um homem e uma mulher. São quatro numa cama, como se fosse natural.
Mas não será sempre natural, o sexo? E mesmo que fosse: brutalizará ele o amor? Aqui, as duas mulheres revivem um segredo da puberdade, os dois homens descobrem-se e atrevem-se, e, embora extraviando-se da identidade e da pertença, jamais se perdem do Amor.