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A Chegada do Outono ( = Dois Arrepios)

A chegada do outono # parte 1: eu e a minha manguinha de cava andamos uns bons dias em negação = um arrepio.

A chegada do outono # parte 2: ceder às evidências e recuperar do armário o casaco de inverno. Vesti-lo, e ser surpreendida por um conforto feliz, uma ideia remota de aconchego e de abrigo. Sair com ele à rua, sorridente, e ao guardar as mãos nos bolsos encontrar um bilhete com palavras de amor de alguém junto a quem se passeou no frio passado. E que entretanto se esqueceu = um arrepio.

Joana Bértholo

A sede e o sacrifício

 

O velho desassentou-se da sombra do embondeiro. Pegou no que lhe restava de corpo e foi deitá-lo para morrer numa laje do rio seco. Seria menos uma boca para molhar com água das cabaças vazias. Menos uma fome para acalmar com pão que ninguém tinha. Das margens, olhos de espanto veneravam a oferenda de si mesmo aos deuses. Foi então que a chuva veio dos confins do mato, onde até as acácias secavam. Ouviu-se um ruído tão forte como se mil leões rugissem ao mesmo tempo. Era a enxurrada que chegava. Arrastou o velho consigo sem dar tempo de lhe agradecerem o sacrifício. Levava-o a caminho do mar – houve quem explicasse. Algo muito longe. Algo muita água. Talvez o Céu…

Daniel de Sá

A vara

Bruno Barão da Cunha

Muito se empertigava ela, fizesse sol ou chuva, frio ou calor, fosse de noite ou à luz do dia. As mãos untadas em sebo deslizavam na sua superfície convexa, procurando conquistar centímetros às leis da gravidade. Nada feito. A vara permanecia intransponível, o cesto no seu topo inexpugnável. Mas um dia, um raio vindo de um céu escuro e molhado, quebrou a vara na sua erecta sobranceria. E, pela primeira vez, o cesto tombado ficava ao dispor de todos, sem que alguém tivesse de sujar as mãos no sebo da agora quebrada vara.

Bruno Barão da Cunha

«A Rocha Branca»

Foi em 1986, com a publicação d’«A Casa do Pó», glosando as andanças de Frei Pantaleão de Aveiro, q…

«Os Malaquias», de Andréa del Fuego, Língua Geral e «O Ouro dos Corcundas», de Paulo Moreiras, Casa das Letras e «O Retorno», de Dulce Maria Cardoso, Tinta da China

«Os Malaquias», de Andréa del Fuego, Língua Geral É a mais recente vencedora (e surpresa) do Prémi..

O Filho de Mil Homens de Valter Hugo Mãe … e … A Educação Sentimental dos Pássaros de José Eduardo Agualusa

Valter Hugo Mãe «O Filho de Mil Homens» Alfaguara   Valter Hugo Mãe está de regresso ao romance, g…

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS XIII – Candidatos Sedutores

De pedra cor de ferro, este Círculo Oitavo, lar seguro e garantidoDos artistas do crime e da política,Será também, um dia, domicílioDa nossa eternidade relativa. Ninguém de aspecto humano, ao que supomos,Envelhece por gosto. Nós menos queNinguém. Mas somos sedutores? Ou só Nos desejamos sedutores e somos Uns pobres seduzidos por aquelas,Aqueles, que julgámos seduzir. Temos as qualidades dos defeitos.Jasão foi um dos nossos. Falava bemE mentia melhor. Bem parecido, Por detrás da cabeça, mal escondido,Tinha um longo intestino retorcido. …

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS XII – Candidatos Hereges

Ser herege é ter de escolher, custe o que custar.Não pensamos o que querem obrigar-nos a pensar,Não fazemos o que esperam obrigar-nos a fazer.Mas quem escreveria hoje Os Heróicos Furores?Quem enfrentaria a fogueira do Campo dei FioriComo o homem de Nola? Quem estaria disposto A ser representado de olhos esbugalhados, cara De pernas para o ar e orelhas no pescoço monstruoso? Quem estaria pronto a morrer como Julião ainda jovem? Quem correria hoje o risco de ser morto como um cão,Na prisão, num descampado, numa esquina anónima? Sabemos que a mesa mais venenosa é a Mesa Censória, Aquela que usa o seu poder para definir o que é háiresis,Tentação diabólica, coisa de orgulhosos e heterodoxos. A fossa do sexto círculo é melhor e mais espaçosaQue a estreiteza dos Bempenteadinhos que decidem Quem é herético ou herética: os que ardem depressa….

GUIA PARA CANDIDATOS AOS INFERNOS XI – Aduladores

Nós, os aduladores, adulamos por gosto.Para nós, nada mais delicioso que adular Gente famosa, poderosa, gente de posses, Gente que nos ouça e olhe e lá de cima Um dia, em público, nos ajude e elogie,Gente que nos defenda se for preciso,Gente que nos convide para o seu convívio,Gente que nos consiga a condecoraçãozinha, A sinecura, o título, o lugar político,O prémio (merecido ou imerecido).Adoramos os céus da fama, os amarelos Do ouro, do prestígio, da conta na Suiça. As metades das nossas caras de fugirSão a noite e o dia. Sob os nossos melhor sorrisosEscondemos focinhos grossos, de porcos bulldog.Chafurdamos no esterco, no lixo. Se nos descobrem, Assobiamos para os lados e disfarçamos, sorrindo. …