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A Chegada do Outono ( = Dois Arrepios)

A chegada do outono # parte 1: eu e a minha manguinha de cava andamos uns bons dias em negação = um arrepio.

A chegada do outono # parte 2: ceder às evidências e recuperar do armário o casaco de inverno. Vesti-lo, e ser surpreendida por um conforto feliz, uma ideia remota de aconchego e de abrigo. Sair com ele à rua, sorridente, e ao guardar as mãos nos bolsos encontrar um bilhete com palavras de amor de alguém junto a quem se passeou no frio passado. E que entretanto se esqueceu = um arrepio.

Joana Bértholo

A sede e o sacrifício

 

O velho desassentou-se da sombra do embondeiro. Pegou no que lhe restava de corpo e foi deitá-lo para morrer numa laje do rio seco. Seria menos uma boca para molhar com água das cabaças vazias. Menos uma fome para acalmar com pão que ninguém tinha. Das margens, olhos de espanto veneravam a oferenda de si mesmo aos deuses. Foi então que a chuva veio dos confins do mato, onde até as acácias secavam. Ouviu-se um ruído tão forte como se mil leões rugissem ao mesmo tempo. Era a enxurrada que chegava. Arrastou o velho consigo sem dar tempo de lhe agradecerem o sacrifício. Levava-o a caminho do mar – houve quem explicasse. Algo muito longe. Algo muita água. Talvez o Céu…

Daniel de Sá

A vara

Bruno Barão da Cunha

Muito se empertigava ela, fizesse sol ou chuva, frio ou calor, fosse de noite ou à luz do dia. As mãos untadas em sebo deslizavam na sua superfície convexa, procurando conquistar centímetros às leis da gravidade. Nada feito. A vara permanecia intransponível, o cesto no seu topo inexpugnável. Mas um dia, um raio vindo de um céu escuro e molhado, quebrou a vara na sua erecta sobranceria. E, pela primeira vez, o cesto tombado ficava ao dispor de todos, sem que alguém tivesse de sujar as mãos no sebo da agora quebrada vara.

Bruno Barão da Cunha