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A prisão do autor, sobre o livro «A Prisão do ético», de Paulo Rodrigues Ferreira

Chegou-me às mãos há poucos dias o livro de
estreia de Paulo Rodrigues Ferreira, um jovem nascido em 1984, natural de Torres
Vedras, a viver em Lisboa que, depois de editar um breve e-book com chancela da
Minguante, entra magnificamente na Livrododia Editores. «A prisão do ético»
assim se chama este que considero o anúncio de um autor a não mais perder de
vista. São cerca de 120 páginas de textos curtos, divididos em duas partes
distintas, «O livro de Pedra» e «Criaturas», que acusam uma destreza admirável
na criação de uma obra que traz ao de cima a ficção com tom de crónica ou breve
ensaio, assim como criando uma filosofia da escrita e do saber que não perde
nunca o pendor atractivo do conto (do micro-conto, como se diria no Brasil).

É fácil de referir a obra de Gonçalo M. Tavares quando
se pensa sobre esta de Paulo Rodrigues Ferreira, porque ambos comungam dessa
denunciada admiração pelos livros e pelos autores e fazem da intertextualidade
um processo para melhor alcançarem os seus próprios resultados. Aqui, neste «A
prisão do ético», os astros de uma enorme constelação de referências, e Olimpo
de deuses e semideuses da cultura, intervêm decisivamente através de citações a
Robert Frost, Paul Valéry, Ernst Jünger, Nikos Kazantzaki, Platão, Nabokov,
entre muitos outros, que se reúnem sob aquela que me parece ser a necessidade
de colocar em crise o pensamento, obrigá-lo a passar pelo crivo do conhecimento
de que é capaz e observar de que modo é supera cada desafio. Claro que os
textos afirmam uma grande deambulação, que reflecte uma considerável liberdade
temática e procura de uma ironia constante, mas o que mais me interessa é o
modo eloquente como o autor segura nessa deambulação, criando uma espécie de
precisão do discurso que lhe oferece uma seriedade convincente, afastando-o
felizmente do exercício balofo sem fundamento e de simples ego. Quando se cita
Paul Valéry para dizer que a poesia é «criar uma espécie de angústia para a
resolver», na verdade equaciona-se o lugar perfeitamente definido do autor, de
qualquer autor digno desse nome, o lugar daquele que não resiste a colocar-se
perante o perigo de falhar, não resiste a colocar-se em causa, abdicando do
momento seguro e pacífico da ignorância, impedindo a anestesia, e preferindo
sondar aquilo que, à uma, pode aumentar a dor ou o prazer. Esta é a prisão de
um autor: ser o seu próprio predador e consumir-se tantas vezes sem piedade.

Não resisto a citar um texto completo. Escolho um
da segunda parte, essa que se chama «Criaturas», porque cada página traz um
sujeito à baila, nada convencional e, ao mesmo tempo, tão elucidativo acerca de
tanto do que é profundamente humano:

«Alhmarric

Um homem sem coração tenta começar a escrever a
sua história triunfal, o livro dos livros, a história da humanidade com todos
os seus percalços e desatinos, num só e simples caderno. Todavia, o caderno do
homem sem coração, à semelhança de outros cadernos menos dotados para a glória,
encontra-se vazio. Sem uma frase ou palavra que possa adocicar o espírito do escritor
menos precavido contra as intempéries da escrita. E vazio continuará, pois o
homem sem coração, pensando na humanidade, não consegue transpor para o papel a
bala que lhe atravessará o crânio.»

 

O lugar do acolhimento, sobre a pintura de Isabel Lhano

O trabalho de Isabel Lhano tem sido sempre o de
franco acolhimento do seu interlocutor, procurando criar empatias e afectos que
se fundem numa visão positiva e libertadora da vida. A benignidade que inspira
a maioria das suas telas é sobretudo uma atitude ética que procura no homem uma
redenção – embora muito pragmática, terrena e não mística –, claramente
resultando numa estética do belo, como anteriormente já escrevemos. Acompanhar
o trabalho desta pintora tem sido um exercício de crescente entusiasmo, que
advém do facto de a encontrarmos em constante procura de um novo modo de expor
as suas magníficas capacidades técnicas no encalço de complexas representações
da figura humana, sempre presente, sempre entronizada, seja a partir da sua
robustez, seja a partir da sua delicadeza.

A recondução do processo aos extractos do corpo, como diria Bernard Noël, intensificando
presenças, ainda que numa lógica de recorte muito específico, tem levado esta
pintora a uma preciosa e invulgar pesquisa do figurativo. Tendo, no passado,
abordado os troncos e os braços, as pernas ou os rostos (uma das suas séries
mais profícuas terá sido a enorme colecção de retratos que nos últimos anos
produziu), agora Isabel Lhano encontra nas mãos o tema suficiente para o seu
discurso de nuances da sensibilidade.

O desenho da mão é talvez o mais temido do corpo
humano. A máquina privilegiada que este é, encontra na mão um dos seus pontos
mais elaborados que, indubitavelmente, resulta num desafio considerável à
capacidade de representação de qualquer artista. A corajosa opção por ampliar e
criar expressão bastante a partir deste complexo elemento, mostra-nos Isabel
Lhano no seu melhor. Ainda mais porque, não contente com uma abordagem apenas
linear do tema, a artista supera, em várias telas, o pendor unicamente realista
da imagem para, encontrando a realidade – e isso é que é espantoso –, chegar à
abstracção, pela impressionante profusão de dedos e suas difíceis correspondências.
Para isto, a pintora representa o jogo entre quatro mãos que, baralhadas e
entrelaçadas nessa quase delirante permissividade mecânica que advém das
múltiplas articulações, acabam manifestando um lado labiríntico do toque.

As mãos que se vêem nestas telas são como
entidades completas, bastam-se a si mesmas para o que importa no discurso desta
exposição. Ficam como seres inteiros que se recebem mutuamente e se relacionam
produzindo no espectador um efeito imediato de conforto, ansiedade, rejeição,
paixão, cumplicidade, etc.. A mestria assim conseguida é assinalável, ainda
aliada a uma gestão curiosa das cores que, exclusivas para cada quadro, revelam
a oficina de precisão da pintora. Em cada imagem encontramos uma sugestão
narrativa, e não apenas a inerte captação do tema. Estamos longe de intenções
meramente decorativas, e o mais que se vê tende a transmudar as mãos aos nossos
olhos, apenas pelo efeito macroscópico e pelo cromatismo. As mãos acabam por
parecer ninhos ou nós, plantas carnívoras ou flores abertas, bichos
tentaculados, cabelo gigante, e o que mais a imaginação de cada um quiser ver.
Ao contrário do que se esperaria, esta também é a arte da fantasia e,
rigorosamente, a arte do sonho.

Isabel Lhano está no seu melhor. Claro que já lhe
reconhecemos mestria no domínio dos corpos, desde sempre, como nos
impressionava com os seus panejamentos e todas as transparências (é até com
saudades que o dizemos. Saudades das suas mulheres clássicas metidas em véus e
saias esvoaçadas), mas após vinte e cinco anos de carreira encontra uma força
admirável que, de exposição para exposição, muda o eixo fundamental do seu
trabalho, criando enfoques sempre novos no figurativo, impedindo que se esgote
e surpreendendo sem falhar. Esta é mais uma prova disso. A prova de que a
pintura estará sempre salva enquanto uma pintora assim trabalhar.

Decorre na Galeria Solar Santo António, no Porto, a exposição «Nós», de Isabel
Lhano. Vivamente aconselho uma visita.