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Adriana Lisboa

Um evento

Ela usava calças pretas
e um pulôver cor de rosa
passou diante das casas pequenas
de onde ninguém olhava
passou diante da caixa do correio
abriu a mão e a estampou
devagar sobre o arbusto
sobre a neve sobre o arbusto
depois seguiu seu caminho
mas a marca da sua mão ficou ali
espalmada
como um aceno fixo
uma saudação póstuma
como as pegadas dos dinossauros na pedra
antes de derreter.

Gênese*

No Quênia, um deus canta e toca tambores. Suas mãos estão sujas de argila enquanto ele molda um vaso. Já não é um vaso, é uma moringa. Já não é uma moringa, é uma escultura.

Já não é uma escultura, é uma mulher. Pensa o deus: moldo uma mulher, depois moldo um homem. A música do Quênia canta em argila de todas as cores o corpo da mulher, branca, e do homem, negro. O deus toca tambores. O homem e a mulher enchem seus pulmões novos corn o ar seco. No sétimo dia, em vez de descansar, o deus dança sobre a corda bamba do horizonte, em companhia de suas criaturas, ciente de que por um segundo o mundo é infinitamente born.

*de Caligrafias, Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 2004.